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Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (XIV)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Domingo, 02-08-2009

No Name Boy (??, ??). É o caso mais enigmático e fascinante da poesia portuguesa contemporânea. Nas palavras de Rosa Maria Martelo, professora da Universidade do Porto que tem vindo a dedicar uma aturada investigação a este não-autor, «Trata-se do segredo mais bem guardado da nossa literatura actual». De acordo com a ilustre professora tudo indica que um número impressionante de poemas dos mais significativos da poesia portuguesa dos últimos 40 anos terá sido escrito não pelos seus autores declarados mas por um ghost poet, que vem sendo chamado no meio literário «No Name Boy». Os poemas em causa vão de «Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos», de Herberto Helder (Selos) a «Uma Carta no Inverno», do livro homónimo de Vasco Graça Moura (1997), incluindo ainda o poema «A Magnólia», de Luiza Neto Jorge, ou as variações sobre o mesmo poema, por Daniel Faria, o poema «O excesso mais perfeito» (de Às vezes o Paraíso, 1998), de Ana Luís Amaral, o primeiro dos Quatro Caprichos (1999), de António Franco Alexandre, e ainda alguns textos centrais de João Miguel Fernandes Jorge, Manuel António Pina, Al Berto, MC Rimas (o Canto X de Umbral dos Heróis, que começa por «Desce já o crepúsculo do Império»), RR Fortuna (o grande poema «A noz grávida da noite»), Ricardo Araújo Pereira (a secção mais heideggeriana de Ainda não é poesia nem prosa, é apenas alguma coisa parecida com isto, de título «A língua rasteja sobre o ventre da terra») ou vários dos poemas centrais de Maria Carlos Maria (sobretudo, a grande ode «Ó ungida azinheira da Cova da Iria!»). Embora não se conheça o seu facies ou o seu BI, circulam na net declarações consistentemente apócrifas que alguns, contudo, lhe atribuem, e nas quais se aborda a questão da «ghost writing» em termos um tanto paradoxais: «Toda a escrita é suplementação de inexistências, tal como o mundo é o produto alucinado de um autor inexistente. Escrevo e desassino-me (assassino-me). (…) Nada existe num nome: sons arruinados pelo tempo e pela distância, letras como carimbos falsos. (…) Eu canto o meu corpo zombie». De acordo com Rosa Maria Martelo, a questão mais fascinante da «obra» subterrânea do não-autor seria a da crítica do conceito de autor e propriedade, uma vez que os poemas em causa, ou outros nos quais seja possível rastrear a mão oculta e inigualável do ghost poet, seriam e não seriam dos seus autores jurídicos, uma vez que não é possível minimizar o facto de terem sido tais poemas escritos em função de uma poética pré-existente e já consistente. O falso seria aqui ratificado pela poética que o inscreveria no continuum de uma obra, dando-lhe assim substância e verdade: a verdade da assinatura como contínuo e contexto. Não parece ser, porém, exactamente assim, pois essa «verdade» deveria ser agora tomada sempre entre aspas, já que a consequência mais radical desta prática, ou melhor: o preço a pagar por ela, seria o de tornar indiscernível falso e não-falso, e sobretudo o de impossibilitar de vez a utilização de qualquer noção pertinente de «verdade» autoral. A prática do ghost poet «falsifica», de facto, e de vez, toda a cena poética portuguesa contemporânea, permitindo duvidar do efeito de assinatura dos poemas de Rútila Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Vítor Nogueira, DJ Silva, José Luís Peixoto, etc., etc. Finalmente, e de modo esse sim radical, a falsificação da cena poética portuguesa pelo artista chamado «No Name Boy» abre um contrafactual que permite reescrever poderosamente a história da nossa poesia actual sub specie «história virtual»: os grandes poetas de hoje poderiam ser apenas noms de plume de «No Name Boy», e os menos grandes seriam ainda mais pequenos, e indignos de referência, sem a contribuição fantasma desse «autor». Que alguns, mais afoitos, sugiram que «No Name Boy» é a realização, enfim, da profecia pessoana não-realizada do advento do Super Camões, é algo que não poderá pois espantar nenhum leitor conceptualmente atento. Que outros, mais iconoclastas, sugiram que toda a poesia portuguesa contemporânea, sem excepção, revela a mão oculta, inimitável e infindavelmente populosa de «No Name Boy», é já algo que não podemos ler sem o arrepio que nos percorre quando nas nossas divagações deparamos com a hipótese sonâmbula do Monstro – ou, o que é o mesmo, de Deus.

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