Melville ou o sublime

Será talvez o grande paradigma da ficção americana à sombra tutelar do qual se acolhem escritores tão diversos como Faulkner, Don Dellilo, Thomas Pynchon, ou John Barth.
O que não conhecíamos em português, até onde julgo saber, era o Melville poeta.
Esta lacuna está agora preenchida após estas traduções/versões de Mário Avelar publicadas na Assírio & Alvim. Os poemas de Melville reiteram um tema que é um dos seus tópicos mais inquietantes: a indiferença da natureza aos desígnios do humano. Isto pode ser ilustrado pelo poema magnífico que é «The berg (a dream)» / «O Icebergue (o sonho)», que é também um belo exemplo do que poderá ser a «estética do sublime». Deixo aqui a primeira estrofe (p. 55):
Vi um barco de porte marcial
(de flâmulas ao vento, engalanado)
Como por mera loucura dirigindo-se
Contra um impassível icebergue,
Sem o perturbar, embora o enfatuado barco se afundasse.
O impacto imensos cubos de gelo cair fez,
Soturnos, toneladas esmagando o convés;
Foi essa avalanche, apenas essa –
Nenhum outro movimento, o naufrágio apenas.
Herman Melville. Poemas, Assírio & Alvim. 2009, trad. de Mário Avelar [ISBN 978-972-37-1357-2].
Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (I)
RR Fortuna (1958, Paranhos). Estreou-se com Grãos de Pólen (1978), tendo sido saudado como a voz mais densa da sua geração. O coro crítico manteve-se no longamente aguardado segundo livro, que surgiria apenas em 1994 – Medula da Água -, a que se seguiria, logo no ano seguinte, em volume com a configuração de Obra Completa, e enfeixado aos anteriores, um novo inédito, Alma Orográfica (que passou a ser o título da sua obra poética). O volume coleccionou os maiores prémios de poesia do país e o autor remeteu-se desde então a um mutismo quebrado apenas por uma mão-cheia de poemas editados em revistas. Vem sendo traduzido para vários idiomas. A sua poesia é uma versão do poético como voo intransigente do espírito, inquirição órfica da mínima natureza como dos enigmas e mistérios da paisagem interior desdobrada em panejamentos sem fim, explorando formas como a ode mas em especial o hino, com extensão tendencialmente vasta – e, no seu último livro, coincidindo com um longuíssimo poema apenas. Com a sua obra, a poesia portuguesa recuperou a dicção rilkeana que raramente lhe foi conatural, se excluirmos os promissores poemas de Pascoaes e os hinos à noite, incorrectamente chamados «odes», de Pessoa ou ainda os «mistérios órficos» de António Rosa. De grande impacto na geração posterior, sobretudo em Jorge Felício (v.) e Maria Carlos Maria (v.), a sua poesia vem também exercendo um crescente fascínio sobre a crítica, em especial em Américo Lindeza Diogo e Pedro Mexia (Eduardo Lourenço dedicou-lhe um pequeno mas significativo ensaio, incluído na muito recente versão alargada de Tempo e Poesia).
«Ter falta de tudo, e ter tudo em falta, é o trabalho da sinédoque como figura da aspiração fracassada ao todo. Como é que um todo falta à parte, eis a questão. É preciso de tudo para fazer infimamente um mundo? Talvez… Como proporcioná-lo, eis talvez a questão. E que a parte seja mais integrante, com menos falta de tudo se o todo lhe faltar menos. A poesia é este dizer o que falta – e este dizer em falta».
Comentários Desativados em Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (I)
Dicionário Crítico por Intermitência
Inicio hoje, com esta nota preambular, a publicação daquilo que será uma série de verbetes para uma pequena obra em formato de dicionário sobre a literatura portuguesa de hoje. O primeiro micro-tomo será dedicado à poesia. Depois, se para tanto houver fôlego e inconsciência, surgirá um segundo, para a ficção, e um terceiro, sobre a crítica. Intitula-se a obra Dicionário Crítico por Intermitência (com o subtítulo Uma Descrição da Literatura Portuguesa Contemporânea) e cobre, em cada área, dois tópicos: 1) autores; 2) correntes dominantes. Proponho-a desde já a um editor benévolo ou, o que dá no mesmo, benevolamente hipócrita… Esclareço que creio moderadamente na originalidade deste meu opus, e duvido convictamente da sua pertinência. Mas uma vez que essa é uma boa descrição da minha existência, entrego-me serenamente à tarefa. O vento, como sempre, ajuizará.
Nas entradas sobre autores, deverá o leitor depreender que a citação final, em itálico, é um depoimento do autor. Abstenho-me de historiar miudamente a recolha de tais depoimentos, pois nos domínios do espírito tudo se ganha em abstrair da petite histoire, tantas vezes possuída de uma furiosa paixão pela petitesse. Nas entradas sobre práticas marcantes do campo literário de hoje, os depoimentos serão devidamente atribuídos em nota. Finalmente, esclareço que as entradas serão editadas sem qualquer preocupação de seguir a ordem alfabética, tal como deverá acontecer numa putativa edição em livro. Deixo-o aqui consignado a título de vontade última.
Comentários Desativados em Dicionário Crítico por Intermitência
Da civilização e das bruxas

«-Quem é a tia Em? – perguntou a velhinha.
-É a minha tia que vive no Kansas., o lugar de onde eu venho.
A Bruxa do Norte pareceu pensar durante um bocado, com a cabeça curvada e os olhos postos no chão. Depois, olhando para cima, disse – Não sei onde fica o Kansas, porque nunca ouvi falar nessa terra. Mas, diz-me, é uma terra civilizada?
-Oh, sim – respondeu Dorothy.
– Então, isso explica tudo. Penso que nos países civilizados já não há bruxas, nem feiticeiros, nem feiticeiras, nem mágicos. Mas, sabes, a Terra de Oz nunca foi civilizada, pois estamos separados do resto do mundo. Por isso é que ainda temos bruxas e feiticeiros entre nós.»
Frank Baum, O Feiticeiro de Oz, Tradução de Lúcia do Carmo Cabrita Harris, Colecção Geração Público, 2004, p. 14.
Comentários Desativados em Da civilização e das bruxas
Cannibal & Co. (V)

Um beijo conta-se pelos dedos. Vêm depois do beijo o Natal e o Ano Novo, imaculada conceição da democracia postal dos beijos seráficos:
“amores, os meus
atiro-te um beijo joana dos ratos.
mónica dentes podres a vós lanço-vos uma
promessa de amor. sandra complexo
de mongol, a ti, querida,
um bouquet de jasmins. e tina
andróide apenas uma perna, para ti
carícias na mama esquerda. a
vós todas, mais a fátima carcinoma pelo na venta
a quem introduzo o dedo na vagina,
a todas vós,
feliz natal e excelente ano novo.”
hélio t.
Atirado em bruto pelo enervamento digital, o beijo dá pauladas no nome, qualquer nome de bonina:
Comentários Desativados em Cannibal & Co. (V)
Textos & pretextos
Leio, nos jornais de fim-de-semana, os (poucos e magros) textos sobre livros. Noto que há os que escrevem sobre os textos dos outros para, de algum modo, agradecerem a sua existência. E há os que aparentemente escrevem sobre os textos dos outros mas visam de facto terceiros. São aqueles que fazem dos textos pretextos. O rancor pode sempre mais do que o amor, é o que se aprende nesses moralistas de fim-de-semana.
Comentários Desativados em Textos & pretextos
O visível e o invisível em Paulo Valverde
[Paulo Valverde. Fez agora em Abril passado, mais precisamente no dia 4, dez anos sobre a morte daquele que terá sido porventura um dos mais significativos antropólogos portugueses de sempre. Dir-se-á que é fácil atingir essa meta, porque a concorrência sempre foi de pequena monta. Sim, sem dúvida. Mas para quem alguma vez assistiu a uma aula deste homem que morreu com 37 anos, ou para quem teve o prazer de ler as suas páginas hoje tão esquecidas, a sua celebração é incontornável. Nesse sentido, gostaria de deixar aqui um ensaio meu já com alguns anos que desenvolve algumas linhas de interpretação do que poderá ser a sua escrita e a sua estratégia de recodificação desse «texto» que é a «cultura». O ensaio faz remissões ao livro póstumo que inclui muitos dos seus trabalhos mais teóricos e uma parte que creio substancial dos seus diários e notas de campo. Serve também o presente post para chamar a atenção para esse livro que deverá estar, estou certo disso, a apodrecer, exemplares muitos, nalgum canto escuro de um armazém de refugos. Triste sorte para um prosador extraordinário cuja escrita terá pouquíssimos antecedentes entre nós, e que, no seu melhor, ombreia com páginas de Malinowski e de Leiris. Ah, é verdade, aí vai a referência: Paulo Valverde, Máscara, Mato e Morte. Textos para uma etnografia de São Tomé, Oeiras, Celta, 2000.].
Entre a pequena comunidade de antropólogos sociais portugueses, é reconhecida a enorme perda intelectual e afectiva (sobretudo para aqueles que com ele privaram de perto) que representou o falecimento prematuro de Paulo Valverde (1961-1999). Vítima de malária contraída em São Tomé, Paulo Valverde afirmar-se-á cada vez mais como uma espécie de personificação trágica e mítica da figura do antropólogo enquanto herói. Não no sentido lévi-straussiano do termo, isto é, enquanto herói civilizador capaz de resgatar o fogo sagrado de culturas cujo recorte elegíaco ou crepuscular se tornou forçosamente aparente durante o século XX. Mas antes como aquele que, compreendendo o quanto há de culturamente perverso nas modalidades salavacionistas mais ou menos declaradas mais ou menos conscientes da disciplina, se afadiga em traçar-lhe novos rumos não apenas metodológicos (Paulo Valverde era alguém que, comprometido com uma dada tradição metodológica, o fieldwork situado e localista, parecia cada vez mais incomodado com os seus limites) , mas também, e com especial ênfase, novos rumos analíticos. O heroísmo, a haver um, está na determinação e no seu risco (um risco que ele assumira e que pode ser qualificado igualmente pela intimidade cultural, sem par entre os antropólogos sociais portugueses das últimas décadas, que foi assegurando no terreno). Paulo Valverde acreditava na possibilidade da disciplina se reconstituir enquanto analítica das metanarrativas modernas, entre as quais se encontrariam, certamente, os projectos salvacionistas e politicamente correctos evidenciados por tantos dos seus contemporâneos, e, de forma particularmente indiossincrática e inquestionavelmente sedutora, demonstrava-o através dos seus textos, aulas, e inúmeros momentos de discussão informal de que poderam beneficiar todos aqueles que foram seus alunos e colegas. (more…)
Comentários Desativados em O visível e o invisível em Paulo Valverde
Irvine Welsh e a morte da literatura
O romance de Irvine Welsh, originalmente publicado em 2002, é construído em torno de múltiplas vozes, vozes essas que são reconhecíveis após a leitura do célebre Trainspotting (1996), do qual é, aliás, uma sequela. Welsh é uma espécie de escritor picaresco e joyceano que escreve furiosa e polemicamente sobre a experiência contemporânea.
Um aspecto particularmente interessante prende-se com o uso dos diálogos e dos idiomas locais e de grupo que podemos descobrir aqui em registos diversos, entre os quais se destacam, evidentemente (para quem já conhece Welsh), as práticas e linguagens próprias de uma certa marginalidade/youth culture britânica, de que Welsh é, sem dúvida, um magnífico mitógrafo.
Ninguém há como Welsh para nos mostrar a «fala» dos seus protagonistas, com uma eficácia verdadeiramente estonteante e paródica. Talvez Welsh seja mesmo um dos mais interessantes émulos de Joyce, hoje.
O livro é, aliás, excelente para quem gosta de ver as possibildades literárias do calão a acontecerem na página.
Prefiro citar aqui, porém, o primeiro parágrafo do capítulo com o inefável título de «…punhetas mal batidas…». Aí Welsh mostra-nos através da voz de uma das suas personagens (Nikki), como a literatura já não é o que era, e como ela exige uma reconfiguração dos seus limites e temas:
«Cada vez que mudo de disciplina sinto-me mais fracassada. Contudo, a meu ver, os cursos académicos são como os homens; mesmo o mais fascinante só consegue cativar o nosso interesse durante algum tempo. Agora o Natal já passou e estou outra vez solteira. Mas o facto de mudar de disciplina não é tão angustiante como mudar de instituição pedagógica ou de cidade. Consolo-me por ter ficado na Universidade de Edimburgo um ano inteiro, bem, quase. Foi a Lauren que me convenceu a mudar de curso de literatura para estudos dos media e do cinema. A nova literatura é o cinema, disse ela, citando uma revista idiota qualquer. Como é óbvio, expliquei-lhe que não é nos livros nem no cinema que as pessoas hoje em dia aprendem alguma coisa sobre a narrativa, mas nos jogos de vídeo. Se realmente queremos ser radicais e modernos, devemos passar os nossos dias no salão de jogos do bairro a rivalizar com um monte de gajos anémicos, para garantir o teu lugar nas máquinas» (p. 35).
Irvine Welsh. Porno, Quetzal, 2009, trad. de Colin Ginks [ISBN 978-972-564-759-2].
Comentários Desativados em Irvine Welsh e a morte da literatura
Cannibal & Co. (IV), Contra Arcadia (II)
Ahora el mundo es el escenario de ejércitos de microbios; el apocalipsis amenaza como no había amenazado nunca antes, aunque ahora sea con las formas de la física. En las neurosis, en las psicosis sigue floreciendo la vieja locura. Y también será posible reencontrar allí al devorador de hombres, el antropófago, vestido con un disfraz transparente –no sólo en forma de explotador, de batidor en el molino de huesos del tiempo–. Antes al contrario, el antropófago tal vez aparezca en la forma de serólogo que, rodeado de instrumentos y retortas, medita sobre el modo de transformar el bazo humano, el esternón humano, en materia prima para extraer medicamentos milagrosos. Cuando esto ocurre nos encontramos en el centro del viejo Dahomey, en el centro del antiguo México.
Ernst Jünger, La emboscadura, Andrés Sánchez Pascual, trad., Barcelona, Tusquets, 1988, 176 pp. ISBN: 978-84-7223-850-3.
Comentários Desativados em Cannibal & Co. (IV), Contra Arcadia (II)
OLAM: sessão com António Pinho Vargas

Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 8ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. O convidado é o músico António Pinho Vargas, que além de pianista, compositor e professor de música é ainda ensaísta com dois livros editados, o mais recente Cinco Conferências (2008). Integrou recentemente, como investigador, o Centro de Estudos Sociais, onde prepara uma tese de doutoramento em Sociologia da Cultura. O painel será constituído por Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.
Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes títulos:
Sugestão de Tradução:
Comentários Desativados em OLAM: sessão com António Pinho Vargas
Edgar Allan Poe sem intuição e sem acaso
Poe é um dos portais da modernidade literária. Sem ele, outra seria a nossa percepção do que foram/são Baudelaire, Mallarmé, Eliot, Pessoa, etc. Sem ele, não teríamos muito provavelmente, o drama da emoção e da razão tal como o viveram e expressaram os modernos.
Nos duzentos anos sobre o seu nascimento (Poe nasceu a 19 de Janeiro de 1809 e faleceu a 7 de Outubro de 1849), o mais traduzido dos autores americanos em Portugal, tem nesta Obra Poética Completa uma das suas homenagens mais significaticas.
Poe foi talvez um dos primeiros poetas a explicitar uma poesia por vir, marcada pelos desígnios maiores da ciência. A diluição dos «enigmas» da natureza e do humano, a convivência com um mundo «desencantado», a urgência de recodificação através das lições do gelo que a ciência comportava e comporta inexorovelmente: tudo temas que a poesia de Poe articula de um modo constante, ao mesmo tempo que pretende aceder a um patamar de reinvenção formal da escrita onde se apela a uma exigência de «método» (que o célebre ensaio «A Filosofia da Composição» enuncia).
Esta tensão entre o desencantamento do mundo e a sua requalificação pode ser ilustrada através do poema «Soneto – À Ciência»: «Ciência, ó filha do Tempo Velho! / Que, de olhos coruscantes, tudo espreitas, / Por que rasgas ao poeta o amplo peito, / Abutre de asa rude que se engelha? Como te pode amar, crer-te avisada, / Que o não deixaste andar, errante, ao vento, / Buscando as jóias que há no firmamento / Ainda que o singrasse de asa ousada? / Diana escorraçaste da quadriga, / Do bosque a Hamadríade (fugindo / Ela a abrigar-se em estrela mais amiga), / À Náiade tiraste a onda cava, / Ao elfo o prado, e a mim o tamarindo / Em cuja sombra eu no Verão sonhava.» (OPC, p. 80).
A edição é primorosa, com uma excelente tradução, introdução e notas de Margarida Vale de Gato (uma tradutora que merece referência pela qualidade e quantidade do seu trabalho de tradutora), e com notáveis ilustrações de Filpe Abranches.
Acresce ainda o já referido ensaio “A Filosofia da Composição” (pp. 273-288), onde Poe explicita a génese de «The Raven» (ler p. 277), e nos revela a intenção de uma poesia sem «acaso» e sem «intuição».
É pena que a edição não seja bilingue; porém é compreensível: tal projecto iria seguramente encarecer uma edição desta exigência gráfica.
Edgar Allen Poe, Obra Poética Completa. Tinta-da-China, 2009 [ISBN 978-972-8955-93-9].
Comentários Desativados em Edgar Allan Poe sem intuição e sem acaso
Por uma ciência da civilização

Partidário de uma reflexão iconoclasta projectada sobre alguns dos temas contemporâneos mais problemáticos, em A Loucura de Deus Peter Sloterdijk ocupa-se do inquietante potencial de violência que os três monoteísmos mantêm no mundo actual. Ele pode preludiar, de certa forma, uma «guerra mundial» de um novo tipo, na qual as três grandes religiões com pretensões universalistas se defrontariam num combate total de morte e destruição destinado a obter o monopólio do absoluto e da verdade. Desde logo pela interferência da religião judaica, apoiada numa espécie de contrato «entre um psiquismo grave e grande e um Deus grave e grande». Depois, um cristianismo que conserva muitas das características que o ligam ao judaísmo mas integra «acentos cristológicos» de uma novidade ainda subversiva que lhe conferem uma dinâmica de proselitismo. Por fim um Islão que procurou, desde o seu atribulado início histórico, corrigir as falhas, as «errâncias», dos monoteísmos que o precederam, integrando desde a primeira hora «impulsos religiosos e político-militares» de uma natureza prática e belicosa.
Comentários Desativados em Por uma ciência da civilização
O fim dos bravos

«Com mil demónios! Julgo que não teríamos conseguido se eu não tivesse lá estado!» A frase foi pronunciada pelo Duque de Wellington quatro dias após ter comandado as tropas britânicas, holandesas, belgas e alemãs na batalha de Waterloo, selando aí o destino de Napoleão Bonaparte. Evoca também o tema central deste livro de John Keegan editado há já mais de vinte anos, logo após O Rosto da Batalha. Neste, era o soldado o protagonista, evocado na sua relação com a experiência directa da dor, da vozearia, do terror, da audácia e da exaustão espalhados pelos terrenos do combate. Em A Máscara do Comando é a figura do general ou daquele que assume o comando supremo que se encontra no centro, abordada pelo historiador a partir da leitura de quatro biografias e de quatro diferentes modelos de liderança.
Comentários Desativados em O fim dos bravos
Acabou o Mundo Perfeito
A Isabela decidiu pôr fim ao Mundo Perfeito, após apropriação dos textos dela sobre o período colonial por um blogue racista e de extrema-direita, com a conivência dos comentadores de blogues que, ao contrário do que ocorreria num mundo realmente perfeito, acham que na blogosfera vale tudo.
Comentários Desativados em Acabou o Mundo Perfeito
Vá ser «gauche» na vida
– Você leu ontem o seu mestre Desidério no Público, Pamplinas?
– Leio sempre, como sabe, Q. Religiosamente.
– Notou que ele está do início ao fim a falar da fausse gauche?
– Um leitmotiv magistral!
– Pois: mestre, magistral. Tá bem. Mas olhe lá: por que diabo usa ele sempre a expressão no modo gálico? E por que diabo a esquerda é sempre fausse?
– Ironia transcendental, meu caro. Para o palato de muito poucos… A França é o país da esquerda, desde a Revolução, a França persiste em sair à rua e manifestar-se a torto e direito, a França foi, com Busch, a pátria europeia do anti-americanismo primário…
– Logo, é falsa. A França e a esquerda. Tou a ver. Profundo, de facto… Já a direita, suponho, é sempre true. É o «estado natural do mundo», como dizia o Prof. Lourenço e se percebe bem ao ler o seu mestre.
– Exacto. É como o argumento dele sobre a «ditadura do proletariado»: tudo sempre a reivindicar o apoio do Estado para coisas que ninguém está disposto a aturar: filosofia, latim e grego, filmes de João Botelho. Exacto, desmistificador e profundo.
– Não sei se reparou que essa lista é sem fim… Ou seja, quando se começa, não se acaba: ele, curiosamente, começa e acaba logo, referindo essas coisas que apontou. Não percebo aliás porque não extrai ele todas as consequências do exemplo da escola, que só dá prejuízo ao Estado e seca a toda a gente: pergunte à miudagem, e aos pais dela, o que pensam da escola e vai ver como se trata apenas de mais uma manifestação ditatorial… Devia simplesmente mudar de vida, dado que é prof., e dedicar-se, sei lá, à publicidade, uma vez que é bom em soundbytes. Mas já notou que a existência do jornal em que ele escreve, o Público, é um caso de ditadura do capital?
– Como?!
(more…)
Comentários Desativados em Vá ser «gauche» na vida
Nas Carolinas (Wallace Stevens)

Os lilases murcham nas Carolinas.
Já as borboletas adejam sobre os camarotes.
Já os recém-nascidos interpretam o amor
Nas vozes das mães.
Mãe intemporal,
Como é que teus galantinos mamilos
De uma vez verteram mel?
O pinheiro adoça o meu corpo
A íris branca embeleza-me.
[Trad. Luís Quintais]
Comentários Desativados em Nas Carolinas (Wallace Stevens)
Bénédicte Houart: copyright & chocolates

com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido
com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e
de queixo bem lambuzado
como convém
cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos
com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto
bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto
(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros vêem comer)
Bénédicte Houart, Aluimentos, Lisboa, Livros Cotovia, 2009.
Comentários Desativados em Bénédicte Houart: copyright & chocolates
Acidente e simulação em JG Ballard (pré-publicação)
Negativity is a positive task.
Paul Virilio
De que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa presença reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno-ciência? A pergunta instala-se imediamente num contexto de contornos difusos, mas mesmo assim decisivo para nós. A noção de tecno-ciência faz-nos assumir que o conhecimento científico se inscreve em complexas configurações de natureza social e material que lhe dão a sua gravidade, densidade, e poder. De que forma é que a literatura respondeu às figurações utópicas e distópicas do projecto moderno que visava projectar o mundo de acordo com os preceitos de um conhecimento politicamente necessário porque experimentalmente validável e universalmente verdadeiro?
Como alguém que prefere uma singularidade para fazer ecoar forças de improvável cartografia que a atravessam, sugiro que nos concentremos num exemplo cujas reverberações se tornam, a meu ver, reveladoras. A minha sugestão é que nos atenhamos a uma espécie de genealogia mais ou menos solta da escrita de um romance particularmente influente e sobre o qual se projecta uma luz que gostaria de caracterizar como oracular, isto é, como se se tratasse de um objecto que reclama uma exploração extrema (e extremada) realizada num território de potencialidades que parecem emergir sinuosamente do presente, esse presente que se dilata e que nos colhe irremediavelmente. Estou a falar de Crash (1973) de JG Ballard, e Crash pode ser pensado a montante, porque o livro é o resultado de um conjunto de obsessões que lhe são prévias.
Em conformidade com um dos preceitos ballardianos que nos diz que, para lá das nossas obsessões, pouco haverá que valha a pena ser perseguido, Ballard aventurou-se quase sistematicamente, desde finais da década de sessenta, num território de inquietação profunda a que Freud designou de Das Unheimliche, e a que o antropólogo Victor Turner chamaria certeiramente de liminar, isto é, um território de improvável classificação, porque betwixt-and-between: nem dentro nem fora, mas antes no umbral, aí onde a viscosidade (um mundo que não é líquido e que não é sólido) se torna uma constante afectiva, e onde aquilo que nos fascina é igualmente aquilo que nos repugna.
O cenário é o de um mundo onde se dramatiza e performatiza o espectáculo debordiano de uma sociedade de consumo que faz das derivas tecnológicas – e dos sulcos que estas deixam no tecido da história e da paisagem – uma alavanca para o seu exercício autofágico e onde, polémica e prescientemente, tecno-ciência e pornografia se associam num exercício de reconfiguração do poder e do desejo.
(…)
No seu último Miracles of life, Shanghai to Shepperton: an autobiography (2008), Ballard revisita Crash, revelando-nos, mais uma vez, como se trata um livro profundamente enraizado num período histórico (os sixties) e como a tópica do «acidente» e da (more…)
Comentários Desativados em Acidente e simulação em JG Ballard (pré-publicação)
JG Ballard

Faleceu o nosso correspondente em Shepperton. Leia-se, por exemplo, o obituário do Guardian.
Comentários Desativados em JG Ballard
A noite passada deitei-me com este

«Pela terceira vez o inspector Ryan, da Scotland Yard, atendia Mrs. Plumb, a dolorosa mãe da vítima. Grave, ele disse:
– Ainda nada temos de concreto, Mrs. Plumb. Mas vou dizer-lhe algo que vai impressioná-la, que talvez lhe dê algum conforto moral…
– Ainda haverá confortos para mim, inspector?
– Acabo de receber o relatório da autópsia na Medicina Legal. Contra a nossa convicção, a da senhora e a dos jornais, sua filha, Mrs. Plumb, estava virgem. Morreu imaculada.
– Ainda honesta? – surdinou a mãe, com espanto.
– Exactamente. E este facto, desorienta-nos. Que classe de relações mantinha ela, então, com o homem com quem vivia? É estranho, não lhe parece?
Num pudor nervoso, a abafar os soluços, Mrs. Plumb murmurou:
– Sim… Estranho!… Como já lhes disse, ela ia fazer agora 17 anos, mas desde os 15 que eu andava preocupada. Ela era muito livre… Uma rapariga com personalidade, como agora se diz… Gostava de namorar… Eu não ignorava que ela saía com rapazes…»
W. Strong-Ross, O Subconsciente Viu os Crimes, Coimbra Editora, Lda, 1959, p. 9. [Tradução de Francisco de Azevedo, capa de Pedro Neiva]
Comentários Desativados em A noite passada deitei-me com este
Uma livraria

Ninguém lhe chama “um espaço”. Ninguém lhe chama “um conceito”. Não é multimédia. Não vende café. Não funciona como sala de concertos. Não é um projecto inovador. Não vende pins nem postais. Não é o último grito da vanguarda. Não é uma galeria. Não vende cd’s. É só uma livraria.
Comentários Desativados em Uma livraria
Da paronomásia
– Tive hoje um sonho estranho. Ou melhor: enigmático.
– Então, Pamplinas?
– Olhe, passo a descrever. Estou numa casa grande, com muitos compartimentos e corredores. Na cozinha duas mulheres conversam (suspeito que a minha mãe e a minha avó, mas não consigo ter a certeza). Ao andar pela casa, apercebo-me de que numa saleta há fogo. Retrocedo até à cozinha, procuro um recipiente, uma das mulheres (a minha mãe?) estende-me uma xícara de chá…
– Uma chávena de chá, quer você dizer…
– Hã?
– Já ninguém diz xícara, homem.
– Mais uma razão para não deixar de o dizer. Mas eu conto um sonho aflitivo e você faz comentários filológicos, Q.?
– Não confunda a frequência desinteressada dos dicionários com ciências da linguagem…
– Bom, adiante. Pego na xícara, cheia de chá, e atravesso a casa. Chego ao compartimento a arder (é a mesa do centro que arde) e deito o chá em cima do fogo. Regresso à cozinha, pelo longo corredor, virando à direita e depois à esquerda. Encho a xícara com água e regresso à cena do incêndio. Deito a água sobre o fogo…
– Que nessa altura já seria fogaréu, não?
– «Fogaréu»? Isso é a sua «xícara», não? Mas não, ainda não era. Só aí à quinta viagem é que a coisa se torna preocupante. Toda a mesa arde, as chamas ameaçam o tecto…
– «Lambem o tecto». É assim que (tão eroticamente) se diz nos romances e nas descrições de incêndios nos jornais, neste último caso quando ainda as havia.
(more…)
Comentários Desativados em Da paronomásia
Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (VII)

Colocado expressamente sob signo infausto, Corvo seria a taumaturgia de um território que não sobreviveu. As três epígrafes do livro – Poe, La Fontaine e o rimance de D. Filomena que convém transcrever: «Os corvos lhe comam os olhos e a raiz do coração» – não apenas declaram esse fado como deslocam a questão do território para o plano de uma mediação situável entre poesia e cultura e, ainda, entre o popular e o erudito. O poema inicial, porém, declara o corvo (aqui um devir outronímico do poeta) um taumaturgo de feira – «de ti os vindouros sem penas / farão arroz de cabidela / ou quem sabe torpe gralha, / de corvo corruptela.» -, anunciando a sua desqualificação em gralha, consumada no último acto/poema do livro. Mas declara sobretudo a inutilidade da taumaturgia enquanto protesto que nada pode, tanto quanto a indignação ou revolta nada pode contra a naturalização do devir do mundo do tardo-capitalismo (chamemos-lhe «desertificação do interior», «abandono do mundo agrário» ou «efeitos da globalização»).
A inteligência deste livro reside porém na permanente sobreposição da «lógica do poético» à do mimético e, em consequência, na deflação das nem que apenas tentações de confiar um programa de salvação a um regime ou registo mimético. Os versos que transcrevi do poema inicial tanto são o auto-retrato do corvo enquanto taumaturgo falhado – e como o não seria, sendo ele, em rigor, uma persona vicária, e talvez propiciatória, do mundo secularizado, que delega em corvos e fantasmas os seus desejos inconvictos de crença? -, como são ainda o auto-retrato fiel do poeta moderno, de perfil aliás muito mallarmeano, magnificamente resumido no «inútil protesto / de utilíssimo nada».
Comentários Desativados em Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (VII)
OLAM: sessão com Alexandra Lucas Coelho

Hoje, pelas 18 h, no foyer do Teatro Académico Gil Vicente, terá lugar a 7ª sessão de Os Livros Ardem Mal na temporada de 2008/09. A convidada é Alexandra Lucas Coelho, jornalista do Público e uma das mais consagradas da sua geração, sobretudo na área da grande reportagem e da cultura, com um livro editado sobre o conflito palestiniano, Oriente Próximo (2007). O painel será constituído por Catarina Maia, Luís Quintais, Rui Bebiano e Osvaldo Manuel Silvestre, que moderará.
Na primera parte da sessão serão apresentados os seguintes livros:
Comentários Desativados em OLAM: sessão com Alexandra Lucas Coelho
Tuga Rock goes to university?

O colóquio chama-se Poéticas do Rock em Portugal 2009 – Perspectivas Críticas de uma Literatura Menor e tem lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de 6 a 8 de Abril. Ou seja, começa amanhã, e logo com este senhor. O programa completo pode ser consultado aqui.
Comentários Desativados em Tuga Rock goes to university?
O sentido é revisitação ou uma selva dentro da selva ou por que é que o cérebro não explica a arte ou só a explica parcialmente
Um dos aspectos mais interessantes das chamadas neurociências cognitivas contemporâneas prende-se com a relevância que aí assume uma imagem do cérebro enquanto estrutura dotada de uma complexidade e de uma plasticidade extraordinárias.
A arte pode ser pensada frutuosamente como um aspecto da cognição humana, isto é, como algo que resulta de um processo multiforme de aquisição de conhecimento, e, nesse sentido, como algo que radica em processos que poderíamos descrever como mentais.
O problema começa talvez aqui.
A minha tese é a de que sem cérebro não há mente (o que é, desde Thomas Willis e da «neurocentric age», uma evidência incontestável), mas que a mente não é o cérebro; penso, aliás, que não há consensos alargados sobre aquilo que a mente é, e de que forma é que podemos passar das ontologias na terceira pessoa para as ontologias na primeira pessoa, ou, de outro modo, da objectividade para a subjectividade, e vice versa. Estamos na fronteira, e toda a gente sabe como são as fronteiras que tornam a ciência fascinante, difícil, ou, de outro modo, de exercício quase improvável. Somos confrontados com aquilo que não sabemos, ou, eventualmente, com os limites do que sabemos.
De acordo com uma leitura wittgensteiniana do que se encontra aqui em causa, talvez estejamos perante um problema de linguagem ao dizermos que são os cérebros que pensam.
Wittgenstein ensinou-nos, como nenhum outro, a suspeitar da linguagem. As palavras podem trair-nos e levar-nos a olhar para certos problemas como problemas reais, quando eles não passam de puzzles que devem ser desmontados. Assim, se os estômagos não comem também é muito improvável que os cérebros pensem, ainda que, e volto a enfatizar este ponto, não possa haver pensamento (e todos os seus avatares: consciência, intenção, memória, etc.) sem cérebro.
Comentários Desativados em O sentido é revisitação ou uma selva dentro da selva ou por que é que o cérebro não explica a arte ou só a explica parcialmente
Uma ciência da ciência
Esta é a 2ª. edição de Para uma sociologia da ciência, a tradução portuguesa de Science de La Science et Refléxivité de Pierre Bourdieu (1930-2002). Publicado no ano da sua morte, este curto e denso ensaio pode ser lido de duas formas: como uma introdução aos Estudos Sociais de Ciência (uma das áreas mais polémicas das ciências sociais contemporâneas), e como um modo de percepcionarmos o que Bourdieu, que sempre apelou à «refexividade» na constituição do objecto sociológico, teria a dizer acerca da ciência enquanto «campo», para usar um conceito que lhe é decisivo.
Bourdieu passa em revista os grandes nomes da sociologia da ciência (ou daqueles que ajudaram a circunscrever o seu alcance), desde Merton a David Bloor e ao «strong programme», passando pelo inevitável Thomas Kuhn.
Neste contexto, particularmente acintosas são as páginas sobre Bruno Latour (ver pp. 45-50).
A tradução é de Pedro Elói Duarte.
Pierre Bourdieu (2008) Para uma sociologia da ciência, Lisboa, Edições 70 [ISBN: 978-972-44-1398-3].
Comentários Desativados em Uma ciência da ciência
Inquérito OLAM: Joana Matos Frias

Joana Matos Frias é professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O seu livro O Erro de Hamlet: Poesia e Dialética em Murilo Mendes, venceu o Prémio de Literatura Murilo Mendes, na categoria de Ensaio, tendo sido editado no Rio de Janeiro pela 7 Letras, em 2002. Doutorou-se com uma tese sobre Retórica da Imagem e Poética Imagista na Poesia de Ruy Cinatti. Para as edições Quasi preparou e prefaciou uma antologia de Ana Cristina César. Em colaboração com Luís Adriano Carlos, preparou a edição facsimilada dos Cadernos de Poesia. Tem-se dedicado preferencialmente à literatura portuguesa do período moderno e contemporâneo e, ainda, a questões de teoria literária e retórica e à relação entre a literatura e outras artes. Agradecemos a Joana Matos Frias a disponibilidade para colaborar com o nosso inquérito.
1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
«Só quem nunca pensou chegou alguma vez a uma conclusão»: a provocação de Pessoa salvaguarda com a finura possível a imprecisão das respostas que se seguem, escudada ainda pelo conhecido parecer de Edmund Burke, «a clear idea is […] another name for a little idea».
Com alguma pena por a pergunta não ser «de que livro de ficção portuguesa do século XX mais gosta?», terei que responder que o melhor livro de ficção portuguesa do século XX é Para Sempre, de Vergílio Ferreira (1983). Porquê? Porque é o melhor livro da melhor fase do melhor ficcionista português do século XX. Subentenda-se, naturalmente, «no meu entender», mesmo que aqui a subjectividade aspire à validade geral graças à perspectiva crítica mediada pelo próprio juízo de gosto, onde se cruzam a razão e o sentimento. Para Sempre, escrita do limite no limite da escrita, articula a unidade e a totalidade, e portanto o efeito de harmonia, o estado de perfeição e de acabamento, com a a vertigem da imperfeição e a força fragmentária de um discurso que exprime a tomada de consciência do terrível. Belo e Sublime, portanto, Para Sempre é um romance que atinge os princípios estéticos mais antigos no centro nevrálgico da própria Modernidade, que não convive bem — como sabemos — com categorias apriorísticas. De todas as obras de Vergílio Ferreira pós-Aparição, esta é aquela onde melhor se consumam as características que já conferiram ao autor um lugar único na história da literatura portuguesa do século XX: a prevalência do modo lírico num género tendencialmente narrativo — com todas as implicações de expressão e de conteúdo que tal imprevisibilidade acarreta —, o domínio rigoroso e sempre inesperado das categorias da narrativa — muito em particular do tempo, sua raiz estruturante —, e uma profunda reflexão sobre a condição humana, o pensamento, a palavra e a escrita, ou melhor, sobre a escrita como pensamento, e sobre a palavra como o essencial da condição humana.
Comentários Desativados em Inquérito OLAM: Joana Matos Frias
Sobre o prestígio de uma ideia

António Pinho Vargas começou como pianista, entre o jazz de inspiração free dos anos 60-70, o jazz-rock do mesmo período, e algumas colaborações pontuais na cena pop-rock. Depois evoluiu para uma formação e uma versão de câmara do jazz moderno, algo próxima da chamada sonoridade ECM, reconhecível pela riqueza melódica, singeleza harmónica (neste livro, o autor explica a sua recusa, nessa fase, das «extensões harmónicas» típicas do jazz) e contenção improvisativa, tendo gravado uma série de discos com bom acolhimento público, vários deles premiados. A certa altura, passou para o campo da «música contemporânea», na qual foi praticando e defendendo posições «eclécticas», mas sempre com uma referência matricial à questão da atonalidade. Compôs, entre várias peças, algumas delas editadas em disco, três óperas, uma ainda muito recente e com excelente acolhimento crítico. Este livro, que é o segundo do autor, que entretanto se tornou também professor e assessor nas mais importantes instituições da vida musical do país, membro da direcção da OrchestrUtopica e, ultimamente, investigador do CES, reúne 5 conferências realizadas na Culturgest em 2005, explicadas por um subtítulo muito justo: «Especulações críticas sobre a História da Música do século XX».
O registo do volume é oral e digressivo, não raro humorado e irónico, o tom é didáctico e muito apoiado em textos e excertos de peças musicais, o desenvolvimento dos argumentos e a composição das conferências são mais nítidos e performativos nas conferências iniciais e vão-se tornando algo mais derivativos nas finais, talvez por ao longo do livro ir crescendo uma certa crispação pessimista em torno do legado da música do século XX e da sua situação actual. Não surpreende, uma vez que a música do Século XX – a Nova Música de que falava o filósofo e musicólogo alemão Adorno – é uma questão em aberto e em ferida: sem comunicação, sem público, sem um futuro que se possa rever no essencial da sua matriz e do seu legado, condenada, enfim, a ser eternamente Nova, ou seja, nunca efectivamente popular. De Adorno, Pinho Vargas refere, logo a abrir, A Filosofia da Nova Música e a sua encenação do combate entre Schoenberg, ou o progresso, e Stravinsky, ou a restauração (a reacção, melhor dito). Mas não resiste a citar, logo na p. 20, a frase inicial da sua Teoria Estética, já postumamente editada em 1970, que também não resisto a retomar: «Tornou-se manifesto que tudo o que diz respeito à arte deixou de ser evidente, tanto em si mesma como na sua relação ao todo, e até mesmo o seu direito à existência». É caso para dizer que, assim como a Filosofia da Nova Música é de facto a grande teoria estética do modernismo em todas as artes, a frase que abre a Teoria Estética aplica-se à música antes e acima de todas as outras artes, pois em nenhuma delas as consequências do modernismo foram tão radicais e, aparentemente, irreversíveis ou, se se preferir, danosas – desde logo porque tais consequências parecem funcionar, como que por necessidade, numa teleonomia que se diria inquebrável.
Comentários Desativados em Sobre o prestígio de uma ideia
Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (VI)
A Arcádia transmontana, como vimos antes, é tanto uma retórica da terra como uma retórica da temporalidade. Em «Vida moderna», antepenúltimo poema do livro, o sujeito senta-se numa pedra, «ciente de que a pedra / jamais se recompôs / do poema de Carlos Drummond» e desembrulha uma sandes de queijo que come devagar «enquanto os cavalos olham desconfiados / sem que deixem por isso de pastar». A cuidada disposição da cena evidencia o entre-lugar deste sujeito, que contempla signos oraculares da imobilidade de um mundo enquanto se entrega a uma prática que define a aceleração da vida moderna: a fast food (em versão domesticamente aceitável, digamos). O módico de idílio da cena é porém «comentado», de forma irónica, por um telemóvel que «expulsa» os pássaros:
Mas devia ter deixado
o telemóvel em casa:
trouxe-o comigo,
não tenho por isso agora
pássaros a cantar.
Os pássaros não parecem ser expulsos do mundo, mas antes do poema ou, pelo menos, do mundo que atravessando o sujeito se faz poema: é porque o telemóvel preenche o espaço fenomenal reservado à escuta que os pássaros não conseguem ser (ascender a) matéria textual. Não se trata tanto de declarar «A Arcádia não mora aqui» mas antes de admitir, com o upgrade induzido pelo telemóvel, a constituição tecno-pastoral deste sujeito «transmontano»: uma prótese da (e de) origem, que faz da proximidade ao mundo pastoral uma hipótese diferida por uma infindável série de mediações (a pedra que é afinal, e necessariamente, a de Drummond, o telemóvel que está pelas aves canoras).
Comentários Desativados em Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (VI)
Estes tempos vagarosos (V)
Há um elemento que aproxima o clip do tema de will.i.am sobre Obama do poema de Cláudia Santos Silva: a exploração da estética do preto e branco, no clip e nas fotos que acompanham e «ilustram» o poema. Na era do digital, que é a era da saturação, o p/b parece ter sido chamado à linha da frente de um projecto, informal e disseminado por todo o campo dos suportes artísticos, de reencantamento por primitivização. No cinema, o projecto ocorre ciclicamente, mesmo antes ou, depois, no exterior do digital, mobilizando cineastas maiores ou mais pequenos – Truffaut, Woody Allen, Jarmusch, João Botelho, etc. – e suscitando denúncias como a de Godard a propósito do último Truffaut (o de Vivement dimanche), centrada, se bem recordo, no carácter meramente fetichista de um p/b encarregado de transportar consigo a possibilidade de uma ressurreição do film noir, como se este fosse, apenas, um efeito de fetichismo tecnológico – ou, se se preferir, uma reificação, por via do p/b, do «cinema clássico.
Nos novos média, como a fotografia, o vídeo digital ou a net em versão YouTube, o p/b não é já, necessariamente, função de uma opção de partida por um suporte, como na época da película e da revelação química, mas uma possibilidade mais a jusante, que a tecnologia actual disponibiliza no mesmo plano de uma série de outras: cor ou sépia, por exemplo (Manovich chamou a isto a variabilidade dos novos média, ou seja, a capacidade para os seus objectos existirem em mais do que uma versão). O digital, na medida em que critica poderosamente a aderência clássica da tecnologia ao programa representacional adoptado, corrói o pesado investimento ontológico que a fotografia, mais do que o cinema, sempre fez no p/b, bem patente aliás no carácter excepcional da cor (ou pelo menos drasticamente minoritário) na longa história da fotografia artística, mesmo quando no plano social e mediático (o dos seus usos «médios») o p/b se torna não apenas muito minoritário mas reservado sobretudo àqueles momentos em que os próprios média parecem apelar à ontologia fatal do p/b. Por exemplo, nas fotos de personalidades públicas que quando, no dia posterior ao seu falecimento, chegam à primeira página, o fazem não raro em p/b, num esforço de reencantamento em que o p/b é estratégico para, por contraste, reintroduzir nem que uma reminiscência do carisma do morto (mais tecnicamente, da sua aura).
Comentários Desativados em Estes tempos vagarosos (V)
Inquérito OLAM: Gastão Cruz

Gastão Cruz destacou-se inicialmente na poesia portuguesa como membro do grupo que editou Poesia 61, um dos momentos fortes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Desde então publicou uma obra poética vasta, reunida já por várias vezes, a última das quais em 1999, no volume Poemas Reunidos. Aos seus livros foram atribuídos os mais significativos prémios literários portugueses (Prémio PEN Clube de Poesia, Prémio D. Dinis, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), tendo a sua última colectânea poética, A Moeda do Tempo (2006), conquistado recentemente o prémio Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa 2009. Traduziu poetas e dramaturgos (Blake, Strindberg, Shakespeare), foi um dos fundadores do grupo Teatro Hoje, para o qual encenou várias peças, e dirige a Fundação Luís Miguel Nava, integrando a direcção da revista Relâmpago, editada pela referida Fundação. O seu último livro é A Vida da Poesia, reedição aumentada do livro que inicialmente publicou em 1973 com o título A Poesia Portuguesa Hoje (com 2ª edição em 1999), e que denuncia a preocupação, longa de mais de quatro décadas, de acompanhar criticamente a poesia portuguesa contemporânea, embora não apenas. Agradecemos a Gastão Cruz a disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.
1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
Questão prévia: é claro que não existe “o melhor livro de ficção portuguesa do século XX”; como não existe “o melhor livro de poesia”. Fazer tais escolhas é uma “missão impossível”. E é como “missão impossível” que, assumindo o paradoxo, as perguntas terão de ser respondidas.
Como decidir não arbitrariamente se A Confissão de Lúcio é melhor que A Farsa, se A Casa Grande de Romarigães é melhor que Os Passos em Volta, se Antigas e Novas Andanças do Demónio (em que está incluído “Super Flumina Babylonis”) ou Os Grão-Capitães (em que se integra essa outra obra-prima do conto que se chama “Homenagem ao Papagaio Verde”) superam Pequenos Burgueses ou Finisterra?
Só será possível escolher simbolicamente; isto é, indicar um livro que possa representar a ficção portuguesa do século passado no que ela tem de mais intenso e inovador.
A minha escolha recai sobre A Farsa de Raul Brandão, um livro de 1903, que, há quase quatro décadas, adquiri, na 4 ª edição, com capa de Stuart, das Livrarias Aillaud & Bertrand.
Comentários Desativados em Inquérito OLAM: Gastão Cruz
London, por Borges
O presente volume pode ser uma de três coisas, a saber: uma excelente introdução à obra de Jack London, uma aproximação à constelação literária de Jorge Luis Borges, e um contacto (também ele sensorial e físico) com uma das colecções mais fascinantes de literatura do século XX.
É um modo feliz de nos aproximarmos do trabalho literário de Jack London (1876-1916), autor americano de grande popularidade (foi um dos primeiros escritores americanos a fazer fortuna com a escrita) no seu tempo, e que é justamente considerado um dos brilhantes mestres da narrativa, e em particular do conto.
Borges reviu-se evidentemente em London, e esta colecção de A Biblioteca de Babel, espelha-o. O livro contém seis contos de London, de onde sobressai uma afirmação da literatura enquanto narrativa que Gustavo Rubim, numa notável recensão no Público, identificou como sendo um trabalho que foge habilmente às derivas da interpretação, e onde os acontecimentos dominam o fluxo textual. Escreve Rubim: «[M]as a mestria de London não está no modo como ergue ou insinua uma visão do mundo; está no modo como põe a narrativa acima do sentido, num jogo de esquiva às interpretações» (Ípsilon, 6 de Fevereiro, p. 29).
Trata-se de uma colecção que Borges dirigiu, seleccionando todos os volumes que a compõem, e prefaciando-os com ensaios seus
sobre cada um dos autores escolhidos. É interessante verificar como o grande escritor argentino faz aí ombrear clássicos, como Edgar Allan Poe e Henry James, com escritores relativamente obscuros ou mesmo esquecidos hoje, destacando-se, entre outros, Gustav Meyrink e Arthur Machen.
Esta colecção revela não apenas as predilecções de Borges (uma grande parte vai para autores de língua inglesa), sendo, neste sentido, um modo de acedermos aos seus mestres, mas também a importância capital que o livro – enquanto objecto dotado de valências estéticas (e metafísicas) óbvias – detém no seu imaginário e na própria ideia que temos de literatura.
Neste sentido, importa referir que é o produto de um encontro entre o editor Franco Maria Ricci e Borges, himself, em que o primeiro propôs ao segundo a direcção de uma colecção de obras fantásticas que só podia chamar-se A Biblioteca de Babel. Os livros são belíssimos (como era próprio de Ricci), e a edição da Presença respeita escrupulosamente o grafismo original. (Creio que há uns anos atrás a Vega tentou trazer esta colecção para Portugal, ou copiá-la, com resultados desastrosos em termos gráficos, diga-se).
As traduções são cuidadas. Recomenda-se, pois, vivamente. (Tradução de Maria João da Rocha Afonso).
Jack London (2009) A Mão de Midas, Editorial Presença (colecção A Biblioteca de Babel, dirigida por Jorge Luis Borges). [ISBN: 978-972-23-4069-4]
Comentários Desativados em London, por Borges
Truques baratos
– Que vê você aí no seu portátil, com ar tão atento?
– Uma coisa comovente, Q.! Ora veja, que eu passo de novo.
– …
– …
– Mas que raio, Pamplinas: agora está numa de cinema português?
– Não percebo…
– Homem, uma coisa cheia de deficiências técnicas básicas. Já viu bem esta sonoplastia? Até parece dobragem de antigamente. Está bom para a RTP Memória…
– Por acaso até tem a ver com isso, sim. Mas em versão irónica.
– Pois, só falta agora dizer que isto é intencional… E profundo, imagino!
– E não acha esta história profunda? Uma belíssima história, com suicídio por amor, mordedura de serpente na Arcádia e tudo. Não vejo que se possa oferecer mais peripécias ou ser mais profundo. Todas as histórias do mundo oferecessem tanto…
– Mas se é assim belíssima, não seria curial que o filme o fosse também? E não com este gajo a dar aos queixos em seco?
– Mas Q., se é uma história de amor impossível não lhe parece que seria um truque baixo fazer o que propõe? Já agora, um naco de música de melodrama, da xaroposa, não?
– Nada tenho contra a música de melodrama. Aliás, sou fã de melodramas e dessa «sopa» musical, para usar a expressão rancorosa daquele chato do Straub a propósito da música nos filmes.
– Também eu nada tenho, mas est modus in rebus…
– Hã?!
(more…)
Comentários Desativados em Truques baratos
Transparente
Em Timbuktu, Paul Auster fala de uma invenção por fazer: a torradeira transparente.
“Por que é que a gente não há-de poder ver o pão passar do branco inicial ao castanho dourado, ver a metamorfose com os nossos próprios olhos? Qual é a vantagem de fecharmos o pão a sete chaves e de o escondermos atrás daquela coisa tão feia que é o aço inoxidável? O que eu proponho é vidro transparente, com as espirais cor de laranja refulgindo lá dentro. Seria o Belo em nossas casas.”
Pensem nisto empreendedoras e empreendedores do nosso país. Pensem nisto. E depois digam, como o outro, que “não há almoços grátis”. Ou livros úteis.
Comentários Desativados em Transparente
Invectiva contra os cisnes (Wallace Stevens)

A alma, ó gansos, voa para lá dos parques
E muito para lá das discórdias do vento.
Uma chuva brônzea do sol descendo assinala
a morte do verão, que neste tempo persiste
Como alguém que rabisca um apático testamento
De garatujas douradas e páfias caricaturas,
Legando as vossas penas brancas à lua
E ofertando os vossos delicados movimentos ao ar.
Vejam, já nas longas paradas
Os corvos ungem as estátuas com seus excrementos.
E a alma, ó gansos, sendo solitária, voa
Para lá das vossas indiferentes carruagens, para os céus.
[Trad. Luís Quintais; para a Maria Andresen]
Comentários Desativados em Invectiva contra os cisnes (Wallace Stevens)
Kertész
O escritor Imre Kertész, nascido em 1929 em Budapeste, judeu húngaro, sobrevivente à experiência dos campos de exterminío, e Prémio Nobel da literatura do ano de 2002, é, sem dúvida, um escritor notável. A inteligência narrativa de Kertész, a acuidade e sobriedade estilísticas, o significado moral dos seus textos, não encontram grandes paralelos na ficção contemporânea, a não ser, talvez, em JM Coetzee.
Kertész, desde que ganhou o Nobel, tornou-se um escritor traduzido e amplamente divulgado. Em Portugal existem já algumas traduções, destacando-se, pela Editorial Presença, a publicação de A Recusa, Sem Destino, e Kaddish Para Uma Criança Que Não Vai Nascer, um tríptico que parte da sua memória do intolerável em Auschwitz e Buchenwald.
Detective Story (2009), em tradução inglesa de Detekívtörténet (1977), reflecte em grande medida a dimensão fortemente moral e política do seu percurso de escritor. Trata-se de um romance que se detém no espaço interior de um homem, um torturador. O cenário é o de uma prisão num país sem nome da América latina. Um regime ditatorial chegou ao seu fim, e esse homem, Antonio Martens está encarcerado a cumprir uma pena por ter pertencido à polícia secreta que torturou e executou Enrique Salinas e seu pai, Frederigo.
O texto é escrito na primeira pessoa do singular – é fundamentalmente um texto confessional, procurando justamente captar a voz de Martens -, fazendo incorporar ainda fragmentos de um diário de Enrique (que se encontram na posse de Martens), o jovem brutalmente assassinado pela polícia secreta. Assim, temos aqui uma ficção que procura mergulhar na psicologia profunda, na subjectividade extrema, do vitimizador e da vítima, numa tensão entre inocência e cinismo, magnificamente trabalhada por Kertész.
Imre Kertész (2009) Detective story, Vintage [ISBN 978-0099523390]
Comentários Desativados em Kertész
Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (V)
O que é, em Corvo, essa programática (e problemática) «retórica da terra»? Nada menos, para começar, e para começarmos pelo poema que tal expressão convoca, do que uma ars oblivionis, cumprida com o zelo que se vota aos impossíveis:
Cumprimos com zelo
a tarefa de esquecer a terra
até que surpreendidos por camélias
num quintal abandonado
escrevemos livros onde lembramos
a terra que esquecemos
e de tal sorte escritos
morremos.
Os versos parecem propor a reversibilidade de amnésia e anamnese: a camélia no «quintal abandonado» reintroduz no sistema a memória que pela escrita se eleva a algo assim como um imperativo. O correlato objectivo da memória recuperada que é a camélia é porém tão performativamente contraditório como o livro: ambos ratificam, por «surpresa» ou vanidade, a distância infranqueável da terra – essa entidade só convocável afinal por uma retórica – e são por isso, cada um à sua maneira, assinaturas (e tatuagens) de uma mão inútil.
Comentários Desativados em Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (V)



Comentários Desativados em Melville ou o sublime