Os Livros Ardem Mal

Dicionário Crítico por Intermitência: Movimentos Poéticos (I)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Quinta-feira, 03-09-2009

Literalismo (Desde finais de 90, Braga, Viana do Castelo, Barcelos, Viseu, Vila Real, depois Porto, Coimbra e enfim Lisboa). Movimento que defende ser a poesia muito menos texto, obra ou livro, do que que acontecimento e evento libertadores. Começaram por colar poemas em paredes de centros comerciais, paragens de autocarro, igrejas, escolas, para depois passarem a marcar lançamentos de poesia por sms, em momentos e situações inesperados e súbitos. Nessas ocasiões distribuíam rapidamente folhas soltas com poemas e desapareciam. Finalmente, começaram a lançar poemas amarrados a balões, em ocasiões previamente marcadas ou então de surpresa, em praças, parques ou simplesmente cruzamentos e avenidas, passadeiras para peões, podendo por vezes limitar-se (?) a gritar bem alto certos «textos», numa escanção que reduz o verbo à massa sonora vocálica ou infra-vocálica. Distinguem-se razoavelmente os «muralistas» dos «súbitos» e dos «balonistas», embora se verifiquem também cruzamentos. Como também se notam oscilações entre os que assinam os seus textos e os que praticam a anonímia, ou entre os que fazem intervenção individual e os que se reúnem em colectivos de geometria variável, consoante a inclinação dominante a cada momento. Tendem para uma poesia puramente visual ou fónica, feita de explorações gráficas e tipográficas de grande impacto e com uma dimensão política forte, dentro da estética do grito ou do grunhido, o que sai reforçado pelas suas articulações com a cena do Hip Hop tuga. Recusam o registo e qualquer forma de reprodução das suas intervenções, pelo que os filmes que circulam pelo YouTube, ou que chegam mesmo a programas de tipo cultural, como Câmara Clara, na RTP 2, são obtidos à sua revelia e sem a sua colaboração. Nomes como Ant.Lit, Rui.Lit, Johnny.Lit, Lou.Lit, Rita.Lit, Mary.Lit, Cunt.Lit ou os colectivos S.O.S.Lit, Dragon.Lit e Manos.Lit sofreram já um processo de internacionalização, no circuito também já internacional do literalismo, de Angola ao Brasil, à França ou à Bélgica, tornando cada vez mais difícil a preservação da pureza ideológica e estética do movimento. Entretanto, e num desenvolvimento bem revelador do seu impacto, certos poetas mainstream passaram a recorrer, em regime pontual, às modalidades de distribuição dos textos praticadas pelos literalistas, mas quase sempre como forma de promoção dos seus novos livros, o que vem sendo duramente repudiado pelos literalistas mais literais como «palhaçada burguesa».

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