Os Livros Ardem Mal

Paulo Henriques Britto (II)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 18-09-2008

 OSSOS DO OFÍCIO

O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.

Mesmo o maior esforço não adianta:
da sensação à idéia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.

Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir – e aí está o fascínio –
com a rima atravessada na garganta.

Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não é o que se canta,

mesmo porque (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta

é o trambolho que menos se agiganta
nesse percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,
depois que a rima atravessa a garganta.

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Paulo Henriques Britto (I)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 16-09-2008

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro em 1951. É um dos mais conceituados poetas contemporâneos do Brasil (e um dos mais pessoanos), tendo conquistado com o seu livro de 2003, Macau, o prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. É ainda um renomado tradutor de literatura anglo-americana, tendo traduzido já E. L. Doctorow, Henry James, V. S. Naipaul, Thomas Pynchon, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Don DeLillo, Nadine Gordimer, John Updike, William Faulkner, Ted Hughes ou Philip Roth. É professor na PUC Rio. Os poemas que, com a devida vénia, passo a transcrever integram a sua última colectânea, Tarde (2007, Companhia das Letras).

 

O METAFÍSICO CONSTIPADO

Não há epifanias nesta noite,
nem escatologias sob a mesa.
O caco de lua que a janela emoldura
dispensa pretensões a inteireza.

Mas diante de tal ânsia de infinito
como pode tão pouco ser bastante?
aos céus ele pergunta, e na terra procura
um bom compêndio e o frasco de purgante.

 

Osvaldo Manuel Silvestre

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O exemplo que chega do Brasil

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 11-09-2008

A decadência das incorrectamente chamadas «livrarias tradicionais» – e que se deviam chamar simplesmente «grandes livrarias» – parece atingir o seu ponto mais espectacular com o caso da Buchholz. Nada tenho a acrescentar ao post de Francisco José Viegas, que resume bem a minha ambivalência em relação à livraria, se bem que, na minha qualidade de não-habitante de Lisboa e de pessoa pouco impressionável com snobeiras ou maus-tratos a clientes, nunca tenha mantido uma relação «afectiva», para bem ou para mal, com a livraria. A minha livraria portuguesa era a Leitura, na Rua de Ceuta, no Porto, em tudo superior à Buchholz (e dou de bónus, no rol das vantagens, o atendimento com «pronúncia do Norte»). Lembro, por exemplo, como quem evoca um tempo dinossáurico, a secção de poesia, muitíssimo actualizada em edições nacionais e estrangeiras e com um fundo sem par em Portugal. Os livros estrangeiros (antes da Amazon…), idem. Infelizmente, visitei-a neste Agosto, coisa que me arrependo de ter feito, pois a livraria de que falo, e que frequentei fielmente durante 15 anos, já não existe: agora, é mais uma livraria de «rede». E surpreende-me, aliás, no tom de «vingança tardia» da maioria dos posts sobre a crise da Buchholz, que se exalte o bom atendimento das livrarias das redes, quase sempre função de um terminal de computador actualizado e pouco mais, mas que se não refira o vazio e banalização crescente desses espaços que já só vão sendo livrarias nominalmente. Como Francisco José Viegas, não consigo exaltar-me com a morte das grandes livrarias do passado.

Regressado há pouco de uma breve viagem ao Rio de Janeiro, não pude deixar de ser sensível ao contraste. O panorama da edição brasileira, que se vinha alterando qualitativamente desde há uns 15 anos, é hoje impressionante e muito superior ao nosso, em qualidade de títulos e de edições. Nenhuma editora de referência se especializa em romances internacionais sobre nada, a ritmo frenético, como por cá várias fazem. Pelo contrário, uma editora como a Martins Fontes parece não abdicar de uma linha de alta exigência nas ciências humanas – filosofia, direito, neste caso com grande parte em tradução dos grandes pensadores actuais da disciplina (coisa que por cá não ocorre nas editoras de direito) – e na literatura.  Uma editora como a Cosac & Naify, no seu cuidado material e inventiva gráfica, não tem equivalente entre nós (e poucos terá no mundo inteiro). A colecção de bolso da Companhia das Letras, «Companhia de Bolso», desenhada por Jeff Fisher, está graficamente a milhas das que se editam entre nós. E os exemplos poderiam suceder-se, quer nas grandes editoras quer nas «alternativas», tal o salto qualitativo que a cada ano se nota. Nas livrarias de referência do Rio – começando pela da Travessa – é possível ver uma proporção «livros-lixo impresso» absolutamente inversa à que tomou conta das nossas livrarias. Ou seja: há ainda livrarias (e aliás, em que livraria de aeroporto é cá possível comprar, como comprei à saída, livros equivalentes a este ou este?). A ficção, a poesia, o teatro, as artes permanecem em lugar de destaque. As Humanidades não desapareceram ainda das livrarias, quer porque as grandes editoras continuam a publicar na área, quer porque existem no Brasil as imprensas universitárias que por cá nunca houve. E o atendimento é feito por jovens que não só são cordiais como quase sempre sabem realmente do que falam (a mim, um tentou convencer-me a não comprar o volume 3 da obra sobre o «controle do imaginário», de Luiz Costa Lima, com o argumento de que, na nova edição num só volume, que eu deveria antes adquirir, o autor tinha redisposto os textos e reescrito boa parte…). Finalmente, nos quiosques é possível encontrar 5 ou 6 publicações sobre livros, entre os modelos da LER e de Os Meus Livros – Bravo, Cult, Discutindo Literatura, Biblioteca entre Livros, Livros & Literatura, etc. -, umas 2 ou 3 sobre filosofia, várias sobre história e ainda sobre sociologia, artes, etc. E ainda vários programas sobre livros na TV, nos canais por cabo. Único senão? Aquele que por cá também conhecemos muito bem: os livros não são baratos, em boa medida porque as tiragens não aumentaram (ainda) na proporção do brutal crescimento da universidade pública sob o consulado de Lula, pelo que o mercado brasileiro tem ainda fortíssimas distorções. E note-se, en passant, o facto de na universidade não faltarem alunos na área das Humanidades e, mais especificamente, nas Línguas e Literaturas. Para quem não saiba, convém esclarecer que se ensina hoje muito mais literatura portuguesa no Brasil do que em Portugal: basta notar que a literatura portuguesa é curricular em todos os cursos de línguas e literaturas, o que nem sequer acontece cá, em que ela é apenas obrigatória em Estudos Portugueses (e nem é bom pensar na ausência de reciprocidade no que toca ao ensino da literatura brasileira cá); esta situação não se limita aliás à universidade, e daí o facto de todas as grandes editoras terem Camões, Gil Vicente, Pessoa, Eça, etc. nos seus catálogos.

Ilações? Sobretudo uma: o mundo não se esgota todo em Londres e Nova Iorque, como a intelligentsia local hoje pretende (porque Paris, como sabemos, «já era»). Há mais mundo, ou seja, há mais com quem aprender. Porque, sobretudo, o mundo não tem de fazer todo a mesma caminhada rumo ao vazio. O que está a acontecer no panorama editorial e livreiro português não tinha de acontecer, tanto mais que o Brasil, por défices estruturais no domínio da educação, não é um exemplo assim tão distante do nosso. Os brasileiros, porém, sem abdicarem da lógica do mercado, estão a conseguir um equilíbrio entre mercado e exigência que por cá passa já por «candura de intelectuais» (ou, pior, de «elitistas»), exactamente por não perderem de vista a dimensão cultural, e por isso socialmente estratégica, do livro. E isto acontece num país que por cá muita gente gosta de representar como «um caso perdido» onde, supostamente, não existiria um espaço público digno desse nome. O que tudo isto significa é que o nosso lugar na cauda das nações civilizadas, que em nenhuma área é tão nítido como na cultural, está em vias de ser assegurado por longo tempo. Pelo caminho que as coisas levam, amanhã não será certamente a véspera de o abandonarmos.

Osvaldo Manuel Silvestre

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A nossa representante no Jabuti

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 03-09-2008

Alguns blogues, e alguma imprensa, referiram o facto de no Brasil ter sido apresentada recentemente a lista dos candidatos ao Prémio Jabuti, agora na 50ª encarnação, e que, como reza a sua assinatura publicitária, está «Desde 1959 premiando os melhores talentos da literatura brasileira». Sendo o prémio mais prestigiado no Brasil, o Jabuti reparte-se hoje por 20 categorias, das quais o romance, a poesia, a literatura infantil, levam a parte de leão da atenção dos média, lá como cá.

Surpreende-me, porém, que as referências que por cá surgem à publicação da lista não venham acompanhadas do justificado destaque pelo facto de a lista integrar uma obra de autor português. Ou melhor, de autora portuguesa, já que se trata de Maria Irene Ramalho Sousa Santos, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e do seu livro Poetas do Atlântico. Inicialmente publicado nos EUA, em 2002, sob o título Atlantic Poets: Fernando Pessoa’s Turn in Anglo-American Modernism (com uma bela capa de Manuel Portela), o livro foi editado no Brasil, pela imprensa da Universidade Federal de Minas Gerais, com o título Poetas do Atlântico, e será em breve posto à venda entre nós, com o selo da Afrontamento. É este livro, cuja importância para os estudos pessoanos é difícil escamotear, que se encontra na lista do Jabuti, na categoria «Melhor livro de teoria/crítica literária», ao lado de obras de alguns dos nomes mais importantes da disciplina no Brasil. Se somarmos a este destaque o facto de Irene Ramalho ter sido ainda este ano premiada com o «Mary C. Turpie Award», da American Studies Association, facilmente perceberemos que não se trata nem de um livro nem de uma autora qualquer.

É certo que Pessoa, e bem assim o projecto intelectual de o «integrar» no modernismo anglo-americano em que a sua obra faz mais sentido do que até aqui supúnhamos – projecto ao qual a autora votou longos anos da sua dedicação pessoana -, não é tão excitante quanto, sei lá, o impacto de José Luís Peixoto, e mesmo de Luís Miguel Rocha (cujo romance prelatício, segundo li em Isabel Coutinho, foi traduzido para inglês a partir da versão espanhola, o que seguramente não o terá prejudicado) no vasto mundo, ou seja, nos EUA. Mas há alguma coisa de desgostante na forma como os média se limitam a reproduzir a própria ordem mediática em que se movem, sem qualquer intervenção selectiva e crítica sobre os dados que lhes chegam. Por que diabo temos nós direito a toda uma abundância de pormenores «informativos» sempre que mais um medíocre escritor português é editado, por exemplo, no Brasil – o que ultimamente vem acontecendo com certa intensidade -, e por que carga de água ninguém refere o facto de, no país que, como nenhum outro, naturalizou Pessoa na sua cultura, da erudita ao samba, um dos mais importantes contributos para os estudos pessoanos nos últimos anos ser reconhecido ao ponto de integrar a lista do Jabuti? A resposta é simples: porque, nos média, ninguém perdeu tempo a percorrer o que ficava para lá do romance. O mesmo é dizer: o que ficava para lá do Star System. Ou, se se preferir, do mercado.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Sobre a expressão «Começar por um livro»

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 27-08-2008

Começar por um livro: gosto de pensar que quase tudo o que conta ocorre assim. Não por aquilo a que um certo primarismo chamaria «o triunfo do espírito livresco», mas porque a expressão nos ajuda a perceber o carácter não evidente do começo: o que começa, começa sempre muito depois de ter começado, quando  nos apercebemos de que aquilo que estamos a viver começou a fazer sentido antes, algures, e porque não num livro? Mas também porque um livro remete sempre para outro e outro – passa-se do Breviário Mediterrânico para o Epistolário Russo, para Koba the Dread, etc. – e nesse percurso é o começo que se vai refazendo e recomeçando e dissolvendo, embora ao mesmo tempo se reforce o sentimento da sua necessidade (como viver sem começos? como não começar de novo a cada Agosto?). E ainda porque, insista-se, os livros são no mundo, são mundo, fazem mundo, como aprendemos neste texto exemplar (mais um). Vemos nos livros a crueldade do século XX, como depois a temos, ad oculos, à mesa – ou nos cidadãos que abandonam os animais (e os idosos) em período estival.

Dizendo-o de outra forma: é por ver claramente visto que este é o mês mais cruel que Januário intui que o seu Agosto começou num livro. Um livro sobre a crueldade, tema de tantos livros. Mas quantos livros terá sido necessário ler para chegar àquele que agora inicia esta série? Quantas décadas do mais cruel dos séculos terá sido necessário viver para perceber que são os livros que não permitem a redenção que esse século, como todos, confia à amnésia dos sem-livros? Talvez a expressão «Começar por um livro» signifique simplesmente que aquilo a que chamamos «começo» não é senão uma imposição póstuma de sentido (individual e contingente, como a escolha de um livro); que essa imposição carrega consigo um acto de leitura que é, indissociavelmente, um acto de escrita; que esse acto está sempre a começar, por isso que a leitura é um desejo de escrita que nos evidencia a que ponto esta é sempre uma reescrita que se define por não ter fim, esgotando-se antes no acto de começar, ou seja, de re-escrever; que, se assim é, a diferença entre «começar por um livro» e «começar um livro» não é pertinente, tal como não é pertinente a diferença entre «vida» e «livros» (ou a diferença entre «começar por um livro» e «começar um post»: o de Januário ou este).

Comecei por um post que referia livros que li, tenho ou desejo ler e ter. Apercebo-me agora de que o meu Agosto teve muito a ver com o de Januário, já que também começou por e com um livro – O Homem sem Qualidades -, também ele, a vários títulos, um livro cruel (e identicamente premonitório de fim de impérios e civilizações). Devo-lhe um agradecimento por isso, que é um agradecimento aos livros que lhe deram o difícil Agosto que agora (d)escreveu.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Um post, um filme, um blogue

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 24-08-2008

Não sei se é um post, um avião ou o Super Homem. Ou melhor, só pode ser um post pois só um post pode ser e fazer isto. Refiro-me a Um filme (o encantamento começa e acaba no bosque), de alguém que se assina misteriosamente C. e de que sou já há bastante tempo leitor e admirador invariável. Resumindo, trata-se de um post sobre um dos mais belos filmes da história tão cansada do cinema, O Rio, de Jean Renoir.

Não resumindo, trata-se de um post que nos ensina (i) a flexibilidade da forma post (citação, colagem, texto e imagem, textos e imagens escolhidos, como sempre, com especial sensibilidade, juízo crítico e pertinência argumentativa e estética), (ii) a singularidade – tão pedagógica – do trabalho de C., talvez a blogger mais estimulante deste país, pela capacidade para pensar, em blogue e como se o blogue fosse hoje a forma natural e privilegiada para o fazer, talvez por permitir fazê-lo em formato 1 por 1, digamos, as imagens (as do cinema mas também as que ocorrem na e fazem a literatura, as que se gravam em nós e fazem o dia-a-dia, etc.). Finalmente, é um post do blogue que mais aprecio, o Dias Felizes. Porque é um blogue que não fala de política, esse vício infantil da blogosfera, e porque, no estranho «casamento» das histórias e citações de Rui Manuel Amaral com as reflexões de C. sobre a imagem, produz um híbrido admiravelmente coeso e, em sentido rigoroso, encantador.

Para o dizer de uma forma que os seus criadores seguramente apreciarão, de cada vez que entro no Dias Felizes sinto-me a entrar, pela primeira vez, em O Feiticeiro de Oz. Mais precisamente, na parte inicial, a preto e branco, a de todos os segredos, sustos e encantamentos.

P.S. Agora que se discute (até que enfim…) a mais do que justificada extensão portuense da Cinemateca Portuguesa, e que se perfilam nomes para a dirigir, também eu tenho uma sugestão: C. Porque não tenho qualquer dúvida sobre a sua competência para o cargo, no que concerne à programação; e porque, assim como a programação de Bénard da Costa na Cinemateca, no seu modelo e método, não me suscita a menor curiosidade há já longos anos, não páro de imaginar o que seria uma programação, e o que seria uma cinemateca, da responsabilidade de C.

Osvaldo Manuel Silvestre

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e.poesia

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 17-08-2008

Cheguei a este poema por meio de uma visita a A Natureza do Mal. Li-o, aliás, até ao fim, como se fosse de Luís Januário – mais um excelente poema seu – e só mesmo no fim, ou melhor, muito depois do fim, já na altura da ruminação in mente, me apercebi da declaração «Copiado de Blue». Fui então ler esse poema e convenci-me de que o primeiro o transcrevia meramente, que pertencia, não a Januário mas a Cláudia Santos Silva, e fiquei a remoer o meu desconhecimento pela sua existência. Passados uns dias volto ao local do crime e apercebo-me de que no seu blogue Cláudia transcreve, sob o título «intertexto», o primeiro poema, que afinal é de Januário. Ou não exactamente, já que Januário reescreve Cláudia, resistindo, entre outras coisas, à cópia do verso «as trovas do Zeca do Chico do Aleixo», o que, confesso, me agrada. Vejo-me forçado a concluir que sou um leitor desatento; ou então, a meu benefício, que a «cópia» de Januário é tão inteligente que, mais uma vez, demonstra como o autor é «aquele que copia com autoridade».

Entretanto, e como já conhecia os poemas de Januário, hoje em dia um dos poetas portugueses que leio com mais interesse, fui ler os de Cláudia: dois bons poetas, ou melhor, e.poetas, já que não conheço livro de nenhum deles. Seria altura de desejar publicamente que tal situação se altere em breve e possamos dispor dos poemas dos autores em livro, patati patatá. Mas resisto a esse impulso de bibliófilo e prefiro chamar a atenção para a net como sucedâneo «natural» de uma série de estratégias editoriais relativamente marginais que sempre acompanharam a história da poesia: cancioneiros de bolso, panfletos, poemas colados à porta de igrejas, no caso da poesia de pendor satírico do período barroco, as revistas magras e efémeras do simbolismo, do modernismo e das vanguardas, a «poesia marginal» brasileira dos anos 70 que tudo isso resumiu na utilização do stencil e da manufactura em tiragens escassas passadas de mão em mão, o «Cartucho» em que poetas emblemáticos dos nossos anos 70 reuniram poemas, etc., etc. E agora, a net. Numa altura em que as tiragens dos livros de poesia, mesmo em editoras e colecções de referência, baixam dos 500 exemplares, o que justifica o recurso à impressão digital, creio que deixa de fazer sentido que a nossa atenção crítica à poesia que hoje se faz em Portugal se limite à publicada em livro. Precisamos de uma crítica que se emancipe da forma-livro e que preste atenção quer às dimensões performativas da poesia em acto, hoje num processo de exponenciação multimédia, quer à multiplicidade de suportes em que ela ocorre, ainda quando escrita. Porque o que temos, na melhor das hipóteses, é uma declaração da «dignidade universal dos suportes» sem contudo qualquer contrapartida efectiva, no que toca ao seu reconhecimento pelo discurso crítico, que, digamos, prolonga, sob outras formas, a sua histórica resistência a ocorrências da poesia como as da poesia experimental ou da poesia sonora, que foram em rigor formas de comutação de suportes. Ou seja, ficamos, mais uma vez, divididos entre o silêncio de uma crítica que não consegue reconhecer a poesia senão em forma de livro, e as reacções afectivas dos leitores, quase sempre limitadas a manifestações de pathos, nas caixas de comentários. Admito que tal não seja fácil, uma vez que a ortopedia do livro no acto de ser lido simula uma progressão de sentido que restitui a esse percurso um fechamento semântico e formal sem o qual temos dificuldade em pensar as figuras da Obra. Pelo contrário, ler poemas soltos em posts priva-nos não só da sequência em que um texto se insere, como da premeditação que sempre supomos na composição da obra, e sobretudo do conseguimento ou falhanço composicionais como critério de valor, e da própria atribuição de sentido, ao todo e a cada uma das suas partes. Além de que é sem dúvida muito mais difícil pensar a figura do autor como um sujeito-sem-livros; tanto como é difícil pensar o poema no regime «ilustrado» em que ele muitas vezes ocorre nos blogues (reveja-se o poema de Januário acima citado, ilustrado com uma magnífica foto que de facto o adensa; ou os desenhos que acompanham o blogue de Cláudia Santos Silva). Ainda assim, creio que há algo de inadiável neste gesto, sobretudo num momento em que o digital não só promete como efectiva um mundo novo, multiplicando, no caso em pauta, as possibilidades de circulação dos textos, mas também do seu funcionamento em regime multimédia: não seria empobrecedor editar o poema de Januário a preto e branco numa banal página de papel, sem a foto que no blogue o acompanha e sem a hiperligação que o religa à sua «origem»?

Não garanto, porém, que possamos estar, todos aqueles empenhados na poesia e na sua crítica, à altura de uma situação tão exigente como esta. Mas vai sendo tempo de tentar.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Leitores precisam-se

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 17-08-2008

João Diogo escreveu um excelente comentário ao meu último post no seu Qualquer coisa assim: informado e muito pertinente. Nada tenho a opor ao que diz sobre o modo como a fragmentação do mercado livreiro, cruzada com o aumento do volume de títulos editados, nos conduziu à situação actual. E também me parece evidente que o problema central é o de sempre: o nosso reduzido número de leitores, a enorme dificuldade em fazer com que ele cresça.

Numa versão anterior do post em causa, de que desisti, mais longa e argumentada, abordava empiricamente o fenómeno. Confronte-se por exemplo o número de pessoas que, numa viagem de comboio entre Lisboa e Porto, lêem um livro, ou lêem sequer qualquer coisa (cada vez mais, um jornal gratuito), com o das que falam em altos brados ao telemóvel ou enviam furiosamente sms – e contraste-se essa situação com a equivalente em países como Espanha e França; facilmente se constatará que, como alguém disse, passámos de uma iliteracia pré-moderna para uma pós-moderna, já não marcada pelo analfabetismo mas pela substituição da leitura pelo telemóvel, fenómeno aliás observável em todos os níveis sócio-culturais da população (e de que o Verão nos dá uma ilustração ainda mais chocante, na quase total abstenção da leitura a que se assiste nas nossas praias). É difícil não constatar que o que de facto se mantém, na longa duração da nossa emperrada modernidade, é a inexistência de uma censura social interiorizada em relação à ignorância ou à inapetência pela leitura e pelo esforço intelectual, no sentido do melhoramento pessoal e, logo, comunitário – isso que, justamente, a grande crítica burguesa conseguiu produzir em países como Inglaterra, França, Alemanha, etc. Entre nós, hoje como há cem anos, continua a ser possível fazer elogios da ignorância, da esfera da política à dos média, sem que uma censura social se manifeste. Muito pelo contrário, e esse é todo o drama da nossa modernidade, a nossa burguesia nunca conseguiu realmente ilustrar-se (veja-se, por exemplo, o tipo de leitura que nos é proposto nos consultórios dos nossos médicos ou advogados – ou os quadros que os decoram…) e, como compensação psicanalítica, dir-se-ia, desenvolveu todo um agon contra o universo da cultura e das artes, a quem só foi permitido existir e subsistir sob ressalva e em permanente estado de denúncia de um putativo «estado de excepção» – um status in statu – elitista e parasitário (dos «nossos impostos», etc.).

Ou seja, não se lêem livros porque não há real motivação social para o fazer. Onde divirjo de João Diogo é na responsabilização que faz da universidade por este estado de coisas. Não querendo ser paroquial, permito-me alargar o âmbito dessa responsabilização a toda a escola portuguesa, mas para a refutar. O meu conhecimento do nosso sistema de ensino, nos seus vários níveis, mostrou-me à evidência que o problema não é a escola (o que significa que não subscrevo as versões apocalípticas da nossa escola, hoje tão populares), já que aí se fizeram enormes progressos, sobretudo no apetrechamento de bibliotecas, no fomento de práticas de leitura e escrita, na criação de um circuito de escritores que visitam as escolas, na explosão da literatura infanto-juvenil como um fenómeno de mercado que interage fortemente com a escola e cria efectivamente leitores, etc. O problema, lamento, não é a escola mas a família, já que essa reproduz o modelo «cultural» da burguesia portuguesa, face ao qual o esforço da escola pode pouco – o que não é o mesmo que dizer que nada pode. Mas é para mim evidente que a família, em Portugal, faz com que muitas vezes se percam os leitores que a escola conquista. Para o dizer de uma forma um tanto brutal, quem nós precisaríamos de educar não são os filhos mas os pais. Quando, nos «Morangos com Açúcar», se retrata os miúdos mais fixes como aqueles que não sabem sequer o que é um livro, e quando os pais assistem à novela com os filhos e lhe acham imensa piada – é a sua forma de escaparem àquela outra insinuação, que é toda uma chantagem, da novela: a de que ler é para cotas, coisa que todo o indivíduo a partir dos 30 anos paga para não ser -, é caso para reconhecer que a sociologia da novela produz exactamente isso que estou a referir: uma representação da cultura, do livro e da relação da família portuguesa com ele contra as quais a escola faz o que pode. Quanto às fotocópias, lamento mas são uma consequência fatal da inexistência de bibliotecas universitárias realmente apetrechadas (pois não se pode dizer apetrechada uma biblioteca que possua apenas um ou mesmo dois exemplares de obras de referência) ou com horários de funcionamento indignos daquilo a que muita gente aprecia chamar «a vocação da universidade». A situação de indigência financeira das universidades, porém, e sejamos realistas, não permite mais.

O problema é que o mercado, como qualquer habitante de Coimbra com hábito de frequentar livrarias bem sabe, e como diz João Diogo, está sobredimensionado. Não há clientes para tanta livraria nem para tanto livro e é evidente que muitas livrarias irão desaparecer nos próximos anos. Ou então sofrerão outro tipo de «destruição criativa», como pude constatar em dois casos muito diversos nestas férias. Um deles, numa cidade próxima de Coimbra, numa livraria de referência que muda de dono e é submetida a um processo arquitectónico de «modernização». Quando reabre, consegue quase não ter livros de editoras como Relógio d’Água, Assírio & Alvim, Livros Cotovia, Quasi, Tinta da China (editoras como a Afrontamento ou a Campo das Letras subsistem apenas por via do seu catálogo infantil), mas apresenta livros muito vistosos – e grandes! – na montra e nas mesas das novidades. Outro, em Coimbra, numa livraria de uma grande rede em que em tempos comprei muitos livros mas onde não ia há anos. Tendo lá regressado há dias não reconheci o local e não me convenci de que estava numa livraria – antes um vasto, e muito feio, quiosque. Ou seja, e este é o meu ponto, as pequenas e médias livrarias, vão-se transformando, com raras excepções, para pior (geralmente quando passam para as mãos de gente «jovem, dinâmica e sem complexos» no que toca à natureza e função do livro no mercado); e as redes, com excepção talvez da Almedina, uniformizam-se no que têm de pior. Dir-me-ão que o processo é internacional; mas isso só o torna mais preocupante ainda. A que acresce o facto de em Nova Iorque ou Londres ou Madrid a demografia, os índices de literacia, etc., permitirem que as livrarias grandes tenham um ou dois andares de lixo colorido que compensam com um terceiro andar onde se podem comprar os livros que importam. Entre nós, infelizmente, quase nunca há dimensão para os três andares e o tal terceiro, ainda que metafórico, está a ser cada vez mais reduzido à inexistência pelos dois primeiros, cada vez menos metafóricos.

Ou seja, se para haver um mercado do livro «a sério» é necessário banalizar sem fim o livro e as livrarias, o que sucede é que no fim do processo, que estamos a viver aceleradamente, arriscamo-nos a que não venha a haver de facto livrarias. Porque este é o problema que o tal meu amigo, e aliás colaborador deste blogue, colocava: se o mercado precisa mais dos 1000 clientes que compram um livro por ano do que dos 70 ou 80 que compram dezenas – e é óbvio que se a equação se exponencia para as dezenas ou centenas de milhar, deixa de funcionar de todo -, e se as livrarias se reconfiguram em função desse critério de mercado, e desse cliente, é claro que os tais grandes compradores deixam de as frequentar, pois nelas só encontram o «livro único» da história de Gonçalo M. Tavares. A questão está em saber se não há aqui uma contradição, em termos puramente mercantis, pois os 1000 ou 10 000 ou 100 000 compradores do livro anual não frequentam livrarias e preferem, com grande probabilidade, comprar os livros em hipermercados ou quiosques. E assim, se calhar, a prazo, são as póprias livrarias que ao adoptarem este cliente como modelo estão a assinar a sua certidão de óbito.

Post Scriptum tardio: imperdoavelmente, não citei em apoio da minha descrição da banalização do livro e das livrarias o melhor texto que vi publicado entre nós: o post de Ana Bela Almeida Dia do Pai, neste mesmo blogue. Mais vale tarde do que nunca, pelo que o faço agora.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Post Scriptum estival

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 16-08-2008

Não conheço melhor ilustração para o post anterior sobre os livros de Borges que não se encontram nas livrarias do que uma breve história de Gonçalo M. Tavares, incluída no livro O Senhor Brecht (2004). Ei-la:

LIBERDADE DE ESCOLHA

Era uma livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se, hesitando no número a escolher.

A propósito disto, ou seja, de Borges e das livrarias – e da sensação estranha que hoje se apodera de mim quando entro em certas livrarias e tenho a sensação de que não haverá lá sequer uma dúzia de livros que me apeteça ter -, ocorre-me aquilo que me dizia há dias um amigo, grande leitor e comprador de livros: é pelo menos discutível que editores e livreiros optem pelos 1000 clientes que compram 1 livro por ano, marginalizando ostensivamente aqueles 70 ou 80 que compram, no mesmo período, dezenas. Esses que me dizem, cada vez mais, que estão a deixar de ir às livrarias, optando por mandar vir os livros pela net.

Osvaldo Manuel Silvestre

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«The Late View»

Posted in Notas, Notícias by Sandra Guerreiro Dias on Sexta-feira, 25-07-2008

The Culture House, em Reiquiavique, tem em exposição fotografias de autor do Prémio Nobel islandês da Literatura, Halldór Laxness. A mostra, inaugurada em Junho último, intitula-se The Late View – photographs from legacy of Nobel Laureate in Literature and cosmopolitan Halldór Laxness e é uma oportunidade a ter em conta para quem esteja de malas aviadas para uma qualquer dessas viagens ainda sem destino definido. Ela dá a conhecer uma perspectiva do escritor enquanto pensador do seu tempo, reflectindo, através do olhar fotográfico que lança sobre pequenas circunstâncias do seu quotidiano, sobre o envolvimento do autor/artista com o destino do seu próprio país.

Autor de uma obra vastíssima (65 livros em 68 anos de produção literária) Halldór Laxness assinou títulos como Salka Valka I (1931) e Salka Valka II (1932), que relatam a saga de uma jovem pescadora pobre, ocupação comum naquele tempo e naquele lugar, ou Independent People (1934-1935), Gente Independente, a única obra do autor traduzida e editada em Portugal (Cavalo de Ferro, 2007). Aqui, o contexto é o de uma Islândia nos princípios do século XX e a história a de Bjartur, das Casas de Verão, personagem principal do romance, na luta desesperada pela independência diante dos outros e de si próprio. Halldór Laxness é ainda o autor de The Atom Station (1948), sobre o pós-II Guerra Mundial na Islândia, uma das suas obras mais polémicas, e de The Happy Warriors (1952), cujo enredo decorre durante a ocupação viking, aquando da descoberta daquele país, em meados do século IX d.C., mas que é afinal mero pretexto para a crítica duríssima e plenamente assumida aos regimes totalitários de Hitler e Estaline.

Assim, certo é que a sua obra acaba por assumir-se enquanto exercício e ensaio em permanente diálogo com o seu tempo, cujo pano de fundo é o ser humano enquanto sujeito naturalmente em colapso e sempre merecedor de complacência. Halldór Laxness foi, além disso, o escritor que, através da ficção e dos inúmeros artigos publicados em diversos jornais, melhor documentou a longa e sinuosa história da luta pela independência de um povo e de um país que o é apenas desde 1944. Por este facto, e pelo consenso que a sua obra reuniu, na Islândia e no mundo, Haldór Laxness tem sido considerado por muitos como o último verdadeiro escritor nacional do Ocidente. Por outro lado, os seus livros e as frentes em que se bateu, bem como as múltiplas reflexões políticas e sociais que a sua extensa produção convoca, reclamam o reconhecimento do lugar inquestionável da literatura na história de cada país.

Em notas redigidas para The Fish Can Sing, obra publicado em 1957, Laxness afirmava que «são precisamente essas pessoas, as pessoas comuns, aquelas que transportam em si as mais virtuosas das virtudes humanas». A sua obra, o seu trabalho, testemunhos de quase um século de história (nascido em 1902, o escritor terá vindo a falecer apenas em 1998), é, por uns caminhos e por outros, o reforço, à usa maneira, dessa máxima que bebeu no realismo social da década de 30. «Nascido para cantar para o mundo», como se diz de Bjartur em Gente Independente, terá sido também esse o desígnio maior de Halldór Laxness.

«The Late View» estará em exibição até Fevereiro de 2009.

Sandra Guerreiro Dias

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Situs

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 16-07-2008

Isto, e isto, e mais isto: eis – quem diria? – uma demonstração exuberante da actualidade do situacionismo.

Corrijo: da perenidade das técnicas mediáticas e guerrilheiras da IS. Que é como quem diz, do détournement.

Ou será simplesmente «arte contemporânea» com gume crítico? Coisas que ficam bem no CAV ou em Serralves? Hoje facilitadas pelo copy paste (de Borremans – e de Bonirre) e pelo bloguismo…

O diabo que escolha.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Projecto para um glossário do século vinte (JG Ballard)

Posted in Autores, Comentários, Notas, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 14-07-2008

#Zipper. Esta pequena mas astuciosa máquina terá encontrado um modo elegante de reprimir e redescobrir todos os encantos perdidos da carne.

LQ

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E ao 3º número da LER…

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 08-07-2008

 

…Margarida Rebelo Pinto (MRP) tomou conta da capa, como se pode ver acima. Sobre isto, alguns comentários:

(i) O que se depreende das capas destes 3 primeiros números é que estava fora de causa não dar a capa dos dois primeiros números a Lobo Antunes e Saramago, os gémeos siameses da nossa literatura actual (o Nobel e o ainda-não, o sereno e o ressabiado, o Narciso e o Narciso). Uma literatura, enquanto fenómeno social, necessita destas personagens que conciliam crítica e mercado. E isso significa, claro, que tais personagens só existem no domínio da categoria da «ficção», já que nenhum poeta pode funcionar de igual modo em ambos os campos.

(ii) Esgotados os gémeos, percebe-se agora, é um mundo de possibilidades que se abre. Haverá quem lamente não ter sido Agustina (suponho que razões de saúde impediam essa escolha), mas creio que a alternativa real não seria tanto Agustina – ou Mário Cláudio ou Lídia Jorge ou mesmo Manuel Alegre – e sim o batalhão pós-colonial: Agualusa, Mia Couto, o «jovem prodígio» Ondjaki, em menor grau Pepetela. Em todo o caso, insista-se, e no plano em que esta discussão tem alguma relevância para uma sociologia do fenómeno literário, passar dos dois primeiros para MRP significa apenas que, desde que esses dois estejam assegurados, não há escândalo com qualquer das escolhas posteriores, uma vez que nenhuma delas é evidente. Falta a todas o peso simbólico e de mercado que as torne o indiscutível nº 3 na sequência de capas de uma revista com o perfil da LER (e que, para esse perfil, diga-se, está uma publicação decente). Ou seja: qualquer das opções é deficitária numa dessas áreas. Como sucede com MRP, autora sem qualquer tipo de caução crítica, de que aliás não necessitaria, mas cuja entrevista revela toda uma estranha patologia quando confrontada justamente com a crítica (a de João Pedro George, sobre a prática da autocitação pela autora). Talvez essa reacção à flor da pele demonstre que, ao contrário do que a revista proclama na capa, numa legitimação da sua opção, escrever «os livros das pessoas comuns» não é suficiente para alguém que deseja ser cada vez mais autora e entende que, enfim, está a escrever livros «à séria». Pode ser suficiente para Paulo Coelho, não parece sê-lo de todo para MRP – o que não augura nada de bom para a autora, diga-se.

(iii) Não sei, nem me interessa, se MRP já não vende o que vendeu – e se, ao dar-lhe a capa para atrair «as pessoas comuns», a LER não errou o alvo (ou se não o errou mais do que se erra quando se crê na existência de «pessoas comuns»). O que me surpreende é que quando se deseja atingir esses leitores se recorra, quase que pavlovianamente, à literatura light – e não, por exemplo, a Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Tenho dificuldade em diferenciar radicalmente os fenómenos de mercado em causa; e é para mim evidente que a renitência em colocar esta dupla de autoras no mesmo escalão literário de MRP se deve apenas à chantagem de um imaginário pedagógico que ressalva, na literatura infantil, o industrial em função dos «valores educativos». Numa altura em que a literatura infantil é o óbvio motor do mercado do livro, a invisibilidade do mercado na crítica da escrita de autoras como as duas que proponho é uma bondade que se dispensa. E é tempo, aliás, de boa parte do agon crítico endereçado às inanidades da literatura light – estranhamente emancipatórias, porém, ou não morasse aí boa parte do contingente de autoras-mulheres da nossa literatura actual, com todas as consequências «temáticas» que isso arrasta – se deslocar para as inanidades da literatura infantil industrial – também ela, diga-se, entregue em grande medida às bondades da emancipação feminina. Sob pena de desprotegermos essas «pessoas incomuns» que são as crianças leitoras, cada vez submetidas mais prematuramente a uma propedêutica do mercado, via literatura infantil (designação cada vez mais imprópria para a coisa em pauta) ou canais de TV a elas dedicados.

Osvaldo Manuel Silvestre

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As cidades legíveis

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 24-06-2008

assim se aprende,
ao anoitecer, como o verão
escreve cidades mais legíveis;
embora breves; sobre
alicerces que flutuam
em torno do leitor nocturno,
e são talvez a imagem
do meio círculo que falta
à lua, no horizonte.

De «Noite de Verão», poema de Entre duas Memórias, de Carlos de Oliveira, e um dos «poemas camonianos» do autor. Difícil não pensar nestes versos quando, depois da meia-noite estival, os carros ressoam surdamente ao descer a rua e fazem mais legível o mundo.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Um café curto, sff!

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 18-06-2008

É mensal, vai no nº 3 e pode-se ler enquanto se toma Um café, que aliás é como se chama. Da capa ao verso, que a numeração gulosamente inclui, são só 20 pp., pelo que é uma leitura digestiva. As capas, já agora, como aliás o grafismo, são assinadas por Carlos Paes e são magníficas, assim como o logo da publicação. Como é patrocinada por uma marca de café, é gratuita. É claro que – e entramos agora nos handicaps – sendo um produto genuinamente tripeiro (uma variante actual do infelizmente arqueológico cimbalino), o resto do país e do mundo está privado do acesso a este café. Por outro lado, e como se diz no editorial do nº 2 (exemplo do que deve ser um editorial, se descontarmos, claro, os de José Manuel Fernandes no Público), «A edição de Março da nossa revista superou todas as expectativas. Um café, por favor!, foi a frase mais repetida pelos portugueses, logo a seguir a Um café e um bagaço, por favor!»

A alma mater de Um café é obviamente Tomás Magalhães Carneiro, editor e, íamos jurar, desmultiplicador de heterónimos: Rupert Tempest, William No… Como não disponho do nº 1, destaco, do nº 2, a atenção dada a dois colectivos multidiciplinares: a «Sorry Art», ou seja, Inês Gama e Maria Sottomayor, que fazem intervenção pública por meio de posters em tamanho grande e numa estratégia para-conceptual que sabota o código da linguagem publicitária; e a «F.R.E.I.M.A.», um colectivo mais virado para som & web design que, nas palavras do Freimen Hugo Branco, «Além de festas de arromba, adultérios ariscos de aparthotel e golpes de Estado em pequenos países da América Latina [se dedicam] à produção de música electrónica, DJing e VJing, sonoplastia, edição de audio, cinema, vídeo, design de comunicação, web design, artes digitais e pensamento crítico». Uff! Que mais pedir? O nº 3 dá destaque a um texto do editor sobre a «Kakânia. Uma viagem espiritual à Viena de 1900», aproveitando o facto de, com a recente edição de O Homem sem Qualidades, as grandes obras que definiram esse «alegre apocalipse», estarem enfim disponíveis entre nós. Há ainda secções fixas, pré-publicações, autores «do Porto para o mundo».

Um café parece fazer sistema e sentido com a crise dos média em papel e o advento da estranha figura dos «gratuitos», também ela sistémica com o devir-gratuito dos conteúdos em formato digital, ao mesmo tempo que se cruza com a tradição contemporânea dos guias urbanos do tipo Time Out. A diferença reside talvez na forma como aqui se sintoniza o lado artisticamente trendy com o capitalismo e comércio «popular» na figura do café. Mas ainda aí, na mistura desse lado trendy com secções como «Filósofos de tasca» ou roteiros do Puârto, reconhecemos as singularidades da formação sócio-cultural da capital nortenha, a esse título única no país, e muito manifesta no carácter realmente interclassista e intergeracional dessa grande instituição da cidade que é o café. Até porque cafés a sério já só os há no Porto.

Folheando Um café, tem-se às vezes a sensação de que este micro-colectivo está apenas a aquecer os motores, não se sabe bem para quê. Por outro lado, está muito bem assim. Dêem-nos um café destes de vez em quando e o mundo não fará mais sentido – mas fará mais mundo, apesar de tudo.

Osvaldo Manuel Silvestre

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E agora, como brinde…

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 08-06-2008

um magnífico poema, que começa assim: «À noite leio os grandes livros / e interrompo a minha musa». Há tanta má poesia nos blogues, e tanta beatice em torno dela, que quando ela deveras ocorre, como ocorre quase sempre com este poeta bissexto e sem livros, e quase sempre rugoso na forma e adstringente naquilo a que dá forma, não convém sermos modestos.

Osvaldo Manuel Silvestre

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O desassossego dos brindes

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 07-06-2008

Fui comprar o último livro de Mário Cláudio, Boa Noite, Senhor Soares. Supunha eu, na minha inocência de leitor, que um livro é um livro. Ou melhor: que 1 livro é 1 livro. Mas não: 1 livro, aprendi eu, pode ser 2 livros. Explico-me: o livro vem envolto em plástico, com um autocolante que nos informa de que o pacote «Inclui oferta da peça de teatro inédita Medeia». Ou seja, compra-se o livro, que é fininho e, virando-se o objecto, do outro lado está um outro livrinho, este com o título Medeia.

Ora, eu tenho aqui um problema, que confesso sem problemas: comprei o livro não por ele ser de Mário Cláudio mas por ser sobre Bernardo Soares. Interessam-me, digamos assim, as ficções sobre esse português improvável que foi Pessoa, talvez porque todas me fazem por sistema concluir que a ficção pessoana é intraduzível; e que nessa matéria a ficção tem ficado quase sempre bem abaixo da crítica, ou pelo menos daquela que consegue reinventar Pessoa. De Mário Cláudio já li o bastante para ter uma ideia arrumada da obra e para perceber que ela está hoje mais ou menos nos termos em que ficará arrumada na nossa literatura; e ainda para perceber que o seu momento mais estimulante foi a trilogia Amadeo, Guilhermina e Rosa, de 1984 a 1988.

E agora, em vez de um livro tenho dois, sendo o segundo, ainda por cima, uma Medeia! Dirão alguns que só tenho de ficar agradecido por este brinde. Vejo-me forçado a discordar. Com a saturação de brindes que o mercado hoje nos oferece – e basta, para isso, ir até ao quiosque comprar o jornal -, o verdadeiro brinde é o que consiste em não nos oferecerem nada para lá do que compramos, tanto mais que, convenhamos, não há tempo para «consumir» tanto brinde. Depois, tenho dificuldade em aceitar que uma Medeia possa ser brinde, a não ser em regime de humor negro… Finalmente, se estes 2 livrinhos custam 10,01 €, e se eu só queria Boa Noite, Senhor Soares, como consumidor parecer-me-ia mais curial que a D. Quixote permitisse que os cidadãos na minha situação adquirissem apenas essa novela, talvez por 6 €, o que é preço mais que aceitável para um livrinho desta dimensão. Sobretudo, parece-me dispensável que se chame a isto «oferta», quando nitidamente o preço, apesar das aparências em contrário, não é, de facto, de amigo. Enfim, graças de um mercado em que nada é de graça.

E quanto ao livro em si? Pois, não sei. Tenho estado bloqueado, desde que o(s) comprei, sem saber por qual começar: se pelo Soares, se pela Medeia. É o desassossego dos brindes…

Osvaldo Manuel Silvestre

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Depois da melhor jogada das nossas vidas

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 05-06-2008

A história é de Enrique Vila-Matas, é fabulosa, e permite-nos entrar, pela nobre mão de Abdón Porte, no grande tópico do momento: a pátria em chuteiras.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Maio de 68 em Ítaca

Posted in Autores, Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 05-06-2008

«maio de 68» é seguramente um dos poemas mais dispensáveis da obra, em geral não dispensável, de Vasco Graça Moura (VGM). O poema condensa tudo o que há de mais problemático na poética e na persona do Autor, sempre que esta é introjectada no poema, coisa que aliás acontece com grande frequência, para o bem e para o mal (embora esse mal ocorra sobretudo nos romances). Como não me vou alongar, passo a um elenco dos problemas: (i) A motivação do título resume-se a pouco mais de 3 versos (os iniciais), que remetem título e «mensagem» do poema para o domínio menor da provocação ideológica – bem denunciada no «tempo / feito de equívocos» dos versos 2-3 -, mais do que para qualquer tentativa de propor uma «versão alternativa do evento e seu culto». Tudo o resto tem tanto a ver com aquela data, ou seja, Maio de 68 em Alfama, como qualquer evento teria com aqueles mesmos 3 versos a abrir. Ou seja, não se sente a necessidade interior do texto, e sente-se em excesso o seu carácter gratuito (não quero dizer «fútil», pois o fútil pode ser e é quase sempre motivado ou, se se preferir, necessário, ainda que com frequência ao serviço de uma ontologia derivativa); (ii) Na aparência, o poema é uma ocorrência mais da poética circunstancial de VGM: um episódio popular em Alfama, cuja lição político-filosófica residiria justamente na superioridade («crítica») do particular histórico sobre o mítico. A verde árvore da vida, uma vez mais, desbancaria a cinzenta cristalização da teoria ou, pior ainda, da ideologia. O problema reside, porém, (iii) na deriva incontinente de VGM para o território da biblioteca, fazendo do episódio a enésima variação, aliás não memorável, sobre Ulisses e Penélope. Como é manifesto, a subrogação de Luísa por Penélope e do marinheiro por Ulisses derroga o intento crítico subjacente à opção por uma cena situada em Alfama, essa suposta alternativa crítica, porque periférica e «operária», ao meio universitário afluente da Paris de Maio de 68. O culturalismo do poeta esvazia esses putativos seres populares e concretos, atraiçoando título, personagens e intencionada instância crítica, ainda que em modalidade ressalvada pela ironia desta cena entre uma Luísa que apanhava malhas em meias (eis a nota marxista neste revisionismo do tear de Penélope…) e um marinheiro grego.

O maior problema do poema reside pois no programa crítico que a sua própria natureza culturalista arruina, uma vez que não se trata sequer de gerar, no casal improvável, um universal concreto que estaria antes e depois e para lá de todos os Maios. O que esta revisitação da Odisseia arrasta é antes uma passagem drástica do concreto ao abstracto, do histórico ao retórico, enfim, do político – plano em que Alfama poderia talvez combater, via luta de classes, Paris em Maio de 68 – ao puramente ideológico. De facto, VGM responde ao prestígio político do Maio de 68 com o prestígio da cultura clássica e com a ideologia dos «clássicos», como se cometesse a Ítaca, e não tanto a Alfama, a tarefa de funcionar como instância crítica do Quartier Latin… Ou seja, entramos naquele regime de equipolência em que Alfama pode ser Ítaca e em que tudo pode ser traduzido para grego, o que equivale a dizer que tudo é esvaziado da sua mundanidade irrepetível. Ficam-nos as quadras, que poderiam dar fado, e assim fazer-nos regressar à Alfama de que o poema tão depressa nos afasta, e fica-nos a competência técnica e retórica do poeta. Mas não nos fica nada a que possamos chamar «Maio de 68 em Alfama», porque este Maio de 68 é sem tempo e lugar. Mora, em rigor, na estante, e não na da minha biblioteca mas sim na de Alexandria, para sempre imobilizado sob o peso do mito.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Maio de 68 em Alfama

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 26-05-2008

maio de 68

um belo dia em maio
de sessenta e oito, tempo
feito de equívocos,
em alfama, as vizinhas conversavam.

a roupa secava ao sol.
os filhos estavam na escola.
elas falavam dos maridos.
e comentavam luísa, a

apanhadora de malhas em meias,
com o marido fora há dez anos,
sem dar notícias. tinha havido
desordens entre quatro

homens daquele bairro, por causa
de luísa, que os
ignorou e continuava a
cuidar do filho e a

apanhar malhas, sossegadamente,
na janela do rés-do-chão,
inclinando a cabeça como
a rendilheira de vermeer.

estavam as vizinhas
nisto, deplorando
o desperdício da
juventude de luísa,

por absurda esperança e
por delicadeza
assim perdendo a vida, quando
se aproximou um estranho.

deitaram-se a adivinhar.
aquele bem podia ser fernando,
marido de luísa
e alvoroçaram-se e um cão ladrou.

no beco, entre
os potes de sardinheiras
e a roupa ainda a secar,
estavam enganadas, mas

tinham razão num ponto:
era um marinheiro grego,
exausto, ainda a ofegar,
depois de uma cena de porrada

das antigas, que não tinha
nada a ver com luísa,
mas que se
chamava odisseus.

Vasco Graça Moura, in Laocoonte, Rimas Várias, Andamentos Graves (2005)

Osvaldo Manuel Silvestre

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Pietà perversa

Posted in Crítica, Notas by Pedro Serra on Sábado, 17-05-2008

Esta nota é uma achega à genial formulação de um “Franco como cyborg” na leitura de Francisco Larubia-Prado, ensaio originalmente publicado no jornal on line Ciberkiosk e entretanto editado no Journal of Spanish Cultural Studies (2000). Na iconografia de Francisco Franco destaca-se a inquietante imagem final da agonia de um ditador prostrado numa cama de hospital, entubado, encordoado a máquinas que lhe prolongam artificialmente a respiração vital. Temos, assim, um “Franco como cyborg“, sintagma que nos devolve um corpo-máquina, significante maior  de uma ditadura que perfez o aggiornamento científico-técnico responsável pelo desenvolvimentismo sessentista da sociedade espanhola, factor determinante no ulterior processo transicional. Um emblema retomado, recentemente, por Teresa M. Vilarós, no texto “Banalidad y biopolítica” (2005), o que nos devolve a valência de um potente ícone cuja poética e cuja política instiga a leitura. Ainda assim, não é possível deixar de assinalar o silêncio da ensaísta em relação ao texto já mencionado de Larubia-Prado, com o qual simplesmente não dialoga. No amplo comentário ecfrástico que Vilarós leva a cabo a partir da célebre fotografia publicada em La Revista do jornal El Mundo, nos idos de 1984, a ensaísta destaca precisamente: “De forma perversamente poética a política torna-se poesia no corpo-cyborg do ditador”. O ensaio, se incide num primeiro compasso sobre a imagem de Franco-cyborg, acaba entretanto por propor uma nova imagem forte, um novo emblema, um novo ícone: o do banho de Fraga Iribarne em Palomares, após o conhecido acidente nuclear ocorrido em 1966. Enfim, este segundo ícone será uma espécie de repetição paródica daquilo que no primeiro é modulado sub specie trágica.

Do meu ponto de vista, o argumento da ensaísta supõe um desforço por encontrar uma nova imagética poético-política que, retroactivamente, relê a década de sessenta – fulcral para o posterior processo transicional – em função já não da sobrevivência do franquismo – enquanto macro-aparato disciplinador, moderno (o ensaio segue Foucault), mas em função do embrionário desenvolvimento de uma “biopolítica” que cruza, sem sobressaltos, os tempos do tardofranquismo e a democracia. A Espanha do Turismo e do Tijolo – i.e., do crescimento imobiliário que acaba de se esgotar (um novo “T” perfila a imaginação do futuro: a Tecnologia) -, a Espanha pós-moderna, pós-política, neo-imperial e neo-liberal, em tempos do capitalismo globalizado, como vai argumentando Vilarós, é melhor representada pela fotografia do banho de Fraga, ministro do Turismo, e do embaixador norte-americano, Duke. De algum modo, a eleição da nova imagem funciona no contexto actual “revisionista”, no âmbito da chamada “segunda Transição”.

Sem dúvida a fotografia publicada em 1984 no suplemento La Revista expõe a imbricação e esbatimento do binómio homem/máquina numa cyber-ditadura, num cyber-ditador. Na ala ocidental da península, também Salazar terá sido híbrido que integra o humano e o maquínico, o sujeito e a tecnologia (low tech) da Escrita/Voz, em demanda de um irrealizável – Portugal sujeito transcendental de uma destinação providencialista, corpo místico determinado por uma missão histórica -, dínamo transformador de consciências que funciona ininterruptamente e ad aeternum, líbido canalizada numa auto-satisfação solitária. Em clave alegórica, no Dinossauro Excelentíssimo (1972) de José Cardoso Pires diz-se-nos dessa voz impostada na escrita e tecnologias que exponencialmente a potenciaram: gravação, telex, telégrafo, satélite, jornais, rádio, televisão… o scriptorium do professor/imperador é um “altifalante”:

(more…)

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Aproveitando o embalo do «Maio» (IV)

Posted in Comentários, Notas by Miguel Cardina on Quinta-feira, 15-05-2008

O carácter plural do «Maio de 68» e a sua dívida notória ao «tempo quente» no qual se insere – tantas vezes funcionando como uma metáfora do ano ou da década – tem levado a leituras distintas sobre o acontecimento, por vezes incapazes de ver que o pomo da discórdia está simplesmente na mútua parcialidade dos dialogantes.

Por outro lado, também é certo que a memória tende a recatalogar o passado de acordo com aquilo que o presente nele reconhece. Reescrita essa que é, por si só, um interessante objecto de análise, e porventura um processo salutar, mas que nem sempre conduz a um conhecimento mais completo (e complexo) do acontecido.

Por ambas as razões, é útil deixar aqui os onze temas principais que, segundo Bertram Gordon, constituem as linhas mais comuns através das quais, retrospectivamente, o antigo activista soixante-huitard olha para os acontecimentos:

1. O entendimento do movimento francês como parte de um fenómeno mundial;
2. A luta por uma sociedade anti-hierárquica e igualitária;
3. A componente radical [“More red than Mao”, dizia o L’Express a 13 de Maio];
4. A ênfase no socialismo e no melhoramento das condições de vida dos trabalhadores;
5. Argumentos a favor de uma revolução cultural e de uma transformação libertária;
6. O atenção às temáticas emergentes do feminismo;
7. A ideia de “fracasso”;
8. A contestação ao funcionamento da universidade;
9. A repressão policial;
10. Os efeitos a longo prazo nos participantes;
11. A importância do Maio de 68 no século XX francês.

Bertram Gordon (2003), “The Eyes of the Marcher: Paris, May 1968 – Theory and its consequences”. In: De Groot, G. (org.), Student Protest. The Sixties and After. London e New York: Longman, pp.39-53.

Miguel Cardina

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Contra Arcadia

Posted in Comentários, Notas by Pedro Serra on Terça-feira, 13-05-2008

Num ensaio atómico dedicado ao género pastoril, “The Despised Pastoral”, H. P. Lovecraft (1890-1937) proporciona-nos um frestão por onde adentrar-nos no seu universo ficcional. Recordo muito brevemente o argumento, apostado em contraditar a desvalorização do género de Teócrito e Virgílio, com interregnos de revitalização em Spencer ou Pope. Lovecraft posiciona-se claramente contra uma pulsão estruturalmente “realista” da poiesis, da invenção moderna, e o seu imperativo de “reprodução da Natureza”. Contra esta pulsão, menciona a figura de Poe – um dos seus mais decisivos influxos -, mestre de uma poética jogada, claramente, no “prazer e não na verdade”. Uma argumentação certamente ajustada ao esteticismo finissecular, não anda longe dos termos de um Oscar Wilde e o seu The Decay of Lying, publicado nos inícios da década de noventa do século XIX. Compare-se, por exemplo, a seguinte sequência final de “A Sombra sobre Innsmouth”, o regresso em tropel das hordas intra-mundanas que conduzem à loucura do protagonista, com o passo do diálogo de Wilde que também transcrevo:

Será realmente possível que este planeta tenha engendrado tais criaturas, e que olhos humanos tenham visto a verdade, em carne e osso, tenham visto aquilo que o género humano não conheceu até agora senão em febris devaneios e lendas pouco convincentes? § E contudo, vi as criaturas em interminável oleada – batendo as asas, dando saltos, grunhindo, gemendo – que surgia inumanamente através do espectral luar numa sarabanda grotesca e maligna de fantástico pesadelo.

Eis o retrato wildeano, por seu turno, da fantasia que sobrevirá à “narrativa moderna” de pendor realista:

O próprio aspecto do mundo mudará diante dos nossos olhos estupefactos. Do mar surgirão Behemot e Leviatã, e navegarão à volta das galeras de alta popa, como nos deliciosos mapas daquelas épocas em que os livros de geografia eram ainda legíveis. Vagarão os dragões pelos ermos e a ave fénix elevar-se-á no ar do seu ninho de fogo. Acariciaremos o basilisco e veremos a jóia na cabeça do sapo.

A prospecção bucólica de Wilde, diríamos europeia, contrasta com a de Lovecraft, que muito embora nos propõe a dessublimação da tradição pastoril americana, sempre cara a sublimar quer a Natureza quer a Tecnologia. Lembremos, a este respeito, e como mero apontamento, a conhecida injunção de Ralph Waldo Emerson, para quem “Nature and Technology agree well”. Lovecraft, de facto, será neste aspecto mais “europeu”, em quanto mais “tecnófobo”. Seja como for, o que Lovecraft sobrelevará da tradição pastoril inglesa é o facto de ela encerrar uma potentíssima máquina de produção de sonhos e mitos, somando-lhe, ao contrário do que aponta o trecho de Wilde, a pervivência de um baixo-contínuo gótico. Assim, a língua rústica, dirá, é “irresistível”: “A magia deste tipo de poesia é, para toda e qualquer mente imparcial, irresistível, capaz de evocar melhor uma série deliciosa, plácida e refrescante de retratos na imaginação do que aquela que podemos obter em formas mais realistas. Toda a fantasia não contaminada engendra visões ideais, de que a composição pastoril constitui um reflexo legítimo e artisticamente necessário”. Todavia, a irresistibilidade do sermo rusticus assume, em Lovecraft, a modulação de uma prosa berradora.

O sonho radical seria o “refúgio luminoso”, a possibilidade de fuga das “feias trivialidades da vida”. Na verdade, o onírico é tanto um mundo de beleza, de “velhos jardins e florestas encantadas”, de “bosques úmbrios”, como também um espaço de senectude absoluta que infunde por igual “deslumbramento” e “horror e decepção”. A língua rústica assimila-se a um berro que visa detonar o medo. Recolho escassos lapsos descritivos desse mundo de beleza no conto “Ex oblivione”, publicado em Março de 1921 em The United Amateur. Fábula que leio pela tradução da ficção completa de H. P. Lovecraft editada por e Juan Antonio Molina Foix (Francisco Torres Oliver, José María Nebreda, para além do editor, traduziram), dois volumes que acabam de ser publicados pela editora Valdemar. Destaco as duas excelentes introduções de Molina Foix, faltando nelas apenas o entrosamento dos textos ficcionais com os ensaios críticos de Lovecraft, muito embora  o editor sim tenha em conta alguns lugares da vasta epistolografia. O protagonista do conto, imerso num estado de letargia sonolenta, encontra na cidade de Zakarion um antigo papiro amarelecido onde lê a existência de um lugar situado mais além do “vale e dos bosques úmbrios”. O acesso a essa paisagem escusa é feito mediante uma “droga”. Cito extensamente, de modo a destacar o devaneio desse espaço obscuro: (more…)

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Transgressão conceptual

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Recensões by Luís Quintais on Terça-feira, 29-04-2008

Deleuze é, como se sabe, um pensador da explosão conceptual. Uma parte muito significativa da história do pensamento canónico euro-americano na qual nos revemos pode ser descrita através de uma diferença entre aqueles que procedem por análise e contenção e aqueles que procedem por explosão. Wittgenstein será certamente um dos exemplos mais emblemáticos da contenção e Deleuze um dos exemplos – senão o exemplo mais significativo – da explosão. Minimalismo e maximalismo seriam certamente duas expressões muito adequadas para caracterizar esta irredutibilidade. Sinal dessa irredutibilidade é a recusa liminar que Deleuze faz de toda ou qualquer consideração útil do pensamento de Wittgenstein.

Confesso que esta aporia – a existir aporia – me parece produtiva. Como se, em certos momentos, o meu perspectivismo reclamasse a cautela analítica de Wittgenstein, e noutros, o maximalismo de Deleuze. Isto porque certos problemas podem ser dissolvidos como pseudo-problemas, e outros se me afiguram reais problemas – e problemas «complexos» – que exigem uma espécie de transgressão conceptual, uma forma de recalibragem do complexo pelo complexo que só Deleuze nos permite.

Um dos aspectos desta abertura à complexidade em Deleuze prende-se com o modo como o seu pensamento convoca – e é contaminado por – universos tão distintos como a literatura, as artes plásticas, o cinema, ou certos sectores do conhecimento científico (desde a neurobiologia à biologia molecular). Deleuze procede através de diagonais – insuspeitas diagonais – que nos fazem lembrar a noção de “enunciado” de Foucault (com quem o pensamento de Deleuze estabelece uma relação de mútua fertilização). Mais que um criador de conceitos (como seria tarefa da filosofia), Deleuze é um criador de enunciados, isto é, de multiplicidades, de heterogeneidades. Deleuze (ou o contínuo Deleuze-Guattari) é uma máquina ou um distribuidor de conexões e diferenças. Ninguém como Deleuze (ou, mais uma vez, o contínuo Deleuze-Guattari) para suspender ou rasurar toda a lógica do autor que não será certamente diversa da lógica do cogito ou da funesta lógica da identidade.

Esta máquina de fazer conexões trouxe-nos uma ruptura também com um pensamento (uma parte muito significativa do cânone) que teima em proceder no interior de uma matriz que vai do particular para o geral e do geral para o particular. Um pensamento arborescente a que Deleuze responde com um pensamento rizomático, transverso, sem centro, sem origem. Pensar os universais é aqui pensar a repetição da diferença, o que nos poderá levar a reconsiderar seriamente quase tudo o que passa por filosofia, arte, e ciência. Como antropólogo, diria que é o fim da antropologia, ou, mais seriamente, um recomeço, o único recomeço que poderemos sequer cogitar. Uma nova forma de realismo passará eventualmente por aqui.

Poucos são os exemplos prévios. Talvez somente Espinosa, Nietzsche, ou Bergson o tenham logrado também (aliás, estas serão, com David Hume, as maiores e assumidas influências de Deleuze). Talvez só um neurocientista como Gerald Edelman (em certos aspectos do seu darwinismo neuronal) nos permita, hoje, apreciar as virtualidades (mais que as virtudes) deste pensamento de intensidades e planaltos. O seu alcance reclama uma leitura atenta de Manuel DeLanda ou de Brian Massumi.

Deleuze enlouqueceu o pensamento filosófico euro-americano através de uma aventura na twilight zone. Uma vez visitado esse espaço de aventura e criação – uma vez reiterado esse devir de perene repetição e diferença – não nos será certamente possível voltar a frequentar as fundações supostamente seguras de uma tradição sem a percepção do desgosto e da perda.

(Tudo isto poderá servir como homenagem à recente edição portuguesa de Mil Planaltos Capitalismo e Esquizofrenia 2 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela Assírio & Alvim com tradução de Rafael Godinho.)

Luís Quintais

Gilles Deleuze & Félix Guattari (2008) Mil Planaltos Capitalismo e Esquizofrenia 2, Lisboa, Assírio & Alvim, 653 pp. [ISBN: 978-972-37-1272-8]

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Do infortúnio das páginas em excesso

Posted in Notas by Sandra Guerreiro Dias on Terça-feira, 29-04-2008

Sabia que de cada vinte e oito páginas publicadas só se lê uma? Porque há livros que são dados de presente a pessoas que não lêem, porque vão parar a uma biblioteca sem utentes, porque se adquirem para decorar estantes, porque se oferecem na compra de outro produto, porque o leitor perde o interesse logo no primeiro capítulo, porque nunca saem do armazém dos impressos, porque também os livros se compram por impulso.

Excerto de David Toscana (2008). O Último Leitor. Porto: Oficina do Livro.

Sandra Guerreiro Dias

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O tecno-encantamento como motivo e causa

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Notícias, Recensões by Luís Quintais on Quinta-feira, 10-04-2008

A Nada ocupa um espaço de interrogação incomum: trata-de de pensar as relações entre arte, ciência, e tecnologia no presente. De alguma forma, trata-de de equacionar aquilo que parece estar em permanente conflito com uma certa acepção de modernidade à la Weber, entendida esta como uma tópica do desencantamento, de que a racionalidade científica seria o veículo e o desígnio.

Os seus já inúmeros colaboradores (o primeiro número é de Novembro de 2003) têm vindo a procurar enunciar as preposições, o entre, os interstícios da cultura tecnológica, tomando como dado axial algo que é motivo de perturbação para tantos: afinal a modernidade desdobrou e remapeou possibilidades de encantamento, de excesso ou dispêndio (como escreveria certamente Bataille) que os sacerdotes da Razão não previram.

De alguma forma, a Nada assume que a modernidade só pode ser pensada como um momento histórico em que o encantamento do mundo é reconfigurado protésica e tecnologicamente. A noção de híbrido enfileira aqui, ou, de outro modo, a de monstro. Poderíamos, aliás, divertir-nos dizendo (elogiosamente) que se trata da única revista sobre monstros escrita em Português e distribuída pelo mundo fora (agora também em Barcelona e São Paulo), e poderíamos ainda, de forma mais séria, dizer que é uma revista de tese: trata-de cartografar as logísticas que a percepção tecnológica assume na paisagem contemporânea, qual a sua fenomenologia, quais as suas qualidades sensíveis, as suas metamorfoses e os seus rizomas.

Um dos exemplos desta ponderação prende-se com a bio-arte, e é comum encontrarmos na Nada textos de e sobre figuras destacadas deste campo de intensidades do presente, onde se destaca o trabalho da portuguesa Marta de Menezes.

O número 10 contém ensaios de Jorge Leandro Rosa, Luís Graça, Susana Ventura, Byron Kaldis, Daniel Innerarity, e Susana Viegas. Destaque para duas entrevistas: uma com José Luís Garcia e outra com Rudolf Bannasch. Este número contém ainda experiências literárias e conceptuais só possíveis numa revista que vive serenamente fora do espaço académico, pese embora a sua atenção para com aquilo que de mais estimulante se passa dentro da academia. Encontramos aí, por exemplo, duas interpelantes incursões de Adam Zaretsky, «Birdland» e «Balde de Facs».

Convém ainda destacar o belíssimo conto de João Urbano, «O Homem Sem Bagagem».

Ah, é verdade, o grafismo da revista é exemplar.

Nada, 2007, Novembro, Nº 10.

Luís Quintais

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Num esguicho infindável de esperma e refrigerante de motores

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sábado, 05-04-2008

JG Ballard é um escritor que apela constantemente à ideia de cenário. Em frequentes momentos do seu trabalho e em vários depoimentos, Ballard fala-nos da contingência de todos os cenários, e do modo como estes podem ser removidos de um momento para o outro para nos confrontarmos com a inumanidade do mundo e, sobretudo, com a inumanidade dos humanos.

A natureza humana não suporta tanta realidade, e daí a exigência do cenário ou do reflexo no escudo, como Perseu, incapaz de olhar a górgona de frente. O mundo em que vivemos – esse mundo do pós-guerra submerso e insensorializado pelo consumo – é afinal um «enorme romance». Como fugir ao enorme romance em que se transformaram as nossas vidas?

De duas formas. Através de uma distância terâpeutica que nos permita adestrar as nossas faculdades morais – e Ballard é um autor da distância, da simulação, do laboratório, em suma, um escritor de ideias que ensaia constantemente uma geometria moral -, ou através de um acto de implicação violenta.

Ballard socorre-se da distância para testar/simular/anatomizar a violência como manobra de reconfiguração moral. Em Crash (1973) o acidente é a parábola de uma desocultação: a tecnologia é a expressão mais acabada da inevitável auto-superação do humano, a particularidade definicional que lhe cabe em direcção à hybris do desejo e da irracionalidade sem freio.

Lembremo-nos então dos seus magníficos passeios de bicicleta em criança por uma Xangai controlada pelos japoneses, onde assiste a momentos de extrema crueldade. Ballard é um produto da guerra, e o que ele faz, como alguém que aprendeu desde cedo a observar o comportamento dos humanos face à urgência e à necessidade (que os metamorfoseia em seres eminentemente morais), é bascular o pensamento na imprecisão que se instala entre o cenário e a crueza (e o improvável) de um mundo sem cenários. O que acontece quando alguém atravessa de um modo quase imperceptível (e depois de um modo escandalosamente perceptível) a fronteira que parece separar a urbe-cenário da «realidade», a mais insolúvel das categorias? Esta é a grande pergunta que atravessa transversalmente toda a sua produção literária.

Veja-se o título, ou melhor, o subtítulo do seu último (e talvez derradeiro) livro: From Shangai to Shepperton. Xangai: a heterotopia da infância tomada como lugar de máxima atenção ao cristal de crueldade que a guerra convoca. Shepperton (os mais famosos estúdios de cinema ingleses situam-se na área): a heterotopia do cinema, isto é, do cenário que esconde, que recorta, que ilude (mas também do écran, esse plano onde se projecta a multidimensionalidade do desejo ilimitado, da inconsolada desrazão que habita a carne). Estes dois lugares cruzar-se-iam um dia: Spielberg reconstruiu uma parte da Xangai de Ballard em Shepperton quando realizou o seu Empire of the Sun (1987), e é muito sugestiva a descrição que Ballard nos dá do episódio em Miracles of Life:

Several of my neighbours in Sheppeton worked as extras, drawn by the nearby film studios, and took part in the scenes shot in England. I vividly remember the mother of a girl at the same school as my daughters calling out to me: «We’re going back to Shanghai, Mr Ballard. We’re in the film…» I had the uncanny sense that I had chosen to live in Shepperton in 1960 because I knew unconsciously that I would write a novel about Shanghai, and that extras among my neighbours would one day appear in a film based on the novel (p. 258).

Esta recursividade entre Xangai e Shepperton é, pois, a recursividade entre a crueza da guerra como experiência limite que põe à prova a tessitura do humano e as logísticas de mediação que o cinema reclama. Em Crash tal tensão está presente de modo insuperável, e o acidente integral que Vaughan antevê, assume contornos apocalípticos, revelatórios, tal como em Virilio:

Neste mundo iluminado pela violência e pela tecnologia, ele [Vaughan] estava agora a guiar para sempre a cento e sessenta à hora numa auto-estrada vazia, deixando para trás estações de serviço desertas na orla de vastos campos, esperando por um único carro vindo ao seu encontro. No seu espírito, Vaughan via o mundo inteiro a perecer num desastre de automóvel simultâneo, milhões de veículos precipitando-se uns contra os outros numa cópula definitiva, que culminaria num esguicho infindável de esperma e refrigerante de motores (pp. 36-37).

É esta tensão – espacializada, sempre espacializada – entre a violência como estratégia global e revelatória e o cenário a destruir (inevitavelmente) que Ballard faz convocar transversalmente. As figurações do humano emergem aí «iluminadas pela violência e pela tecnologia».

Luís Quintais

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Cravan (II)

Posted in Autores, Notas by Pedro Serra on Quarta-feira, 26-03-2008

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Domingo Sánchez Blanco, Autorretrato.

Que dizer, que dizer sobre o Primeiro Campeonato Mundial de Poetas Pesados? A situação foi esta: nem abstracção, nem acção, nem acontecimento, nem agressão, nem amor, nem anormalidade, nem antiguidade, nem anti-sistema, nem apostolado, nem apoteose, nem aprendizagem, nem arquétipo, nem artesanato, nem aura, nem autenticidade, nem auto-criação, nem autoridade, nem auto-suficiência, nem bens, nem cabelos compridos, nem cegueira, nem céu, nem chocolate, nem claustrofobia, nem contemplação, nem contorções musculares, nem copistas, nem coração, nem crânios, nem crueldade, nem delícia, nem delinquência, nem delírio, nem demência, nem depressão, nem desassossego, nem desespero, nem desmedida, nem destreza, nem desvio, nem devoção, nem dialéctica, nem disciplina, dissidência, nem dívida, nem divisão social do trabalho, nem doença, nem dons inatos, nem dor, nem educação, nem elitismo, nem embriaguez, nem emulação, nem engenho, nem ensimesmamento, nem entranhas, nem entusiasmo, nem epilepsia, nem erotismo, nem erro, nem escola, nem escravo, nem escuridão, nem escuta, nem esforço, nem especulação, nem espírito, nem espontaneidade, nem estupidez, nem excepcionalidade, nem exercício, nem experiência, nem êxtase, nem faculdade, nem faíscas, nem fanatismo, nem fantasia, nem fascinação, nem favoritismo, nem fealdade, nem felicidade, nem fetichismo, nem filiação, nem fingimento, nem físico, nem flecha, nem fogo, nem fonte, nem freak, nem frenesim, nem furor, nem genialidade, nem glória, nem gosto, nem graça, nem halo, nem hedonismo, nem herói, nem homo literatus, nem honras, nem humanidade ideal, nem ignorância, nem iluminação, nem ilustríssimos, nem imediato, nem imitação, nem ímpeto, nem inadaptados, nem inarmonia, nem inchaço vazio ou viciosa inchação, nem incompreensão, nem inconformismo, nem inconsciência, nem incultura, nem inspiração, nem instinto, nem instrumentos, nem intimidade, nem intestinos, nem intuição, nem irracionalidade, nem lágrimas, nem liberdade, nem língua de fora, nem lucidez, nem magia, nem maldição, nem mania, nem martírio, nem maturidade, nem mecanismo, nem mediato, nem medida, nem melancolia, nem mensurável, nem mérito, nem microcosmo, nem mimo, nem missão, nem mistério, nem moda, nem modelo, nem modernidade, nem moradas, nem moral, nem mudança, nem natura naturans, nem natura naturata, nem naufrágio, nem néctar, nem nervos, nem neurose, nem nobreza, nem novidade, nem observação, nem ofício, nem olfacto, nem oráculo, nem origem, nem originalidade, nem paciência, nem paixão, nem pedantes, nem pés, nem peso, nem poética, nem porta-vozes, nem possessão, nem pouco esforço, nem precocidade, nem privilégios, nem profecia, nem progenitores, nem psicobiografia, nem pulsão, nem Q.I., nem queda súbita, nem racional, nem ranger de dentes, nem raro, nem razão, nem rebeldia, nem rebuçados, nem regras, nem revelação, nem rito, nem sacrifício, nem sangue, nem sensações, nem sensibilidade, nem sentimento, nem singularidade, nem sobre-natureza, nem sofrimento, nem sombra, nem sorte, nem stercore, nem subjectivização, nem substancialização, nem talento, nem torrente, nem tortura, nem trabalho, nem transe, nem transgressão, nem turbulência, nem utilidade, nem venenos, nem veneração, nem verdade, nem vermes, nem vibrações, nem vício, nem vidência, nem vinho, nem violência, nem vítimas, nem voz interior, nem voz primigénia… Nem isto, nem o inverso de tudo isto, que também foi verdade. Que dizer sobre o combate “Tiger Tiger Escarpa” vs. “La Tanquetilla de Fresno” e sobre os três assaltos do combate “El Tigre de Gales” vs. “El Boss Sexuador”? Como performance (colectiva) que foi, terá sido uma pós-performance na linha de A destajo. 500 performances en un dia de Domingo Sánchez Blanco, frenética e assumidamente ridícula/risível passagem à acção para esgotar o corpo que age. Cansar fisicamente o corpo, esgotar o agonismo do ditame da passagem ao acto: porque, no fundo, só um cansaço físico assim pode chegar a trazer-nos a renúncia dos textos.

Pedro Serra

Domingo Sánchez Blanco (2005), A Destajo. 500 performances en un día. Murcia: CendeaC. 318 pp. ISBN: 84-6094-276-7.

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JG Ballard, topoi #1: a piscina vazia

Posted in Autores, Notas by Luís Quintais on Segunda-feira, 17-03-2008

miracles_coverMiracles of life. Shanghai to Shepperton: An Autobiography (2008) é, como afirmei aqui, o livro que irá certamente fechar o percurso de um dos mais significativos escritores do século XX e arredores.

Há uma atmosfera nas suas novelas e contos que não tem precedente óbvio na ficção, e que é, como o próprio Ballard admite, o resultado de um encontro entre os surrealistas e a escrita de ficção científica. Aliás, as artes plásticas serão certamente a sua influência maior, e a ficção científica um expediente a partir do qual se consagra uma nova forma de ficção que é fundamentalmente um exercício anatomo-patológico dos pesadelos da Razão. Ballard foi estudante de medicina em Cambridge durante dois anos (pensou vir a tornar-se psiquiatra), e a sua assumida escola é o teatro anatómico.

A mestria de Ballard não promete seguidores. Todos aqueles que o têm como referência conhecem os riscos (de Martin Amins a Will Self, passando pelo notável Iain Sinclair). Seja como for, a sua influência pode ser medida pelo facto do Collins English Dictionary integrar o adjectivo «ballardian» para definir um conjunto de elementos que são recorrentes na sua ficção, onde avultam a modernidade distópica e os efeitos ecológicos e psicológicos da tecnologia. A escrita de Ballard é o lugar em que as landscapes se tornam mindscapes.

Ballard, no estilo seco e directo que o define, e com a urgência a insinuar-se em todas as páginas, conduz-nos em Miracles of Life até à sua infância em Shangai, cenário do seu livro mais conhecido, Empire of the Sun (1984). A infância de Ballard é genuinamente um acervo de momentos – de topoi ballardianos – que nos permitem dizer que este escritor oracular é ensombrando pela memória, e, em particular, pela memória da guerra e pelo limite que a guerra desenha quando se trata de equacionar uma certa ideia de «natureza humana». A visão de Ballard só poderá ser produtivamente comparada à de Paul Virilio, o urbanista e ensaísta francês criador da «dromologia». Ballard é, como Virilio, um produto de uma certa sensibilidade que foi moldada pelas experiências da guerra moderna, onde a tecnologia adquiriu a sua acepção mais virulenta e mortal.

Referi os topoi ballardianos. Aqui fica um deles: a piscina vazia:

Curiously, the house we moved to had a drained swimming pool in its garden. It must have been the first drained pool I had seen, and it struck me as strangely significant in a way I have never fully grasped. My parents decided not to fill the pool, and it lay in the garden like a mysterious empty presence. I would walk through the unmown grass and stare down at its canted floor. I could hear the bombing and gunfire all around Shanghai, and see the vast pall of smoke that lay over the city, but the drained pool remained apart. In the coming years I would see a great many drained and half-drained pools, as British residents left Shanghai for Australia and Canada, or the assumed «safety» of Hong Kong and Singapore, and they all seemed as mysterious as that first pool in the French Concession (…) I think now that the drained pool represented the unknown (…) (pp. 26-7).

J.G. Ballard (2008), Miracles of life. Shanghai to Shepperton: an Autobiography. Londres: Fourth Estate/Harper Collins. 278 pp. [ISBN 978-0-00-727072-9]

Luís Quintais

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Políticas da canção nocturna

Posted in Notas by Pedro Serra on Quinta-feira, 13-03-2008

Há um bar em Salamanca onde, todas as quintas-feiras, se canta o «Cara al Sol». Toda a gente sabe que é assim, toda a gente sabe ser essa a canção que ali se canta quintas-feiras à noite. De quantas maneiras se pode cantar uma canção? Lembro-me do notável filme Caudillo, de Basílio Martín Patino, autor do igualmente excelente Madrid que tive oportunidade de ver em Tróia em 1987 (venceu, aliás, o Festróia desse ano). O cineasta conta algures que foram os próprios membros da equipa de montagem que, nos idos de 1978, emprestaram a voz ao «Cara al Sol» que se ouve em Caudillo. Lembro-me, ainda, de Slavoj Žižek, que coloca sob o signo de um outro exemplo os ensaios reunidos em Organs Without Bodies: Deleuze and Consequences (2004). Neste caso, trata-se da «Internacional». Cito pela tradução espanhola, recentemente dada à estampa:

Durante el rodaje en las afueras de Madrid de la película de David Lean Doctor Zhivago, una multitud de figurantes españoles tuvo que cantar la “Internacional” en una escena en que aparecía una manifestación masiva. El equipo de rodaje quedó asombrado al descubrir que todos conocían la canción y que la cantaban con tanto entusiasmo que dio lugar a la intervención de la policía franquista, que pensaba encontrarse frente a una manifestación política real. Y, lo que es más, cuando ya había anochecido (la escena tenía que desarrollarse en la oscuridad), la gente que vivía en las casas de los alrededores oyó los ecos de la canción, empezó a abrir botellas y a bailar en la calle, suponiendo equívocamente que Franco había muerto y que los socialistas habían tomado el poder. Este libro está dedicado a esos momentos mágicos de libertad ilusoria (que, de alguna forma, no eran sólo ilusorios) y a las esperanzas frustradas por el retorno a la realidad “normal”. (p. 16)

De quantas maneiras se pode cantar uma canção, a mesma canção de sempre?

Slavoj Žižek (2006), Órganos sin Cuerpo. Sobre Deleuze y consecuencias. Trad.: Antonio Gimeno Cuspinera. Valencia: Pre-Textos. 245 pp. ISBN: 84-8191-782-6.

Pedro Serra

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F.A.P. dixit: Saudade não, nostalgia sim

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 13-03-2008

Fernando

Nunca entendi a popularidade da categoria sub-ontológica da saudade na cultura portuguesa. Deu poesia, fados e Madredeus, filosofias? E até ensaios de gente respeitável e que muito admiro, como Eduardo Lourenço? Ainda assim, nada disso justifica a hipertrofia dessa não-coisa, que aliás não consigo deixar de associar a um estado muito historicamente situado da nossa cultura e hoje apenas produtivo em versões suas de exportação – ou em ensaios editados pela Imprensa Nacional, que, vá lá saber-se porquê, decidiu há já uns anos acolher tudo isso (saudade, saudosistas, especialistas em saudade, em saudosistas e saudosismos), como se aí reconhecesse uma alta missão civilizacional.

Prefiro a versão de Fernando Assis Pacheco, que à sua maneira desobrigada é mais profunda e produtiva do que a de toda essa tralha do tardo-Oitocentos que não acaba de morrer. Transcrevo de uma entrevista do autor a Rogério Rodrigues e Torcato Sepúlveda, no Público (24/02/1991), hoje recolhida em Retratos Falados (Porto, Asa, 2001, p. 44):

Uso pouco a palavra saudade, em [favor] da palavra nostalgia. O conceito de nostalgia é muito mais dorido do que o de saudade. A saudade é bonita, dá para o Carlos do Carmo e a Amália cantarem. A nostalgia pressupõe amigos que morrem; mulheres amadas que desaparecem; filhas que crescem e já não são como eram em pequeninas; eu que já não tenho a destreza dos vinte anos, já não jogo à bola, já tenho digestões difíceis. A nostalgia não está devidamente contemplada na poesia portuguesa. À força de tentarmos fazê-la passar por uma categoria filosófica menor chamada saudade, esquecemo-nos de que o tempo foge e ninguém o agarra.

(…) Quando uma geração nasce, a outra morre. É preciso que surja uma geração capaz de sentir a felicidade, quando nós envelhecemos. A nostalgia é isso, algo que nos mantém vivos quando já sabemos que vamos morrer.

Fiquemos com a diferença que Assis Pacheco propõe com «nostalgia»: não uma versão auto-caritativa dos estragos da temporalidade, como a saudade sempre foi produzindo – para não referir a versão kitsch inscrita nas tão populares «saudades do futuro» – mas qualquer coisa da ordem do irrevogável. Não saudade, mas antes, e para propor uma tradução e tradição respeitável, ser para a morte. A nostalgia, se leio bem a sua diferença em Assis Pacheco, não é a saturação memorial e memorável do passado, como na tradição da saudade, mas antes a experiência imprescritível da perda. Nostalgia é saber o que se perdeu e, sobretudo, que se perdeu. Como no futebol se aprende, e como Assis Pacheco sabia, a pior ilusão é a de supor que alguma vez se levanta a taça.

É a essa ilusão que chamamos saudade.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Crash – again and again!

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 10-03-2008

crash.jpg

Sempre que um automóvel se despista na minha rua e acorro à janela, lembro-me de Crash, o mítico romance de J. G. Ballard sobre automóveis, sexo e acidentes (e corpos em sofrimento, e próteses, e alegorias, e…), publicado há 35 anos, em 1973. Tal é o poder da imaginação literária… E tal é a debilidade do real, sempre insatisfatório se comparado com o universo de Ballard (o que neste caso, contudo, não é necessariamente mau…).

Assinalando a edição recente da autobiografia do autor, Miracles of Life: From Shanghai to Shepperton, editada em Fevereiro, o Times On Line reproduz a resenha então publicada no jornal (acima reproduzida: quite impressive…) e, associado à Harper Collins, desafia os leitores a um concurso: desenharem a capa de uma nova edição (limitada) do romance. O vencedor será escolhido pelo próprio Ballard, a partir de uma short list de seis escolhida pelo departamento gráfico da editora. O vencedor terá o seu desenho impressa na capa dessa edição, a publicar em Setembro. Os restantes cinco receberão um exemplar da autobiografia.

De que estão à espera os book designers portugueses? Afinal de contas, acidentes é connosco…

Osvaldo Manuel Silvestre

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[sic]

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 10-03-2008

Assisti uma vez, no Porto, na Fundação António de Almeida, a um lançamento de uma obra de Maria Gabriela Llansol (fim dos anos 90, creio). Fui, de Braga, com Américo Diogo, que fazia uma intervenção na sessão, e conheci Augusto Joaquim, com quem de imediato simpatizei. Llansol sentava-se na primeira fila e a sessão decorria no ambiente grave e silente de uma missa laica: leituras, piano, ballet, as pessoas sussurrando entre si na audiência como numa capela se sussurra, entre reverência e tremor. A pretexto da viagem até Coimbra, e depois de ouvir Américo Diogo, cuja performance destoou um tanto, saí como quem foge. O meu afastamento da obra de Llansol, cuja Trilogia de Rebeldes tanto me impressionara, começou nesse dia. A forma como foi pensando a figura do «legente» só me afastou ainda mais, já que o destino inevitável dessa figura é o corpo místico da seita de legentes. A minha concepção do leitor, que é uma concepção inteiramente secular, é muito outra; e se quisesse enumerar, ponto por ponto, tudo aquilo que para mim não é e não deve ser um leitor, só tinha de transcrever miudamente Llansol (dispenso-me de o fazer em relação aos seus assumidos legentes, já que o discurso destes é, quase sempre, involuntariamente caricatural, e se calhar por não poder deixar de o ser).

Eis porque assino isto por baixo (no que toca aos dois autores em pauta, aliás).

Osvaldo Manuel Silvestre

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Das Obras Completas (II)

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 03-03-2008

Americo Rodrigues

Não, não é tudo, pois seria preciso transcrever toda a Errata que é esta Obra Completa de Américo Rodrigues para podermos ter acesso a essa ideia de completude que o título promete – e o miolo do livro logo subtrai, revelando-nos uma obra que afinal se inicia na p. 153. Não desejo fazê-lo, pois além do mais um tal gesto colocar-me-ia sob a alçada da Lei, que prescreve que de uma Obra só se podem transcrever excertos. Em todo o caso, transcrevo mais dois, da p. 156:

Na página noventa, linha nove, onde se lê ‘artista’ deverá ler-se ‘tosta mista’.

Na página cem, linha sete, onde se lê ‘colhões’ deverá ler-se ‘Camões’.

Fico-me por aqui, para não incorrer no risco de fazer coincidir as minhas citações da Obra Completa de Américo Rodrigues com ela mesma. O que, diga-se, de todo não sucede, uma vez que é o próprio livro a jogar tudo numa incoincidência (entre obra e errata). Faço notar que o subtítulo – revista e aumentada (1961-2002) -, estabelecendo uma equivalência entre vida e obra, lança a irrisão para um patamar assaz patafísico: uma errata, eis o que resta de uma vida. Mais ainda, uma errata que se vai autocorrigindo no seu desenvolvimento, sugerindo que qualquer errata necessita do suplemento de uma outra errata, e por aí fora. Assim, o que aumentaria a obra seria a revisão correctiva da errata, que é como quem diz, o erro incontrolável de quem corrige o que é insusceptível de alguma vez ficar de facto corrigido.

O problema reside neste «de facto», uma vez que estranhamente a errata é o único facto desta obra completa: uma espécie de prótese filológica de um corpo sumido. Ou o assustador triunfo de um mecanismo de citação desprovido de texto originário. A inferência é metafísica, patafísica e, claro, ética: a verdade completa da Obra é a errata, nunca a obra e menos ainda a arrogância teológica da completude. Obras, completas ou não, são típicas imputações caritativas daquilo que vamos sendo no tempo: erratas, sempre revistas e (infelizmente) aumentadas.

Que, em rigor – e isto não é melancólico mas antes libertador -, cabem em cerca de 10 pp. Em todo o caso, podemos perguntar-nos se, tendo a errata de uma Obra Completa produzida num arco que vai de 1961 a 2002 as escassas páginas que tem, será que os anos entretanto decorridos (6, para sermos precisos) terão assistido ao seu crescimento autocorrectivo? Por outras palavras, terá Américo Rodrigues, no prelo, uma versão «revista e aumentada» desta errata que é a obra? Prefiro supor o contrário: se a obra de 41 anos não chega a 10 pp., a obra de 46 tenderá a ser ainda mais breve. Até que se chegue a um ponto, difícil de situar e desejavelmente afastado no tempo, em que a errata tenderá a coincidir com o sumiço da obra. Quando já nada houver a corrigir ou, se se preferir, quando a correcção já nada adiantar à ideia e pretensão de Obra.

Quando, enfim, a indesejada das gentes nos libertar da errata – e nos oferecer o vazio esplendor da obra.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Das Obras Completas (I)

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 02-03-2008

Obra Completa

Chama-se Obra Completa, exibe-se em capa dura no micro-formato 7,5 x 10,5 cm, e de acordo com o colofon teve uma tiragem de 100 exemplares numerados e assinados pelo autor (o meu precioso exemplar é o nº 53), tendo sido composta e impressa nas Oficinas de S. Miguel, na Guarda, em Novembro de 2002. É coisa artesanal e «arte povera». O seu autor é Américo Rodrigues, poeta sonoro notável e actualmente excelentíssimo director do Teatro Municipal da Guarda.

Em rigor, o título que consta da folha de rosto é Obra Completa. revista e aumentada (1961-2002). Quando nela entramos, constatamos que se inicia na p. 153, terminando o texto na p. 161 e o livro na 162; e que, em rigor, é uma «Errata» que começa assim (p. 153):

Na página seis, linha nove, onde se lê ‘poesia’ deverá ler-se ‘poderia’.

Na página nove, linha sete, onde se lê ‘literatura’ deverá ler-se ‘pêra dura’.

Na página dez, linha dois, onde se lê ‘amor’ deverá ler-se ‘andor’.

Permito-me avançar para a p. 157:

Na página cento e vinte, linha onze, onde se lê ‘liberdade’ deverá ler-se ‘liberdade’.

Na página cento e trinta e um, linha um, onde se lê ‘vidro’ deverá ler-se ‘vídeo’.

Na linha anterior desta errata, onde se lê ‘vídeo’ deverá ler-se ‘vidro’.

Por fim, escolho da p. 159:

Na linha anterior, onde se lê ‘linha sete’ deverá ler-se ‘linha da beira Alta’.

Na linha anterior, onde se lê ‘linha da Beira Alta’ deverá ler-se ‘enganei-me outra vez’.

Na linha anterior, onde se lê ‘enganei-me outra vez’ deverá ler-se o que o leitor quiser.

Na página cento e cinquenta e três, em algumas linhas, onde se lê ‘onde se lê’, deverá ler-se ‘deverá ler-se’.

E é tudo.

Será?

Osvaldo Manuel Silvestre

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Manuel Gusmão: cognição & cinema

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 24-02-2008

Benjamin falava da «distracção» induzida pelo cinema nos nossos hábitos perceptuais e via aí, talvez com excessivo optimismo, o elemento não só salutar como revolucionário desse (então) novo medium. Manuel Gusmão, em entrevista publicada no nº 10 da revista Textos & Pretextos, fala de uma privatização da máquina-cinema ou, se se preferir, de uma internalização dela pelo nosso aparelho perceptivo. É da sua poesia que fala, mas é também, e creio que sobretudo, de um devir-cinema do mundo:

Mas eu também tenho a mania de pensar que todos nós somos uma espécie de cinema ambulante, isto é, que todos nós temos uma espécie de cinema na cabeça que consiste numa máquina que projecta num ecrã onde vemos a imagem, numa sala escura com pessoas lá dentro. (pp. 117-9)

Não consigo deixar de pensar que, num momento em que o cinema é muito nitidamente uma arte assassinada pelo devir tecnológico que aliás o fez nascer – o Home Cinema não é já «uma sala escura com pessoas lá dentro», a própria sala escura tem cada vez menos pessoas lá dentro, a histeria tecnológica dos Multiplex, bem patente no som ensurdecedor, é um último estertor –, aquilo que ele historicamente foi nas salas escuras, na nossa cabeça e na ordenação dos espaços de lazer das nossas cidades, é e será cada vez mais material e devir literário e poético. Ou seja: uma projecção que mora cada vez mais na nossa cabeça; um dispositivo que cumpriu o seu papel histórico; um ponto de passagem para novas e ainda mais vertiginosas modalidades de percepção e cognição; uma preciosa memória afectiva. E política, já agora, uma vez que convém não esquecer que o cinema é uma arte do tempo das grandes revoluções (políticas e artísticas). Mas se calhar é disso que realmente falam as palavras de Manuel Gusmão.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Espinosa (I)

Posted in Autores, Notas by Pedro Serra on Sábado, 23-02-2008

Miguel Espinosa

Miguel Espinosa (1926-1982) terá escrito La fea burguesía entre 1971 e 1975. Romance ainda revisto em 1980, já só seria publicado na versão final em 1990. Edição póstuma, pois, que acaba de conhecer uma segunda edição (2006), novamente pela chancela da editora Alfaguara. La fea burguesía articula uma singular poética do romance, poética apostada na representação da burguesia, também referida como «clase gozante». «Classe» não obedece a um sentido estritamente materialista, nem o universo social representado se subsume a uma dialéctica de classes, antes à cristalização do seu cancelamento. O romance é constituído por duas partes. A primeira delas, sob o título de «Clase media», é integrada por cinco histórias independentes. Cada um desses núcleos narrativos centra-se num casal, sendo que cada um dos cinco casais nomeia as diferentes histórias: Castillejo e Cecilia, Clavero e Pilar, Krensler e Cayetana e Paracel e Purificación. A segunda parte do livro, por seu turno, tem por título «Clase gozante». É composta por apenas um capítulo, mais longo que os anteriores, subtitulado com os nomes próprios de um outro casal, Camilo e Clotilde.

Sublinho, de momento, um único aspecto formal deste romance, concretamente aquele que estrutura o pacto narrativo da segunda parte do livro. O narrador de «Clase gozante» é um narrador em primeira pessoa, o contador da história é precisamente a personagem Camilo. O pacto narrativo desta segunda metade de La fea burguesía implica que a voz ficcional que se dirige ao leitor seja um burguês exemplar. Esse leitor potencial, e este é um ponto importante, é ficcionado pelo próprio romance. A história é contada por Camilo, figura paradigmática da classe hedonista, a uma outra personagem, Godínez, indivíduo que se situa, de um ponto de vista social, nas margens do círculo propriamente burguês. Enquanto Camilo é um alto funcionário do aparelho burocrático do Estado – epítome, pois, da alta classe média que sustentou e foi legitimada pelo franquismo – Godínez pertence a um stratum social também referido como classe média, mas que não se manifesta absolutamente como «clase gozante». Na verdade, a peculiaridade da personagem reside precisamente no facto de nunca poder vir a aceder a esse círculo social de eleição. Godínez é – e este termo é o termo usado no romance – um proletário. Ser proletário significa prioritariamente, dentro dos limites nocionais do romance, que Godínez é exposto à fealdade burguesa mas que nunca encarnará esse mal absoluto.

E, todavia, a condição de ouvinte e tentado pela sedutora língua de Camilo não esgota o estatuto ficcional de Godínez. Constatamo-lo apenas no último parágrafo do romance, parágrafo que explicitamente situa Camilo e Godínez numa cena de tentação. Camilo é o tentador e Godínez o tentado. Camilo fala – narra, é o narrador – e Godínez escuta, isto é, é tentado pelo discurso da voz autoritária do primeiro. São estas as palavras finais do romance:

Un hombre fue tentado, por otro hombre, a inclinarse por lo que no podía alcanzar, dada su naturaleza, lo cual entraña la más alta tentación ya que conduce a la desesperación. El tentado empero, resistió la seducción mediante la acción de escucharla y transcribirla, retratando con ello el tentador y apartándolo de sí.

Notável este turn of the screw final do romance! Godínez não apenas ouve o relato de Camilo: Godínez é, também, responsável pela sua transcrição. Escrever as palavras da vida social alienada, da fealdade burguesa, significa simultaneamente ceder/resistir à alienação.

Miguel Espinosa (2006), La fea burguesía. Madrid: Alfaguara, 312 pp. [ISBN: 842046984X]

Pedro Serra

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Bilal ou a neuropolítica

Posted in Notas by Luís Quintais on Sábado, 16-02-2008

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Sempre me fascinou a importância que Baudelaire tem para Bilal. Assim, por exemplo, em A feira dos imortais (1980), o fim do regime fascista de J. F. Choublanc coincide com a loucura de Nikopol, cuja figura servira um dia os desígnios de vingança e poder do deus Horus que lhe tomara o corpo, roubando-lhe o arbítrio e a decisão.

O que é interessante aqui não é somente o modo como Bilal usa o tema eminentemente baudelairiano da possessão para falar de poder e de metamorfose (metamorfose política também, porque sem a possessão de Horus-Nikopol não seria possível chegar ao fim do terrível regime fascista de Choublanc), mas também o modo como, através desse tema, faz inverter o par loucura/sanidade inicial. Isto é, a relativa sanidade (e ironia) de Nikopol e a “desrazão” do sistema político de Choublanc do início dão lugar à relativa sanidade do sistema político (que coincide com o fim do fascismo) e à “desrazão” de Nikopol.

Este último já não é o possuído (Horus retira-se do seu corpo) do início, mas o condenado a viver entre Baudelaire e o humor. A manifestação do progressivo colapso da mente de Nikopol está no facto dele se limitar a recitar o lírico moderno (o primeiro poeta moderno?) e a ser sacudido por violentas gargalhadas.

Horus retirou-se e deixou-lhe o cadáver mais que esquisito das “flores” de Baudelaire inscrito no seu cérebro. E se aceitarmos que Baudelaire é o primeiro poeta moderno (o criador de uma poesia metropolitana que nos destituiu de vez de todas as declinações pastorais), então é como se a metrópole e tudo o que ela representa de complexo, estranho, e mortal lhe tivesse tomado de assalto a arquitectura cérebro-mente.

Bilal parece querer dizer-nos, afinal, que o que importa ver, desenhar, escrever, e pensar está algures escondido em Nikopol, sendo as palavras de Baudelaire e as gargalhadas demenciais de Nikopol a chave de acesso à vida secreta nas grandes cidades.

Tudo o resto seria ordem e justiça – dias felizes pois, e como se sabe os dias felizes não têm história.

Luís Quintais

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