Os Livros Ardem Mal

Da (infeliz) relevância da literatura

Tenho assistido, por intermédio do folhetim disponibilizado por Francisco J. Viegas, aos episódios da polémica desencadeada pela opinião manifestada por José Eduardo Agualusa ao jornal Angolense sobre o valor estético da obra poética de Agostinho Neto, que para o romancista não seria grande coisa. Neto, adianta Agualusa, poderá ter sido uma figura decisiva na luta pela independência, poderá mesmo ter sido «boa pessoa» – qualificação que Agualusa logo modaliza com um prudente «não sei» – mas isso não implica que tenha sido um grande poeta. E quem diz Neto diz ainda outras figuras fundadoras da ideia de Literatura Angolana e, em simultâneo, da ideia de Angola, como António Cardoso ou António Jacinto – diz Agualusa.

O que se seguiu é inteiramente esclarecedor sobre a natureza do regime de Luanda, mas por aí não há propriamente novidade. A novidade, pelos vistos, é o livre exercício do juízo estético no que toca à valia da obra poética de Neto. Juízos muito semelhantes sobre Neto, e ainda mais críticos, já os ouvi eu a vários autores africanos de relevo, ainda que quase todos «no conforto da privacidade». Embora o tópico em pauta – a poesia de Neto – nunca me tenha conseguido interessar, li essa poesia o suficiente para perceber que Neto só pode ser resgatado como «trovador» da Nação. Ele próprio, aliás, assim se define quando proclama ser aquele «por quem se espera». Há porém um oceano de diferença entre dizer Neto um poeta e dizê-lo o «trovador nacional» e essa diferença pode resumir-se assim: se o poeta é passível de juízo e dissenso (é aliás essa a condição de existência da poesia na modernidade), o segundo, que integra uma outra modernidade, a política, configurada em torno da emergência do nacionalismo, parece ser tão insusceptível de crítica quanto a própria ideia de «nação angolana», que tipicamente estaria além (ou aquém) de todos os juízos e de todos os dissensos. Digamos que o consenso sobre a precedência indiscutível da ideia de «nação angolana» é o pressuposto sobre o qual, ou a partir do qual, se poderiam manifestar divergências. Como porém Neto é esse precedente e esse pressuposto, e como Neto foi em simultâneo o Trovador e o Pai Fundador, a natureza daquele precedente e daquele pressuposto impede e bloqueia o reconhecimento de qualquer possibilidade efectiva de dissenso. Será preciso que Neto, e a ideia de «nação angolana» como pressuposto de qualquer divergência, possam tornar-se criticáveis – ou seja, será preciso que Neto morra um bocado mais, e com ele o carácter historicamente «necessário» da ideia de nação de que resultou a actual Angola – para que ambos possam vir a ser debatíveis. Desse ponto de vista, o episódio Agualusa, mais o cortejo patético de reacções suscitadas, demonstra apenas que é ainda demasiado cedo: Neto é demasiado necessário a uma certa ideia de nação – que antes de ser angolana é europeia ou latamente ocidental – para que nação e Neto possam ser já abertamente discutidos.

Isto dito, e como é óbvio, nada garante, e menos ainda exige, que a trova do trovador seja aquilo que ela não necessita de ser. Do trovador que se auto-coloca na raiz da nação, ou que um gesto revisionista aí recoloca, exige-se que seja autor de um canto fundacional – qual o de Neto é e, já agora, o dos trovadores galego-portugueses da Meia Idade. Assim como me parece extravagante supor a grandeza estética de Martim Codax & Co. (um ponto em que Américo Diogo me persuadiu para sempre há muito tempo), também me parece fútil exigir essa grandeza a Neto, cujo campeonato era outro. Os nossos trovadores galego-portugueses, que em rigor nem eram muito nossos, eram manejadores competentes de uma gramática poético-performativa assaz generalizada na época (e não se supunham fundadores de nações ou linhagens idiomático-poéticas, ao contrário do que mais tarde supôs o nacionalismo dos deslumbrados filólogos oitocentistas); e coisa idêntica, em sede de gramática trovadoresca, se pode dizer de Neto, desde que se não deseje dizer mais do que isso ou coisa muito diversa disso. Mas coisa muito diversa temos de dizer de Neto no que respeita à intenção de fundar reino e linhagem, nele muito deliberada.

O perturbador deste episódio é perceber-se que, ao contrário da nossa situação civilizacional em que a «relevância social da literatura» é hoje o nome de uma prática elegíaca, em Angola o episódio Neto evidencia a relevância da literatura em contexto pós-colonial (ou, se se preferir, nacionalista). O nacionalismo foi o outro nome da literatura de Oitocentos – e persistiu em sê-lo em Novecentos, mas em contextos pós-coloniais. Angola precisa de Neto porque, como todas as nações antigamente, precisa de uns Lusíadas, que aqui se chamam, ou se persiste em que se chamem, Sagrada Esperança. Que essa persistência seja função de decreto, e que o decreto emane de um palácio já em tempos ocupado pelo autor do poema em causa, não parece ser decisivo. O que parece ser decisivo é a necessidade histórica e política do poema.

Congratulemo-nos pois com esta pervivência de uma ideia de relevância da literatura. Quanto ao preço a pagar por essa pervivência, Agualusa que se cuide.

Osvaldo Manuel Silvestre

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