Os Livros Ardem Mal

Transgressão conceptual

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Recensões by Luís Quintais on Terça-feira, 29-04-2008

Deleuze é, como se sabe, um pensador da explosão conceptual. Uma parte muito significativa da história do pensamento canónico euro-americano na qual nos revemos pode ser descrita através de uma diferença entre aqueles que procedem por análise e contenção e aqueles que procedem por explosão. Wittgenstein será certamente um dos exemplos mais emblemáticos da contenção e Deleuze um dos exemplos – senão o exemplo mais significativo – da explosão. Minimalismo e maximalismo seriam certamente duas expressões muito adequadas para caracterizar esta irredutibilidade. Sinal dessa irredutibilidade é a recusa liminar que Deleuze faz de toda ou qualquer consideração útil do pensamento de Wittgenstein.

Confesso que esta aporia – a existir aporia – me parece produtiva. Como se, em certos momentos, o meu perspectivismo reclamasse a cautela analítica de Wittgenstein, e noutros, o maximalismo de Deleuze. Isto porque certos problemas podem ser dissolvidos como pseudo-problemas, e outros se me afiguram reais problemas – e problemas «complexos» – que exigem uma espécie de transgressão conceptual, uma forma de recalibragem do complexo pelo complexo que só Deleuze nos permite.

Um dos aspectos desta abertura à complexidade em Deleuze prende-se com o modo como o seu pensamento convoca – e é contaminado por – universos tão distintos como a literatura, as artes plásticas, o cinema, ou certos sectores do conhecimento científico (desde a neurobiologia à biologia molecular). Deleuze procede através de diagonais – insuspeitas diagonais – que nos fazem lembrar a noção de “enunciado” de Foucault (com quem o pensamento de Deleuze estabelece uma relação de mútua fertilização). Mais que um criador de conceitos (como seria tarefa da filosofia), Deleuze é um criador de enunciados, isto é, de multiplicidades, de heterogeneidades. Deleuze (ou o contínuo Deleuze-Guattari) é uma máquina ou um distribuidor de conexões e diferenças. Ninguém como Deleuze (ou, mais uma vez, o contínuo Deleuze-Guattari) para suspender ou rasurar toda a lógica do autor que não será certamente diversa da lógica do cogito ou da funesta lógica da identidade.

Esta máquina de fazer conexões trouxe-nos uma ruptura também com um pensamento (uma parte muito significativa do cânone) que teima em proceder no interior de uma matriz que vai do particular para o geral e do geral para o particular. Um pensamento arborescente a que Deleuze responde com um pensamento rizomático, transverso, sem centro, sem origem. Pensar os universais é aqui pensar a repetição da diferença, o que nos poderá levar a reconsiderar seriamente quase tudo o que passa por filosofia, arte, e ciência. Como antropólogo, diria que é o fim da antropologia, ou, mais seriamente, um recomeço, o único recomeço que poderemos sequer cogitar. Uma nova forma de realismo passará eventualmente por aqui.

Poucos são os exemplos prévios. Talvez somente Espinosa, Nietzsche, ou Bergson o tenham logrado também (aliás, estas serão, com David Hume, as maiores e assumidas influências de Deleuze). Talvez só um neurocientista como Gerald Edelman (em certos aspectos do seu darwinismo neuronal) nos permita, hoje, apreciar as virtualidades (mais que as virtudes) deste pensamento de intensidades e planaltos. O seu alcance reclama uma leitura atenta de Manuel DeLanda ou de Brian Massumi.

Deleuze enlouqueceu o pensamento filosófico euro-americano através de uma aventura na twilight zone. Uma vez visitado esse espaço de aventura e criação – uma vez reiterado esse devir de perene repetição e diferença – não nos será certamente possível voltar a frequentar as fundações supostamente seguras de uma tradição sem a percepção do desgosto e da perda.

(Tudo isto poderá servir como homenagem à recente edição portuguesa de Mil Planaltos Capitalismo e Esquizofrenia 2 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela Assírio & Alvim com tradução de Rafael Godinho.)

Luís Quintais

Gilles Deleuze & Félix Guattari (2008) Mil Planaltos Capitalismo e Esquizofrenia 2, Lisboa, Assírio & Alvim, 653 pp. [ISBN: 978-972-37-1272-8]

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Aproveitando o embalo do «Maio» (I)

Posted in Comentários, Recensões by Miguel Cardina on Segunda-feira, 28-04-2008

Os quarenta anos do «Maio de 68», que aí se aproximam, são uma óptima oportunidade para questionar o legado desse tempo e passar em revista alguns contributos sobre os «quentes anos sessenta». Aparentemente, o campo editorial português ainda não descobriu esse filão e são pouquíssimas as obras de autores estrangeiros sobre o período. Se é provável que apareça com alguma rapidez a tradução de Forget 68, de Daniel Cohn-Bendit, a disponibilização em português de obras como The Year of the Barricades, de David Caute, ou 1968. The Year that Rocked the World, de Mark Kurlansky, seriam porventura mais úteis para se compreender a explosão contestatária ocorrida nesse «ano-metáfora».

Esta última obra segue o percurso da erupção abundante de tumultos ocorridos durante esse ano de 1968, momento histórico marcado por um difuso «desejo de rebelião, uma sensação de recusa da ordem estabelecida, e um profundo desagrado perante todas as formas de autoritarismo» (p.17). Às revoltas estudantis, tema incontornável dos discursos sobre este período, Kurlansky dedica uma parte significativa do texto. Polónia, França, México, Checoslováquia e Estados Unidos da América são, neste particular, os territórios analisados. Não há, contudo, a intenção de ler ’68 tendo apenas como referência aquilo que nos recintos universitários ia sucedendo. Ao invés, Kurlansky procura efectuar um desenho das mudanças ocorridas nesse «momento de assombrosa modernidade» e de «ingenuidade quase pitoresca» (p.19) que, nos mais variados domínios rejeitava um mundo autoritário, herdado das cinzas da II Guerra Mundial.

É a realidade americana que serve de modelo de abordagem, ocupando, aliás, mais de metade dos capítulos. Se isto pode parecer, à primeira vista, uma fraqueza do texto, por outro, o desenho do clima político-geracional que atravessa este território permite dar conta de uma série de fenómenos que não deixaram de ter impacto noutros países. De facto, uma das razões da coincidência cronológica da rebeldia está precisamente na existência de uma cultura juvenil, partilhada por faixas crescentes das juventudes urbanas escolarizadas em diferentes latitudes, uma boa parte dela proveniente dos Estados Unidos da América, e que era agora difundida a larga escala pelos meios de comunicação de massa. Foi, aliás, precisamente em 1968 que o sociólogo canadiano Marshall McLuhan criou a expressão «aldeia global» para designar essa nova realidade.

A partir da edição espanhola: Mark Kurlansky (2005), 1968. El año que conmocionó al mundo. Tradução de Patrícia Antón. Barcelona: Destino. 557 pp. [ISBN: 84-233-3706-5]

Miguel Cardina

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O tecno-encantamento como motivo e causa

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Notícias, Recensões by Luís Quintais on Quinta-feira, 10-04-2008

A Nada ocupa um espaço de interrogação incomum: trata-de de pensar as relações entre arte, ciência, e tecnologia no presente. De alguma forma, trata-de de equacionar aquilo que parece estar em permanente conflito com uma certa acepção de modernidade à la Weber, entendida esta como uma tópica do desencantamento, de que a racionalidade científica seria o veículo e o desígnio.

Os seus já inúmeros colaboradores (o primeiro número é de Novembro de 2003) têm vindo a procurar enunciar as preposições, o entre, os interstícios da cultura tecnológica, tomando como dado axial algo que é motivo de perturbação para tantos: afinal a modernidade desdobrou e remapeou possibilidades de encantamento, de excesso ou dispêndio (como escreveria certamente Bataille) que os sacerdotes da Razão não previram.

De alguma forma, a Nada assume que a modernidade só pode ser pensada como um momento histórico em que o encantamento do mundo é reconfigurado protésica e tecnologicamente. A noção de híbrido enfileira aqui, ou, de outro modo, a de monstro. Poderíamos, aliás, divertir-nos dizendo (elogiosamente) que se trata da única revista sobre monstros escrita em Português e distribuída pelo mundo fora (agora também em Barcelona e São Paulo), e poderíamos ainda, de forma mais séria, dizer que é uma revista de tese: trata-de cartografar as logísticas que a percepção tecnológica assume na paisagem contemporânea, qual a sua fenomenologia, quais as suas qualidades sensíveis, as suas metamorfoses e os seus rizomas.

Um dos exemplos desta ponderação prende-se com a bio-arte, e é comum encontrarmos na Nada textos de e sobre figuras destacadas deste campo de intensidades do presente, onde se destaca o trabalho da portuguesa Marta de Menezes.

O número 10 contém ensaios de Jorge Leandro Rosa, Luís Graça, Susana Ventura, Byron Kaldis, Daniel Innerarity, e Susana Viegas. Destaque para duas entrevistas: uma com José Luís Garcia e outra com Rudolf Bannasch. Este número contém ainda experiências literárias e conceptuais só possíveis numa revista que vive serenamente fora do espaço académico, pese embora a sua atenção para com aquilo que de mais estimulante se passa dentro da academia. Encontramos aí, por exemplo, duas interpelantes incursões de Adam Zaretsky, «Birdland» e «Balde de Facs».

Convém ainda destacar o belíssimo conto de João Urbano, «O Homem Sem Bagagem».

Ah, é verdade, o grafismo da revista é exemplar.

Nada, 2007, Novembro, Nº 10.

Luís Quintais

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Num esguicho infindável de esperma e refrigerante de motores

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sábado, 05-04-2008

JG Ballard é um escritor que apela constantemente à ideia de cenário. Em frequentes momentos do seu trabalho e em vários depoimentos, Ballard fala-nos da contingência de todos os cenários, e do modo como estes podem ser removidos de um momento para o outro para nos confrontarmos com a inumanidade do mundo e, sobretudo, com a inumanidade dos humanos.

A natureza humana não suporta tanta realidade, e daí a exigência do cenário ou do reflexo no escudo, como Perseu, incapaz de olhar a górgona de frente. O mundo em que vivemos – esse mundo do pós-guerra submerso e insensorializado pelo consumo – é afinal um «enorme romance». Como fugir ao enorme romance em que se transformaram as nossas vidas?

De duas formas. Através de uma distância terâpeutica que nos permita adestrar as nossas faculdades morais – e Ballard é um autor da distância, da simulação, do laboratório, em suma, um escritor de ideias que ensaia constantemente uma geometria moral -, ou através de um acto de implicação violenta.

Ballard socorre-se da distância para testar/simular/anatomizar a violência como manobra de reconfiguração moral. Em Crash (1973) o acidente é a parábola de uma desocultação: a tecnologia é a expressão mais acabada da inevitável auto-superação do humano, a particularidade definicional que lhe cabe em direcção à hybris do desejo e da irracionalidade sem freio.

Lembremo-nos então dos seus magníficos passeios de bicicleta em criança por uma Xangai controlada pelos japoneses, onde assiste a momentos de extrema crueldade. Ballard é um produto da guerra, e o que ele faz, como alguém que aprendeu desde cedo a observar o comportamento dos humanos face à urgência e à necessidade (que os metamorfoseia em seres eminentemente morais), é bascular o pensamento na imprecisão que se instala entre o cenário e a crueza (e o improvável) de um mundo sem cenários. O que acontece quando alguém atravessa de um modo quase imperceptível (e depois de um modo escandalosamente perceptível) a fronteira que parece separar a urbe-cenário da «realidade», a mais insolúvel das categorias? Esta é a grande pergunta que atravessa transversalmente toda a sua produção literária.

Veja-se o título, ou melhor, o subtítulo do seu último (e talvez derradeiro) livro: From Shangai to Shepperton. Xangai: a heterotopia da infância tomada como lugar de máxima atenção ao cristal de crueldade que a guerra convoca. Shepperton (os mais famosos estúdios de cinema ingleses situam-se na área): a heterotopia do cinema, isto é, do cenário que esconde, que recorta, que ilude (mas também do écran, esse plano onde se projecta a multidimensionalidade do desejo ilimitado, da inconsolada desrazão que habita a carne). Estes dois lugares cruzar-se-iam um dia: Spielberg reconstruiu uma parte da Xangai de Ballard em Shepperton quando realizou o seu Empire of the Sun (1987), e é muito sugestiva a descrição que Ballard nos dá do episódio em Miracles of Life:

Several of my neighbours in Sheppeton worked as extras, drawn by the nearby film studios, and took part in the scenes shot in England. I vividly remember the mother of a girl at the same school as my daughters calling out to me: «We’re going back to Shanghai, Mr Ballard. We’re in the film…» I had the uncanny sense that I had chosen to live in Shepperton in 1960 because I knew unconsciously that I would write a novel about Shanghai, and that extras among my neighbours would one day appear in a film based on the novel (p. 258).

Esta recursividade entre Xangai e Shepperton é, pois, a recursividade entre a crueza da guerra como experiência limite que põe à prova a tessitura do humano e as logísticas de mediação que o cinema reclama. Em Crash tal tensão está presente de modo insuperável, e o acidente integral que Vaughan antevê, assume contornos apocalípticos, revelatórios, tal como em Virilio:

Neste mundo iluminado pela violência e pela tecnologia, ele [Vaughan] estava agora a guiar para sempre a cento e sessenta à hora numa auto-estrada vazia, deixando para trás estações de serviço desertas na orla de vastos campos, esperando por um único carro vindo ao seu encontro. No seu espírito, Vaughan via o mundo inteiro a perecer num desastre de automóvel simultâneo, milhões de veículos precipitando-se uns contra os outros numa cópula definitiva, que culminaria num esguicho infindável de esperma e refrigerante de motores (pp. 36-37).

É esta tensão – espacializada, sempre espacializada – entre a violência como estratégia global e revelatória e o cenário a destruir (inevitavelmente) que Ballard faz convocar transversalmente. As figurações do humano emergem aí «iluminadas pela violência e pela tecnologia».

Luís Quintais

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Lisboa, Luanda e volta

Posted in Crítica, Recensões by Rui Bebiano on Segunda-feira, 31-03-2008

LuandaApós muitos anos de emudecimento e de pudor impostos pela excessiva proximidade dos acontecimentos e do seu perceptível efeito traumático, multiplicam-se agora em Portugal as publicações que aludem ao passado recente de Angola. Estudos históricos, ensaios sobre a realidade pré-independência, livros de memórias, álbuns fotográficos, romances, reportagens, tomam e retomam, quase sempre sob uma perspectiva europeia, temas durante muito tempo silenciados ou reduzidos ao rumor. A paz podre implodida em 1961, a guerra colonial e as suas circunstâncias, o confronto fratricida de Maio de 1977, os mais recentes anos da guerra civil e da inacabada construção da democracia, são os temas-tempos escolhidos. Mas tem sido ignorada a fase particularmente crítica e conturbada, povoada de intensos dramas humanos, que correspondeu ao período que vai do 25 de Abril à proclamação da independência em Novembro de 1975. Esta ausência acaba de ser parcialmente superada com a publicação de O Último Ano em Luanda, o último romance de Tiago Rebelo.

Trata-se de uma obra manifestamente realista e assumidamente autobiográfica, integrada na recente voga do romance histórico destinado a um público sedento de narrativas empolgantes – como é sabido, coisa raríssima na literatura portuguesa contemporânea – e escrita sem grandes complexidades estilísticas. De facto, apesar de na sua página da Internet o autor se auto-representar como «um dos romancistas mais importantes das letras portuguesas», trata-se essencialmente de um caso de competente literatura de entretenimento, destinada, não duvido, a ocupar um dos «lugares cimeiros das principais tabelas de vendas nacionais» e a suscitar alvoroço e comoções entre o grande número de portugueses que viveram aqueles longos meses de brasa ou que deles colheram os ecos. Coisa que não constitui defeito, ou serve de atestado de menoridade, diga-se. Não é esse, porém, o aspecto que esta nota de leitura pretende destacar. [continua aqui >>>]

Rui Bebiano

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Viva a Morte!

Posted in Crítica, Recensões by Rui Bebiano on Segunda-feira, 24-03-2008

PerdedorHá alguns anos, em crónica do El País, Mario Vargas Llosa considerava excessivamente apocalíptico o mundo segundo Hans Magnus Enzensberger. Não sabemos se o escritor peruano, que parece cada vez mais céptico em relação à actualidade, dirá hoje a mesma coisa. Mas podemos reconhecer, sem grande margem de erro, que Enzensberger tem mantido a coerência na sua forma irónica e desiludida, ritmada «com raiva e paciência», de olhar a parte da realidade que lhe cabe.

Em 1992-93 publicou dois pequenos ensaios, Perspectivas da Guerra Civil e A Grande Migração (ambos editados em 1998 pela Relógio d’Água, num volume que levou o título do primeiro), nos quais aportava já a uma «cultura do ódio» tendente a multiplicar, dia após dia, os conflitos armados e a insegurança nas ruas. No final do segundo texto, referindo-se aqueles que municiavam este estado das coisas, considerava que «o instinto de autoconservação dessas pessoas é menos marcado do que geralmente se pensa». Em 2006 alargou esta percepção na edição revista de um artigo, escrito originalmente para o Der Spiegel, que a Sextante Editora acaba de traduzir sob o título Os homens do terror. Ensaio sobre o perdedor radical.

Enzensberger vira-se aqui para o protagonista, particularmente agressivo e perigoso, dessa violência que não cessa de subjugar o planeta, tornando virtualmente arriscado qualquer lugar ainda há pouco tempo tomado como tranquilo e seguro. Para o perdedor radical, que vive do lado de fora das civilidades comuns, das sociabilidades transparentes, incapaz de as adoptar ou de com elas tratar, e busca a redenção desse estado de auto-exclusão através do recurso a um terror sem piedade que tudo esmaga.

Este perdedor radical não pode ser, todavia, comparado ao simples falhado. Enquanto este se resigna com a sua sorte, esperando por melhores dias ou por uma oportunidade providencial, aquele «isola-se, torna-se invisível, cuida dos seus fantasmas, concentra a sua energia e espera pela sua hora» (p.10). O tempo da vingança é então preparado cuidadosamente, fora da luta de massas (age sozinho, ou em conjugação com outras solidões) e das aproximações impróprias para a missão que o deslumbra (é quase sempre homem, e instado à misoginia). Incapaz de reconhecer-se culpado do seu isolamento, da sua incapacidade para se inscrever num quadro social criador e optimista, projecta sobre os outros a causa da sua própria miséria. [continua aqui >>>]

Rui Bebiano

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Guerra Incivil

Posted in Recensões by Pedro Serra on Sábado, 16-02-2008

La Guerra Que Nos Han ContadoA páginas tantas, no livro La guerra que nos han contado. El 36 y nosotros (2006) de Jesús Izquierdo y Pablo Sánchez León, os autores reclamam «Um mapa ou um dicionário» a fazer. Dicionário que, formulam, «no es un vocabulario. Tampoco es un elenco de términos dispuestos por orden alfabético». Ressonâncias foucaultianas, pois, neste dicionário de uma ordem discursiva que os historiadores concebem como complexa pragmática vocabular que refracta um «mundo que se nos insinua por detrás de esas palabras permanec[iendo] opaco». Jesús Izquierdo e Pablo Sánchez León, diríamos, propõem um dicionário de palavras em regime moderno, um dicionário de palavras que matam, palavras guerreiras. Eric Hobsbawm começa o seu tríptico de estudos dedicados ao período da história ocidental que vai de 1789 a 1914 – da Revolução Francesa até à eclosão da Primeira Guerra Mundial – destacando a importância das palavras para o conhecimento do mundo moderno, para o conhecimento da «Modernidade»: «As palavras – assevera o autor de The Age of Revolution são testemunhas que muito frequentemente falam mais alto que os documentos». A Modernidade, neste sentido, enquanto complexa etapa de profundas transformações, é perspectivada como um acontecimento que implica a significação e a poiesis verbal. O «mais alto» que as palavras falam requer, para ser audível, mais do que arquivo documental – se bem que seja, sem dúvida, necessário –, a captação dessas mudanças significativas e dessa poética da significação.

Talvez que sempre se nos estejam a contar guerras; talvez que todo o presente, futuro do passado, seja predicado na infinita narração da incontornável violência bélica. Um dos lances fundamentais do livro La guerra que nos han contado estriba-se no facto de que as palavras da Guerra de 36-39 foram continuadas por uma «guerra de palavras». Jesús Izquierdo y Pablo Sánchez León vão desdobrando este quiasmo. Não menos notória é a cartografia do comportamento da discursividade coeva em determinados momentos álgidos: o ano de 31 e o advento da República, os anos de 34, 36 e 39. Igual tratamento é dado, ainda, à discursividade «académica» que sobreveio e nos vai sendo interrogada na sua opacidade e seus agonismos, agonismos determinados por implacáveis escatologias. O dicionário a fazer é o dicionário destas ordens discursivas.

A demanda, por parte dos autores, de um dicionário certamente impossível, obedece, em última instância, a um imperativo ético. Próximos dos textos e da sua subordinação a um gesto interpretativo, a pulsão da escrita de Jesús Izquierdo e Pablo Sánchez León é modulada como acto cívico. Historiadores, sim, mas é todavia a partir da construção de uma «cidadania» ainda por vir que pensam e escrevem La guerra que nos han contado. El 36 y nosostros. O historiador não ocupa um lugar auto-complacente – como tão-pouco supõe auto-complacência a memória e a história a que nos convidam –; é, em suma, um lugar ético. Não se trata de uma ética relativista, antes é entendida fundamentalmente como operador heurístico. Um lance metodológico que responde cabalmente à necessidade de «estranhar» o passado, à necessidade de lê-lo sabendo-o opaco. O livro vai reflectindo en abyme sobre o trabalho historiográfico de um modo propedêutico. A suspensão do juízo moral é extensão da pulsão crítica necessária para situar as “palavras de guerra” e a “guerra de palavras” no seu contexto histórico. Ainda, o momento propriamente interpretativo-explicativo é articulado em função do lugar moral ou cívico – o lugar do cidadão – que é precisamente o sujeito que escava um abismo entre o presente e o passado com que o presente continua a ter que enfrentar-se. O momento culminante é aquele em que os autores reclamam, como corolário do seu trabalho, um direito, o seguinte direito: «Éstos son los motivos para ser cautelosos a la hora de seguir hablando de la guerra de 36 como una guerra civil. Somos nosotros los que denominamos aquel proceso con este nombre; al hacerlo estamos, no obstante, hablando de nuestra guerra, no de la suya, la de nuestros antepasados y abuelos que pelearon en ella o fueron sus víctimas. Para evitar seguir impostando a quienes la vivieron en nombre de quienes la contamos, en este libro hemos optado por dejar de emplear esa denominación de ‘guerra civil’ habitual en todos los relatos del último medio siglo. Es una opción a la que creemos tener derecho». Não é apenas uma questão de palavras, as questões de palavras nunca são só de palavras. Sem sujeitos «civis», a guerra foi «social» ou «de religião». Assim, onde se vai lendo Guerra Civil, deverá ler-se Guerra Social ou Guerra de Religião. Ou, ainda, Guerra Incivil.

Recordar a linguagem é o cerne do livro La guerra que nos ha contado. El 36 y nosotros. Recordar a linguagem é repetir a linguagem na sua diferença. Em todo o caso: a palavra – enquanto revólver carregado, enquanto dinamite – é-nos mostrada no centro dos processos históricos. Jesús Izquierdo e Pablo Sánchez León, ‘netos’ da Guerra Incivil de Espanha, escrevem para recuperar a irrecuperável língua da infância: «Nosotros en cambio estamos convencidos de que sin el concurso de esas palabras no se podrían haber hecho las cosas que se hicieron. Las que contiene este texto tienen cierta relevancia para la peripecia de dos niños que de pequeños leyeron –o creen haber leído– que su colegio fue destruido por una ‘hordas marxistas’, ya que arroja una importante luz acerca del sentido de aquella estela conmemorativa, y de paso de toda la racionalidad subyacente a esas palabras que mataban». Jesús Izquierdo y Pablo Sánchez León, no seu livro, re-lêem/repetem a memória dessa infantil placa [esp. estela] do ‘Colegio Ramiro de Maeztu’, uma placa que é como aquela concha de que falava Nietzsche: «Um instrumento de sopro feio para a vista: primeiro é preciso soprá-lo».

Jesús Izquierdo e Pablo Sánchez León (2006), La guerra que nos han contado: 1936 y nosotros. Madrid: Alianza Editorial. 320 pp. [ISBN: 84-206-4813-2]

Pedro Serra

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A verdade do veneno

Posted in Notas, Recensões by Ana Bela Almeida on Quarta-feira, 13-02-2008

docglas.jpgUm médico estende ao amigo uma caixa de cigarros, para que este se sirva, após generoso jantar. O amigo agradece e responde: «Este cigarro tem bom ar. Deve ser bom. Ainda bem, porque eu já começava a ficar preocupado. Sendo médico, tu saberás que os melhores cigarros são os mais venenosos. Estava com medo que me fosses oferecer um daqueles que não prestam.»

O fait divers passaria despercebido, se o médico não fosse o Doutor Glas, personagem cujo nome serve de título a este romance do sueco Hjalmar Söderberg. Meia dúzia de páginas antes, o médico tinha estendido uma caixa a um outro conviva de mesa num café, o clérigo Gregorius, que passado pouco tempo caíra redondo, vítima de enfarte. Em vez de cigarros, Gregorius aceitara tomar o comprimido vivamente recomendado pelo médico como sendo bom para melhorar o mal-estar e as palpitações que se seguem a uma refeição. Era um comprimido de cianeto.

O que pode levar um respeitado médico de família, dedicado à profissão, a induzir um paciente a tomar cianeto e, deste modo, executar um assassínio? Em que circunstâncias pode um médico, aliado da vida, encontrar na morte a resposta mais ética?

Neste romance em forma de diário vamos acompanhando os dilemas do Doutor Glas, na procura de uma verdade moral, como um carrossel, impossível de apreender. Como diz o seu amigo Merkel: «A verdade é como o sol, o seu valor depende inteiramente da distância a que estamos dele.»

Quando da sua publicação em 1905, na Suécia, Doctor Glas causou escândalo por apresentar um médico que defende a eutanásia e o aborto, práticas que apenas não exerce por hipocrisia, mas a questão da morte neste romance estende-se bem para além disto. O Doutor Glas nunca cederá às inúmeras súplicas de pacientes grávidas contra vontade; nem se pode chamar “eutanásia” ao que acontece. Quando Helga Gregorius o procura no consultório para que a ajude a livrar-se das atenções sexuais do clérigo Gregorius, o marido indesejado, e poder assim viver livremente o romance com o seu jovem amante, está longe de imaginar o alcance deste pedido. Está longe de saber que, para este homem solitário e virgem, que se define como um observador da vida dos outros, este será um chamamento à acção e, por assim dizer, à vida. Assistimos ao seu sofrido debate interior, e vemos como num processo próximo do de Raskolnikov de Dostoievski, surgem os argumentos contra e a favor do assassinato, e como toda a lógica o decide a agir. A defesa do amor dos dois jovens constitui, para o Doutor Glas, uma questão de vida ou morte. No entanto, o Doutor Glas, na sua inexperiência, não se apercebe da sua própria distância do sol. Não sabe que com a morte do clérigo, o amante de Helga rapidamente se desembaraçará desta para casar com outra, e que Helga acabará grávida, abandonada, sem nunca mais lhe dirigir palavra. O seu é um erro de cálculo que surge da inexperiência do amor, da distância que o leva a pensar o amor como uma questão de vida ou morte. A verdade é o maior dos venenos, aquele que lhe irá queimar as entranhas: «A pequena quantidade de verdade que te é útil, recebe-la a troco de nada; e se está cheia de mentiras e erros, isto também é para teu bem; não diluída, queimar-te-ia as entranhas.»

Nota: As citações são de tradução minha.

Hjalmar Söderberg (2002), Doctor Glas, Anchor Books Edition, New York, pp.150 Prefácio de Margaret Atwood. Traduzido do sueco para o inglês por Paul Britten Austin

Ana Bela Almeida

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A transição anunciada

Posted in Recensões by Miguel Cardina on Domingo, 10-02-2008

cuba.gif«A doença de Fidel anuncia uma outra época». É com esta frase que Janette Habel conclui o ensaio que abre Cuba: a transição, uma pequena colectânea de textos, acabada de editar pela Dinossauro, sobre o presente e o futuro da ilha caribenha. Provenientes da área da esquerda socialista radical, os autores afirmam a sua fidelidade de fundo ao projecto revolucionário cubano, ao mesmo tempo que apontam os problemas actuais da pequena ilha rebelde, situada a apenas 200 km do eterno inimigo yankee.

Num exercício pouco comum nesta área política, todos eles se afastam, de uma maneira ou de outra, da retórica desculpabilizadora que elege o bloqueio dos EUA como causa de todos os males. Narciso Isa Conde nomeia a corrupção – resultado da influência do modelo de burocracia de Estado proveniente do socialismo real – como o elemento mais corrosivo da actual sociedade cubana; James Petras e Robin Eastman-Abaya falam das distorções sociais provocadas pelo turismo, verdadeiro substituto da monocultura do açúcar e alavanca da recuperação económica dos anos noventa; Guillermo Almeyra aponta a escassa produtividade agrícola, o «sentimento de asfixia» provocado pela desinformação e pelo controlo oficial da comunicação, o «péssimo transporte» e o estado degradado das habitações.

Recusando a perspectiva de adopção do modelo democrático-liberal na ilha, os autores não deixam, ainda que com diferente intensidade, de contestar alguns aspectos da relação do regime com as liberdades individuais. Como acentua Janette Habel, a redefinição de um novo paradigma institucional terá necessariamente de articular as conquistas da revolução com os confortos materiais e com uma maior abertura cultural exigidas pelos cubanos. Neste país onde Fidel exerce(u) o poder exclusivo durante perto de meio século, e que sofre por isso de um «síndroma do patriarca», este é talvez um feliz destino improvável.

Aavv (2008), Cuba: a transição. Tradução de Ana Barradas. Lisboa: Edições Dinossauro. 127 pp. [ISBN: 978-972-8165-548-2]

Miguel Cardina

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