Os Livros Ardem Mal

Um híbrido: Maldoror

Assisti no sábado – enfim!, é caso para dizer – no Teatro Municipal de Estarreja, ao espectáculo Maldoror, dos Mão Morta. Concebido no e para o Theatro Circo (não se pode deixar de apreciar o toque fetichista do h…), de Braga, por uma equipa multidisciplinar, e aí estreado em Maio do ano passado, Maldoror é um objecto singular e estimulante, desde logo porque se integra mal em qualquer das categorias herdadas da já longa tradição da cultura rock. Basta dizer que o espectáculo é um continuum destinado a aplauso final, sem direito visível a encore – tanto mais que se vê mal como seccionar da organicidade do continuum um pedaço repetível, sem com isso questionar o notório investimento na produção desse todo. Acresce que em nenhum momento se sentiu no público o desejo ou necessidade de abandonar as excelentes cadeiras do Teatro de Estarreja para manifestações, digamos, mais fisicamente efusivas (o meu vizinho da frente protestou, por mais de uma vez, pelo facto de eu discretamente aflorar o seu assento com os joelhos em função da impulsão rítmica, aliás muito pontual, induzida pela música: foi-me difícil não pensar na distância a que estávamos da lendária destruição das cadeiras do Theatro Circo num espectáculo dos mesmos Mão Morta).

Por outras palavras: será isto ainda um rock concert? Estes fantasmas de Oitocentos são mesmo os Mão Morta? Dúvidas que aqui se levantem, não resistem porém a uma certeza: é mesmo este o universo que colamos à persona de um indivíduo auto-denominado Adolfo Luxúria Canibal, que vocifera longos excertos dos Cantos de Maldoror num trajo, e num penteado, que, como os da banda, se diria corresponderem a uma espécie de Sweeney Todd sem festa e em que o espectáculo do sangue fosse substituído, digamos, pelo dos piolhos e da abjecção da «monstruosa» personagem de Lautréamont. Num certo sentido, nunca os Mão Morta foram tanto os Mão Morta, i.e. nunca assim estiveram à altura das mitologias do mal a que Adolfo deu rosto e corpo ao longo de mais de duas décadas. Por outras palavras, e permitam-me a nota historicista, é difícil ver este espectáculo sem pensar que os Mão Morta foram criados para um dia fazerem Maldoror – e, nesse sentido, Maldoror seria o vantage point que, como em todo o historicismo, ilumina retrospectivamente e dá sentido ao que ilumina.

O problema, que é ainda o do historicismo, está em que naquilo que supostamente ilumina para trás, Maldoror não parece ter pleno lugar para secções inteiras do legado dos Mão Morta: como sabemos, nem todo esse legado responde à figura contemporânea do multimédia high tech (bem pelo contrário, como é óbvio: lembremos a lendária cena low tech no Rock Rendez Vous com uma navalha e muito sangue); e o mesmo se poderia dizer do devir conceptual dos três últimos grandes momentos dos Mão Morta, em torno de Debord, Müller e agora Lautréamont: como se articulam eles com pedaços de incandescência como «Oub’ lá», «Cão da morte», «Anarquista Duval», «Charles Manson», etc.? Mas há também o lugar específico, a singularidade não redutível a um esquema interpretativo global, de Maldoror, mesmo na sua relação – indesmentível – com os antecedentes próximos das Obras dedicadas a Debord e Müller. Em que consiste tal singularidade? É-me difícil responder sem regressar a um historicismo com que não simpatizo. Porque a singularidade de Maldoror parece-me residir numa espécie de triunfo «final» da estética do Sprachgesang que sempre definiu o essencial do trabalho de Adolfo. Por algum tempo, aliás longo, uma certa ilusão decorrente de uma origem punk viu em Adolfo sobretudo um corpo em fúria, o que a cena do RRV viria a ratificar. O tempo, porém, viria deixar claro que a opsis desse corpo em fúria não é a questão central do trabalho de Adolfo, descontado obviamente o tributo inevitável ao sexo que define a iconografia rock e as suas figuras da linha da frente, quase sempre os vocalistas. Não deixa de ser irónico que, no momento em que Miguel Pedro se assume como o motor criativo da música da banda, o trabalho performativo de Adolfo ganhe uma como que derradeira e verdadeira luz, um tanto à revelia da música – ou, mais justamente, mergulhado numa música cuja natureza nos permite agora perceber Adolfo como um grande performer da voz, numa versão e tradição cujo nome mais próximo me parece ser, de facto, o do Sprachgesang, ou seja, algo que se situa num intervalo entre o canto e a declamação. Este «intervalo» é problemático em Adolfo, uma vez que se trata de um vocalista que recusa o canto e pratica uma ostensiva declamação, sempre saturada de pathos, mesmo nos momentos de acalmia ou neutralidade suposta.

Maldoror dá a ver isto, como nunca: boa parte do espectáculo é a espera, mais ou menos ansiosa, de uma explosão que quase nunca chega, pois o que chega é um troço mais da longa frase que Adolfo vai debitando por sobre a música expectante da banda. De resto, cenário, figurinos e coreografia jogam num impacto visual sobre o espectador que dispensa o movimento da banda, reduzida a um estatismo de estatuária gótica, e mesmo o de Adolfo, que pouco se desloca, fazendo-o sempre «por pré-programação»: o quadro, ou o enquadramento do frame, triunfa sobre movimento e montagem, apesar das ilusões em contrário activadas pelas projecções vídeo. Maldoror é pois um espectáculo cuja verdade última mora na palavra, mais do que no corpo ou na sua encenação em palco, tanto mais que todo o esforço de representação do corpo é derrotado pela impossível figuração dos pesadelos verbo-visuais de Lautréamont. Ora, a arte de Adolfo reside na sua capacidade rara para dar a ver na voz a potência e o abismo do corpo, uma voz que é uma potência inesgotável porque é a potência transbordante do inconsciente, vale dizer, do corpo. Nesse sentido, cenário e figurinos ajudam mas em rigor são dispensáveis, desde que nos seja permitido ouvir Adolfo a debitar (e por vezes, aliás raras, a urrar) Lautréamont: a sua voz é todo um cenário de pesadelo que se desdobra, e o cenário que contemplamos em palco é sempre algo que fica aquém dos cenários que nessa voz, ou por meio dela, imaginamos.

Este espectáculo da palavra e da voz não é porém uma forma de wordsong, pois Maldoror é também uma recusa da canção, com um radicalismo que as obras dedicadas a Müller e a Debord não tinham ainda alcançado (não é, pois, esclareça-se, uma coisa da família de The Raven, de Lou Reed). Nesse sentido, Maldoror não é seguramente um rock concert, como felizmente não é também um avatar da «ópera rock». É, sim, um híbrido poderoso para o qual melhor será reservarmos essa umbrella-word contemporânea a que damos o nome de performance: uma «performance rock» que é um elogio sem fim da palavra poética, que é como quem diz, da palavra em todo o seu poder; uma performance que é ainda, pese embora a certos teóricos da performance como único, uma forma do «repetível», pois é difícil ver este espectáculo sem nos apercebermos de tudo o que nele é coreografado ao milímetro. Finalmente, uma performance que é uma incansável declamação, com todo o anacronismo implicado em «declamação» – e, já agora, em Lautréamont -, ainda que resgatada pelo idioma da electricidade. É por isso que Maldoror nos deixa a estranha sensação de que depois disto os Mão Morta só poderão recuar: para a canção, para o rock concert, para a cultura de que provêm e de que aqui exploram as fronteiras mais extremas. Por outro lado, esta encarnação dos Mão Morta parece ser já tão extra-territorial em relação à sua tribo originária, que um recuo dessa ordem seria talvez a maior surpresa que nos poderiam ainda oferecer.

Osvaldo Manuel Silvestre

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