Os Livros Ardem Mal

Códigos de (má) conduta

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O recente episódio da resenha não-publicada (ou melhor: censurada) de Dóris Graça Dias (DGD) a Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares (MST), no Expresso, é apenas a última ocorrência de um estado de coisas a que ninguém escapa ileso nos média portugueses. Muito brevemente, eis o talvez essencial sobre a questão:

1. Da qualidade ou não da resenha. De acordo com alguns – Henrique Monteiro, desde logo, MST, claro, e ultimamente o próprio Conselho de Redacção do jornal, além de outros opinadores – o texto em causa confunde resenha com ataque pessoal, pelo que não cumpre a função de uma resenha. É um mau espécime do género, digamos, razão pela qual bem andou o solícito director do Expresso ao não permitir a sua publicação em papel (o que já não sucedeu on line: muito haveria a dizer sobre a net como espaço de alívio da má consciência – deve ser esta a versão jornalística da «catarse» aristotélica). Ora, sejamos claros, por que é que a qualidade da resenha é uma falsa questão? Porque (i) lendo o texto, não me consigo aperceber de uma diferença qualitativa notória entre este e todos os outros que DGD vem publicando no Actual. A sua presença regular é aliás um indício evidente do vácuo crítico do Actual desde há demasiado tempo, situação obviamente sufragada por quem dirige o jornal, não se percebendo pois por que razão este texto deva ser considerado especialmente mau; porque (ii) se uma boa resenha é, como pretende o director do jornal em comunicado entretanto publicado, um texto que pratica «o respectivo enquadramento, por exemplo: Onde se passa a acção da obra? Quais as suas personagens? Qual o tempo histórico que abarca?», isto só significa que o director agora auto-promovido a doutrinador da crítica não só desconhece toda a história da crítica moderna, como seguramente consideraria inaptos para a função críticos como Harold Bloom e Eduardo Lourenço (fico-me por aqui) – assim como consideraria muito apto um Vasco Pulido Valente, que num texto tão demolidor quanto criticamente vesgo arrasou o romance de MST precisamente por lhe fazer as perguntas que Monteiro propõe para o novo decálogo da crítica; porque (iii) se a questão é o ataque mais ou menos feroz, não se percebe como foram publicadas algumas resenhas das mais marcantes de um António Guerreiro, por exemplo; porque (iv), enfim, a maior ou menor qualidade do texto, como a sua natureza supostamente pouco ética, não afecta o ponto essencial, a saber, que houve um efectivo acto de censura. Do ponto de vista deontológico, ter-se permitido que MST lesse o texto antes da sua putativa publicação é mesmo algo que dispensa comentário.

2. Da inexistência de um código de conduta em matérias de crítica. O ponto decisivo, porém, e que ninguém deseja abordar, reside no facto de nenhum jornal português, ou medium em geral, interditar, como devia, a publicação de resenhas sobre obras de colaboradores seus, permanentes (jornalistas) ou externos. Desse ponto de vista, a tradição do Expresso é lendariamente lamentável, já que não só resenhou de forma muito generosa os romances do seu anterior director, em pleno exercício do cargo, como ainda se dispôs a entrevistá-lo longamente sobre eles. Esta situação sistémica, esclareço, abrange gente que pessoalmente aprecio e intelectualmente admiro. Mas não deixa de ser estranha a naturalidade com que entre nós situações destas ocorrem nos jornais de referência, e tanto no Expresso como no Público, achando-se inteiramente natural que, e trato agora deste último, se resenhem no próprio jornal livros e obras de Maria Filomena Mónica, Vasco Pulido Valente ou Pacheco Pereira, seus colaboradores de longa data (todos, aliás, muito morigeradores dos costumes). É por as coisas serem assim que não surpreende que MST veja o seu último romance resenhado no Expresso, órgão de que é actualmente o colunista mais destacado; e é por as coisas serem assim que episódios como o da censura ao texto de DGD são, tarde ou cedo, inevitáveis. Embora, verdade seja dita, talvez se pudesse ter evitado a total falta de decoro patente na explícita intervenção do director do jornal para sanar (ou sanear) o «problema». Afinal de contas, é para coisas destas que existem subalternos na redacção…

Esta situação tem a sua óbvia contraface na resenha que o romance de MST mereceu a Pulido Valente (VPV) e a que o Público concedeu um inusitado destaque, paginando-o fora da secção e do caderno habituais e dando-lhe chamada na primeira página, situação que configura também uma nítida intervenção do director do jornal. Uma vez que a resenha de VPV, seguramente um dos textos mais canhestros – e estranhamente mal compostos – que o autor já escreveu, era apenas um acto de vingança pessoal, como mais ou menos se declarava a abrir, o que daí ficou foi a total sub-rogação da crítica e da ética jornalística pela vingança – do resenhador e do director que se vira privado de um dos seus colunistas mais populares. O ponto é, pois, este: é a confusão de funções entre colunista e escritor com direito inquestionável a resenha que redunda nestas lamentáveis intervenções de quem dirige os jornais e que ora protege os seus «activos» ora os vergasta (ou incita a), assim que eles se transferem para a concorrência.

Adianta pouco, neste contexto, que o Conselho de Redacção do Expresso venha pressurosamente declarar, por meio de uma tortuosa silogística, que não houve censura, pois o acto do director foi «fundamentado». E que, numa manifestação pouco decorosa do triunfo do subconsciente, afirme que «Nesta apreciação, não pesa minimamente o facto de Miguel Sousa Tavares (jornalista e comentador) ser colunista do Expresso. Esta circunstância não deve dar-lhe, enquanto escritor, qualquer vantagem no tratamento editorial e crítico que o Expresso faça de uma sua obra». Notemos como aquilo que devia ser uma interdição deontológica se transforma numa injunção – «não deve dar-lhe» – cujo bom sucesso é por definição impossível de garantir. E como este texto acaba por dizer o que quer a todo o transe ocultar: que o facto de o estatuto de MST «não deve[r] dar-lhe (…) qualquer vantagem» não significa porém que lhe deva permitir qualquer tipo de desvantagem… Como a de se submeter à crítica, com toda a imponderabilidade que tal submissão evidentemente acarreta.

3. Promoções. Quanto à reacção de MST, é apenas um déjà vu. Sempre que alguém o critica mais ferozmente, o autor responde uma de duas coisas: que se trata de questiúnculas pessoais mal resolvidas; que o crítico em causa se quer promover à sua custa. Descarto a primeira possibilidade, que só me parece ponderável nos termos em que a abordei acima, e que MST no fundo não contesta, já que entende incontestável o direito a ver os seus romances resenhados nos jornais de que é colunista. Quanto à segunda, cumpre porém notar que faz todo o sentido: MST é, literariamente, uma criatura da promoção, como sabe todo aquele que já quase chocou com a sua versão em cartão à entrada de uma livraria. A sua legitimidade é a dos números – de páginas, de tiragem, de vendas, de lucros -, pelo que se compreende a avareza com que dispõe deles para uso de terceiros, sobretudo se críticos. De certa forma, a situação de MST dá a ver a impossibilidade de a crítica defrontar obras que, antes de existirem enquanto tais, são ocorrências singulares de um sistema de comunicação de massas e de circulação do capital. Esclareço que não acho que os romances de MST não sejam literatura. São-no, de facto – mas são má literatura (e péssima gramática, já agora). E não o são por serem arte de massas, já que esse é também o estatuto de um J. G. Ballard, seguramente um dos maiores escritores da actualidade. O que não obsta ao reconhecimento de que a ocorrência relativamente recente deste fenómeno entre nós deixou a crítica dividida, e perdida, entre o negacionismo mais ou menos frankfurtiano, nos melhores casos, ou desfundamentado, nos piores (que são os de Dóris Graça Dias e Vasco Pulido Valente) – e a pura extensão do departamento de marketing editorial.

O que o caso da censura do Expresso ao texto de DGD indicia, entre outras coisas, é que o jornal de Henrique Monteiro optou, como todos sabemos há muito, pela última versão da «crítica».

Osvaldo Manuel Silvestre

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