Os Livros Ardem Mal

Vulcão (III)

Klee

A secção II de Vulcão abre com «O Grito», um poema em prosa emblemático do caderno de encargos que o Nava tardio confia a esse género poético. O poema seguinte, «Um Prego», é talvez dos espécimes mais sóbrios do poema em prosa em Vulcão, pelo menos na aparência:

Um Prego

Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substância na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol que por um impressionante acidente cronológico se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa.

Este prego parece ter bem pouco a ver com aqueloutro que, no poema «Bem fundo», se enterra na carne e na memória: «Um prego na gengiva / bem fundo, até onde seria / de crer que só chegasse a alma, assim // as árvores nos crescem por dentro da memória». Há quase sempre no último Nava um fulgor de reminiscência crística em imagens como a deste prego enterrado na gengiva – e, ainda, uma reencenação, por via talvez do Bacon que retoma o Inocêncio X de Velazquez, de ritos, trajos e restos do catolicismo mais tridentino, a bem de um certo luxo, entre o kitsch e o camp, de cenários e figurinos, aliás sombrios. Penso, por exemplo, no «veludo» de «Três voltas» ou na espantosa coroação das «vísceras de deus» no mesmo poema, seguramente um dos momentos mais altos do devir anti-humanista da poética de Nava.

«Um prego» opera, muito diversamente, por uma estratégia de reductio. A cena reduz-se àquilo que é descrito no início: «Cravava cuidadosamente um prego na parede». Tudo o resto deriva desta qualificação: «cuidadosamente». O cuidado com que se crava o prego na parede (que é o cuidado, também sintáctico, com que Nava desenvolve os meandros da sua imaginação) não impede nem contém o desencadear de consequências; nem que as suas consequências tenham a magnitude de um sol que se esvazia e deixa «uma cicatriz imensa» no céu (i.e. na parede).

É nestes momentos que percebemos que a arte de Nava é uma arte da surpresa. Ou melhor: do desencadeamento calculado e minucioso de efeitos de surpresa. Neste caso, a surpresa reside no facto de a inundação desencadeada pelo prego cravado na parede ser uma inundação de… futuro. Em consequência, formas e sentido do presente dissolvem-se. E a irrupção de um sol no cenário da parede ocorre sob o signo de «um impressionante acidente cronológico» que o arrastaria do presente para o futuro.

É talvez altura de sugerir que tendo a ler este texto como uma involuntária variação do texto em que, na secção IX das suas teses «Sobre o Conceito de História», Walter Benjamin (WB) inventou uma narrativa para o Angelus Novus de Paul Klee. O anjo é substituído, no texto de Nava, pelo sol, e o vendaval que enrodilha as suas asas em WB é aqui o «impressionante acidente cronológico» que arrasta o sol do presente para o futuro. O espectáculo das ruínas amontoadas ante o olhar espavorido do anjo que avança para o futuro às arrecuas é aqui o esvaziar do sol no céu, «deixando atrás de si uma cicatriz imensa». O texto de Nava não tem lugar para o pathos, entre Blake e Klee, do texto apocalíptico de WB: um anjo com olhos esbugalhados, a catástrofe do passado, as ruínas empilhadas até ao céu, o vendaval do progresso. Mas a cena não é menos catastrófica, embora em versão cósmica e não humana nem humanista, como em WB: a diluição das formas do presente é o análogo de Nava para a catástrofe que o anjo vê onde nós vemos a sucessão harmoniosa dos eventos e o seu sentido (o sentido da história); e o progresso, na forma de «revolução» dos astros, é agora esse acidente cronológico de que fica a cicatriz imensa. Não custa perceber que WB ratificaria esta imagem que a sua filosofia da história deseja a todo o transe inscrever na nossa percepção do passado, substituindo a empatia e o encanto nostálgico do passado distante e aurático pela cicatriz produzida pelo bisturi de uma leitura a contrapêlo. Mas não custa também perceber que o texto de Nava não tem qualquer lugar para uma versão, ainda que trágica, do progresso ou, mais sobriamente, do futuro, que é aqui um sol esvaziado e uma cicatriz imensa no cosmos (ou, um tanto surpreendentemente, um cano de que afinal nada jorra, se dele devesse jorrar o futuro que o sol esvaziado afinal anula). Bem vistas as coisas, o anjo da história torna-se em Nava uma ocorrência casual, aleatória e conjectural: depende de uma alteração tão improvável dos dados do universo como um prego que, ao cravar-se na parede, acerta num cano. Não é necessário, não carrega o fardo do sentido e menos ainda o do futuro. Anuncia, no seu regime improvável, a iminência mais do que provável do fim.

Finalmente, uma nota sobre a forma como a arte de Nava decorre, em grande medida, da exploração de uma sintomatologia da paranóia. Todo o texto, como vimos, decorre da premissa enunciada logo a abrir: «Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que…». Tudo o resto é uma inferência tipicamente paranóica, apoiada e traduzida num insistente imperfeito do conjuntivo. Este mecanismo, em que o contrafactual é o paranóico (ou ao invés), é recorrente em Vulcão, livro atravessado por uma palpitação paranóica, admiravelmente performativizada e rentabilizada. A arte maior de Nava neste livro reside justamente na eficácia com que se contrabandeia esta paranóia, tornando-a um dos mais felizes detonadores da ficção poética e, no limite, confundindo-a com essa própria ficção – ou com o regime contrafactual activado por aquele «se», patente em «quando pressentiu que», sem o qual nenhuma ficção existe.

Osvaldo Manuel Silvestre

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