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Sophia: escrever a fala do poema (+ ou – 5 anos depois)

Posted in Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 28-07-2009

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Como é típico nos poetas cuja dicção é também uma reserva territorial (bem poucos, como sabemos), Sophia sufragou entre os seus leitores, desde muito cedo, uma poética delimitada por uma meia dúzia de «senhas» de acesso: transparência, imanência, impessoalidade, pureza, ética, soberania… Este sufrágio unânime foi sendo ratificado ao longo da sua obra por um investimento em formas várias de auto-reflexão, todas concorrendo para o carácter incontroverso de uma poética muito sábia de si mesma, e que podemos resumir em palavras, aliás renitentes, de Herberto Helder: «O poema existe por si, é uma forma impessoal que as mãos limpas arrancam à desordem para apresentar como ordem objectiva no meio das corrupções, inclusive as corrupções da nomeação» (Relâmpago, nº 9, 2001).

O livro Dual, de 1972, um dos pontos-charneira da sua obra, é um dos momentos em que esta dinâmica auto-reflexiva mais notoriamente coalesce em textos cujo estatuto oscila entre o poético e o poeticista, não parecendo porém oscilar a forma como todos eles invocam a lição da musa grega. Esses textos são sobretudo «Musa» e «Arte Poética IV». Ao longo deste último, Sophia insiste nas figuras da «escuta» como tropo mais fiel da composição poética, perguntando: «Como, onde e por quem é feito esse poema que acontece, que aparece já feito? A esse ‘como, onde e quem’ os antigos chamavam Musa». As coisas de facto interessantes ocorrem em seguida, quando a poeta nos descreve a fenomenologia desta escuta em que «algumas vezes o poema aparece desarrumado, desordenado, numa sucessão incoerente de versos e imagens. Então faço uma espécie de montagem». Uma das ocorrências mais sugestivas deste processo é aquela em que, nas suas palavras, «de textos que eu escrevera em prosa surgiram poemas». Logo após, a autora revela: «enquanto escrevi este texto [«Arte Poética IV»] para a Crítica apareceu um poema que cito por ser a forma mais concreta de dar a resposta que me é pedida». O poema é o antes referido «Musa», que transcrevo:

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente. 

Digamos então que o poema «Musa» parece funcionar como peça decisiva de uma retórica do exemplo, ao serviço de «Arte Poética IV». Um exemplo de passividade e escuta de um «súbito falar / Que me foge de repente». Todas as várias encenações deste Íon extático na obra de Sophia se esforçam por subtrair da nossa vista de leitores participantes do sufrágio universal desta poética, proposta (e não-negociada) nos seus próprios termos, aquele momento em que aquilo que foge de repente — o «súbito falar» da musa — não foge assim tanto que não fique, de algum modo, registado a negro sobre o espaço branco da página. Este é talvez o nó cego da fenomenologia da criação em Sophia: o facto dessa plenitude de um «súbito falar» só vir até nós sob o perfil de uma fenomenologia dos restos, que é, necessariamente, uma fenomenologia da escrita. Não se trata tanto de acentuar aqui o inevitável cunho laborioso de uma epifania bem mais moderna do que grega, na medida em que a excelência da sua dicção sem mácula é o resultado mais ilusório (ou «feliz») da sua poderosa retórica de uma anulação da retórica. Anulando a retórica, Sophia dar-nos-ia a sua anterioridade pura e plena: não apenas o súbito falar da musa mas o encantamento da fala enquanto objecto contemplável e, por isso mesmo, não (d)escrevível. Será excessivo notar que aquilo que contudo nos é oferecido é, não essa fala aquém de toda a nomeação, mas a transcrição do seu resíduo fenomenal na página, isto é, a descrição minuciosa da sua «fuga repentina»?

Eis-nos pois na aporia mais produtiva na poética de Sophia: a que, como no poema «Musa», faz da «escuta poética» uma cena (d)escrita por um verbo que nada nos diz sobre aquilo que é escutado (por isso não estar ao seu, e ao nosso, alcance), dando-nos antes a ver o poema na página e, nele, a cena mítica, e mágica, da oralidade epifânica. Por outras palavras, e um tanto ao invés do que se pretenderia sufragar, em Sophia a voz da musa não é um lugar e um tropo da plenitude, mas do seu falhanço necessário e metódico: é algo desde sempre em «fuga repentina» e de que nos fica apenas (mas este apenas é toda a poesia ela mesma, sem remissão) o suplemento de uma escrita que nos diz obsessivamente da fala como lugar primacial, mas mudo, da poesia. Ou seja, que escreve e descreve a fala como metáfora cega daquilo que é o verdadeiro motor, ou consciência, da poesia moderna (ou, se se preferir outra periodização, da poesia pós-oral), como a de Sophia tão flagrantemente é: a escrita.

[Texto publicado no suplemento do Público dedicado a Sophia, na semana posterior à sua morte, em Julho de 2004]

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