Os Livros Ardem Mal

Manuel Gusmão: o ensino da literatura e a política da demagogia

CVs

Na entrevista já referida a Textos e Pretextos, nº 10 (2007), Manuel Gusmão aborda, com meridiana clareza, o que está em causa na desqualificação do texto literário como instrumento de ensino da língua materna. Leia-se, com a devida atenção:

Julgo que a tentativa para diminuir o ensino da literatura enquanto tal, enquanto uso artístico de uma língua natural, e enquanto acesso à complexidade dos usos da linguagem, pode conduzir a desastres. Por um lado, o sucessivo adiamento para escalões superiores do encontro com a literatura fará com que muitos abandonem o sistema de ensino sem chegarem a ter contacto com a literatura e nem possam ter a opção de saber ou decidir sobre se a literatura lhes serve ou não para alguma coisa. Embora não se reduza a isso, a literatura tem a ver com a complexidade do próprio sistema linguístico a que ela acrescenta a complexidade das convenções, das regras, dos protocolos dos géneros literários e da ‘linguagem literária’, entendida enquanto um conjunto aberto de formas de comunicação e invenção verbais. Este adiamento do confronto com a complexidade frustra a descoberta e o exercício de destrezas daqueles que são ‘protegidos’ da complexidade ou da experiência da dificuldade. ‘Proteger da complexidade’ é uma fórmula altamente autoritária. Nela se casam a demagogia mais rasteira e o elitismo mais hipócrita. No fundo, isto representa a tentativa de seleccionar socialmente, de uma forma brutal, aqueles que terão acesso à possibilidade de se encontrarem com a literatura, no sistema educativo. Ligado a este problema, há o da possibilidade de preferir. O exercício da preferência implica a possibilidade de conhecer e de não apenas escolhermos aquilo que gostamos, mas de sermos também escolhidos por aqueles que se tornam os nossos textos, as nossas obras de referência. Excluir dos curricula a oportunidade da experiência da preferência estética é uma forma mais de amputação dos possíveis e de inculcar a submissão. (pp. 124-125)

Numa altura em que, em consequência da reforma de 2003, e no que toca ao ensino da língua materna no Ensino Secundário, nos encontramos naquela posição em que os portugueses iluminados apreciam encontrar-se – ou seja, na vanguarda da Europa, já que em nenhum grande país da Europa o texto literário sofreu a defenestração de que, por cá, foi objecto -, importa enfatizar o cunho politicamente reaccionário de uma reforma que entende que a disciplina de língua materna se destina a produzir «literacia funcional», sendo o ponto culminante desta revisão a criação de uma nova e imprescindível competência, a «transaccional», que permite aos e às estudantes aprenderem coisas tão indispensáveis para a sua formação como fazerem relatórios, redigirem actas, CV’s, reclamações… E tudo isto na aula de português, que decididamente assumiu uma vocação de camelo de 3 bossas, se é que 3 são suficientes para tal fardo. É evidente que, como afirma Paula Sande em tese de doutoramento há pouco apresentada à Universidade Nova de Lisboa, um tal «objectivo formativo não cabe [na] disciplina» (p. 199), pelo que seria desejável criar-se antes uma outra intitulada «Instrução para a vida activa». O problema é que quem fez a reforma entende que o ensino da língua materna se destina a isso mesmo – a instruir para a vida activa – e não propriamente a fazer a pedagogia da complexidade que toda a linguagem é, razão pela qual os textos literários (e os «clássicos»), que antes foram instrumentais em tal aprendizagem, se tornaram de súbito dispensáveis.

Sabemos as consequências disto: um ensino da língua materna completamente sub-rogado pela razão instrumental (o mesmo é dizer: pelos critérios cegamente performativos do PISA); a criação de «um diferendo entre o ensino da língua e o ensino da literatura que sempre foi estranho ao ensino do Português neste nível de ensino» (cito ainda Paula Sande, p. 185); a utilização de sonetos de Camões para exemplificar o género autobiográfico – tanto pode a agressiva ignorância de quem deu à luz esta reforma – ou a utilização do episódio do Concílio dos Deuses nos Lusíadas como material para a redacção de uma acta; enfim, o desastre educativo, político e linguístico que Manuel Gusmão tão acertadamente denuncia.

Concluo em clave popperiana: os problemas do ensino do português residiam, ao que nos dizem, no excesso de textos literários no currículo. Cá estaremos, pois, 10 anos transcorridos sobre a data da reforma, para fazermos a contraprova: se o problema era esse, eliminado ele substancialmente, as coisas só poderão ter melhorado – embora, muito tipicamente, se vão ouvindo vozes que sugerem que «ainda não foi suficiente…». Que Camões lhes valha (se é que Camões ainda é aceitável como santo padroeiro).

Osvaldo Manuel Silvestre

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