Os Livros Ardem Mal

Post Scriptum: «And the winner is…»

Posted in Óbitos, Balanço, Prémios by OLAMblogue on Segunda-feira, 08-03-2010

A «coisa» chamada Os Livros Ardem Mal – um encontro mensal no Teatro Académico de Gil Vicente e este blogue – recebeu um dos Prémios LER/Booktailors: o Prémio Especial Blogosfera de Edição. O júri, diga-se, deu provas de uma rara clarividência… O prémio deveria ter-nos sido entregue no Casino da Póvoa durante as Correntes d’Escritas, mas razões mais altas impediram-nos de estar presentes. Por essa razão, e a título de modesta retribuição e agradecimento, enviámos o texto que se segue. Este texto foi ainda publicado no Blogue TAGV.

Os Livros Ardem Mal começou por ser uma conversa mensal com um escritor convidado, sempre na primeira segunda-feira de cada mês, pelas 18 h, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, em colaboração com o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. A iniciativa foi dinamizada desde o início por quatro professores dessa Universidade, provenientes de áreas diversas: António Apolinário Lourenço (literatura), Osvaldo Manuel Silvestre (literatura e artes), Luís Quintais (antropologia) e Rui Bebiano (história).

Nas temporadas de 2007-08 e 2008-09, passaram pelo Teatro Académico, entre Outubro e Julho, 20 escritores, tomando «escritor» na acepção mais lata: jornalistas, poetas, romancistas, um dramaturgo, um teólogo, um cientista, três músicos, ensaístas, etc. As conversas eram acompanhadas da sugestão de livros recentes, apresentando cada membro do painel as suas escolhas. O painel foi a certa altura alargado e passou a inclui, além dos membros antes referidos, Catarina Maia e Salomé Coelho.

A iniciativa passou a contar, desde o início de 2008, com um blogue com o mesmo nome, no qual colaboraram ainda Ana Bela Almeida, Manuel Portela, Miguel Cardina, Pedro Serra e Sandra Guerreiro Dias, a que se juntou por fim Pamplinas.

O OLAM, como passámos a chamar-lhe entre nós, foi um momento alto e festivo na nossa vida, uma pedra branca no calendário: a segunda-feira em que íamos reencontrar os funcionários do Teatro que deram sempre o seu incondicional apoio à iniciativa – a Elisabete Cardoso, a Marisa Santos, o Mário Henriques, a Teresa Santos – e o nosso público, que foi de uma fidelidade surpreendente e, vista em retrospectiva, comovente.

Este Prémio Especial Blogosfera de Edição honra-nos, mas honra também a colaboração que, quase sem excepções, o mundo editorial concedeu à nossa iniciativa: enviando livros solicitados por nós, ajudando na logística dos autores escolhidos e, por vezes, na promoção. Se não falamos apenas do blogue é porque o OLAM não foi apenas um blogue, mas sim uma vontade muito intensa de pôr as pessoas a falar de livros e por intermédio de livros, recorrendo a alguns dos meios ao nosso dispor.

Como imaginam, a decisão de parar foi difícil. Mas tudo tem um tempo e nada pior do que insistir fora de tempo. Um prémio destes, porém, vem sempre a tempo. Muito obrigado.

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E, por fim, arderam mesmo…

Posted in OLAM by OLAMblogue on Quinta-feira, 17-09-2009

fahrenheit

 

[Fotograma de Fahrenheit 451, filme de François Truffaut (1966) sobre
o romance homónimo de Ray Bradbury]

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Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (IV e último)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Quarta-feira, 16-09-2009

Biopoesia (Desde 2001, primeiro em Lisboa, depois S. Paulo, NY, o mundo). As primeiras tentativas, envolvendo cientistas do Instituto Gulbenkian de Ciência, datam de 2001, e foram conduzidas pelo biopoeta Albano Martins (1977, Gondomar). No início, tratou-se de produzir poemas visuais de grandes dimensões em contexto de galeria, explorando mensagens simples, fazendo com que as palavras, em várias cores, se formassem a partir de células humanas pintadas com ADN. Em seguida Martins passou a formas mais exigentes de manipulação genética, começando com suínos. Nesses casos, tratava-se de conseguir inscrever, por manipulação genética, um verso no lombo do animal. Após alguns casos menos bem sucedidos – as letras surgiam fora de sítio, sugerindo desagradáveis lapsos ortográficos -, foi possível começar a «escrever» poemas, ainda que breves, tendendo ao haikú. Dominada a técnica, e recorrendo a embriões de golfinhos, passou-se a inscrever textos mais extensos no dorso do animal, de que existem sobretudo dois magníficos exemplares no Jardim Zoológico de Lisboa, tendo os animais sido treinados para saltarem de modo a que praticamente se imobilizam no ar, o que permite que, numa leitura de relance, os espectadores consigam candidatar-se ao concurso que consiste em adivinhar o autor do poema e a obra em causa. Em todo o caso, o apogeu estético desta técnica foi conseguido com pavões, especialmente nos que foram introduzidos no parque de Serralves, em função da criação do Departamento de Biopoesia no Museu, por insistência de Rui Rio junto da direcção do museu e com o recrutamento de Amadeu Baptista (1976, Arrifana) e José Gaudêncio (1976, Marvão) ao Laboratório Interdisciplinar de Biopoesia e Bioarte do MIT. A internacionalização da Biopoesia portuguesa tem sido célere, com privilégio de parceiros de S. Paulo – o Grupo da Biopoesia Neoconcreta – e de Nova Iorque (o Bronx Biopoetry Research Net, ou BBRN). Mais recentemente, o convénio estabelecido entre o International Biopoetry Group (IBG), que reúne todos os pioneiros da biopoesia, e a Damon Transgenics, permitiu ao grupo exponenciar o seu campo de aplicações, como é o caso, muito recente, dos poemas do Grupo da Biopoesia Neoconcreta de S. Paulo que, ao abrigo desse acordo, começam agora a surgir nas papaias geneticamente modificadas nos laboratórios da multinacional no Brasil (com o bónus de a própria cor das papaias se ter tornado passível de modificação, explorando toda a gama cromática do arco-íris). Uma recente incorporação de biopoetas africanos no IBG teve como efeito imediato a reivindicação de incorporação de material poético na mandioca e na batata-doce, embora o carácter rugoso da casca da primeira tenha sido fonte de persistentes falhanços laboratoriais, por tornar os poemas de leitura quase impossível. Como seria fatal, a Greenpeace manifestou-se virulentamente contra o advento e manifestações da biopoesia, denunciando «a conivência da poesia com a manipulação genética de organismos vivos» e criticando a supostamente escassa qualidade poética dos textos geneticamente inscritos em animais e plantas (para o que se abonou em juízos críticos de pessoas como Harold Bloom e Fernando Guimarães). A virulência do ataque no Brasil, que como é típico do Greenpeace implicou assaltos a plantações e destruição maciça de papaieiras transgénicas, forçou o grupo de S. Paulo a contra-atacar, denunciando «o reaccionarismo estético do Greenpeace» e fazendo ver que a biopoesia é revolucionária na medida em que inscreve o poético na própria estrutura genética dos organismos vivos (ponto sublinhado num ensaio polémico de Peter Sloterdijk, intitulado «Regras para o Parque Poético-Transgénico», muito atacado por George Steiner, Giorgio Agamben e Jacques Rancière). A expansão da Biopoesia, o seu cunho internacional, a sua aliança com a tecnociência e o capital transnacional, mostram ainda, e por fim, como na arte contemporânea o «nacional» deixou de ser pertinente, já que «a questão decisiva hoje é a da escala, razão pela qual para um país periférico e minúsculo como Portugal o modo de afirmação internacional da biopoesia é claramente um modelo a seguir» (António Pinto Ribeiro).

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Portugal não é uma província da Espanha!

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 16-09-2009

dicionario

 

«Este pack contém alguns dos primeiros filmes do realizador Werner Herzog, assim como vários dos seus mais interessantes documentários (Behinderte Zukunft, Die fliegenden Arzte von Ostafrika, ou o mais recente Lektionen in Finisternis, entre outros) e algumas das suas experiências no mundo das curta-metragens. Mais de catorce horas de cinema para disfrutar de estilo próprio, que converteu-o num dos realizadores europeus mais prestigiosos de todos os tempos».

«Reservados todos os dereitos. O contenido integral deste DVD está protegido pela Lei da Propriedad Intelectual e pelo Código Penal».

 

[Textos que acompanham os dois volumes da edição de filmes de Werner Herzog, na FilmotecaFNAC, em adaptação de edição originária da Avalon. Com o selo do MC e da IGAC]

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Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (III)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Terça-feira, 15-09-2009

Aquísmo (Também designado «Poesia Aquática», fins dos anos 90, Peniche, Figueira da Foz, Arganil, Santa Comba Dão, Peso da Régua). Constituem uma falange das mais radicais da cena poética portuguesa dos nossos dias, definindo-se pela sua feroz recusa da Obra e, mais ainda, da representação. O «aquísmo» foi no seu caso o estádio final de um processo de gradual abandono do registo e fixação do texto, a que se seguiu enfim o repúdio de qualquer forma de permanência ou durabilidade do escrito, em favor de uma escrita válida em si e no acto de vir a si mesma. Em fases recuadas, optaram por escrever poemas no céu por meio de avionetas lançando fumo para esse efeito, ou por técnicas de fogo-preso para poemas efémeros, sobretudo desenvolvidas pelas falanges transmontana e minhota. Insatisfeitos com todas essas tentativas, chegaram por fim à escrita na água, em eventos que se foram tornando cada vez mais concorridos de público. O «poeta aquático» típico escreve na água com um longo estilete (um ramo de árvore descascado e afiado), num ritual de gestos de precisão cirúrgica e amplitude dançante que faz inevitavelmente pensar na técnica da caligrafia oriental. Certos poetas escrevem com tinta colorida, de modo a que por breves segundos a palavra seja reconhecível na água, enquanto outros, menos contemporizadores, usam o estilete nu, confiando ao golpear da água toda a duração que admitem para a sua escrita. Sobre eles escreveu Peggy Phelan um texto cujo entusiasmo revela ter enfim a teórica da performance como o não-representável encontrado o seu Graal estético-político: «A única vida da poesia aquática é (n)o presente. Inscrevendo esse regime temporal no seu meio, a poesia aquática existe para derrotar a fixidez, e a própria possibilidade, de qualquer representação. Nela, a obra dá-se a ver como puro sublime». Como seria inevitável, porém, as actividades escriturais dos poetas aquáticos começaram a ser registadas quer por cidadãos anónimos, quer pelos média, quer por estudiosos e académicos. Se esses registos tiveram a virtude de permitir reconstituir e registar, por recurso ao super slow motion, os poemas admiráveis dos maiores cultores do movimento, hoje registados no fundamental, e monumental, A Escrita da Água, org. Gustavo Rubim e Clara Rowland, Lisboa, Relógio d’Água, 2007 (tomo de 900 pp. com 2 dvd’s), a verdade é que tais registos diferem a escrita numa imagem fixa – um escrito – que atraiçoa o essencial dos propósitos estéticos e políticos do movimento. Em reacção a estes desenvolvimentos, e também em sintonia com o profundo ecologismo de autores que acreditam numa poesia «desnuda» e «não tecnologicamente mediada», os poetas aquístas passaram a realizar as suas actividades de escrita em sítios cada vez mais recônditos e em situações mais ou menos espontâneas, desistindo de anunciar previamente a sua realização. Resta dizer que o movimento se dividiu desde o início em dois grupos, os «marinhos» e os «fluviais», sendo que a poesia dos primeiros tende a uma turbulência antropológica, estética e política de que a dos segundos se afasta, praticando certas formas de serenidade escritural muito próximas do zen.

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Luís Filipe Parrado (IV)

Posted in Poesia, tradução by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 14-09-2009

A língua Arménia é a casa dos arménios

A língua Arménia é a casa
e o refúgio onde o errante pode encontrar
telhado e paredes e sustento.
Ele pode entrar para recolher amor e orgulho
fechando a hiena e a tempestade lá fora.
Durante séculos os seus arquitectos trabalharam arduamente
para levantar os seus tectos.
Quantos camponeses, com a sua labuta,
dia e noite mantiveram
os seus armários cheios, as lâmpadas acesas, os fornos quentes.
Sempre rejuvenescida, sempre antiga, tem durado
século após século no caminho
onde cada Arménio pode encontrá-la quando está perdido
no deserto do seu futuro, ou do seu passado.

Mousheg Ishkhan

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Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (II)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Sexta-feira, 11-09-2009

Intervenção Poética 3R (Anos 90, Porto-Gaia, Coimbra, Braga, Lisboa e Margem Sul, Sines). Activistas ecológicos, põem em prática na sua poesia os 3 R da prática ecológica – reduzir, reciclar, reutilizar – utilizando suportes já impressos (jornais, livros em segunda mão, flyers publicitários, etc.) e material já escrito (vulgo «património literário»). Podem simplesmente imprimir os seus poemas por cima de páginas de jornal ou livro ou flyers, ou podem sublinhar a marcador o que, no já impresso, seleccionam para os seus poemas, ou ainda recorrer ao recorte, colando depois em suporte também residual esses poemas recortados. Analogamente, recorrem a poemas da tradição literária, usando livremente versos, estrofes ou secções nos seus poemas, sem qualquer preocupação de atribuição de autoria. As duas atitudes podem coincidir ou não no mesmo poeta. Apesar da sua proximidade grupal, certos autores, como certos críticos, optam por separar águas entre os 3R «impressores», os 3R «sublinhadores» e os 3R «recortadores», fazendo notar as diferenças estéticas e políticas das várias opções. Do mesmo modo, a radicalidade da prática 3R em relação à tradição nalguns casos não permite contudo generalizações, dada a gama de atitudes de apropriação verificáveis, o que tem também suscitado algumas demarcações no interior do campo 3R. Os depreciadores do movimento 3R referem-se a eles como «poetas do caixote do lixo», rótulo que os próprios, ou os mais radicais de entre eles, passaram a adoptar com gáudio, atribuindo à depreciação um cunho de involuntária desmistificação de erróneas representações do «lixo». A crítica, note-se, tem revelado incomodidade no enfrentamento da sua produção, em grande medida devido ao difícil acesso às suas obras, que circulam aleatoriamente pelos cafés, centros comerciais, discotecas e caixas de correio onde «largam» as suas páginas. Felizmente, nos últimos anos um crescente interesse académico no movimento, patente já em teses de mestrado na área da Antropologia Social e Cultural, dos Estudos do Multimédia e, em menor grau, dos Estudos Literários, seguramente na sequência de trabalhos de reportagem de Alexandra Lucas Coelho que criaram uma série de ícones mediáticos do movimento (J. Pipas 3R, Kalú 3R, Sexy Diana 3R, o colectivo feminino Trash Panthers 3R, etc.), levou a que uma grande editora portuguesa – a Bertrand – avançasse para uma edição em fac-símile das principais obras do movimento, em álbuns cartonados, magnificamente paginados e desenhados (por Henrique Cayatte) e luxuosamente editados. Que, no entanto, vêm sendo objecto de vandalização, segundo uns, ou de «reapropriação crítica», segundo outros, por um novo e misterioso colectivo, o Radical 3R, que se apresenta como uma segunda geração do movimento, criticando à primeira a tolerância com práticas editoriais «conspurcantes» e usando essas edições como material de base de novas práticas 3R, nas próprias livrarias onde os livros se encontram, em surtidas ora dissimuladas ora segundo o (atemorizador) modelo do «arrastão».

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Luís Filipe Parrado (III)

Posted in Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 10-09-2009

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DIÁLOGO ÍNTIMO SOBRE O VALOR
PEDAGÓGICO DA HISTÓRIA

Lês, dizes-me, um livro
muito interessante
sobre os grandes generais romanos,
“os homens que construíram
o império”.
Depois citas Apiano
e um episódio em particular
das suas Guerras hispânicas,
esse em que o historiador
refere como Públio Cornélio Cipião,
dito o Africano,
sem dúvida
um extraordinário estratega,
durante o cerco
de Numância
deu ordem aos seus legionários
para que cortassem
as mãos de 400 prisioneiros
celtiberos.
Tratou-se, pelo que pudeste
compreender,
de um acto militar de intimidação
contra todos os que se atreviam
a desafiar o longo
braço imperial.
O que não és capaz de esclarecer
é qual o destino dado
a cada uma dessas
800 mãos.
Terão estrumado a terra ibérica,
alimentado os cães sarnentos
dos centuriões,
ou, cravadas em estacas
e expostas nas encruzilhadas,
como as cabeças
dos bárbaros vencidos,
funcionado como lastimosos
sinais de tráfego
nas bermas dos caminhos
que seguiam invariavelmente
em direcção a Roma?
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A liberdade de expressão e Alberto João Jardim

Posted in Diálogos by Pamplinas on Terça-feira, 08-09-2009

- Você ouviu-o dizer «Fuck them!»?
– Sim, claro. Devo dizer que fiquei incrédulo e ainda esfreguei o ouvido.
– Parece-lhe pessoa incapaz de tal?
– Bom, como direi?… Incapaz, propriamente, não. Mas ainda assim…
– O que é da vida sem novos desafios, Pamplinas? E a verdade é que, nesta matéria, ele já quebrou records sucessivos.
– Não é isso, Q. É ainda o motivo da nossa última discussão. Acho, se quer saber, que o Alberto João, ao dizer isso, estava a fazer um comentário filosófico sobre o ingente debate em torno da liberdade de expressão.
– Filosófico?! Eu oiço o Jesus a falar da «filosofia da minha equipa», e com ele todos os treinadores de futebol, mas não percebo como você consegue ainda assim usar o termo para esta tirada do Alberto João.
– Exprimi-me mal. O que eu queria dizer é que se trata de um meta-comentário. Ou, se preferir, uma afirmação de teor transcendental.
– Explique-se.
– É simples: o pessoal anda todo a bradar o seu amor eterno à liberdade de expressão, todos morreriam pelo direito do pior inimigo (não, não se trata apenas de «adversários», como se diz nos debates na TV) a dizer as maiores barbaridades, não é? Pois bem, o Alberto João dá-lhes a comer do seu próprio veneno: «Tomem lá, engulam, e continuem a defender o meu direito a dizer este tipo de coisas, enquanto eu vou ali ao lado retirar a imunidade parlamentar a quem diz coisas bem mais suaves a meu respeito».
– E você quer fazer-me crer que ele congeminou tudo isso? Que não foi apenas uma «bojarda» como as tantas em que ele se especializou ao longo de décadas?
– Olhe que já ninguém diz «bojarda», Q. Diz-se «bocas».
– Não me lixe. Aliás, «boca» é demasiado suave para este caso.
– Tem razão.
 – Bom, mas responda-me.
– Eu creio que você quer relançar o debate filosófico (agora sim, e em acepção técnica) sobre a questão da «intencionalidade»… Eu acho-o dispensável, sabe?
– E porquê?
– Porque, em primeiro lugar, há muito já percebemos que a questão da intencionalidade passa ao lado da personagem. Isso pressupõe, numa ocorrência deste tipo, a «inteligência emocional» a que ele, como é manifesto, é refractário.
– Porque não precisa! Pode dizer o que quiser que ninguém lhe vai à mão!
– Talvez. Mas há uma «inteligência instintual» em que ele é muito bom, admita. Que melhor comentário ao debate sobre liberdade de expressão do que este? Vem ou não a propósito? Testa ou não, in actu, a latitude da paixão pela liberdade de todos aqueles que declaram a liberdade de expressão «sagrada e inegociável»?
– Essa é para mim?
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Luís Filipe Parrado (II)

Posted in Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 08-09-2009

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR

Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

 

[in Criatura, nº 3, Abril 2009]

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Da liberdade de expressão

Posted in Diálogos by Pamplinas on Domingo, 06-09-2009

- …porque, meu caro Pamplinas, a liberdade de expressão é sagrada! E inegociável!
– Direi mesmo mais, meu caro Q.: a liberdade de expressão é sagrada e inegociável!
– Lembra-se da frase do Voltaire? Aquela em que ele diz que poderia discordar radicalmente de outro mas morreria pelo direito do outro a exprimir-se…
– Sim, claro (há coisas assim no Antero, sabe?). Muito comovente.
– …e cortante! É o que nos distingue do resto do mundo, é o que fundamenta o nosso direito etnocêntrico ao orgulho por vivermos na nossa civilização e não noutra. Ou você preferia viver na China? Ou na Rússia de Putin?
– Como sabe, não me imagino a viver numa pátria onde não haja bacalhau à Brás.
– Seja sério, carago! A gente a discutir os grandes princípios e você com o bacalhau! Bacalhau não faltava no tempo do Salazar!
– Bem melhor do que o de hoje, ao que me dizem! Seco ao sol em Aveiro e não em estufas na Noruega… Uma deriva lamentável.
– Como tudo o que ponha em causa a liberdade de expressão! Embora, sabe, a liberdade de expressão, entendida à letra e em rigor, seja dureza
– …
– Ah sim, não faça essa cara! Mas é nessa dureza que reside a sua beleza, sabe? Em termos de suportar coisas como, sei lá, os Larry Flint deste mundo!
– O benemérito da Hustler?
– Exacto. Um herói do combate pela liberdade de expressão, como sabe… Porque você tem de admitir que lutarmos pelo que não amamos é duro…
– Mas belo. Ser-se altruísta é sempre belo! E não é possível lutar-se pela liberdade de expressão sem se ser altruísta.
– Uma beleza dura, Pamplinas… Já pensou no rol dos abusos? A invasão e devassa da privacidade, a mentira, a calúnia, a difamação, o insulto…
– Ena…
– … o mau gosto, a boçalidade, a alarvidade, a total ausência de reserva e cuidado, a dessublimação de tudo, a começar pelo sexo e a terminar nos bons sentimentos e nos afectos puros, objectos de escárnio e cinismo…
– Eh lá! Você por esse andar está a suspirar pelo Diácono Remédios!
(more…)

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Vient de paraître

Posted in Cinema by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 06-09-2009

arton1909

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Luís Filipe Parrado (I)

Posted in Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 05-09-2009

TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE QUANDO,
AOS 15 ANOS, DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA
COMEÇAR A ESCREVER POESIA

                     

                     “Antes
                     de te sentares
                     à mesa
                     lava bem
                     essas mãos.”

 

 

[in Criatura, nº 3, Abril 2009]

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Nipónicas núpcias

Posted in Comentários by Pedro Serra on Sexta-feira, 04-09-2009

O que move o segundo marido de Miyuki Hatoyama? Vale a pena ler as virtuais palavras do amantíssimo esposo, recolhidas num livro que Miyuki escreveu, Coisas muito estranhas que encontrei (citado aqui). “Isso é fantástico”, escreve ela que teria dito, se tivesse dito, o actual marido. O ex, o de há vinte anos, o primeiro, fica como um sacana. Um sacana frio. É difícil saber o que move o segundo marido de Miyuki Hatoyama mas, bem vistas as coisas, representa as bondades das nipónicas segundas núpcias, que serão quase 30% das núpcias, depois de um crescimento exponencial nos últimos 20 anos.

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Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (I)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Quinta-feira, 03-09-2009

Literalismo (Desde finais de 90, Braga, Viana do Castelo, Barcelos, Viseu, Vila Real, depois Porto, Coimbra e enfim Lisboa). Movimento que defende ser a poesia muito menos texto, obra ou livro, do que que acontecimento e evento libertadores. Começaram por colar poemas em paredes de centros comerciais, paragens de autocarro, igrejas, escolas, para depois passarem a marcar lançamentos de poesia por sms, em momentos e situações inesperados e súbitos. Nessas ocasiões distribuíam rapidamente folhas soltas com poemas e desapareciam. Finalmente, começaram a lançar poemas amarrados a balões, em ocasiões previamente marcadas ou então de surpresa, em praças, parques ou simplesmente cruzamentos e avenidas, passadeiras para peões, podendo por vezes limitar-se (?) a gritar bem alto certos «textos», numa escanção que reduz o verbo à massa sonora vocálica ou infra-vocálica. Distinguem-se razoavelmente os «muralistas» dos «súbitos» e dos «balonistas», embora se verifiquem também cruzamentos. Como também se notam oscilações entre os que assinam os seus textos e os que praticam a anonímia, ou entre os que fazem intervenção individual e os que se reúnem em colectivos de geometria variável, consoante a inclinação dominante a cada momento. Tendem para uma poesia puramente visual ou fónica, feita de explorações gráficas e tipográficas de grande impacto e com uma dimensão política forte, dentro da estética do grito ou do grunhido, o que sai reforçado pelas suas articulações com a cena do Hip Hop tuga. Recusam o registo e qualquer forma de reprodução das suas intervenções, pelo que os filmes que circulam pelo YouTube, ou que chegam mesmo a programas de tipo cultural, como Câmara Clara, na RTP 2, são obtidos à sua revelia e sem a sua colaboração. Nomes como Ant.Lit, Rui.Lit, Johnny.Lit, Lou.Lit, Rita.Lit, Mary.Lit, Cunt.Lit ou os colectivos S.O.S.Lit, Dragon.Lit e Manos.Lit sofreram já um processo de internacionalização, no circuito também já internacional do literalismo, de Angola ao Brasil, à França ou à Bélgica, tornando cada vez mais difícil a preservação da pureza ideológica e estética do movimento. Entretanto, e num desenvolvimento bem revelador do seu impacto, certos poetas mainstream passaram a recorrer, em regime pontual, às modalidades de distribuição dos textos praticadas pelos literalistas, mas quase sempre como forma de promoção dos seus novos livros, o que vem sendo duramente repudiado pelos literalistas mais literais como «palhaçada burguesa».

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Do risonho futuro da crítica

Posted in Crítica, Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 02-09-2009

Não sei quem seja o autor do blogue Máscara&Chicote, que dá pelo nome demasiado literário de Fortinbras. E não está ao meu alcance a competência com que valora os livros sobre que escreve, não com estrelinhas mas com… marcas de uísque. Vale aliás muito a pena ler a escala valorativa, perfeitamente fundamentada, que vai do «reles» Vat 69 ao «clássico intemporal» Glenffiddich (40 anos). Pergunto-me que livro merecerá tal uísque…

Mas sei que o texto que dedicou a Disrupção, de Jorge Melícias, foi um dos melhores espécimes de crítica que li, na net ou em papel, neste período estival: bem argumentado, bem escrito, acutilante, pertinente e justo nas suas avaliações. Quando a boa crítica surge de onde menos se espera, é caso para termos fé no seu futuro.

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Para quem não entendeu, agora em versão didáctica

Posted in Notícias, OLAM by OLAMblogue on Quarta-feira, 02-09-2009

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P.S. Mas as postagens recomeçam dentro de momentos.

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Em tempo

Posted in Notícias, OLAM by OLAMblogue on Terça-feira, 01-09-2009

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Durante três anos, inicialmente sob a designação Escaparate, depois já como Os Livros Ardem Mal, um grupo de pessoas – professores da Universidade de Coimbra e algumas estudantes de pós-graduação – animou, com apoio do Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da mesma universidade, uma reunião mensal no Teatro Académico de Gil Vicente, na primeira segunda-feira de cada mês. No início para falar apenas de livros recentemente editados, depois com um convidado cujo trabalho de algum modo mantivesse uma relação forte com o universo do livro. Foram 20, os convidados dessa segunda fase, e deles fomos dando nota aqui, a partir do momento em que a iniciativa passou a ser acompanhada de perto por este blogue.

Agora, três anos depois, chegou a altura de parar. Ou melhor: de suspender a iniciativa por um período sabático de 12 meses. Por cansaço, por dificuldade crescente de conciliação das agendas profissionais dos membros do painel com as exigências muito particulares da iniciativa, por necessidade de a repensar no todo e nos detalhes. Custa-nos abandonar o hábito (e o ritual) do fim-de-tarde na primeira segunda-feira de cada mês no TAGV: pelo público que nos foi acompanhando com uma fidelidade rara e decerto imerecida; e pelo empenho dos devotados membros do staff do nosso teatro académico. Mas tudo tem um tempo e nada pior do que insistir fora de tempo.

Quanto ao blogue, tudo indica que continuará, até novas ordens.

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Algures, com Tintin, sob o sol abrasador

Posted in Férias, OLAM, Rumos by Pamplinas on Domingo, 02-08-2009

[clique para ampliar]

Mergulhado no país do ouro negro, com Tintin e os Dupond/t (e o encantador Abdallah!), só agora reparo que os meus camaradas de blogue desertaram, quase todos na procissão anual para Sul… Não sei ainda o rumo que tomarei, mas uma coisa é certa: vou para onde Tintin me levar! (com ponto de exclamação, sim!)

Até Setembro, pessoal. Cliquem na imagem, aumentem, espantem-se, maravilhem-se – e, sobretudo, invejem-me…

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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (XIV)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Domingo, 02-08-2009

No Name Boy (??, ??). É o caso mais enigmático e fascinante da poesia portuguesa contemporânea. Nas palavras de Rosa Maria Martelo, professora da Universidade do Porto que tem vindo a dedicar uma aturada investigação a este não-autor, «Trata-se do segredo mais bem guardado da nossa literatura actual». De acordo com a ilustre professora tudo indica que um número impressionante de poemas dos mais significativos da poesia portuguesa dos últimos 40 anos terá sido escrito não pelos seus autores declarados mas por um ghost poet, que vem sendo chamado no meio literário «No Name Boy». Os poemas em causa vão de «Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos», de Herberto Helder (Selos) a «Uma Carta no Inverno», do livro homónimo de Vasco Graça Moura (1997), incluindo ainda o poema «A Magnólia», de Luiza Neto Jorge, ou as variações sobre o mesmo poema, por Daniel Faria, o poema «O excesso mais perfeito» (de Às vezes o Paraíso, 1998), de Ana Luís Amaral, o primeiro dos Quatro Caprichos (1999), de António Franco Alexandre, e ainda alguns textos centrais de João Miguel Fernandes Jorge, Manuel António Pina, Al Berto, MC Rimas (o Canto X de Umbral dos Heróis, que começa por «Desce já o crepúsculo do Império»), RR Fortuna (o grande poema «A noz grávida da noite»), Ricardo Araújo Pereira (a secção mais heideggeriana de Ainda não é poesia nem prosa, é apenas alguma coisa parecida com isto, de título «A língua rasteja sobre o ventre da terra») ou vários dos poemas centrais de Maria Carlos Maria (sobretudo, a grande ode «Ó ungida azinheira da Cova da Iria!»). Embora não se conheça o seu facies ou o seu BI, circulam na net declarações consistentemente apócrifas que alguns, contudo, lhe atribuem, e nas quais se aborda a questão da «ghost writing» em termos um tanto paradoxais: «Toda a escrita é suplementação de inexistências, tal como o mundo é o produto alucinado de um autor inexistente. Escrevo e desassino-me (assassino-me). (…) Nada existe num nome: sons arruinados pelo tempo e pela distância, letras como carimbos falsos. (…) Eu canto o meu corpo zombie». De acordo com Rosa Maria Martelo, a questão mais fascinante da «obra» subterrânea do não-autor seria a da crítica do conceito de autor e propriedade, uma vez que os poemas em causa, ou outros nos quais seja possível rastrear a mão oculta e inigualável do ghost poet, seriam e não seriam dos seus autores jurídicos, uma vez que não é possível minimizar o facto de terem sido tais poemas escritos em função de uma poética pré-existente e já consistente. O falso seria aqui ratificado pela poética que o inscreveria no continuum de uma obra, dando-lhe assim substância e verdade: a verdade da assinatura como contínuo e contexto. Não parece ser, porém, exactamente assim, pois essa «verdade» deveria ser agora tomada sempre entre aspas, já que a consequência mais radical desta prática, ou melhor: o preço a pagar por ela, seria o de tornar indiscernível falso e não-falso, e sobretudo o de impossibilitar de vez a utilização de qualquer noção pertinente de «verdade» autoral. A prática do ghost poet «falsifica», de facto, e de vez, toda a cena poética portuguesa contemporânea, permitindo duvidar do efeito de assinatura dos poemas de Rútila Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Vítor Nogueira, DJ Silva, José Luís Peixoto, etc., etc. Finalmente, e de modo esse sim radical, a falsificação da cena poética portuguesa pelo artista chamado «No Name Boy» abre um contrafactual que permite reescrever poderosamente a história da nossa poesia actual sub specie «história virtual»: os grandes poetas de hoje poderiam ser apenas noms de plume de «No Name Boy», e os menos grandes seriam ainda mais pequenos, e indignos de referência, sem a contribuição fantasma desse «autor». Que alguns, mais afoitos, sugiram que «No Name Boy» é a realização, enfim, da profecia pessoana não-realizada do advento do Super Camões, é algo que não poderá pois espantar nenhum leitor conceptualmente atento. Que outros, mais iconoclastas, sugiram que toda a poesia portuguesa contemporânea, sem excepção, revela a mão oculta, inimitável e infindavelmente populosa de «No Name Boy», é já algo que não podemos ler sem o arrepio que nos percorre quando nas nossas divagações deparamos com a hipótese sonâmbula do Monstro – ou, o que é o mesmo, de Deus.

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Um Homem (1933-2009)

Posted in Emoções by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 01-08-2009

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Um Senhor: Bobby Robson

Lembro-me dos 5-0 do F.C.Porto ao Werder Bremen, para a Champions, lá. E, já como treinador do Barça, da incredulidade com que, junto à linha, levando as mãos à cabeça, dizia «My God! My God! Unbelievable!», quando Ronaldo, o Fenómeno, numa jogada memorável contra um dos então grandes da (e na) Galiza, atravessou meio campo, a partir da lateral esquerda, fintou meia equipa, e marcou um dos 2 ou 3 golos do século.

Eu gostava dele, e sobretudo da desenvoltura com que falava portinglês nas conferências de imprensa.

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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (XIII)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Quinta-feira, 30-07-2009

Luís Filipe Alfacinha (1980, Trofa). Estreou-se com Nuvens & panos do pó (2001), a que se seguiriam Parafusos & pilastras (2004) e Rizomas & chips (2006). A sua poesia é talvez a menos consensual, junto da crítica, de entre os contemporâneos, pela sua variedade de temas, formas, estilos, propósitos e, sobretudo, conseguimentos, oscilando entre o virtuosismo sem mácula dos sonetos amorosos e o total falhanço da poesia de circunstância, sobretudo no registo humorístico ou satírico. Este dissenso crítico contrasta porém com a imensa popularidade da sua obra, o que se deve prima facie à estratégia promocional a que recorreu desde o seu primeiro título e que faz dele um case study dos estudos de sociologia da cultura e dos média. De facto, algum tempo antes de surgir o seu primeiro livro, começaram a surgir excertos de poemas seus transcritos em notas de 5 euros, o que suscitou uma crescente curiosidade pela obra e pelo autor. O autor confessaria depois que escreve excertos de poemas seus em todas as notas de 5 euros que lhe aparecem, pedindo ainda aos amigos que lhe permitam escrever nas que têm na carteira quando se encontram com ele. Esta modalidade de divulgação veio a funcionar em regime praticamente viral, tornando-o o poeta mais popular da sua geração e fazendo com que boa parte das notas de 5 euros desaparecesse da circulação, por um efeito de coleccionismo (e, admita-se, de investimento…). O autor passou, aliás, a dar autógrafos apenas em notas de 5 euros e os seus segundo e terceiro livros incluíam já uma nota de 5 euros devidamente preenchida com um excerto de um poema, no que passou a ser considerado uma jogada promocional ímpar. Nem toda a sua popularidade se deve porém a esta pioneira estratégia de divulgação, como se viu recentemente quando valter hugo mãe decidiu seguir a mesma estratégia, mas fazendo um upgrade para as notas de 10 euros: as notas não desapareceram do mercado e não se notou nem efeito coleccionista nem venda reforçada do seu último livro de versos. O que indica que se trata sim de uma rara e feliz confluência de uma poética com uma estratégia promocional: a grande heterogeneidade interna da poesia do autor, que inviabiliza aliás qualquer esforço para a sua descrição, acabou por potenciar a estratégia, na medida em que permitiu colocar em circulação exemplos muito variados da sua produção, atingindo também segmentos muito variados de leitores. Isso explicará a dúzia de edições de cada um dos seus títulos e a alta tiragem de cada uma dessas edições.

«As formas que cunham os produtos de trabalho como mercadorias possuem já a consistência de formas naturais da vida social antes de os homens procurarem dar-se conta, não do carácter histórico dessas formas, que antes vigoram para eles já como imutáveis, mas do seu conteúdo. A poesia, ao contrário do que crêem os seus cultores, é parte acabada deste universo».

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Sophia: escrever a fala do poema (+ ou – 5 anos depois)

Posted in Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 28-07-2009

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Como é típico nos poetas cuja dicção é também uma reserva territorial (bem poucos, como sabemos), Sophia sufragou entre os seus leitores, desde muito cedo, uma poética delimitada por uma meia dúzia de «senhas» de acesso: transparência, imanência, impessoalidade, pureza, ética, soberania… Este sufrágio unânime foi sendo ratificado ao longo da sua obra por um investimento em formas várias de auto-reflexão, todas concorrendo para o carácter incontroverso de uma poética muito sábia de si mesma, e que podemos resumir em palavras, aliás renitentes, de Herberto Helder: «O poema existe por si, é uma forma impessoal que as mãos limpas arrancam à desordem para apresentar como ordem objectiva no meio das corrupções, inclusive as corrupções da nomeação» (Relâmpago, nº 9, 2001).

O livro Dual, de 1972, um dos pontos-charneira da sua obra, é um dos momentos em que esta dinâmica auto-reflexiva mais notoriamente coalesce em textos cujo estatuto oscila entre o poético e o poeticista, não parecendo porém oscilar a forma como todos eles invocam a lição da musa grega. Esses textos são sobretudo «Musa» e «Arte Poética IV». Ao longo deste último, Sophia insiste nas figuras da «escuta» como tropo mais fiel da composição poética, perguntando: «Como, onde e por quem é feito esse poema que acontece, que aparece já feito? A esse ‘como, onde e quem’ os antigos chamavam Musa». As coisas de facto interessantes ocorrem em seguida, quando a poeta nos descreve a fenomenologia desta escuta em que «algumas vezes o poema aparece desarrumado, desordenado, numa sucessão incoerente de versos e imagens. Então faço uma espécie de montagem». Uma das ocorrências mais sugestivas deste processo é aquela em que, nas suas palavras, «de textos que eu escrevera em prosa surgiram poemas». Logo após, a autora revela: «enquanto escrevi este texto [«Arte Poética IV»] para a Crítica apareceu um poema que cito por ser a forma mais concreta de dar a resposta que me é pedida». O poema é o antes referido «Musa», que transcrevo:

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente. 

(more…)

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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (XII)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Terça-feira, 28-07-2009

Ekaterina Grossman (Kiev, 1982). Chegou a Portugal com 9 anos de idade, tendo conseguido uma fluência impressionante no português em meia dúzia de anos. Cursou Economia e Belas Artes e começou a fazer-se notar por performances cujo ponto central era a exibição e destruição de dinheiro (por ácido, fogo, triturador de papel, descarga pela sanita, deglutição ou degradação material por escarro, com participação do público). Reorientou-se depois para a poesia, embora sempre em modalidade performativa muito vizinha também de práticas típicas da instalação e recorrendo ainda, como material de referência, a dinheiro. A pouco e pouco, porém, em vez de se obstinar na sua destruição passou a usá-lo como suporte de escrita, actividade realizada ao vivo: a artista-poeta instala-se (à mesa, no chão, frente a uma cómoda ou móvel alto) e começa a escrever poemas, sempre de grande violência imagética e verbal, em notas, de preferência das de maior valor em circulação, com caneta grossa e por vezes fluorescente (nas intervenções em período nocturno). No início usou dinheiro em desuso – notas das moedas dos países da EU antes do Euro -, como forma de «dar a ver o dinheiro como material obsoleto e simbolicamente desinvestido», e recorreu com frequência a rublos e notas do período soviético, nas quais escrevia, dando-lhes forma de verso, testemunhos do Gulag. Mais tarde, passou a recorrer apenas a euros e dólares. Por vezes, a escrita é acompanhada de actividades na tradição da Body Art: (i) a artista-poeta despe-se enquanto escreve nas notas e cola depois as notas-poemas no corpo, re-vestindo-se assim com dois dos mais prementes e antinómicos símbolos de uma sociedade sofisticada: dinheiro e poesia; (ii) a artista escreve os poemas, despe-se e enfia as notas-poemas na vagina, reivindicando o seu direito a um confessionalismo poético sigiloso; (iii) a artista escreve os poemas-notas em público, neste caso de teor fortemente politizado e feminista, mete-os depois na boca, mastiga-os e, por fim, cospe-os para cima do público. Várias das suas performances foram realizadas em galerias conceituadas e em museus de arte contemporânea, da Gulbenkian a Serralves, estando muitos dos seus poemas-notas expostos nesses museus (a colecção Berardo adquiriu recentemente um significativo conjunto de «poemas cuspidos» pela autora). A sua obra vem conhecendo uma crescente repercussão internacional, tendo-lhe recentemente a revista October dedicado uma secção temática num dos seus últimos números. A artista-poeta foi também já convidada a participar na próxima Bienal de S. Paulo, constando que apresentará uma obra em co-autoria com o artista brasileiro Nuno Ramos.

«Entre o meu corpo e o capital, estabeleço o território da escrita poética. Ela desarticula a mais-valia e dá a ver o puro dinheiro, sem possibilidade de vir a ser capital: apenas papel, um material integral, violável e degradável. Disto tudo não resta porém nem o corpo nem a poesia: não proponho assomos de redenção. Nada resta, de facto, senão o rancor, o desprezo e o ódio ao capital. É a isso que me entrego, de corpo e escrita».

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Cenas tristes em S. Carlos

Posted in Artes, Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 25-07-2009

Pelo que li, a primeira cena foi a seguinte (cito do Público):

 

O espectáculo “Recital e Tal”, produzido pelas Produções Fictícias, com selecção de textos de Nuno Artur Silva e Inês Fonseca Santos, e interpretação de Rita Blanco, Diogo Dória e Miguel Guilherme, adapta o “Manifesto Anti-Dantas”, de Almada Negreiros, para um texto anti-Ricardo Pais, incluindo a célebre frase “Morra o Dantas, morra! Pim”.

“Recital e Tal” foi apresentado há uma semana no Festival ao Largo, que encheu o largo do Teatro de São Carlos, em Lisboa, no último fim-de-semana.

 

Seguiu-se a segunda cena: Ricardo Pais, muito bem no seu papel, declarou que considerava o caso «uma insignificância».

Por fim, a terceira cena: a presidente do Conselho de Administração do S. Carlos e o director do D. Maria vieram «repudiar» a cena I, pedir desculpa a Ricardo Pais por ela, afirmando por fim: “Se tivéssemos sabido antecipadamente desta intenção teríamos optado por programar outro espectáculo”.

Um comentário breve, mas antes uma declaração de intenções: sou, creio, dos poucos portugueses que acham manifestamente abusivo o espaço ocupado pelas Produções Fictícias na produção do humor mediático em Portugal, e um dos que ressentem a ocupação do espaço público por essa empresa, no que se afigura um verdadeiro Take Over quase monopolista. Sou moderadamente apreciador de muita coisa dessa linha de produção: por exemplo, do Inimigo Público, que há muito não leio, do Eixo do Mal, etc.

Posto isto, o que é verdadeiramente lamentável nesta peça é o seu episódio III, digno de uma República (kultural) das Bananas. Não discuto o mérito de Ricardo Pais como encenador (mas suponho que o que está em causa é o seu lado «Citizen Kane»); mas também não discuto o direito das pessoas acima referidas a satirizá-lo, com ou sem razão (numa sociedade aberta, não é possível, nem legítimo, decidir dessa razão antes da sátira, que é aliás um direito cívico, ter lugar). O que me parece eminentemente discutível é o espectáculo, dado pelo director e presidente do Conselho de Administração de duas instituições centrais das nossas artes do espectáculo, de subserviência («respeitinho»), temor e inclinações censórias, confessadas de resto sem pejo. O que essas duas entidades conseguiram com a sua lamentável intervenção foi perverter o teor, inteligente, da declaração de Ricardo Pais sobre o espectáculo em causa. Por outras palavras, fizeram dele uma «não-insignificância».

Se era isto o que o Ministro da Cultura queria dizer quando afirmou, também ao Público, que o caso mostra que não evoluímos muito desde o «Manifesto anti-Dantas», os meus parabéns pela judiciosa opinião. Quanto aos intervenientes na triste Cena III, a única coisa a dizer é: Shame on you!

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Life in Motion (III)

Posted in Artes by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 23-07-2009

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Life in Motion (II)

Posted in Artes by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 23-07-2009

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Life in Motion (I)

Posted in Artes by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 23-07-2009

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Um preto, aos 80

Posted in Comentários, Fotografia, Música by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 22-07-2009

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Ornette Coleman, na Wire de Junho. Na capa e a ilustrar a entrevista, fotos admiráveis de Mark Mahaney. Agora que o ícone global, Michael Jackson, morreu, estas imagens, com antecedência de um mês, dão-nos a versão recalcitrante do preto não reciclável. São, de um estranho modo, uma pedagogia da memória – a memória de algo como The Souls of Black Folk -, num momento em que a ascensão de Obama poderia sugerir a inutilidade, ou pelo menos a dispensabilidade, desta. A Wire, sempre esperta, chamou a este Ornette aos 80, Empire State Human. Lamento, mas não confere com as fotos. Nelas, desde a extraordinária foto da capa, em que o transcendente parece ser objecto de um olhar suspeitoso (por efeito de um chapéu que obriga a contemplá-lo de soslaio), Ornette parece antes distantemente encenar a longa teoria de máscaras do negro americano, desde o Louis Armstrong de rasgado sorriso alvo e lenço na mão ao interminável processo de recodificação de Jackson e, por fim, à «normalidade» de Obama, a mais difícil das recodificações. Ornette repropõe uma figura clownesca, alguém que joga com um chapéu de cabedal amolgado o difícil jogo céptico de quem não esquece a máscara que a ideologia sempre colou ao «preto americano»: o da sua irrelevância, apenas redimível por um efeito de simpatia, qual o que se sente por um velhote frágil posando com (ou por meio de) um chapéu. Um discreto, mas poderoso, efeito Tati, digamos. Quando irrompeu na cena jazz, sobretudo após Free Jazz, Ornette foi convidado para tocar em pelo menos um congresso como representante do «feio» (o saxofone de plástico ajudava…). Ornete não fazia grandes proclamações: tocava, sim, a sua música «feia», rodeado dos grandes músicos que o acompanhavam. Muitas décadas depois, e após ter operado o seu peculiar revisionismo sobre o «jazz», e mesmo sobre o «free», com o seu sistema «harmolódico», este Ornette parece desconfiar: do progresso, da redenção, da recodificação ou reciclagem do passado. A forma como opera é, algo paradoxalmente, por reciclagem: de uma iconografia do passado, de uma alma que perdura (a do preto americano) para lá de todas as recodificações. Mostrando – com uma muito especial autoridade, é caso para dizer – que as revoluções demoram muito tempo a chegar – e mais ainda a ter efeitos.

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Mário Henriques

Posted in OLAM, TAGV by OLAMblogue on Domingo, 19-07-2009

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Mário ‘sonomario’ Henriques é sonoplasta dos Serviços Técnicos do TAGV. N’ Os Livros Ardem Mal, para além de sonorizar a sessão para o espaço do Café-Teatro, é também o responsável pelas gravações que vai fazendo religiosamente – e que, não sem razão, acha um desperdício não serem ainda disponibilizadas online (lá iremos, Mário…). Quando sorri, lá ao fundo, é porque a coisa está mesmo mesmo a correr bem…

O nosso obrigado ao Mário por tudo o que consegue fazer com os meios de que dispõe. E pelo depoimento que se segue.

 

Primeiro, quando ouvi o nome do evento, achei que, se Os Livros Ardem Mal, nem para isso servem.

Depois, enraizada a ideia de ter que acompanhar todas as sessões, como sonoplasta, porque não tentar aprender algo, já que a vida é madrasta e pouco fértil de tempo para me dedicar a leituras e ouvir o que algumas sumidades achavam dos livros que escolhiam para deles falar.

Business and pleasure. Na mesma data, na mesma sala.

O meu carinho pelos livros foi crescendo e com ele a vontade de ler mais.

A sonoplastia nem sempre correu bem. Mas isso são águas passadas e sem ressentimentos.
Desde o tempo das gravações para a RUC (e a tentativa de recuperação dessas mesmas sessões e o jogo quase maçónico para as obter….).

Aprender a gostar dos livros e de quem os faz, na minha pessoa, foi uma tarefa ambiciosa para @s paineleiros d’ Os Livros Ardem Mal.

Foi sugerido uma vez que podíamos ir em digressão. Era um grande prazer que me davam.

Gostar de alguém em especial, é-me difícil. Tanto dos entrevistadores como d@s convidad@s.

Ficou a faltar algo que tinha proposto: a difusão via Web  e um arquivo on-line das sessões.
É um trabalho para o futuro. Mesmo que esta mostra, ao vivo e com gente lá, acabasse, ficava a memória.

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Elisabete Cardoso

Posted in OLAM, TAGV by OLAMblogue on Domingo, 19-07-2009

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Elisabete Cardoso é a responsável pelos serviços de recepção e de bilheteira do TAGV. Trata dos contactos com as editoras, faz circular entre os membros d’ Os Livros Ardem Mal as novidades editoriais recebidas e mais o que for preciso. Ao telefone ou por e-mail, o seu entusiasmo e profissionalismo manifestam-se em cada mensagem.

Agradecemos à Elisabete por tudo (e pela boa disposição), ao longo destes 3 anos. E pelo seu depoimento, que a retrata tão bem.

 

Dos dois lados

Seriam estas as perguntas:

1) O que vos agrada mais no OLAM
2) O que vos agrada menos
3) Uma sessão de que tenham gostado especialmente

Poderia converter o 1), 2), 3) num a), b), c) e dar respostas rápidas como num qualquer inquérito de revista de fim-de-semana, do tipo:

a) Dos livros e de quem os recomenda
b) De não ter tempo para os ler e de perder sessões do OLAM
c) Do António Pinho Vargas, porque pensava que já não havia pequenos intelectuais assumidos

E a coisa ficava por aqui. E ninguém podia exigir mais. As respostas rápidas e o easy reading até estão na moda. Escrever como se fala, para não custar a ler.

Mas, para mim, Os Livros Ardem Mal é outra realidade, uma experiência mais intensa.

O lado de cá dos Livros Ardem Mal é (e tem de ser) diferente do lado de lá.

Do lado de lá, estão as cadeiras e o balcão do café-teatro e as pessoas que, com mais ou menos assiduidade, escutam as sugestões das novidades literárias. Movem-se devagar e em silêncio e olham com atenção para cada gesto do autor, mais ou menos conhecido, e dos elementos do OLAM.

Do lado de cá, está então um convidado que, entre os anfitriões, olha o público, ouve falar sobre os livros dos outros e sobre a sua própria obra (a que está construída e a que está por construir). Passa a mão pelo cabelo, ajeita o microfone, bebe um gole de água, expectante pelas perguntas e mais ainda pelas suas respostas.

E antes de tudo isto, entro eu. Recebo os livros, registo-os, distribuo-os e ainda antes de tudo isto, tenho o privilégio de lhes mexer, rodá-los, novos, saídos do prelo, às vezes, horas antes. Aquele cheiro característico. Dar-lhes uma olhada, ler as capas, contracapas, lombadas, badanas, percorrer os capítulos, ler os prefácios e os posfácios. E o obrigado às editoras. Às grandes e sobretudo às pequenas que, fora do engenho, são tão mais humanas.

E o humor incisivo do Prof. Osvaldo, a serenidade do Prof. Quintais, a inquietude do Prof. Bebiano e a discrição do Prof. Apolinário.

Vale tanto a pena!

Mas importa saber que entre o lado de cá e o lado de lá dos Livros Ardem Mal, não existe uma linha de separação, mas antes um ponto comum de interesse: os livros e a paixão por eles.

[Se soa a cliché?! O que importa?! Os clichés também se lêem.]

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Marisa Santos

Posted in OLAM, TAGV by OLAMblogue on Domingo, 19-07-2009

Marisa Santos

Marisa Santos é Coordenadora da Frente de Casa do TAGV. Cabe-lhe a preparação do espaço do Café-Teatro para o acolhimento dos intervenientes e do público, e também a coordenação dos assistentes de sala designados para acompanhar a sessão. Assegura a um tempo a funcionalidade do espaço e a hospitalidade do Teatro – o que faz muito bem.

Agradecemos à Marisa tudo o que tem feito pelo OLAM. Bem como o seu depoimento.

 

Das sessões com convidados mais mediáticos – em que o foyer do Café-Teatro do TAGV quase foi insuficiente para acolher tanto público -, às segundas-feiras de ambiente mais “intimista” (mas que, talvez por isso, resultaram em “contributos” de boa disposição e de partilha) fica claramente registada a marca OLAM: um espaço que se afirmou de excelência na promoção e divulgação da literatura e das artes. À volta de pessoas, ideias e histórias, fidelizou-se ainda um novo público, interessado e dedicado, que veio para ficar e que espera a oportunidade para voltar a “habitar” o Teatro.

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Teresa Santos

Posted in OLAM, TAGV by OLAMblogue on Domingo, 19-07-2009

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Teresa Santos é Coordenadora dos Serviços Artísticos e de Produção do TAGV. É ela quem nos envia, no início de cada mês, o cartaz promocional da sessão seguinte e quem trata da divulgação da iniciativa junto dos média. Mais eficiente não se pode ser.

Agradecemos à Teresa a dedicação ao OLAM. E, claro, o depoimento que se segue.

 

Dos três tópicos propostos pela equipa OLAM, opto por desenvolver apenas o primeiro: o que mais me agrada no OLAM.

Agrada-me que já tenha quase três anos de existência. E que ao longo deste período, o projecto tenha sido desenvolvido de forma regular e permanente, cumprindo escrupulosamente o calendário definido. Sempre na primeira segunda-feira de cada mês, sem falhas, sem adiamentos ou cancelamentos. Agrada-me também, que a equipa que promove esta iniciativa não se acomode a um modelo, mas que tente permanentemente melhorá-lo, afiná-lo e reformulá-lo. Todos estes factores contribuíram para que o OLAM conquistasse não só o respeito e a fidelidade do público, mas também dos colaboradores que contribuem modestamente para a produção e organização da iniciativa.

Agrada-me ainda, que a lista de convidados não inclua apenas escritores, mas também pessoas de outras áreas artísticas que, apesar de terem livros editados, não fazem da escrita a sua principal actividade.

À semelhança do que foi acontecendo com a própria iniciativa, também a forma de comunicarmos entre nós, equipa do OLAM e colaboradores do TAGV, foi sendo melhorada e afinada ao longo do tempo. A rotina de trabalho que conseguimos criar permite-nos, por exemplo, produzir o cartaz que promove a iniciativa com um mês de antecedência relativamente à data da sessão, sendo por isso possível divulgá-la, quer na imprensa, quer junto do público com uma maior eficácia.

E, como se tudo isto não bastasse, salientaria ainda os emails do Prof. Osvaldo Silvestre, plenos de um humor sarcástico e, por vezes, quase delirantes, como incentivo adicional para o trabalho a desenvolver para esta iniciativa.

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A nossa equipa no TAGV, um ano mais tarde

Posted in OLAM, TAGV by OLAMblogue on Domingo, 19-07-2009

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Como está dito na coluna da direita deste blogue, logo ao cimo, Os Livros Ardem Mal são uma iniciativa do Centro de Literatura Portuguesa e do Teatro Académico de Gil Vicente, entidades que assim cumprem a sua função de estenderem à comunidade não apenas universitária parte significativa da sua actividade cultural.

Uma iniciativa destas, embora «leve» em termos organizativos, não se faz contudo sem apoio institucional. As instituições, porém, são feitas por pessoas e é a essas que agora nos queremos dirigir para lhes agradecer. No que toca ao CLP, e embora possa parecer que o fazemos em causa própria, o nosso agradecimento vai para o nosso colega António Apolinário Lourenço, cuja eficiência discreta é em grande medida responsável pelo funcionamento da iniciativa. No momento em que se retira das sessões no TAGV, mantendo-se contudo neste blogue, bem como no apoio administrativo à iniciativa, cumpre reconhecer que sem o seu trabalho tudo seria mais difícil.

Quanto ao TAGV, e como aqui deixámos dito há um ano, é do trabalho realizado na sombra por um grupo alargado de pessoas que resulta o que se vê no foyer, na primeira segunda-feira de cada mês, bem como várias das coisas que acabam neste blogue. Por exemplo, as relacionadas com os livros que as editoras nos enviam, por moto próprio ou a solicitação nossa. Optámos este ano por uma modalidade diferente de reconhecimento desse trabalho sem o qual Os Livros Ardem Mal não existiriam: propusemos aos 4 membros principais da equipa que nos enviassem um pequeno depoimento, em torno destes três tópicos: 1) O que vos agrada mais no OLAM; 2) O que vos agrada menos; 3) Uma sessão de que tenham gostado especialmente.

O que aqui fica é pois da responsabilidade das 4 pessoas que respondem. Pessoas que – e cremos ser isso o mais importante – fazem hoje, com os membros permanentes do painel, uma comunidade de gente que aprendeu a apreciar-se e respeitar-se. E que gosta de se reencontrar pelo menos na primeira segunda-feira de cada mês, por volta das 18 h.

A todos os outros funcionários do TAGV que, de uma maneira ou de outra, contribuíram também para tornar possíveis as sessões, o nosso Muito Obrigado.

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Leituras estivais: Kleist (I)

Posted in Autores, Comentários, Livros by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 19-07-2009

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Entre A Montanha Mágica em nova tradução, Os Meus Prémios, de Thomas Bernhard, e agora este Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, de Heinrich von Kleist, as leituras de Verão (as minhas, em todo o caso) parecem dominadas pelo alemão.

Fico-me, por agora, por Kleist, esse autor sem par. Esta é uma edição exemplar, pelo cuidado com que foi feita – patente na acribia da anotação, na qualidade da Introdução, no rigor da tradução -, o que não surpreende, uma vez que o seu responsável, José Miranda Justo, já nos deu vários outros exemplos de excelência nesta mesma editora (relembro, assim de repente, as suas edições dos ensaios de Wagner, inexcedíveis).

O livro, diga-se, é um deslumbramento, pelos textos que enfeixa em torno do que lhe dá título e que acabam por tornar ainda mais denso (e único) esse texto tão enigmático. Somando a isso o cuidado de factura da Antígona, de novo patente neste livro, esta é uma edição para ler devagarinho, para saborear o fulgor de uma escrita e um pensamento como nunca voltou a haver e para guardar num lugar de destaque na estante.

Mas isso é para depois; por agora, transporto-o na mochila, vou lendo e relendo ao primeiro pretexto, sem vontade de me separar dele.

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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (XI)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Quarta-feira, 15-07-2009

e.Lisabete (1985, Póvoa do Lanhoso). Começou a manifestar-se nas caixas de comentários a blogues, tanto políticos como de poesia, deixando nelas poemas em que de forma livre discorria, muitas vezes agressivamente, sobre os tópicos em causa. Quando o seu nome começou a ser objecto de posts passou a usar a mailing list para enviar poemas a destinatários muito diversificados, social, etária e profissionalmente, na técnica a que chamou «random bombing». Ao mesmo tempo, criou blogues, a um ritmo alucinante, praticando-os por breves períodos em sobreposição ou abandonando-os «à sua sorte» após breves períodos de exploração, muitas vezes anunciando aos visitantes que cessaria o blogue, apagando-o de seguida na íntegra, e indicando o dia e hora em que o faria, «por respeito por quem deseje guardar algum texto ou filme» (a autora ganhou o hábito de inserir nos blogues pequenos filmes «a negro» em que ou diz textos seus, ou comenta textos de sua autoria, de modo a «interditar interpretações abusivas dos meus textos por esses profissionais da desleitura que são os ‘críticos’ ou, em geral, os leitores possuídos pelo vírus da interpretação»). Alguns nomes de blogues da autora: e.ante, e.dentidade, e.conografia, e.deograma, e.Lisa, e.lógico, e.magináriae.mersa, e.mensa, e.memorial, e.mediata, e.migrante, e.moderação, e.modesta, e.moral, e.mortal, e.móvel, e.mudecida, e.mune, e.mural, e.rmã Lisa, e.tanto, e.terna. O crescimento exponencial do seu culto suscitou a certa altura, como seria inevitável, as primeiras manifestações de reservas e mesmo de cepticismo em relação à sua existência, defendendo alguns que se trataria de uma mistificação perpetrada por um «sindicato» de poetas (para outros, recuperando um arcaísmo, «poetastros») sem coragem de dar a cara. Estas reservas só a fizeram ocupar ainda mais espaço virtual, recorrendo para tal ao Twitter e ao Facebook, mas aparecendo agora sob uma panóplia de nomes (im)próprios – e.Liana, e.Sabel, e.Rina, etc. – que tornam rigorosamente impossível localizá-la. Poeta sem livros, apesar do crescente volume de propostas editoriais, que tem recusado taxativamente, a sua poesia é por definição camaleónica, quer por mudar de estilo, registo ou tom consoante os nomes e meios que usa, quer por praticar uma intensa reciclagem dos seus textos nos que vai de novo dando à luz, e que quase nunca são em rigor novos, resultando antes de um sistemático cut up operado sobre toda a sua produção anterior. Esta permanente recolecção e transformação do seu corpus coloca em causa a própria noção de corpus e de Obra, que instabiliza a ponto de tornar impossível qualquer discurso crítico (a não ser, muito pontualmente, o seu próprio discurso anti-crítico), assim desprovido de objecto minimamente estável. Poemas breves ou brevíssimos, poemas longos, epopeias (as «epopeias da calçada» que vem produzindo, numa intensa psico-geografia do espaço urbano), poemas dramáticos, epístolas poéticas, rock lyrics para a sua banda por-vir – a sua produção é talvez a mais impressionante da cena portuguesa actual e a que mais tem solicitado desenvolvimentos ou prolongamentos mais ou menos parasíticos por muitos outros autores. São de facto inúmeros os que se revelam como poetas ou escritores justamente ao reescreverem, transformarem, citarem ou simplesmente (?) transcreverem, por copy-paste, os seus poemas, apondo-lhes porém (por pedido expresso da autora) o seu (deles) nome, isto é, o de cada um desses «transformadores» da obra de e.Lisabete, que assim se torna objecto de uma geral, e muito comparticipada, operação de despossessão.

«Não, não. Nada de declarações. Procurem-me onde me escrevi. Algures. Aí mesmo».

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Check(Mating)

Posted in Artes, Comentários, Notas by Pedro Serra on Segunda-feira, 13-07-2009

marcel duchamp_eve babbit

O jogo suspende o tempo para ganhar tempo, mas a Morte acaba por vencer: quando pensamos no xadrez teremos na retina, entre outras, a fantástica partida do Cavaleiro medieval, Antonius Block, e a Morte n’ O Sétimo Selo de Ingmar Bergman. No negócio dos óbitos, o xeque-mate é sempre jogada da Morte. Diria que Antonius Block não negoceia verdadeiramente, e não o faz por ética de classe: ou tudo ou nada, escatologia dos eleitos. A ética dos onzeneiros, sim. Dela é o purgatório que nasce na baixa Idade Média como estudou Le Goff: bálsamo de aflições pela salvação sufragada e pelo depósito a prazo. Antonius Block, paradigma de todas as virtudes violentas do guerreiro, joga xadrez com a Morte, furibundo bellator. Contudo, há uma outra tradição, também medieval, no imaginário do xadrez: a do jogo heterossexual, tradição que tem um avatar na performance de Marcel Duchamp e Eve Babitz de 1963. É esta tradição que justifica o post: não o xeque-mate, mas o (check)mating, estudado por Patricia Simons nos seguintes termos:

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Le temps des assassins

Posted in Balanço, Notas by Pedro Serra on Domingo, 12-07-2009

Na forja do ser moderno em Portugal, o contratempo do filho morto: “E que fazer se a geração decai! / Se a seiva genealógica se gasta! / Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! / Morre o filho primeiro do que o pai!”. No drama extático da “comédia lusitana” chegou a responsabilidade de o pai matar o filho, que é como quem diz, o contratempo do crime como uma das belas artes. De um pai a um filho, num duradouro recanto junto ao Tejo líquido: “– Ena Jorge, tanto peixinho, anda ver o oceanário. – Paaai!”. Eis, pois, o tempo dos assassinos: “– Vai chamar pai a outro”. Contas a liquidar, sempre é tempo de nos rirmos, combativos, com tudo isto.

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