Os Livros Ardem Mal

Literatura infantil, património e multimédia

cartolinha

A mais recente obra de Vergílio Alberto Vieira (VAV) no sector «infantil» O Menino Jesus da Cartolinha. Um Auto de Natal confirma duas coisas sobre o autor: (i) que o seu é um caso de desempenho que no sector infantil consegue ser bem superior ao «adulto», situação não rara na literatura infantil, como se sabe (o que é aliás um pau de dois bicos para esta); (ii) que o seu lugar nesse sector é assinalado pela competência técnica e pela coerência «ideológica». Técnica e ideologia são aqui uma coisa só, já que a proficiência com que VAV usa, neste «Auto de Natal», a quadra em redondilha maior e rima cruzada, é em extremo congruente com um programa cultural de recuperação de um, digamos, folclore muito situado – o de Miranda do Douro – e, ao mesmo tempo, situável apenas naquele lugar onde o folclore deveras mora: a alma do povo. Se a isto acrescentarmos o velho tópico da resistência a Castela, teremos ainda o nacionalismo em versão entranhadamente popular.

A lenda do Menino Jesus da Cartolinha é o tema e o pretexto de (mais) uma investida da nossa literatura infantil por imaginários, textos e heranças para as quais o verdadeiro nome é património. Desse ponto de vista, este livro, como tantos outros de autores que se vão especializando nessa variante da indústria infantil – e que podem ir de Luísa Ducla Soares a António Torrado -, é parte daquela literatura infantil que persistentemente reinventa a sua fundação primeira (e verdadeira) na política cultural do alto romantismo: solo, sangue & vox populi. É claro que dessa trilogia nos chegam hoje rimas e fábulas ilustradas e coloridas, que é como hoje nos chega também o romantismo (qualquer romantismo, dir-se-ia); mas é igualmente claro que as tradições orais, esvaziada a sua ecologia originária, sobrevivem hoje cada vez mais enquanto nicho académico (aliás, de boa saúde) ou, então, enquanto manancial de uma literatura infantil que não se cansa de regredir à origem, ou a uma das versões mais populares da sua origem. E não se cansa, suponho, por duas razões, aliás não inteiramente coincidentes: (i) porque tal regressão rende, e não apenas em simbólico; (ii) porque, em grande medida, esta revisitação e realimentação de uma origem etnográfica é aquele ponto em que a literatura infantil se autolegitima como serviço público: trata-se, a um tempo, de preservação do património e da sua difusão ad usum delphini. Mas não deixa de ser revelador que, no espaço público (excluamos o seu estudo nos sertões universitários), a cultura oral tradicional seja hoje «coisa infantil», ou melhor, coisa abandonada às crianças.

Posto isto, que não são outros quinhentos, cumpre dizer que este Auto de Natal, carpinteirado com alguma da competência exigível a um dramaturgo, faz jus à sua divisão em dois «Quadros». A peça tende ao «drama estático», de tão nobre ascendência simbolista, pós-simbolista e modernista – que contudo não reivindica -, e confunde-se com uma sucessão de quadros de causação mínima e acção imperceptível. De certo modo, no espaço cénico – um recinto numa clareira, entre dois panos de muralha – não se passa grande coisa, chegando antes até lá os ecos do que daí se vê: a tentativa de invasão castelhana, no contexto das lutas da Restauração, e a sua frustração, por acção do povo e do Menino da Cartolinha. O próprio contexto não é de recuperação evidente para quem não tenha feito o seu trabalho de casa, tanto mais que o livro o faz também escassamente – falta aqui um paratexto, preambular ou epilogal, no qual se explique a lenda e se situe melhor os eventos. Quanto àquilo que, do ponto de vista do drama, VAV acrescenta – o filho do pastor Constantim, para o qual sua mãe, Genísia, reclama o reconhecimento da paternidade, e que é aqui um Menino Jesus sobreposto ao da Cartola – não rende dramaticamente o previsto e relança apenas o velho tópico do Menino Deus que mora em cada recém-nascido.

Fica sobretudo, deste texto, a meu ver, a recuperação da medida velha, em quadras como a que abre a peça – «Estrelas do céu, acordai / Que esta noite é noite santa. / Bendizei, pastores, louvai / O que toda a Terra canta» – ou várias outras. E uma ideologia do texto tradicional, em versão infantil, como preciosidade cultivável e, ao mesmo tempo, pedagogia dos «clássicos»: trate-se dos do romanceiro ou de Gil Vicente, de que aqui, muito a propósito, se transcreve uma cançoneta do «Auto Pastoril Castelhano». Este triunfo da técnica e da ideologia coloca porém a questão mais perturbadora da obra: é este um espécime de literatura infantil? Se os protocolos dela são todos reconhecíveis – desde logo, a personagem infantil central, mas também o primado da ilustração, bem como a colecção em que o livro surge -, a verdade é que a obra é em demasia «património em quadros», de conexão aliás não muito evidente, para que neste caso a literatura infantil possa ser mais do que a tradução tipográfica de uma visão e versão do património como reencantamento. Não deixa de ser curioso que esse reencantamento seja, ao mesmo tempo, uma estética, uma política e uma poderosa estratégia industrial, para cujo entendimento temos, em rigor, de passar do texto de VAV ao objecto co-produzido por Marta Madureira (MM): um notável dispositivo multimédia que, como nas melhores ocorrências actuais, vem reconfigurando a «literatura infantil» e, o que mais é, a própria ideia de livro infantil.

velhaO trabalho de MM explora as possibilidades da colagem, recorrendo como materiais a cartão e vários tipos de papel (entre eles o papel de parede da predilecção de Braque e Picasso, logo no ano mágico de 1912), por vezes convenientemente amachucados, de modo a sugerir, por exemplo, as três dimensões dos panos de muralha ou as rugas de uma velha vidente, numa das mais conseguidas imagens do livro.

A esses papéis se sobrepõe pontualmente uma imagem fotográfica de um Menino Jesus em porcelana, que será o menino de Genísia, e, nas personagens, as feições – barbas, bigodes, sobrancelhas – desenhadas sobre as superfícies recortadas ou, no rebordo externo delas, cabelos desenhados por, digamos, gatafunho, ou mancha de tinta. Aqui e ali, ao fundo, umas manchas de cor em aguarela (verdes, sobretudo). É claro que tudo isto pressupõe, num ponto final, senão já no intermédio, tecnologia digital: cópia das colagens por scanner, trabalho final de disposição de texto e de retoque da composição. Ou seja, se este livro é um espécime representativo do devir da nossa literatura infantil, ele esclarece-nos que (i) havendo aqui obviamente «literatura» e mesmo uma preocupação em caucionar a sua existência em tradição e poética, (ii) esta é uma modalidade de literatura cada vez mais impensável sem o formato livro, sendo que (iii) este é cada vez mais uma ocorrência dos novos média. O que daqui resulta é que o livro infantil é hoje, em grande medida, a linha da frente da aplicação de inovações tecnológicas na área da tipografia, pelo que a categoria «literatura infantil» é hoje cada vez mais função do «livro infantil» e não ao contrário.

O destino de um texto como o de VAV neste livro é pois, em perfeita lógica, o de ilustrar o show multimédia de Marta Madureira. Talvez isso ajude a perceber a desproporção entre o investimento formal e alguma irrelevância do conteúdo do texto – um texto que o trabalho de MM emoldura numa como que destinação museológica, muito apropriada ao multimédia que é o livro infantil e, já agora, o próprio museu. Sendo que este museu é muito mais adequado a crianças nas imagens do que no texto: este parece destinar-se, em rigor, a um museu etnográfico, enquanto que aquelas integram, de direito, o aparato museológico do vasto espectro dos novos média.

Vergílio Alberto Vieira (2007) O Menino Jesus da Cartolinha. Ilustrações de Marta Madureira. Porto: Campo das Letras. [ISBN: 978-972-41-4264-7]

Osvaldo Manuel Silvestre

%d bloggers like this: