Os Livros Ardem Mal

Luís Filipe Parrado (IV)

Posted in Poesia, tradução by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 14-09-2009

A língua Arménia é a casa dos arménios

A língua Arménia é a casa
e o refúgio onde o errante pode encontrar
telhado e paredes e sustento.
Ele pode entrar para recolher amor e orgulho
fechando a hiena e a tempestade lá fora.
Durante séculos os seus arquitectos trabalharam arduamente
para levantar os seus tectos.
Quantos camponeses, com a sua labuta,
dia e noite mantiveram
os seus armários cheios, as lâmpadas acesas, os fornos quentes.
Sempre rejuvenescida, sempre antiga, tem durado
século após século no caminho
onde cada Arménio pode encontrá-la quando está perdido
no deserto do seu futuro, ou do seu passado.

Mousheg Ishkhan

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Homem e bolo (Alberto Santamaría)

Posted in Óbitos, Poesia, tradução by Pedro Serra on Sábado, 11-07-2009

Em que bolo sonhado se tornou a massa folhada invisível
para ver, sem ser visto, de dentro, o mundo?
que imaginação nasceu das natas?, que bolo
de Giges me fez acariciar o dorso
do cão, o débil choro do pássaro,
dizer, enfim, “além” ou “aquém”,
segundo mo ordene a língua? Que diabo
fazia um homem dentro do bolo
senão ser ele mesmo esse bolo? Lá dentro,
sem espaço e sem tempo,
que fazia
Senão esperar o grito, a surpresa?:

– “tomai, este é o meu corpo”.

Que fazia, senão começar sempre de novo?

Trad.: Pedro Serra.

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«Cavando» (Seamus Heaney)

Posted in Poesia, tradução by Luís Quintais on Terça-feira, 30-06-2009

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Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta: ajustada como uma arma.

Sob a minha janela, um nítido arranhado som
Quando a pá mergulha em solo pedregoso:
Meu pai, cavando. Eu olho de revés
Até que, no canteiro, suas nádegas distendidas
Se dobram baixo, avançam vinte anos distantes
Com ritmo curvando-se através de sulcos de batata
Onde ele ia cavando.

A tosca bota aninhada na alça, o cabo
De encontro ao joelho era apoiado com firmeza.
Ele enraizava caules altos, enterrava fundo a lâmina reluzente
Para, de novo, semear batatas que nós colhíamos
Adorando a sua fresca aspereza em nossas mãos.

Por Deus, o homem sabia como manejar a pá,
Tal como seu pai.

Meu avô cortava mais turfa num dia
Que qualquer outro no paúl de Toner.
Uma vez levei-lhe leite numa garrafa
Desleixadamente arrolhada em papel. Ele aprumou-se
Para o beber, e de imediato se quedou
Penetrando, elegantemente cortando, lançando torrões
Sobre o seu ombro, descendo mais e mais
Até à boa turfa. Cavando.

O cheiro frio do húmus, o chapinhar e o esborrachar
Da turfa encharcada, os súbitos cortes de uma lâmina
Através de raízes acordam na minha cabeça.
Mas eu não tenho pá com que seguir homens como eles.

Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta.
Eu cavarei com ela.

(Trad. de Luís Quintais)

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O Chekhov dos subúrbios

Posted in Autores, Comentários, Edição, Livros, Notas, Recensões, tradução by Luís Quintais on Sexta-feira, 29-05-2009

09-03-ContosCompletos-CatNum registo diverso, gostaria de destacar a publicação recente deste magnífico volume de contos (a que se anuncia um segundo volume) de John Cheever. Cheever nasceu a 27 de Maio de 1912 e faleceu a 18 de Junho de 1982. Trata-se de um dos grandes escritores norte-americanos de contos do século XX, só comparável a Sherwood Anderson, Hemingway, ou, mais recentemente, a Raymond Carver.

Cheever é por vezes apelidado como «o Chekhov dos subúrbios», e podemos encontrar neste volume reunidas algumas das suas histórias mais conhecidas, entre as quais se encontram «Adeus, meu irmão», «O rádio enorme», «O comboio das cinco e quarenta e oito» e «O marido do campo».

Convém talvez acrescentar que os contos reunidos de Cheever obtiveram o Prémio Pulitzer de 1979 para ficção. (Tradução segura de José Lima).

John Cheever. Contos completos I, Lisboa, Sextante. [ISBN: 978-989-8093-87-5]

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Alta Traição (José Emilio Pacheco)

Posted in Poesia, tradução by Pedro Serra on Quarta-feira, 27-05-2009

ALTA TRAIÇÃO

Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto
é inalcançável.
Mas – apesar de não soar bem –
daria a vida
por dez lugares seus,
certa gente,
portos, bosques, desertos, fortalezas,
uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
várias figuras da sua história,
montanhas
— e três ou quatro rios.

Trad.: Pedro Serra.

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Melville ou o sublime

Posted in Autores, Edição, Livros, Notas, Oficina, Poesia, Recensões, tradução by Luís Quintais on Quarta-feira, 20-05-2009

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Será talvez o grande paradigma da ficção americana à sombra tutelar do qual se acolhem escritores tão diversos como Faulkner, Don Dellilo, Thomas Pynchon, ou John Barth.

O que não conhecíamos em português, até onde julgo saber, era o Melville poeta.

Esta lacuna está agora preenchida após estas traduções/versões de Mário Avelar publicadas na Assírio & Alvim. Os poemas de Melville reiteram um tema que é um dos seus tópicos mais inquietantes: a indiferença da natureza aos desígnios do humano. Isto pode ser ilustrado pelo poema magnífico que é «The berg (a dream)» / «O Icebergue (o sonho)», que é também um belo exemplo do que poderá ser a «estética do sublime». Deixo aqui a primeira estrofe (p. 55):

Vi um barco de porte marcial
(de flâmulas ao vento, engalanado)
Como por mera loucura dirigindo-se
Contra um impassível icebergue,
Sem o perturbar, embora o enfatuado barco se afundasse.
O impacto imensos cubos de gelo cair fez,
Soturnos, toneladas esmagando o convés;
Foi essa avalanche, apenas essa –
Nenhum outro movimento, o naufrágio apenas.

Herman Melville. Poemas, Assírio & Alvim. 2009, trad. de Mário Avelar [ISBN 978-972-37-1357-2].

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Edgar Allan Poe sem intuição e sem acaso

Posted in Artes, Autores, Comentários, Crítica, Edição, Efemérides, Livros, Notas, Poesia, Recensões, tradução, Vária by Luís Quintais on Domingo, 03-05-2009

d2687f5ef69d40cb8a6dc5b3121b3b95-smallbookPoe é um dos portais da modernidade literária. Sem ele, outra seria a nossa percepção do que foram/são Baudelaire, Mallarmé, Eliot, Pessoa, etc. Sem ele, não teríamos muito provavelmente, o drama da emoção e da razão tal como o viveram e expressaram os modernos.

Nos duzentos anos sobre o seu nascimento (Poe nasceu a 19 de Janeiro de 1809 e faleceu a 7 de Outubro de 1849), o mais traduzido dos autores americanos em Portugal, tem nesta Obra Poética Completa uma das suas homenagens mais significaticas.

Poe foi talvez um dos primeiros poetas a explicitar uma poesia por vir, marcada pelos desígnios maiores da ciência. A diluição dos «enigmas» da natureza e do humano, a convivência com um mundo «desencantado», a urgência de recodificação através das lições do gelo que a ciência comportava e comporta inexorovelmente: tudo temas que a poesia de Poe articula de um modo constante, ao mesmo tempo que pretende aceder a um patamar de reinvenção formal da escrita onde se apela a uma exigência de «método» (que o célebre ensaio «A Filosofia da Composição» enuncia).

Esta tensão entre o desencantamento do mundo e a sua requalificação pode ser ilustrada através do poema «Soneto – À Ciência»: «Ciência, ó filha do Tempo Velho! / Que, de olhos coruscantes, tudo espreitas, / Por que rasgas ao poeta o amplo peito, / Abutre de asa rude que se engelha? Como te pode amar, crer-te avisada, / Que o não deixaste andar, errante, ao vento, / Buscando as jóias que há no firmamento / Ainda que o singrasse de asa ousada? / Diana escorraçaste da quadriga, / Do bosque a Hamadríade (fugindo / Ela a abrigar-se em estrela mais amiga), / À Náiade tiraste a onda cava, / Ao elfo o prado, e a mim o tamarindo / Em cuja sombra eu no Verão sonhava.» (OPC, p. 80).

A edição é primorosa, com uma excelente tradução, introdução e notas de Margarida Vale de Gato (uma tradutora que merece referência pela qualidade e quantidade do seu trabalho de tradutora), e com notáveis ilustrações de Filpe Abranches.

Acresce ainda o já referido ensaio  “A Filosofia da Composição” (pp. 273-288), onde Poe explicita a génese de «The Raven» (ler p. 277), e nos revela a intenção de uma poesia sem «acaso» e sem «intuição».

É pena que a edição não seja bilingue; porém é compreensível: tal projecto iria seguramente encarecer uma edição desta exigência gráfica.

Edgar Allen Poe, Obra Poética Completa. Tinta-da-China, 2009 [ISBN 978-972-8955-93-9].

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Nas Carolinas (Wallace Stevens)

Posted in Artes, Autores, Livros, Oficina, Poesia, tradução by Luís Quintais on Domingo, 26-04-2009

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Os lilases murcham nas Carolinas.
Já as borboletas adejam sobre os camarotes.
Já os recém-nascidos interpretam o amor
Nas vozes das mães.

Mãe intemporal,
Como é que teus galantinos mamilos
De uma vez verteram mel?

O pinheiro adoça o meu corpo
A íris branca embeleza-me
.

[Trad. Luís Quintais]

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London, por Borges

Posted in Autores, Livros, Notas, Notícias, Recensões, tradução by Luís Quintais on Sexta-feira, 20-03-2009

01310010_a_mao_de_midas_graO presente volume pode ser uma de três coisas, a saber: uma excelente introdução à obra de Jack London, uma aproximação à constelação literária de Jorge Luis Borges, e um contacto (também ele sensorial e físico) com uma das colecções mais fascinantes de literatura do século XX.

É um modo feliz de nos aproximarmos do trabalho literário de Jack London (1876-1916), autor americano de grande popularidade (foi um dos primeiros escritores americanos a fazer fortuna com a escrita) no seu tempo, e que é justamente considerado um dos brilhantes mestres da narrativa, e em particular do conto.

Borges reviu-se evidentemente em London, e esta colecção de A Biblioteca de Babel, espelha-o. O livro contém seis contos de London, de onde sobressai uma afirmação da literatura enquanto narrativa que Gustavo Rubim, numa notável recensão no Público, identificou como sendo um trabalho que foge habilmente às derivas da interpretação, e onde os acontecimentos dominam o fluxo textual. Escreve Rubim: «[M]as a mestria de London não está no modo como ergue ou insinua uma visão do mundo; está no modo como põe a narrativa acima do sentido, num jogo de esquiva às interpretações» (Ípsilon, 6 de Fevereiro, p. 29).

Trata-se de uma colecção que Borges dirigiu, seleccionando todos os volumes que a compõem, e prefaciando-os com ensaios seusjack-london sobre cada um dos autores escolhidos. É interessante verificar como o grande escritor argentino faz aí ombrear clássicos, como Edgar Allan Poe e Henry James, com escritores relativamente obscuros ou mesmo esquecidos hoje, destacando-se, entre outros, Gustav Meyrink e Arthur Machen.

Esta colecção revela não apenas as predilecções de Borges (uma grande parte vai para autores de língua inglesa), sendo, neste sentido, um modo de acedermos aos seus mestres, mas também a importância capital que o livro – enquanto objecto dotado de valências estéticas (e metafísicas) óbvias – detém no seu imaginário e na própria ideia que temos de literatura.

Neste sentido, importa referir que é o produto de um encontro entre o editor Franco Maria Ricci e Borges, himself, em que o primeiro propôs ao segundo a direcção de uma colecção de obras fantásticas que só podia chamar-se A Biblioteca de Babel. Os livros são belíssimos (como era próprio de Ricci), e a edição da Presença respeita escrupulosamente o grafismo original. (Creio que há uns anos atrás a Vega tentou trazer esta colecção para Portugal, ou copiá-la, com resultados desastrosos em termos gráficos, diga-se).

As traduções são cuidadas. Recomenda-se, pois, vivamente. (Tradução de Maria João da Rocha Afonso).

Jack London (2009) A Mão de Midas, Editorial Presença (colecção A Biblioteca de Babel, dirigida por Jorge Luis Borges). [ISBN: 978-972-23-4069-4]

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Invectiva contra os cisnes (Wallace Stevens)

Posted in Autores, Oficina, tradução by Luís Quintais on Segunda-feira, 16-03-2009

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A alma, ó gansos, voa para lá dos parques
E muito para lá das discórdias do vento.

Uma chuva brônzea do sol descendo assinala
a morte do verão, que neste tempo persiste

Como alguém que rabisca um apático testamento
De garatujas douradas e páfias caricaturas,

Legando as vossas penas brancas à lua
E ofertando os vossos delicados movimentos ao ar.

Vejam, já nas longas paradas
Os corvos ungem as estátuas com seus excrementos.

E a alma, ó gansos, sendo solitária, voa
Para lá das vossas indiferentes carruagens, para os céus.

[Trad. Luís Quintais; para a Maria Andresen]

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Medo (Eduard Escoffet)

Posted in Autores, Poesia, tradução by Pedro Serra on Sexta-feira, 06-03-2009

medo do pai
medo da mãe
medo do cachimbo do pai
medo do tio
medo do casamento do tio
medo da prima que observa com as
            mamas crescidas
medo de ser mãe
medo de ser a prima a quem o primo
            enfia o bacamarte
medo de ser o primo que tem de enfiar
            o bacamarte na prima
medo de ser pai fiel
medo de ser progenitor e amar
            em extremo a dulcíssima criatura
medo de ser uma mãe serviçal
que dá de comer a um desconhecido:
que dá de comer a um terrorista,
que dá de comer ao seguidor de uma seita,
que dá de comer a um drogado,
que dá de comer ao passador de droga do bairro,
que dá de comer ao artista coroado de ácidos,
que dá de comer a um visionário
que dá de comer a um ladrão
que dá de comer a um polícia.
medo de ser mãe e não poder guardar
            o revólver no coldre quando o filho chega
            com a farda manchada
  (more…)

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Prancha de Skate (Thom Gunn)

Posted in Autores, Poesia, tradução by Luís Quintais on Quinta-feira, 12-02-2009

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Cabeça-à-Toa na sua prancha de skate
ziguezagueia por entre uma multidão
de pés e rostos diferidos
numa lenta estupidez.
Guinadas, dobras, torções.
Tu reparas como agilmente
o corpo aprendeu
a estimar a relação entre
prancha, caminhantes,
e o imediato passeio.
Emblema. Emblema de moda.
Cai-lhe o tão delicado
branco sujo em desalinho
como os drapejamentos
num requintado
santo do Renascimento.
A corrente à volta da cintura.
Uma mão enluvada.
Cabelo tingido para mostrar-se tingido,
chama pálida em combustível soltando-se.
Cabeça-à-Toa na prancha
aperfeiçoando-se a si mesmo:
emblema invulgar
do vulgar.

No rosto assexuado
os olhos inocentes de sentir
logo sugerem o espírito.

(Trad. Luís Quintais; para a Sofia/Sílvia)

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Música azul

Posted in Autores, Livros, Recensões, tradução, Vária by Luís Quintais on Quarta-feira, 04-02-2009

musicofilia2Este é um livro do singularíssimo Oliver Sacks, o mesmo que nos trouxe, desde o seu The Man Who Mistook his Wife for a Hat (1985), a possibilidade de nos confrontarmos com a dimensão literária dos «estudos de caso» em ciência. É verdade que a prática de estudos de caso é comum em ciência desde longa data, mas foram poucos, e são poucos ainda hoje, os cientistas que nos conduzem, justamente, para o facto de se tratar de um dos lugares de eleição em que literatura e ciência se cruzaram e cruzam de um modo existencial e estilisticamente significativo.

Sacks contribuiu, sem margem para dúvidas, para a disponibilidade que existe hoje no mercado livreiro (sobretudo no mundo anglo-saxónico) para este tipo de trabalhos em que as histórias clínicas servem de mote para explicitar um drama existencial e, ao mesmo tempo, para nos elucidar acerca de um problema científico. Em grande medida, uma parte considerável da popularidade do notável neurocientista português António Damásio prende-se com isto também. Pena é que ainda se não tenha descoberto o manancial de histórias que, por exemplo, a antropologia contém, visto tratar-se porventura de uma das ciências que mais desenvolveu metodologicamente a prática dos estudos de caso.

Bem, mas regressemos a Sacks, ao justamente famoso Sacks. Neste seu livro, Musicofilia, o neurologista inglês sediado nos Estados Unidos, traz-nos um conjunto de históricas clínicas que nos permitem compreender a extraordinária relação entre a música e o cérebro. Os estudos clínicos aqui apresentados são de dimensão e alcance desigual. Vão de histórias que nos contam como pode uma canção ficar colada à mente numa espécie de loop contínuo, a outras que nos parecerão verdadeiramente insólitas: pacientes com doenças degenerativas cujos sintomas recuam através do seu contacto com a música, homens adultos que apanhados por um relâmpago desenvolvem um gosto obsessivo por música para piano, chegando a conseguir atingir um significativo domínio do instrumento, maestros que são atacados por estranhas formas de amnésia que os fazem tudo esquecer, menos a sua capacidade para dirigir e cantar, etc.

Gosto particularmente da parte acerca das sinestesias. Escreve Sacks:

De todas as formas diferentes de sinestesia, a sinestesia musical – principalmente efeitos de cor experimentados enquanto ouvimos ou pensamos em música – é uma das mais comuns, e provavelmente a mais dramática. Desconhecemos se é mais comum em músicos ou pessoas musicais, mas claro que é mais provável que os músicos tenham maior consciência dela, e muitas das pessoas que ultimamente me descreveram as suas sinestesias musicais são músicos. // O famoso compositor contemporâneo Michael Torke tem sido profundamente influenciado por experiências com música colorida. Torke revelou talentos musicais notáveis numa idade precoce e com cinco anos deram-lhe um piano, e uma professora de piano. «Já era compositor aos cinco anos», diz – a professora dividia as peças em secções e Michael rearranjava as secções em ordens diferentes enquanto tocava. // Um dia comentou com a professora, «Adoro aquela peça azul.» // A sua professora não tinha a certeza de ter ouvido bem: «Azul?» // «Sim», disse Michael, «a peça em Ré maior […] Ré maior é azul.» // «Para mim não», respondeu a professora. Estava intrigada e o Michael também, pois ele assumia que toda a gente via cores associadas a claves musicais. Quando começou a perceber que nem todos partilhavam desta sinestesia, teve dificuldade em imaginar como isso seria, pensando que era equivalente a «uma espécie de cegueira» (pp. 171-172).

As «vogais» de Rimbaud têm afinal um correlato neurológico.

Sacks, Oliver, Musicofilia: Histórias Sobre a Música e o Cérebro, Lisboa, Relógio d’ Água, 371 pp., 2008 [ISBN 978-972-708-997-0]

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