Os Livros Ardem Mal

Fluidez Textual

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Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

Em The Fluid Text: A Theory of Revision and Editing for Book and Screen, John Bryant apresenta uma teoria integrada dos processos de revisão textual, identificando modos e códigos de revisão. O seu objectivo é construir uma síntese entre as teorias elaboradas no âmbito da crítica genética e da teoria do texto social, sem descurar a crítica textual intencionalista. Trata-se, no fundo, de propor instrumentos capazes de conceptualizar as várias formas de instabilidade textual de modo a poderem ser úteis na edição de textos significativamente multiformes. Para isso propõe o conceito de fluidez textual, isto é, a ideia segundo a qual todos os textos existem em mais do que uma versão e que essa alteridade não resulta apenas do processo transmissional, mas está já inscrita no próprio modo de produção literário. A natureza processual do acto criativo implica a multiplicação das manifestações materiais dos textos, seja em pré-publicação ou em pós-publicação. A fluidez textual é testemunho do processo criativo enquanto intencionalidade que se altera e se revê a si mesma, manifestação gráfica dos discursos da cultura e da linguagem que se produzem no sujeito. Bryant lê esse diferimento da obra em termos desconstrucionistas, isto é, como diferimento do sentido e do fechamento da própria obra enquanto tal.

Em geral, a notação convencional usada para dar conta desta dimensão textual relega para um aparato crítico subalterno (em nota ou em apêndice) as marcas do processo de composição e de revisão. Segundo Bryant, a edição ecléctica, ao construir um texto contínuo a partir de diversas fontes oculta a sua própria historicidade e a sua natureza hipotética ou especulativa. Seguindo Jerome McGann, que define o texto como a forma residual de um evento social que depende da colaboração criativa do leitor, Bryant adopta a hermenêutica materialista que localiza o sentido na conjunção entre os códigos linguísticos e os códigos bibliográficos. Por esse motivo, opõe à narratividade da edição crítica tradicional (que apaga a especificidade dos códigos bibliográficos) a necessidade de representar as negociações que ocorrem no processo de revisão textual e que revelam a sua condição social. Propõe um conjunto de códigos de revisão que permitem destrinçar as intencionalidades autorais e editoriais (num sentido lato) que dão forma às versões textuais. Ao mesmo tempo, defende a invenção de formas de notação bibliográfica e electrónica que permitam recombinar texto e aparato crítico, superando a hierarquia e a interrupção inerentes à notação tradicional.

A edição do texto fluído, isto é, a edição que permite tornar legível a fluidez que caracteriza a textualidade, tem levado a repensar as práticas de crítica e edição textual. Com efeito, muitos textos clássicos da história cultural existem enquanto textos múltiplos e em multiplicação continuada. Esta instabilidade material representa a inscrição da historicidade particular do seu modo de produção e de circulação na própria obra, através das versões que a modificam e transformam. Existem nessa condição de textos múltiplos, por exemplo, obras como King Lear, The Prelude, Frankenstein, Leaves of Grass, os poemas de Emily Dickinson, Ulysses, ou Livro do Desassossego. Mas a lista é virtualmente expansível a todo o universo textual, intrinsecamente definido pela proliferação e pela variação. Uma das tentativas dos últimos anos de representar a fluidez textual encontra-se na edição electrónica, ou na combinação da edição electrónica com a edição impressa. O que Bryant sugere é precisamente uma sinergia entre o potencial específico do códice impresso – obrigado, apesar de tudo, a oferecer uma leitura de um texto contínuo – e o potencial específico do computador e do ecrã electrónico – que permitem representar materialmente uma infinidade de variantes textuais na virtualidade do seu modo de simulação gráfica.

Assim, enquanto o livro impresso apresentaria uma selecção crítica dos materiais que documentam as versões de si mesma que a obra contém, o arquivo electrónico conteria todas as versões numa forma sempre actualizável, que tornaria possível representar a intrincada morfologia da flutuação textual no seu processo genético (isto é, de criação autoral) e no seu processo social (isto é, de reprodução e disseminação). Os elementos que Bryant define como componentes da edição do texto fluído centram-se sobretudo nas versões autorais ou resultantes de interacções com o autor, aqui exemplificadas com a obra Typee de Herman Melville. No fundo, trata-se de reconfigurar gráfica e conceptualmente a relação entre texto principal e aparato crítico de anotação que permita apresentá-los perceptualmente e apreendê-los criticamente, na página impressa ou no ecrã. Bryant propõe quatro elementos como princípios da edição do texto fluído: a escolha de uma versão base; a marcação dos sítios de revisão; a marcação das sequências de revisão; e a narrativa de revisão elucidando a sequência, os agentes e os motivos de revisão. Segundo Bryant, uma boa representação crítica da fluidez contribuiria para perceber a interpenetração dinâmica das intenções autorais e dos discursos e formações culturais na configuração das múltiplas versões textuais: «Uma obra literária é mais do que a soma dos seus textos; ela é as energias combinadas das forças individuais e sociais que através de processos de revisão autoral, editorial e cultural passam de uma versão para outra emergindo, de tempos a tempos, sob a forma de documentos para serem lidos por leitores.» (112)

Muitos dos projectos em curso de arquivos literários electrónicos, iniciados em meados da década de 90, constituem de facto tentativas de representar essa fluidez textual que permite aos textos não pararem de se transformar nem enquanto obras dos seus autores, nem enquanto obras dos seus leitores. Vejam-se os quatro arquivos mais extraordinários nessa ambição desmesurada de representar a condição disseminativa e proliferante da textualidade: The Rossetti Archive, The William Blake Archive, Dickinson Electronic Archives e The Walt Whitman Archive. A Obra Completarevista e aumentada (1961-2002) de Américo Rodrigues funciona, de certo modo, ao contrário daqueles arquivos electrónicos, como nos mostra a leitura de Osvaldo Manuel Silvestre. Simulando fixar no texto máximo de uma obra mínima a errata que não se consegue fixar, oferecendo-a mesmo como o todo em que o todo da obra coincide com uma errata errática e, nessa pretensão, vincula o tempo de vida do autor à instabilidade da errata mínima como obra máxima, a sua estratégia é a da incompletude, da incongruência, da contradição e do desvanecimento, corporizada no próprio código bibliográfico: a numeração das páginas e das notas, a miniaturização do formato e das letras, materializam na sua forma gráfica e retórica a incomensurabilidade de um texto que se quer dizer a si mesmo como texto e como vida. O livro-tijolo metido nos sete centímetros que cabem na unha de um dedo. À materialização maximal electrónica da fluidez textual como plenitude arquivística de todos os textos e de todas as formas, opõe-se a materialização minimal dessa fluidez no objecto cada vez mais reduzido na derrisão de se anotar a si mesmo: uma e outra, imagens correlatas da condição textual como germinação proliferativa e como desvanecimento irrepresentável, que reconduzem o mundo simbólico à intextualidade da morte.

Manuel Portela

Bryant, John (2002). The Fluid Text: A Theory of Revision and Editing for Book and Screen. Ann Arbor: The University of Michigan Press. [ISBN 0-472-06815-6]

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