Os Livros Ardem Mal

Melville ou o sublime

Posted in Autores, Edição, Livros, Notas, Oficina, Poesia, Recensões, tradução by Luís Quintais on Quarta-feira, 20-05-2009

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Será talvez o grande paradigma da ficção americana à sombra tutelar do qual se acolhem escritores tão diversos como Faulkner, Don Dellilo, Thomas Pynchon, ou John Barth.

O que não conhecíamos em português, até onde julgo saber, era o Melville poeta.

Esta lacuna está agora preenchida após estas traduções/versões de Mário Avelar publicadas na Assírio & Alvim. Os poemas de Melville reiteram um tema que é um dos seus tópicos mais inquietantes: a indiferença da natureza aos desígnios do humano. Isto pode ser ilustrado pelo poema magnífico que é «The berg (a dream)» / «O Icebergue (o sonho)», que é também um belo exemplo do que poderá ser a «estética do sublime». Deixo aqui a primeira estrofe (p. 55):

Vi um barco de porte marcial
(de flâmulas ao vento, engalanado)
Como por mera loucura dirigindo-se
Contra um impassível icebergue,
Sem o perturbar, embora o enfatuado barco se afundasse.
O impacto imensos cubos de gelo cair fez,
Soturnos, toneladas esmagando o convés;
Foi essa avalanche, apenas essa –
Nenhum outro movimento, o naufrágio apenas.

Herman Melville. Poemas, Assírio & Alvim. 2009, trad. de Mário Avelar [ISBN 978-972-37-1357-2].

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Nas Carolinas (Wallace Stevens)

Posted in Artes, Autores, Livros, Oficina, Poesia, tradução by Luís Quintais on Domingo, 26-04-2009

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Os lilases murcham nas Carolinas.
Já as borboletas adejam sobre os camarotes.
Já os recém-nascidos interpretam o amor
Nas vozes das mães.

Mãe intemporal,
Como é que teus galantinos mamilos
De uma vez verteram mel?

O pinheiro adoça o meu corpo
A íris branca embeleza-me
.

[Trad. Luís Quintais]

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O sentido é revisitação ou uma selva dentro da selva ou por que é que o cérebro não explica a arte ou só a explica parcialmente

Posted in Artes, Autores, Comentários, Livros, Notas, Oficina, OLAM, Vária by Luís Quintais on Sexta-feira, 03-04-2009

neuronUm dos aspectos mais interessantes das chamadas neurociências cognitivas contemporâneas prende-se com a relevância que aí assume uma imagem do cérebro enquanto estrutura dotada de uma complexidade e de uma plasticidade extraordinárias.

A arte pode ser pensada frutuosamente como um aspecto da cognição humana, isto é, como algo que resulta de um processo multiforme de aquisição de conhecimento, e, nesse sentido, como algo que radica em processos que poderíamos descrever como mentais.

O problema começa talvez aqui.

A minha tese é a de que sem cérebro não há mente (o que é, desde Thomas Willis e da «neurocentric age», uma evidência incontestável), mas que a mente não é o cérebro; penso, aliás, que não há consensos alargados sobre aquilo que a mente é, e de que forma é que podemos passar das ontologias na terceira pessoa para as ontologias na primeira pessoa, ou, de outro modo, da objectividade para a subjectividade, e vice versa. Estamos na fronteira, e toda a gente sabe como são as fronteiras que tornam a ciência fascinante, difícil, ou, de outro modo, de exercício quase improvável. Somos confrontados com aquilo que não sabemos, ou, eventualmente, com os limites do que sabemos.

De acordo com uma leitura wittgensteiniana do que se encontra aqui em causa, talvez estejamos perante um problema de linguagem ao dizermos que são os cérebros que pensam.

Wittgenstein ensinou-nos, como nenhum outro, a suspeitar da linguagem. As palavras podem trair-nos e levar-nos a olhar para certos problemas como problemas reais, quando eles não passam de puzzles que devem ser desmontados. Assim, se os estômagos não comem também é muito improvável que os cérebros pensem, ainda que, e volto a enfatizar este ponto, não possa haver pensamento (e todos os seus avatares: consciência, intenção, memória, etc.) sem cérebro.

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Invectiva contra os cisnes (Wallace Stevens)

Posted in Autores, Oficina, tradução by Luís Quintais on Segunda-feira, 16-03-2009

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A alma, ó gansos, voa para lá dos parques
E muito para lá das discórdias do vento.

Uma chuva brônzea do sol descendo assinala
a morte do verão, que neste tempo persiste

Como alguém que rabisca um apático testamento
De garatujas douradas e páfias caricaturas,

Legando as vossas penas brancas à lua
E ofertando os vossos delicados movimentos ao ar.

Vejam, já nas longas paradas
Os corvos ungem as estátuas com seus excrementos.

E a alma, ó gansos, sendo solitária, voa
Para lá das vossas indiferentes carruagens, para os céus.

[Trad. Luís Quintais; para a Maria Andresen]

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Kant na noite do Ártico (2), ou homenagem a Claude Lévi-Strauss

Posted in Crítica, Notas, Notícias, Oficina by Luís Quintais on Quinta-feira, 20-11-2008

1176309419_01[Retomo o meu Kant na noite do Ártico. Claude Lévi-Strauss fará no próximo dia 28 de Novembro cem anos. Aqui a celebração já começou há algum tempo. Esperemos que em Portugal se esqueçam desta vez da doxa, e nos dêem uma homenagem à altura do homem que abomina a doxa].

Uma homologia entre a multiplicidade de aspectos da vida social é reclamada em Lévi-Strauss. Tal homologia depende, em grande medida, dum nível profundo de invisibilidade que se traduziria num código universal, isto é, numa ur-matriz que definiria a semelhança entre estruturas linguísticas e simbólicas ou culturais. De outro modo ainda, dir-se-ia que Lévi-Strauss reclama uma congruência entre o exterior e o interior, entre a superfície e a profundidade. Para ele, existe uma ordem no mundo exterior e existe a nossa percepção e conceptualização dessa ordem. Entre estes dois universos, um exterior e outro interior, não existe qualquer incompatibilidade. Acresce ainda que tal congruência não é demonstrável. Reclama-se pois uma espécie de continuidade tácita entre o sensível e o inteligível.

A articulação entre o sensível e o inteligível terá de ser compatível com as leis universais que regem o espírito humano. A estratégia lévi-straussiana funda-se numa congruência entre exterior e interior que, de algum modo, é preservada pela linguagem e pelas culturas tomadas como instâncias de mediação do sensível e do inteligível. O mundo out-there pauta-se por princípios de ordem que a linguagem espelha e assume transversalmente: a eficácia das palavras e a eficácia dos princípios de ordem que as animam podem ser encontradas, por exemplo, nas trocas matrimoniais, e no modo como estas fazem preservar uma espécie de óptimo contratual básico sem o qual não é possível haver sociedade. E estes princípios de ordem dizem-nos tanto do funcionamento da sociedade quanto do funcionamento do «espírito humano» e da sua arquitectura neuronal: a sociedade, a mente, o cérebro, são assim avataras uns dos outros, avataras de uma natureza que se desdobra em «formas» que podem ser reconstituídas porque aquele que as reconstrói reconhece em si o trabalho e a inapagável presença de tais formas. A linguagem (entre o som e o sentido) é aqui transversal a esta recursividade entre ordens de complexidade diversa.

O confronto com a natureza – a selva amazónica – e com as suas formas é assim transposto, numa recursiva e constante viagem sem paralelo, para um confronto com aquilo que está inscrito na natureza profunda do humano que aqui é ainda o Homem. Os povos da Amazónia epitomizam, mas suas mito-lógicas, aquilo que de mais profundo e mais singular se faz inscrever nas produções culturais humanas: o espírito e as suas regras, que funcionam aí, ainda, numa transparência que a modernidade se encarregaria inelutavelmente de toldar.

O crepúsculo da cultura seria assim a turvação completa dessa Razão magnífica. Kant na noite do Ártico, mas também Kant na Amazónia. Porque as viagens de Lévi-Strauss seriam afinal uma demanda por um lugar onde o brilho escondido do humano poderia ainda ser contemplado, apreciado, como quem contempla ou aprecia uma paisagem ou uma peça de Racine ou uma página de Proust. Porque algures nessa heterotopia da Razão se poderia identificar ainda a essência mito-lógica da mente entregue a si mesma.

Dir-se-á que Lévi-Strauss incorre aqui numa espécie de invulgar primitivismo: a mente ameríndia é a epítome da Razão humana, por excelência; mais: a mente ameríndia presta-se – pela sua transparência – a uma incursão na mente tout court, já que a complexidade das cidades e das aquisições da vida moderna resvalam flagrantemente para a opacidade dos desígnios do humano, o mesmo é dizer, para o crepúsculo da cultura e da Razão. E veja-se o que Lévi-Strauss escreve sobre a arte moderna, para compreendermos este negrume que parece atravessar, para ele, as produções humanas que o cânone civilizacional ocidental foi propondo.

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O Sul (Jorge Luis Borges)

Posted in Oficina, Vária by Luís Quintais on Terça-feira, 11-11-2008

De um de teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da sombra
ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim e da madressilva,
o silêncio do pássaro adormecido,
o arco do saguão, a humidade
– essas coisas, acaso, são o poema.

(Trad. Luís Quintais)

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A Recoleta (Jorge Luis Borges)

Posted in Autores, Oficina by Luís Quintais on Sexta-feira, 24-10-2008

Convencidos da caducidade
por tantas nobres certezas do pó,
demoramo-nos e baixamos a voz
entre as lentas filas de panteões,
cuja retórica de sombra e mármore
promete ou prefigura a desejável
dignidade de estar morto.
Belos são os sepulcros,
o claro latim e as enlaçadas datas fatais,
a conjunção do mármore e da flor
e as pequenas praças com frescura de pátio
e os muitos ontens da história
hoje detida e única.
Enganamos essa paz com a morte
e cremos almejar nosso fim
e almejamos o sonho e a indiferença.
Vibrante nas espadas e na paixão
e adormecida na hera,
só a vida existe.
O espaço e o tempo são formas suas,
são instrumentos mágicos da alma,
e quando esta se apagar
com ela se apagará o espaço, o tempo e a morte,
como ao cessar a luz
se extingue o simulacro dos espelhos
que a tarde foi apagando.
Sombra benigna das árvores,
vento com pássaros que sobre os ramos ondeia,
alma que se dispersa em outras almas,
teria sido um milagre deixarem de ser,
milagre incompreensível,
ainda que sua imaginária repetição
desminta com horror nossos dias.
Estas coisas pensei na Recoleta
no lugar de minha cinza.

(Trad. Luís Quintais)

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A rosa (Jorge Luis Borges)

Posted in Autores, Oficina by Luís Quintais on Domingo, 19-10-2008

A rosa,
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da ténue
cinza através da arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcançável.

(Trad. Luís Quintais; para M.)

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Jardim místico & besta sofrível (Wallace Stevens)

Posted in Autores, Oficina by Luís Quintais on Segunda-feira, 13-10-2008

O poeta a passo largo seguindo entre lojas de charutos,
O almoço de Ryan, chapeleiros, seguros e remédios,
Nega que a abstracção seja um vício excepto
Para o fátuo. Estes são os seus muros infernais,
Um espaço de pedra, de inexplicável esteio
E cumes que pairam acima de adjectivos possíveis.
Um homem, a ideia de homem, esse é o espaço,
O vero abstracto no qual ele passeia.
A idade da ideia de homem, o manto
E a fala de Virgílio abandonados, é aí que ele caminha,
É aí que os seus hinos vêm aos magotes, hinos-heróis,
Corais para vozes da montanha e o cântico moral,
Feliz em vez de sagrado mas alto-feliz,
Hinos diurnos em vez de rimas consteladas,
E a ideia de homem, o jardim místico e
A besta sofrível, o jardim do paraíso
E ele que criou o jardim e que o povoou.

(Trad. Luís Quintais)

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Numa estação de metro (Ezra Pound)

Posted in Autores, Oficina by Luís Quintais on Quinta-feira, 09-10-2008

O aparecimento destas faces na multidão;
Pétalas num ramo negro, húmido.

(Trad. Luís Quintais)

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Projecto para um glossário do século vinte (JG Ballard)

Posted in Autores, Comentários, Oficina by Luís Quintais on Sexta-feira, 04-07-2008

[O «Projecto para um glossário do século vinte» de JG Ballard foi originalmente publicado num livro colectivo (simplesmente magnífico e hoje out-of-print). Refiro-me a Incorporations, editado por Jonathan Crary e por Sanford Kwinter na Zone books. Publicado originalmente em 1992, e esgotado há uma série de anos, Incorporations é um dos meus livros favoritos: daqueles que não empresto a ninguém! Para matizar este egoísmo (plenamente justificável), gostaria de partilhar com os leitores de Os Livros Ardem Mal o glossário de JG (pp. 269-279). As entradas foram fornecidas por Crary e Kwinter a Ballard que as preencheu. Traduzirei o glossário na íntegra nos próximos meses (ainda que numa ordem diversa daquela que surge em Incorporations). Ah, é verdade, a fotografia é de um encontro entre Ballard e Borges nos idos sessenta, sobre o qual pouco se sabe. Ballard, um admirador do escritor Jorge Luis Borges, parece não ter apreciado o homem, nem os seus gostos literários. Eu, se o tivesse conhecido, subscreveria certamente JG: aprecio muitíssimo o autor, aprecio pouco o homem, ou melhor, a sua persona, ou melhor ainda, uma parte da persona não inteiramente comensurável com o «autor», e que se prende com uma certa afectação classicista e profundamente reaccionária.]

# Máquina de escrever. Escreve-nos a nós, codificando a sua tendência linear através do espaço livre da imaginação.

Luís Quintais

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Até já

Posted in Oficina by OLAMblogue on Sexta-feira, 01-02-2008

No início chamou-se Escaparate. Mensário da Actualidade Editorial. Durou de Novembro de 2006 a Julho de 2007 e, como título e subtítulo indicam, tratava-se de tentar convencer algumas pessoas a deslocarem-se, na primeira segunda-feira de cada mês, pelas 18h, ao Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), em Coimbra, para ouvirem falar de livros. Decidiu-se ainda convidar pessoas da cidade, uma de cada vez, a falar, no primeiro quarto de hora, de um livro especialmente significativo para elas. Nunca conseguimos que o vereador da cultura se dispusesse a participar, mas convenhamos que poucas agendas haverá tão sobrecarregadas como a sua.

As pessoas apareciam e desapareciam, o Escaparate manteve-se estoicamente mas, chegada ao fim «a primeira época», como nas séries de TV, decidiu-se mudar. Não de pessoal, que permanece: António Apolinário Lourenço, Luís Quintais, Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Bebiano. Mudou-se sim o nome para Os Livros Ardem Mal, «roubado» com alguma falta de vergonha ao galego Manuel Rivas, mas manteve-se o propósito do Mensário da Actualidade Editorial. Reforçou-se a ligação às editoras, solicitando expressamente livros para apresentação pública e a organização passou a ser repartida pelo TAGV e pelo Centro de Literatura Portuguesa, da Faculdade de Letras de Coimbra. E mudou-se o formato, passando a convidar gente ligada ao livro: autores, sobretudo, estudiosos, jornalistas. Meia hora de mensário de actualidade editorial, uma hora de conversa com um convidado, retransmitida depois na Rádio da Universidade de Coimbra.

A conversa começou com Fernanda Câncio e continuou com Adolfo Luxúria Canibal, Frederico Lourenço e Joaquim Furtado. As pessoas começaram a aparecer em maior número… No próximo dia 11 será a vez de Manuel António Pina.

E agora, também o blogue. Não trataremos aqui 1) do governo Sócrates; 2) dos desvarios iraquianos de Bush; 3) de Carla Bruni; 4) de Pinto da Costa; 5) da lei anti-tabagista; 6) dos impostos que nos esmagam; 7) do TGV e da ex-Ota; 8) de Mr. Berardo; 9) de restaurantes e hotéis de charme; 10) dos crimes de pedofilia na net. Mas não juramos que não venhamos a tratar de livros que tratem de tudo isto e mais ainda. Porque este é e será um blogue sobre livros e coisas correlatas: papéis, cartolinas, leitoras e leitores, livrarias, sofás, mochilas, enfim, o estado do nosso mundo.

Aqui estaremos, os 4 das sessões no TAGV com alguns reforços, a bem da divisão social do trabalho e do tempo. A seu tempo os apresentaremos. Até já.

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