Os Livros Ardem Mal

Cravan (III)

Posted in Comentários by Pedro Serra on Domingo, 28-09-2008

Dir-se-á um dia que o tempo foi passando e, com ele, a memória viva do dia triunfal do Primer Combate Mundial de Poetas Pesados. Sempre houve consciência da impostura do hic et nunc do evento. Estar ali não era estar ali, na verdade estava-se a milhas dali. As webcams, os telemóveis com câmara incorporada, escavacavam quaisquer veleidades de um momento genuíno. O pessoal era todo imagem, o pessoal estava todo separado de si próprio. Mais ou menos como quando estás num hospital. Fazem-te uma radiografia ou coisa parecida, nem sequer te mexes da cama onde estás deitado transido de dores. E lá vai o “teu corpo”, elevador acima, elevador abaixo, num viático que acabará por te dizer o nome que deverás chamar à dor que deveras sentes. Tudo acabou no Youtube, a bem dizer “you are the tube”, o pessoal era o tubo: ou seja, tudo começou no Youtube, onde de resto já tudo tinha começado. O gentleman poeta Ben Clark e as suas maneiras provisórias de Rey misterio do wrestling; o Gonzalo Escarpa que duplicou o fake com uma falta de ar improvável; o David Moreno que prescindiu da costumada verdade de um chapéu de repórter dos anos cinquenta; o Dimitri Illich Ivanovic, corredor leninista de apostas ilegais; Iria, a moça dos cartazes que nada tem a ver com o boxe: ela é, na verdade, a única e autêntica stripper punk espanhola. Nem o público era público. Juro que alguns dos presentes, pelo menos alguns, eram qualquer coisa entre o Rubliov e o Boriska, cada um à sua maneira. Poesia? Sim, poesia, aquela que ainda hoje andamos à procura como danados: a do único exemplar que resta da opera prima do Víctor Pérez, “la tanquetilla del Fresno”. De facto, conta a lenda urbana que nos calabouços da polícia municipal, estando ali detido por uma arruaça comum, o poeta sacou do livro e gritou: “Sou poeta, tenho um livro publicado, não me podem fazer isto”. A ira foi tamanha, a ponto de, durante a carga policial para o reduzir, entre socos e pontapés, começar a abocanhar o livro. Era necessário fazer desaparecer as provas do delito. Infelizmente não conseguiu, pelo que, hélas!, sobrou um exemplar com as marcas da dentição do poeta. A literatura, como já alguém disse, conduz ao crime. Neste sentido, outras lendas urbanas que circulam por aqui falam de um professor que deglutiu, há uns anos, páginas de um clássico (numa aula, ainda por cima; diz-se que lhe soube a mel e lhe amargou o estômago; sobre isto, podemos ler com proveito o livro de Haddad infra citado); conta-se também aquela do poeta Leopoldo María Panero que, há mais anos ainda, bebeu literalmente um frasco de tinta permanente. Bizarrias excêntricas de letraheridos? Pode ser. Mas também pode muito bem ser, digo eu, que sejam gestos hermenêuticos, ou melhor, pós-hermenêuticos. Seja. E contudo…

Pedro Serra

Gérard Haddad (2004), Comer o Livro. Ritos alimentares e função paterna, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 196 pp. ISBN: 8585717807.
 

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O Império ataca de novo

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 28-09-2008

Conforme se pode ler aqui, o Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, declarou que vem aí uma «refundação» do Instituto Camões, afirmando:

Está previsto que se refunde o Instituto Camões. O que significa prestar uma especial atenção a todos estes currículos do ensino do Português, que vão ter que ter em consideração que há muita gente que não quer Português literário. É preciso motivar as pessoas e responder às necessidades e desejos das pessoas.

Que se refunde o Instituto Camões, é capaz de ser boa notícia, dependendo do que se entenda por «refundação» e desde que se não esqueça que o Instituto Camões tem sido praticamente objecto de uma refundação por governo, com os mesmos medíocres resultados de sempre. Haverá agora um notório salto quantitativo, devido à afectação ao Instituto do ensino do português a nível não-superior no estrangeiro. O problema é o resto – e seria caso para dizer que «o resto é (má) literatura»…

Eu estudei, e vou estudando nas horas livres, gramática e linguística (história, teoria, linguística aplicada, etc.) e, ao contrário do Ministro da Cultura, não sei o que seja exactamente o «Português literário», embora saiba o que são modalidades mais ricas, no plano lexical, sintáctico, semântico, etc., do português: aquelas que abrem possibilidades a priori não inscritas no sistema linguístico (como quando Pessoa escreve «Chove no lá fora»), mas que, como percebemos depois, são de facto permitidas por ele – razão para discordarmos do Barthes que afirmava, muito ao ar do tempo, que «a língua é fascista». Se é a isso que o ministro se refere, ou seja, ao papel decisivo da literatura nesse enriquecimento do idioma, bem-vindo ao clube. Nos próprios estudos literários, porém, a expressão não tem hoje curso, a não ser em pessoas de certa idade e quando, ante certas passagens, por exemplo, do Padre Vieira, reagem como o Bernardo Soares que dizia ter chorado ao lê-lo na selecta, sentindo, ante essa «majestosa língua», uma «grande emoção política» (note-se que, descontando a idade das pessoas, esta emoção política continua a ser o decisivo separador de águas entre as várias modalidades de relacionamento com o idioma). A esta intraduzível «emoção política» induzida pelo idioma, certas pessoas chamam «português literário», o que refere pois essencialmente uma modalidade de pathos. Ora, como o pathos não é, nem deve ser, apanágio dos ministros, que aliás dele se demarcam publicamente – a não ser que se esteja a sugerir, num gesto politicamente não inocente, que «lá em casa, no sofá do escritório, eu posso dar-me a esses luxos, que contudo não devo impor aos conterrâneos na diáspora» -, é óbvio que não é de nada disto que se trata.

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Paulo Henriques Britto (VI)

Posted in Comentários by OLAMblogue on Domingo, 28-09-2008

Da sequência «Sete peças acadêmicas», os poemas VI e VII:
 

Por mais que se fale ou pense ou
escreva, eis o veredicto:
sobre o que não há de ser dito
deve-se guardar silêncio.

Ser, não-ser, devir, dasein,
ser-pra-morte, ser-no-mundo:
Valei-me, são Wittgenstein,
neste brejo escuro e fundo
sede minha ponte pênsil,
escutai o meu não-grito:
pois quando não há o que ser dito
deve-se guardar silêncio.

 

Mas isto também é ser –
isto que está acontecendo.
Aliás, mais que tudo, isto.

Dito isso, o que dizer
que não mero suplemento
ao tudo já dito e escrito?

(No entanto, como conter
o impulso fraudulento
de acrescentar um asterisco

e num escuso rodapé
murmurar entredentes:
penso, portanto rabisco?)

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Are you (still) ready to be heartbroken?

Posted in Autores, Comentários, Notas by Luís Quintais on Quinta-feira, 25-09-2008

Quantos são capazes ainda de o lembrar no improvável Rock Rendez Vous a debitar electricidade e filigrana literária com os Commotions? Quantos de nós não fomos ler o grande Norman Mailer por causa dele? E ele regressa vezes sem conta e faz, diz-se, quase sempre o mesmo: guitarra de caixa e o talento do singer/songwriter numa espécie de nudez que torna as palavras ainda mais certeiras: dura nostalgia, a de estarmos todos muito velhos já, mas disponíveis, como sempre, para o desastre, para a mais-que-perfeita melancolia. Ou talvez não: No longer driven to distraction/ Not even by Scarlett Johansson.

Luís Quintais

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Oração de sapiência

Posted in Comentários by Pedro Serra on Sábado, 20-09-2008

Um lugar responde pelo seu humor. Um humor que pode funcionar noutro lugar, pode mesmo funcionar melhor nesse outro lugar, tão-só assim-assim, ou não funcionar mesmo nada. Mas já não é o humor daquele lugar. Baste-nos esta suficiência engraçada: um lugar fez o seu humor, o humor fez esse lugar. Quem diz lugar, claro, diz também tempo. Um exemplo – vale o que vale: só pode dizer de si – que circula num determinado lugar, num determinado tempo. Há umas décadas, um ilustre professor de linguística da Universidade de Salamanca dava toda uma lição de pedagogia das línguas: “As línguas – assentava com gravidade – ou se aprendem no berço ou na cama”. Nos idos em que se começava a dizer isto não havia ainda coisas como o Europass Language Passaport, mas talvez já se vislumbrasse certo futuro de especialização e burocratização do ensino linguístico, pelo que o acento grave da boutade seria já trabalho de luto. Esses idos são hoje um tempo confuso, a bem dizer quase mítico, em que o sistema universitário espanhol transitava com o mesmo compasso de uma sociedade que começava a assumir que as línguas trocadas são mesmo línguas trocadas. O tempo, hoje, é outro, mas o rescaldo daquele illo tempore ainda permite varrer cinzas do riso de anos melhores: uma varridela, aliás, que reforça o lado mítico do tempo confuso. Ainda ontem, novo exemplo, na excelente Oração de Sapiência proferida no Paraninfo da Universidade de Salamanca, inaugurando o ano lectivo, foi recordada a seguinte história autêntica:

Pues bien, imagínense ustedes formando parte del experimento y escribiendo sobre el centro de interés “lingüista”. ¿Qué palabras se evocarían para construir su imagen? Espero que no coincidiera mucho con la de aquella señorita que, entrando un día con un llorado poeta español en su piso de Madrid, en el que a la sazón pernoctaba el no menos llorado Emilio Alarcos, recibió esta recomendación por parte del poeta: “No hagas ruido, que en esa habitación está durmiendo un lingüista”. A lo que la trabajadora del amor respondió: “¿Un lingüista? ¡Anda, como yo!”.

Pedro Serra

Julio Borrego Nieto (2008), “Asín que ya lo digo, señá Tomasa”: el lugar de la variación en la descripción lingüística. Salamanca: Universidad de Salamanca, a.d. 1218. 110 pp.

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (5)

Posted in Comentários by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Chaplin O grande feito de Chaplin foi desacreditar totalmente o corpo, e ridicularizar toda a noção de dignidade do gesto. Como mergulhadores de chumbo calçados tentando ancorar o sistema nervoso central ao leito marítimo do tempo e do espaço, homens graves movem-se à sua volta.

LQ

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Ler Auschwitz na praia

Posted in Comentários by Ana Bela Almeida on Domingo, 31-08-2008

Nunca concordei com a ideia de que há livros que não são para ler na praia. Às vezes ouve-se dizer que autores como Guimarães Rosa ou Proust “não são autores para serem lidos na praia”. Por mim, desde que à sombra, e sem bolas por perto, tanto me dá ler na praia como noutro lugar qualquer. Tendo crescido sem um “room of my own”, sempre achei piada, nos inquéritos sobre hábitos de leitura, a quem diz só conseguir ler livros sentado na cadeira do escritório, à mesa. Para isso é preciso ter escritório, cadeira e mesa, um verdadeiro luxo. Alguns de nós lêem com crianças a correr pela casa, em salas com a televisão acesa, curvados no sofá, em más posições, com barulho, de todas as maneiras. O lugar onde se lê não é importante, quando começa a leitura o movimento exterior suspende-se e o livro passa a ser a única coisa que existe. O livro tem esta particularidade de permitir que o seus bons leitores não sejam necessariamente os mais apetrechados de mobiliário.

Apesar desta minha convicção da inexistência de livros impróprios para a praia, este Verão aconteceu-me levar um livro e não conseguir começar a lê-lo. O livro em causa é Os que sucumbem e os que se salvam, uma compilação de ensaios de Primo Levi, publicado originalmente em 1986, uma reflexão sobre o pós-Auschwitz e a recepção crítica a Se Isto É Um Homem. A obra é atravessada pela ideia da dificuldade da leitura de Se Isto É Um Homem por parte daqueles que não são sobreviventes de Auschwitz . Os muitos leitores com quem Primo Levi contactou em conferências e escolas, através de cartas, etc., têm em comum o facto de não terem experienciado o lugar do horror. O facto de serem/ sermos leitores de livros faz de todos nós elementos estranhos ao Lager, onde, segundo Primo Levi,

poder só dar uma olhadela a um jornal já era um acontecimento inusitado e perigoso (pag.138).

Tentei ler este livro em casa, mas não é livro para se ler com a barriga cheia do almoço e o conforto dos ruídos familiares à nossa volta. E continua a ser difícil lê-lo, quando temos combinado ir fazer compras ao Colombo. E não melhora no conforto da biblioteca, nem na calma do parque. Ou seja, não há lugar para ler este livro. Ter nas mãos um livro, e o tempo e vida para o ler, é o primeiro sinal da nossa fortuna e radical distância da experiência que nos é contada.
Concluindo, acabei por voltar à praia e li-o todo lá.

Levi, Primo, Os que sucumbem e os que se salvam, Lisboa: Teorema, 2008, 204 pp.
Trad. José Colaço Barreiros[978-972-695-751-5]

Ana Bela Almeida

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Será?

Posted in Comentários by OLAMblogue on Domingo, 31-08-2008

Será que ardem mesmo?

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Sobre a expressão «Começar por um livro»

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 27-08-2008

Começar por um livro: gosto de pensar que quase tudo o que conta ocorre assim. Não por aquilo a que um certo primarismo chamaria «o triunfo do espírito livresco», mas porque a expressão nos ajuda a perceber o carácter não evidente do começo: o que começa, começa sempre muito depois de ter começado, quando  nos apercebemos de que aquilo que estamos a viver começou a fazer sentido antes, algures, e porque não num livro? Mas também porque um livro remete sempre para outro e outro – passa-se do Breviário Mediterrânico para o Epistolário Russo, para Koba the Dread, etc. – e nesse percurso é o começo que se vai refazendo e recomeçando e dissolvendo, embora ao mesmo tempo se reforce o sentimento da sua necessidade (como viver sem começos? como não começar de novo a cada Agosto?). E ainda porque, insista-se, os livros são no mundo, são mundo, fazem mundo, como aprendemos neste texto exemplar (mais um). Vemos nos livros a crueldade do século XX, como depois a temos, ad oculos, à mesa – ou nos cidadãos que abandonam os animais (e os idosos) em período estival.

Dizendo-o de outra forma: é por ver claramente visto que este é o mês mais cruel que Januário intui que o seu Agosto começou num livro. Um livro sobre a crueldade, tema de tantos livros. Mas quantos livros terá sido necessário ler para chegar àquele que agora inicia esta série? Quantas décadas do mais cruel dos séculos terá sido necessário viver para perceber que são os livros que não permitem a redenção que esse século, como todos, confia à amnésia dos sem-livros? Talvez a expressão «Começar por um livro» signifique simplesmente que aquilo a que chamamos «começo» não é senão uma imposição póstuma de sentido (individual e contingente, como a escolha de um livro); que essa imposição carrega consigo um acto de leitura que é, indissociavelmente, um acto de escrita; que esse acto está sempre a começar, por isso que a leitura é um desejo de escrita que nos evidencia a que ponto esta é sempre uma reescrita que se define por não ter fim, esgotando-se antes no acto de começar, ou seja, de re-escrever; que, se assim é, a diferença entre «começar por um livro» e «começar um livro» não é pertinente, tal como não é pertinente a diferença entre «vida» e «livros» (ou a diferença entre «começar por um livro» e «começar um post»: o de Januário ou este).

Comecei por um post que referia livros que li, tenho ou desejo ler e ter. Apercebo-me agora de que o meu Agosto teve muito a ver com o de Januário, já que também começou por e com um livro – O Homem sem Qualidades -, também ele, a vários títulos, um livro cruel (e identicamente premonitório de fim de impérios e civilizações). Devo-lhe um agradecimento por isso, que é um agradecimento aos livros que lhe deram o difícil Agosto que agora (d)escreveu.

Osvaldo Manuel Silvestre

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e.poesia

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 17-08-2008

Cheguei a este poema por meio de uma visita a A Natureza do Mal. Li-o, aliás, até ao fim, como se fosse de Luís Januário – mais um excelente poema seu – e só mesmo no fim, ou melhor, muito depois do fim, já na altura da ruminação in mente, me apercebi da declaração «Copiado de Blue». Fui então ler esse poema e convenci-me de que o primeiro o transcrevia meramente, que pertencia, não a Januário mas a Cláudia Santos Silva, e fiquei a remoer o meu desconhecimento pela sua existência. Passados uns dias volto ao local do crime e apercebo-me de que no seu blogue Cláudia transcreve, sob o título «intertexto», o primeiro poema, que afinal é de Januário. Ou não exactamente, já que Januário reescreve Cláudia, resistindo, entre outras coisas, à cópia do verso «as trovas do Zeca do Chico do Aleixo», o que, confesso, me agrada. Vejo-me forçado a concluir que sou um leitor desatento; ou então, a meu benefício, que a «cópia» de Januário é tão inteligente que, mais uma vez, demonstra como o autor é «aquele que copia com autoridade».

Entretanto, e como já conhecia os poemas de Januário, hoje em dia um dos poetas portugueses que leio com mais interesse, fui ler os de Cláudia: dois bons poetas, ou melhor, e.poetas, já que não conheço livro de nenhum deles. Seria altura de desejar publicamente que tal situação se altere em breve e possamos dispor dos poemas dos autores em livro, patati patatá. Mas resisto a esse impulso de bibliófilo e prefiro chamar a atenção para a net como sucedâneo «natural» de uma série de estratégias editoriais relativamente marginais que sempre acompanharam a história da poesia: cancioneiros de bolso, panfletos, poemas colados à porta de igrejas, no caso da poesia de pendor satírico do período barroco, as revistas magras e efémeras do simbolismo, do modernismo e das vanguardas, a «poesia marginal» brasileira dos anos 70 que tudo isso resumiu na utilização do stencil e da manufactura em tiragens escassas passadas de mão em mão, o «Cartucho» em que poetas emblemáticos dos nossos anos 70 reuniram poemas, etc., etc. E agora, a net. Numa altura em que as tiragens dos livros de poesia, mesmo em editoras e colecções de referência, baixam dos 500 exemplares, o que justifica o recurso à impressão digital, creio que deixa de fazer sentido que a nossa atenção crítica à poesia que hoje se faz em Portugal se limite à publicada em livro. Precisamos de uma crítica que se emancipe da forma-livro e que preste atenção quer às dimensões performativas da poesia em acto, hoje num processo de exponenciação multimédia, quer à multiplicidade de suportes em que ela ocorre, ainda quando escrita. Porque o que temos, na melhor das hipóteses, é uma declaração da «dignidade universal dos suportes» sem contudo qualquer contrapartida efectiva, no que toca ao seu reconhecimento pelo discurso crítico, que, digamos, prolonga, sob outras formas, a sua histórica resistência a ocorrências da poesia como as da poesia experimental ou da poesia sonora, que foram em rigor formas de comutação de suportes. Ou seja, ficamos, mais uma vez, divididos entre o silêncio de uma crítica que não consegue reconhecer a poesia senão em forma de livro, e as reacções afectivas dos leitores, quase sempre limitadas a manifestações de pathos, nas caixas de comentários. Admito que tal não seja fácil, uma vez que a ortopedia do livro no acto de ser lido simula uma progressão de sentido que restitui a esse percurso um fechamento semântico e formal sem o qual temos dificuldade em pensar as figuras da Obra. Pelo contrário, ler poemas soltos em posts priva-nos não só da sequência em que um texto se insere, como da premeditação que sempre supomos na composição da obra, e sobretudo do conseguimento ou falhanço composicionais como critério de valor, e da própria atribuição de sentido, ao todo e a cada uma das suas partes. Além de que é sem dúvida muito mais difícil pensar a figura do autor como um sujeito-sem-livros; tanto como é difícil pensar o poema no regime «ilustrado» em que ele muitas vezes ocorre nos blogues (reveja-se o poema de Januário acima citado, ilustrado com uma magnífica foto que de facto o adensa; ou os desenhos que acompanham o blogue de Cláudia Santos Silva). Ainda assim, creio que há algo de inadiável neste gesto, sobretudo num momento em que o digital não só promete como efectiva um mundo novo, multiplicando, no caso em pauta, as possibilidades de circulação dos textos, mas também do seu funcionamento em regime multimédia: não seria empobrecedor editar o poema de Januário a preto e branco numa banal página de papel, sem a foto que no blogue o acompanha e sem a hiperligação que o religa à sua «origem»?

Não garanto, porém, que possamos estar, todos aqueles empenhados na poesia e na sua crítica, à altura de uma situação tão exigente como esta. Mas vai sendo tempo de tentar.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Leitores precisam-se

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 17-08-2008

João Diogo escreveu um excelente comentário ao meu último post no seu Qualquer coisa assim: informado e muito pertinente. Nada tenho a opor ao que diz sobre o modo como a fragmentação do mercado livreiro, cruzada com o aumento do volume de títulos editados, nos conduziu à situação actual. E também me parece evidente que o problema central é o de sempre: o nosso reduzido número de leitores, a enorme dificuldade em fazer com que ele cresça.

Numa versão anterior do post em causa, de que desisti, mais longa e argumentada, abordava empiricamente o fenómeno. Confronte-se por exemplo o número de pessoas que, numa viagem de comboio entre Lisboa e Porto, lêem um livro, ou lêem sequer qualquer coisa (cada vez mais, um jornal gratuito), com o das que falam em altos brados ao telemóvel ou enviam furiosamente sms – e contraste-se essa situação com a equivalente em países como Espanha e França; facilmente se constatará que, como alguém disse, passámos de uma iliteracia pré-moderna para uma pós-moderna, já não marcada pelo analfabetismo mas pela substituição da leitura pelo telemóvel, fenómeno aliás observável em todos os níveis sócio-culturais da população (e de que o Verão nos dá uma ilustração ainda mais chocante, na quase total abstenção da leitura a que se assiste nas nossas praias). É difícil não constatar que o que de facto se mantém, na longa duração da nossa emperrada modernidade, é a inexistência de uma censura social interiorizada em relação à ignorância ou à inapetência pela leitura e pelo esforço intelectual, no sentido do melhoramento pessoal e, logo, comunitário – isso que, justamente, a grande crítica burguesa conseguiu produzir em países como Inglaterra, França, Alemanha, etc. Entre nós, hoje como há cem anos, continua a ser possível fazer elogios da ignorância, da esfera da política à dos média, sem que uma censura social se manifeste. Muito pelo contrário, e esse é todo o drama da nossa modernidade, a nossa burguesia nunca conseguiu realmente ilustrar-se (veja-se, por exemplo, o tipo de leitura que nos é proposto nos consultórios dos nossos médicos ou advogados – ou os quadros que os decoram…) e, como compensação psicanalítica, dir-se-ia, desenvolveu todo um agon contra o universo da cultura e das artes, a quem só foi permitido existir e subsistir sob ressalva e em permanente estado de denúncia de um putativo «estado de excepção» – um status in statu – elitista e parasitário (dos «nossos impostos», etc.).

Ou seja, não se lêem livros porque não há real motivação social para o fazer. Onde divirjo de João Diogo é na responsabilização que faz da universidade por este estado de coisas. Não querendo ser paroquial, permito-me alargar o âmbito dessa responsabilização a toda a escola portuguesa, mas para a refutar. O meu conhecimento do nosso sistema de ensino, nos seus vários níveis, mostrou-me à evidência que o problema não é a escola (o que significa que não subscrevo as versões apocalípticas da nossa escola, hoje tão populares), já que aí se fizeram enormes progressos, sobretudo no apetrechamento de bibliotecas, no fomento de práticas de leitura e escrita, na criação de um circuito de escritores que visitam as escolas, na explosão da literatura infanto-juvenil como um fenómeno de mercado que interage fortemente com a escola e cria efectivamente leitores, etc. O problema, lamento, não é a escola mas a família, já que essa reproduz o modelo «cultural» da burguesia portuguesa, face ao qual o esforço da escola pode pouco – o que não é o mesmo que dizer que nada pode. Mas é para mim evidente que a família, em Portugal, faz com que muitas vezes se percam os leitores que a escola conquista. Para o dizer de uma forma um tanto brutal, quem nós precisaríamos de educar não são os filhos mas os pais. Quando, nos «Morangos com Açúcar», se retrata os miúdos mais fixes como aqueles que não sabem sequer o que é um livro, e quando os pais assistem à novela com os filhos e lhe acham imensa piada – é a sua forma de escaparem àquela outra insinuação, que é toda uma chantagem, da novela: a de que ler é para cotas, coisa que todo o indivíduo a partir dos 30 anos paga para não ser -, é caso para reconhecer que a sociologia da novela produz exactamente isso que estou a referir: uma representação da cultura, do livro e da relação da família portuguesa com ele contra as quais a escola faz o que pode. Quanto às fotocópias, lamento mas são uma consequência fatal da inexistência de bibliotecas universitárias realmente apetrechadas (pois não se pode dizer apetrechada uma biblioteca que possua apenas um ou mesmo dois exemplares de obras de referência) ou com horários de funcionamento indignos daquilo a que muita gente aprecia chamar «a vocação da universidade». A situação de indigência financeira das universidades, porém, e sejamos realistas, não permite mais.

O problema é que o mercado, como qualquer habitante de Coimbra com hábito de frequentar livrarias bem sabe, e como diz João Diogo, está sobredimensionado. Não há clientes para tanta livraria nem para tanto livro e é evidente que muitas livrarias irão desaparecer nos próximos anos. Ou então sofrerão outro tipo de «destruição criativa», como pude constatar em dois casos muito diversos nestas férias. Um deles, numa cidade próxima de Coimbra, numa livraria de referência que muda de dono e é submetida a um processo arquitectónico de «modernização». Quando reabre, consegue quase não ter livros de editoras como Relógio d’Água, Assírio & Alvim, Livros Cotovia, Quasi, Tinta da China (editoras como a Afrontamento ou a Campo das Letras subsistem apenas por via do seu catálogo infantil), mas apresenta livros muito vistosos – e grandes! – na montra e nas mesas das novidades. Outro, em Coimbra, numa livraria de uma grande rede em que em tempos comprei muitos livros mas onde não ia há anos. Tendo lá regressado há dias não reconheci o local e não me convenci de que estava numa livraria – antes um vasto, e muito feio, quiosque. Ou seja, e este é o meu ponto, as pequenas e médias livrarias, vão-se transformando, com raras excepções, para pior (geralmente quando passam para as mãos de gente «jovem, dinâmica e sem complexos» no que toca à natureza e função do livro no mercado); e as redes, com excepção talvez da Almedina, uniformizam-se no que têm de pior. Dir-me-ão que o processo é internacional; mas isso só o torna mais preocupante ainda. A que acresce o facto de em Nova Iorque ou Londres ou Madrid a demografia, os índices de literacia, etc., permitirem que as livrarias grandes tenham um ou dois andares de lixo colorido que compensam com um terceiro andar onde se podem comprar os livros que importam. Entre nós, infelizmente, quase nunca há dimensão para os três andares e o tal terceiro, ainda que metafórico, está a ser cada vez mais reduzido à inexistência pelos dois primeiros, cada vez menos metafóricos.

Ou seja, se para haver um mercado do livro «a sério» é necessário banalizar sem fim o livro e as livrarias, o que sucede é que no fim do processo, que estamos a viver aceleradamente, arriscamo-nos a que não venha a haver de facto livrarias. Porque este é o problema que o tal meu amigo, e aliás colaborador deste blogue, colocava: se o mercado precisa mais dos 1000 clientes que compram um livro por ano do que dos 70 ou 80 que compram dezenas – e é óbvio que se a equação se exponencia para as dezenas ou centenas de milhar, deixa de funcionar de todo -, e se as livrarias se reconfiguram em função desse critério de mercado, e desse cliente, é claro que os tais grandes compradores deixam de as frequentar, pois nelas só encontram o «livro único» da história de Gonçalo M. Tavares. A questão está em saber se não há aqui uma contradição, em termos puramente mercantis, pois os 1000 ou 10 000 ou 100 000 compradores do livro anual não frequentam livrarias e preferem, com grande probabilidade, comprar os livros em hipermercados ou quiosques. E assim, se calhar, a prazo, são as póprias livrarias que ao adoptarem este cliente como modelo estão a assinar a sua certidão de óbito.

Post Scriptum tardio: imperdoavelmente, não citei em apoio da minha descrição da banalização do livro e das livrarias o melhor texto que vi publicado entre nós: o post de Ana Bela Almeida Dia do Pai, neste mesmo blogue. Mais vale tarde do que nunca, pelo que o faço agora.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Post Scriptum estival

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 16-08-2008

Não conheço melhor ilustração para o post anterior sobre os livros de Borges que não se encontram nas livrarias do que uma breve história de Gonçalo M. Tavares, incluída no livro O Senhor Brecht (2004). Ei-la:

LIBERDADE DE ESCOLHA

Era uma livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se, hesitando no número a escolher.

A propósito disto, ou seja, de Borges e das livrarias – e da sensação estranha que hoje se apodera de mim quando entro em certas livrarias e tenho a sensação de que não haverá lá sequer uma dúzia de livros que me apeteça ter -, ocorre-me aquilo que me dizia há dias um amigo, grande leitor e comprador de livros: é pelo menos discutível que editores e livreiros optem pelos 1000 clientes que compram 1 livro por ano, marginalizando ostensivamente aqueles 70 ou 80 que compram, no mesmo período, dezenas. Esses que me dizem, cada vez mais, que estão a deixar de ir às livrarias, optando por mandar vir os livros pela net.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Borges, o outro, o defenestrado

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 31-07-2008

Como me encontro a preparar um curso sobre Jorge Luis Borges e disponho da obra do autor em livros soltos espanhóis e portugueses, ponderei adquirir um ou dois exemplares das Obras Completas, editadas na Teorema, para o reler de empreitada (o curso terá como base a edição das Obras na Emecê). Nesse sentido, dirigi-me à minha livraria preferida em Coimbra, a Almedina Estádio, seguramente uma das melhores do país. Encontrei apenas um livro de Borges: o vol. das Obras com as obras ensaísticas em colaboração, justamente o que menos me interessava. O diligente e simpático funcionário a quem me dirigi, após pesquisa na base de dados, informou-me de que não havia nenhum outro exemplar nas outras livrarias da Almedina na cidade – que suponho ser a terceira cidade do país em venda de livros.

Dirigi-me então à FNAC. Após uma minuciosa e crescentemente céptica pesquisa, vi-me na necessidade de constatar que nem um volume de Borges ali existia. Dois funcionários, um deles meu conhecido de anteriores livrarias, confirmaram a inexistência. «Nem um?…» «Sabe, é a rotatividade dos livros…»

Por fim, e mais tarde, aproveitando a noite quente e a sua proximidade em relação a minha casa, dirigi-me à Bertrand do Dolce Vita, ao que sei a segunda maior do país, logo depois da de Aveiro (mas agora existe a nova do Porto, que será talvez a maior?). De novo, nem um volume de Borges – embora na secção de livros de bolso espanhóis, de existência recente (o espanhol toma conta do mundo..), tenha encontrado alguns do argentino, mas que não se coadunavam com o meu propósito. E a preços claramente inflacionados, diga-se.

Esta é evidentemente uma história sem moral, a menos que admitamos que a «alta rotação» que define hoje o capitalismo livreiro se possa candidatar a «moral da história» (talvez com maiúscula, no sentido hegeliano do «fim da História»). As livrarias não têm hoje espaço para Borges – devolvem-no passados x meses ou ficam apenas com uma ou outra relíquia – porque têm de o ter para os livros sobre Maddie McCann ou a palpitante vida íntima de Salazar (ou as estreias na «ficção» de Bagão Félix, Nuno Rogeiro, etc.). Seria talvez altura de mudar o nome do local onde estas coisas ocorrem, e que cada vez menos está à altura dos significados que historicamente se acolheram a «livraria». Julgar-se-ia que sofás, cafés, etc., ajudariam a que as livrarias pudessem permanecer o local onde nos relacionamos com objectos que passam a mobilar a nossa vida mais íntima, mas a essa ilusão o capitalismo livreiro actual já deu bastas respostas desmitificadoras e desmistificadoras. Estamos, também aí, completamente secularizados, ao que parece. Aliás, em perfeito acordo sistémico com as alterações arquitectónicas que se apoderaram de muitos desses espaços, seria desejável, e sobretudo justo e verdadeiro, passar a chamar-lhes boutiques de livros.  Ou lojas de conveniência.

P.S. Se este blogue fizesse sondagens, inquéritos, etc., seria caso para pedir a cada livreiro deste país que respondesse a esta pergunta singela: quantos livros de Jorge Luis Borges tem na sua livraria? No estado actual das coisas, basta a pergunta pelo quantitativo.

Osvaldo Manuel Silvestre

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JG em Barcelona

Posted in Autores, Comentários, Notícias by Luís Quintais on Quarta-feira, 23-07-2008

Sugestão de verão: dêem um salto a Barcelona. Foi ontem inaugurada no Centro de Cultura Contemporànea de Barcelona a exposição/homenagem a JG Ballard, Autopsy of the New Millennium. Ficará no CCCB até dia 2 de Novembro. A não perder!

Luís Quintais

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A inveja do criador

Posted in Comentários by Miguel Cardina on Quinta-feira, 17-07-2008


Sabe-se que Flaubert manifestou um dia a vontade de escrever uma obra sem assunto. Uma obra que, desligada do real, fosse a confirmação da suprema independência da arte relativamente à vida. Para alguns, esta auto-suficiência da arte não significaria a legitimação do nonsense mas, pelo contrário, uma afirmação inequívoca da possibilidade do sentido. De um sentido que, «neste mundo abandonado pelos deuses», como disse Lukács, apenas teria revelação no interior da obra de arte. Numa madrugada televisiva, meses atrás, George Steiner contribuiu para esclarecer esta ideia. Lembrou uma frase de Flaubert, enquanto esperava que um cancro no estômago lhe retirasse os últimos nacos de vida: «Eu aqui a morrer como um cão e a puta da Madame Bovary a ter vida eterna». Ofuscado pela dor, o romancista voltou a exprimir a primazia do escrito em relação ao vivido. Ou, o que é ainda mais patético, a triste incapacidade dos austeros em pensar o sentido na sua relação com a finitude.

Miguel Cardina

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Projecto para um glossário do século vinte (JG Ballard)

Posted in Autores, Comentários, Notas, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 14-07-2008

#Zipper. Esta pequena mas astuciosa máquina terá encontrado um modo elegante de reprimir e redescobrir todos os encantos perdidos da carne.

LQ

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A crítica e Margarida Rebelo Pinto

Posted in Autores, Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 14-07-2008

Depois da capa da LER nº 3, neste fim-de-semana o último romance de Margarida Rebelo Pinto (MRP) teve direito a resenhas destacadas no Ipsilon e no Actual, por Maria Conceição Caleiro e Rogério Casanova, respectivamente. Lendo os textos, como já lendo a entrevista de Carlos Vaz Marques, fica-se com a sensação de que um grosso equívoco paira por aqui. O equívoco é o que consiste em dar atenção crítica a quem passa melhor sem ela (digo-o no próprio interesse de MRP); e em dar atenção crítica no modo em que ela ocorre nos três casos: isto é, de forma mais ou menos desinvestida e ressalvada ou pela ironia ou pela mordacidade. Chama-se a isto, em rigor, uma contradição performativa e não parece haver volta a dar-lhe, tanto mais que as pessoas em causa não são propriamente incompetentes. Ou seja: houveram-se com a encomenda da única forma que, a seu ver, lhes foi possível. Mas se é assim, só podemos concluir que a encomenda é impertinente, pelo menos tanto como os textos em causa, na óbvia imotivação da sua putativa necessidade.

 
O equívoco vem já dos tempos do DNA e do seu então director, que se lamentava periodicamente de a crítica não enfrentar o fenómeno da literatura light. Falsa questão, pois, como Pedro Mexia já disse (e não me lembro se o escreveu também), os leitores de MRP não lêem resenhas em suplementos literários; e os leitores destes não lêem MRP. A que atribuir então esta missão auto-delegada, do Público e do Expresso, no sentido de dedicarem resenhas longas ao romance de MRP? Podemos invocar o mercado e o peso dos números; ou o papel supostamente pedagógico de quem – autora e editora – assim «arrasta para a leitura quem habitualmente não lê». Mas este último argumento é também o mais demagógico e inútil: «arrastar pessoas para a leitura» não é em si um mérito, tanto como «arrastar pessoas para o consumo de charros» não é necessariamente um mal: depende do uso que se dá a essas coisas e sobretudo do que sucede depois. Se um/a leitor/a não sair de romances como os de MRP para outro tipo de livros, não se vê em que é que essa ocupação do seu tempo seja superior àquela que consiste em gastá-lo na leitura de jornais (por mim, vou ao ponto de sugerir O Jogo, aliás um jornal competente) ou mesmo na de legendas de séries de TV. A leitura, em si, sejamos claros, não é um bem: depende, sempre, do que se lê e de como se lê. E a evidência empírica demonstra à saciedade que quem lê autores como MRP por sistema não passa mais tarde a, digamos, Thomas Mann. Pretender o contrário – e é curioso como os eternos advogados desta tese beata são os editores de lixo literário – consiste em supor uma espécie de bondade ontoteológica no acto de ler que integra o legado mais cansativo e dispensável do humanismo.

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Mulher, 30 anos, leitora de Cossery

Posted in Comentários by Ana Bela Almeida on Sexta-feira, 11-07-2008

A condição enunciada no título deste post é, segundo o próprio Albert Cossery (Cairo, 1913-2008), uma raridade. Na longa entrevista concedida a Michel Mitrani afirma nos seus livros gostar de “troçar” um pouco das mulheres:

Das mulheres, não das raparigas. E, não obstante, tenho leitoras femininas que me lêem… (p.98)

O clube de Cossery seria, então, aquele onde “menina não entra”, quero dizer, onde a mulher não entra. O mundo Cossery só admite homens, crianças, raparigas até aos quinze anos e papagaios de papel. Sempre me pareceu injusto (sempre, desde que passei dos quinze) não encontrar lugar neste universo cosseriano, das sestas prolongadas e do ópio nos cafés. O espaço de fuga à vida adulta, alheio ao dinheiro e ao trabalho, é o mais propriamente literário dos lugares.

Mitrani, a dada altura, comenta aquilo que considera ser o grau de “humanidade” das personagens do escritor egípcio:

– Estas personagens são também muito humanas. Medhat é de tal forma humano que, por compaixão, se casa com a filha de um varredor. (pag.67)

Ao que Cossery responde:

As minhas personagens são os únicos seres humanos que existem. (pag.67)

Pode ser que as personagens sejam os únicos seres humanos com uma existência real, no sentido em que esta é certamente mais duradoura e imutável do que a nossa. Mas penso que Cossery quer aqui dizer uma coisa muito mais simples: as personagens são os únicos seres dotados de humanidade no sentido em que são os únicos com um verdadeiro sentido de compaixão pelo outro, de piedade, que, de certa forma, seria sempre um sentimento incompleto e frustrado no lado de cá dos livros.

Mitrani, Michel (entrevista), Conversas com Albert Cossery, Lisboa: Antígona, 2002, 105 pp. Trad. Ana Paixão[972-608-134-3]

Ana Bela Almeida

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Arménio Vieira (I)

Posted in Autores, Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 09-07-2008

É um objecto estranho, esta «Antologia de Poesia Inédita Caboverdiana», organizada por Francisco Fontes e intitulada Destino de bai. Entre outras coisas pelo seu conteúdo – «poesia inédita» -, revelador da dificuldade em passar da escrita à edição em Cabo Verde, ainda hoje. Mas também por abrir com um «Prefácio» de José Maria Neves, Primeiro-Ministro de Cabo Verde, e por terminar com um poema seu que, seguramente, ganharia em permanecer inédito. Como, já agora, muitos outros da antologia e não apenas de gente inédita em livro… Continuamos, como dizia João Vário a propósito da poesia de Cabo Verde, a assistir à obsessão, típica das literaturas emergentes, de apresentar grandes colectâneas daquilo que ganhava em ser bem mais reduzido.

Mas bastariam os poemas inéditos de G. T. Didial, um dos noms de plume de João Varela, de quem aqui ficamos a conhecer excertos do seu poema épico pan-africano Sturiadas, e ainda os poemas inéditos de Arménio Vieira, para este livro justificar a sua existência.

Fico-me pelo segundo nome, um dos segredos mais bem guardados da literatura caboverdiana (desde logo pelo próprio, pouco dado a ausentar-se do seu mundo), autor de dois notáveis romances, aliás editados em Portugal sem qualquer tipo de impacto, talvez por nada dizerem ao programa identitário herdado da Claridade, e de uma produção poética que se distribui hoje, ao que sei, pela sua obra até 2006, reunida em Poemas (uma colectânea magra para cerca de quatro décadas), e por um livro entretanto editado, Mitografias, que não conheço. Vieira é um dos melhores poetas de entre os que hoje escrevem em português, e estes sete poemas, de grande e desenfadada maturidade, são disso prova evidente, na sua sábia administração do «estilo mesclado», tal como este foi estudado e desenvolvido na filologia moderna por Erich Auerbach, neste caso na passagem de um registo erudito e citacional – cujos objectos são ainda os grandes heróis da literatura e do pensamento modernos, mas que podem recuar até aos clássicos – para a oralidade de um quotidiano dito, com frequência, por um nível baixo de linguagem; na sua interrogação, sempre ressalvada e desistente, da morte; ou numa ironia algo drummondiana, que, podendo alcançar o metafísico ou, de forma mais chã, o doméstico, nunca deixa de funcionar a nível composicional, dando a ver a grande inteligência formal e, não raro, metapoética, do autor.

Tomo a liberdade de, em próximos posts, transcrever alguns desses poemas, apresentando o poeta não apenas aos leitores portugueses mas também a algum editor clarividente e caridoso que se atreva a publicá-lo por cá.

Francisco Fontes, org. (2008). Destino de bai. Antologia de Poesia Inédita Caboverdiana, Coimbra, Saúde em Português, 356 pp. [978-989-958556-0-7]

Osvaldo Manuel Silvestre

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E ao 3º número da LER…

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 08-07-2008

 

…Margarida Rebelo Pinto (MRP) tomou conta da capa, como se pode ver acima. Sobre isto, alguns comentários:

(i) O que se depreende das capas destes 3 primeiros números é que estava fora de causa não dar a capa dos dois primeiros números a Lobo Antunes e Saramago, os gémeos siameses da nossa literatura actual (o Nobel e o ainda-não, o sereno e o ressabiado, o Narciso e o Narciso). Uma literatura, enquanto fenómeno social, necessita destas personagens que conciliam crítica e mercado. E isso significa, claro, que tais personagens só existem no domínio da categoria da «ficção», já que nenhum poeta pode funcionar de igual modo em ambos os campos.

(ii) Esgotados os gémeos, percebe-se agora, é um mundo de possibilidades que se abre. Haverá quem lamente não ter sido Agustina (suponho que razões de saúde impediam essa escolha), mas creio que a alternativa real não seria tanto Agustina – ou Mário Cláudio ou Lídia Jorge ou mesmo Manuel Alegre – e sim o batalhão pós-colonial: Agualusa, Mia Couto, o «jovem prodígio» Ondjaki, em menor grau Pepetela. Em todo o caso, insista-se, e no plano em que esta discussão tem alguma relevância para uma sociologia do fenómeno literário, passar dos dois primeiros para MRP significa apenas que, desde que esses dois estejam assegurados, não há escândalo com qualquer das escolhas posteriores, uma vez que nenhuma delas é evidente. Falta a todas o peso simbólico e de mercado que as torne o indiscutível nº 3 na sequência de capas de uma revista com o perfil da LER (e que, para esse perfil, diga-se, está uma publicação decente). Ou seja: qualquer das opções é deficitária numa dessas áreas. Como sucede com MRP, autora sem qualquer tipo de caução crítica, de que aliás não necessitaria, mas cuja entrevista revela toda uma estranha patologia quando confrontada justamente com a crítica (a de João Pedro George, sobre a prática da autocitação pela autora). Talvez essa reacção à flor da pele demonstre que, ao contrário do que a revista proclama na capa, numa legitimação da sua opção, escrever «os livros das pessoas comuns» não é suficiente para alguém que deseja ser cada vez mais autora e entende que, enfim, está a escrever livros «à séria». Pode ser suficiente para Paulo Coelho, não parece sê-lo de todo para MRP – o que não augura nada de bom para a autora, diga-se.

(iii) Não sei, nem me interessa, se MRP já não vende o que vendeu – e se, ao dar-lhe a capa para atrair «as pessoas comuns», a LER não errou o alvo (ou se não o errou mais do que se erra quando se crê na existência de «pessoas comuns»). O que me surpreende é que quando se deseja atingir esses leitores se recorra, quase que pavlovianamente, à literatura light – e não, por exemplo, a Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Tenho dificuldade em diferenciar radicalmente os fenómenos de mercado em causa; e é para mim evidente que a renitência em colocar esta dupla de autoras no mesmo escalão literário de MRP se deve apenas à chantagem de um imaginário pedagógico que ressalva, na literatura infantil, o industrial em função dos «valores educativos». Numa altura em que a literatura infantil é o óbvio motor do mercado do livro, a invisibilidade do mercado na crítica da escrita de autoras como as duas que proponho é uma bondade que se dispensa. E é tempo, aliás, de boa parte do agon crítico endereçado às inanidades da literatura light – estranhamente emancipatórias, porém, ou não morasse aí boa parte do contingente de autoras-mulheres da nossa literatura actual, com todas as consequências «temáticas» que isso arrasta – se deslocar para as inanidades da literatura infantil industrial – também ela, diga-se, entregue em grande medida às bondades da emancipação feminina. Sob pena de desprotegermos essas «pessoas incomuns» que são as crianças leitoras, cada vez submetidas mais prematuramente a uma propedêutica do mercado, via literatura infantil (designação cada vez mais imprópria para a coisa em pauta) ou canais de TV a elas dedicados.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Projecto para um glossário do século vinte (JG Ballard)

Posted in Autores, Comentários, Oficina by Luís Quintais on Sexta-feira, 04-07-2008

[O «Projecto para um glossário do século vinte» de JG Ballard foi originalmente publicado num livro colectivo (simplesmente magnífico e hoje out-of-print). Refiro-me a Incorporations, editado por Jonathan Crary e por Sanford Kwinter na Zone books. Publicado originalmente em 1992, e esgotado há uma série de anos, Incorporations é um dos meus livros favoritos: daqueles que não empresto a ninguém! Para matizar este egoísmo (plenamente justificável), gostaria de partilhar com os leitores de Os Livros Ardem Mal o glossário de JG (pp. 269-279). As entradas foram fornecidas por Crary e Kwinter a Ballard que as preencheu. Traduzirei o glossário na íntegra nos próximos meses (ainda que numa ordem diversa daquela que surge em Incorporations). Ah, é verdade, a fotografia é de um encontro entre Ballard e Borges nos idos sessenta, sobre o qual pouco se sabe. Ballard, um admirador do escritor Jorge Luis Borges, parece não ter apreciado o homem, nem os seus gostos literários. Eu, se o tivesse conhecido, subscreveria certamente JG: aprecio muitíssimo o autor, aprecio pouco o homem, ou melhor, a sua persona, ou melhor ainda, uma parte da persona não inteiramente comensurável com o «autor», e que se prende com uma certa afectação classicista e profundamente reaccionária.]

# Máquina de escrever. Escreve-nos a nós, codificando a sua tendência linear através do espaço livre da imaginação.

Luís Quintais

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Perfídia

Posted in Comentários by Rui Bebiano on Sábado, 28-06-2008

Este título não me foi sugerido pelo bolero clássico de Alberto Dominguez, que todos em algum momento trauteámos ou ouvimos ao sintonizar uma rádio regional. A palavra avalia aqui o próprio post, como sinónimo de insídia ou de infâmia, e isto sabemos bem o que é: a sugestão de algo do qual suspeitamos, que aparentemente adivinhamos, mas do qual falamos de um modo impressivo e sem qualquer espécie de prova.

De cada vez que entro numa livraria encontro mais e mais ficção em português, quase toda ela próxima do romance histórico ou contendo uma óbvia componente autobiográfica. Transbordam os escaparates-placard, as estantes já não chegam, rimas de volumes por debaixo das mesas, os empregados incapazes de memorizarem títulos que identificam, quanto muito, pelas capas coloridas. Independentemente da medida da originalidade ou dos atributos literários – que diferem bastante mas podemos situar numa faixa média-baixa, próxima dos gostos da nova camada de viciados em literatura de hipermercado – aquilo que mais surpreende não é o número assombroso dos títulos, mas sim o dos autores. Ainda que muitos deles o sejam de um livro só. Mais estranho ainda é que a maioria seja gente crescida, em regra com uma vida já razoavelmente larga, mas que antes daquele título não publicou o quer que seja, e seja em que género for, com um mínimo de relevo e de consistência. Pelo menos algo que não seja uma edição de autor para oferecer à madrinha e impingir aos amigos, e possa constar das bases de dados das bibliotecas. Uma dúvida que me parece legítima perante tal acesso de súbita criatividade em tanta gente ao mesmo tempo, é a seguinte: não estará a profissão de ghostwriter em fulgurante ascensão entre nós? Outra dúvida é: não terá aumentado o número de editoras que publica livros com um financiamento muito substancial da parte dos próprios autores?

Apenas perfídia. Peço desculpa, com licença e obrigado.

Rui Bebiano

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Da crítica dogmática

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 23-06-2008

Como ando a ler os últimos livros de Fátima Maldonado (Vida Extenuada, & etc) e Nuno Júdice (A Matéria do Poema, D. Quixote), não pude deixar de reparar na resenha publicada ontem sobre o primeiro destes livros por Manuel de Freitas (MF) no Actual, do Expresso. O texto de MF concentra tudo aquilo que não suporto na prática crítica; e o concentrado é tal que me leva a pôr em causa que se possa chamar a este espécime um texto crítico. Prefiro chamar-lhe um acesso moralista (mais um, numa longa série), como sempre caucionado por uma negatividade supostamente intransigente, supostamente indispensável à ocorrência da poesia (reforço: da verdadeira poesia). Porque MF sabe, de ciência certa, o que é a verdadeira poesia, assim como sabe o que é a verdadeira crítica. Fátima Maldonado serve, no seu texto, como exemplo e sobretudo como pretexto para mais uma vez separar águas. De um lado, tudo aquilo por que Vida Extenuada está: «além do olhar clínico, aquele timbre rugoso e inconfundível», a «seca mas feroz capacidade de denunciar»; do outro, «o circo literário deste pequeno mundo», o «esterco lírico comum». Resumamos: do lado bom, a verdadeira poesia, a que corresponde a verdadeira crítica, que não é muito mais, diga-se, do que um efeito gramatical em torno de verbos, nomes e adjectivos tremendistas: denunciar, circo, esterco, feroz.

Do outro lado, rigorosamente «nos antípodas», está, por todo o «esterco lírico comum», o «’poema puro, limpo / do lixo das coisas banais’ que há pouco tempo reclamava um dos mais consagrados e traduzidos poetas lusitanos». Chegamos, com estas palavras, ao grau zero da ética crítica. Porque o poeta em causa tem nome e chama-se Nuno Júdice e os versos citados ocorrem no poema, de título «Poética», que abre o recente A Matéria do Poema. Não sei se a crítica não pode ou não deve nunca ser jocosa. Ocorrem-me parágrafos de Harold Bloom sobre Eliot ou Pound que seguramente não são um primor de conduta moral, ainda que, reconheça-se, sejam argumentados, o que é mais do que ocorre com MF, para quem a volúpia da «denúncia» quase sempre dispensa os enfados da argumentação. Mas não me lembro de Bloom alguma vez sonegar o nome aos poetas, críticos ou teóricos que visa (e menos ainda a Eliot ou Pound); e sobretudo nunca o vi confundir a crítica com o baixo moralismo de quem, de dedo espetado, denuncia, enojado, o circo ou o esterco do mundo (tome-se a aproximação entre Harold Bloom e MF como um caso de pedagogia pelo contraste).

Como no Adorno da Filosofia da Nova Música, tudo em MF se passa como se se necessitasse a todo o instante de dispor de um lado um Schönberg, «ou o progresso», e do outro um Stravinsky, «ou a reacção». Nuno Júdice, neste quadro, está eternamente condenado, já que desde o seu primeiro livro é claro que o seu paradigma é o eclectismo inclusivo de Stravinsky, o recuo voluntário ao moderno e ao mais próximo pré-moderno enquanto caricatura de si mesmos e alegoria benjaminiana de uma memória excessiva e só recuperável enquanto ruína e melancolia. Mas este funcionamento «reactivo» permitiu-lhe escrever cinco ou seis livros iniciais memoráveis, além de alguns outros posteriores, o que é argumento empírico bastante para a denúncia ser substituída pela leitura atenta. O problema é que este quadro, na revisão que dele produziu Joaquim Manuel Magalhães (JMM), sofreu uma aparente inversão, pela qual a reacção, caucionada por um agon antimoderno assaz simplista, se tornou não só o pólo positivo da díade como ainda, apesar do antimodernismo, ganhou um perfil estranhamente schönberguiano no seu ascetismo, mesmo se agora paradoxalmente «realista»: «retornar ao real» significou rasurar a pulsão simbolista ou metafórica, bem como toda a tradição visionária, da poesia na modernidade, numa revisio que nos deu um sub-imagismo inspirado numa pobre versão do antimoderno inglês mais à mão: Larkin, claro. Como era inevitável, os discípulos endureceram a lição do mestre; e a «reacção», para lá de estética tornou-se uma moral e uma política em que não é difícil reconhecer uma hipóstase, já assaz póstuma, da negatividade adorniana. Póstuma e errónea, já que convém não esquecer que em Adorno a negatividade pode incluir gente como Stefan George – e, sintomaticamente, não inclui Brecht -, pela razão de que a resistência da mónada artística à reificação não é questão de denúncias do esterco do mundo, mas sim da opacidade (que pode ocorrer numa poesia tão formalista como a de George) segregada pela frágil película formal que envolve externamente a mónada. Confundir isto com a «doutrina» que é possível recensear nas palavras de MF é cair na reificação maior da ilusão neo-realista, segundo a qual a negatividade é função de coisas tão peremptórias, e narcisicamente reconfortantes, como a rejeição do «esterco lírico comum». Um Adorno arrepiar-se-ia com o primarismo destas posições, que há demasiado tempo são entre nós lidas prima facie na sua putativa bondade emancipatória – quando são só um reaccionarismo estético, caucionado por um suposto radicalismo político.

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Dolores de Rubén

Posted in Comentários by Miguel Cardina on Sexta-feira, 20-06-2008


A 14 de Setembro de 1942, Rubén caía morto em Estalinegrado. Ruben era Rubén Ruiz Ibárruri, filho de Dolores Ibárruri, la Pasionaria, figura cimeira do Partido Comunista Espanhol (PCE) e presença recorrente no panteão mitográfico comunista do século XX.

O sacrifício de Rubén Ibárruri valeu-lhe ser condecorado, postumamente, pelas autoridades político-militares da ex-União Soviética. Em Espanha, o seu nome disseminou-se por toda uma nova geração de bebés anti-franquistas. Deste modo se prolongava o exemplo do combatente morto na luta contra o fascismo e o nazismo, o mesmo inimigo que agora dominava uma Espanha varada a estilete. Ao mesmo tempo – imagem importante no catolicismo mediterrânico – a multiplicação do nome permitia sacralizar a dor de uma mãe que ofereceu o filho ao braço longo da História. O filho-herói tornava Dolores num símbolo da capacidade ontológica de triunfar sob a adversidade.

Nos anos quarenta, uma série de poemas de intelectuais comunistas espanhóis ajudaram a moldar esta imagem de claras ressonâncias religiosas. Jorge Semprún recorda que se ocupou durante anos de um nunca acabado Canto a Dolores Ibárruri que esperava terminar desta forma: «Se abrió la puerta. Nos alzamos / De nuestras sillas. Fuiste estrechando manos, / sonreías. / Y entonces estalló la primavera.» Mais arrebatado, Rafael Alberti, sob o pseudónimo de Juan Panadero, chamou-lhe «encarnação das manhãs» e «guia clarividente do povo», outorgando a Dolores uma santidade claramente mariana: «madre buena, madre fuerte / madre que para la vida / le diste un hijo a la muerte».

Quando, na sequência da crítica de Krutchev ao estalinismo, se começou a fazer o levantamento dos casos de «culto da personalidade» nos diferentes partidos comunistas, a Pasionaria aparecia como um dos exemplos mais apontados. Se Estaline era o «pai dos povos» Dolores era a mãe. A mãe órfã, carregando no seu luto as mágoas de um povo agrilhoado. A mulher dignamente revoltada pelo ventre, lugar da mais íntima das verdades. E no meio dela, Rubén, produzindo pela ausência a reprodução dos filhos do povo.

Miguel Cardina

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Lista de leituras para a equipa de todos nós: uma adenda

Posted in Comentários, Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 09-06-2008

É bem certo que tudo acontece àqueles que os deuses não amam. Veja-se o caso de Quim, eterno suplente de um suplente de um clube da segunda linha espanhola… Como se isso não bastasse, acaba por fracturar o pulso. Males que vêm por bem, meu caro: é altura de ler mesmo o Dostoievski. Quanto a Nuno, escolhido por ser um bom suplente, aqui vai a sugestão de leitura para o Euro:

Nuno: Uma Aventura nas Férias Grandes, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

Bom proveito, Nuno. E agora, trucidar os checos!

Osvaldo Manuel Silvestre

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Assobiando

Posted in Comentários by Miguel Cardina on Segunda-feira, 09-06-2008

Sempre que me falam daqueles modos quotidianos de exercer o poder, de erguer tracejados sobre o que é legítimo e o que é interdito, lembro-me de um conto do Mário Dionísio. Chama-se Assobiando à Vontade e conheço-o publicado no volume O Dia Cinzento e outros contos. A acção desenrola-se num eléctrico apinhado de gente à hora de ponta. A dada altura, surge uma interferência na moleza introspectiva dos corpos: um homem começa a assobiar. A multidão anónima entreolha-se – cúmplice, silenciosa, unida na mesma censura. Ninguém se deve fazer ver assim, tão subversivamente, parecem pensar. Mas o homem continua enleado na sua abstracção construída. Quando o eléctrico pára, só ele sai. O assobio, esse, permanece algures, no escárnio arrumadinho dos outros. É o momento, diz-nos Dionísio, em que tudo volta «pesadamente, a encher-se de silêncio e dignidade». Até que alguém venha de novo romper os cristais baços da sisudez.

Miguel Cardina

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Animalario

Posted in Comentários by Ana Bela Almeida on Segunda-feira, 02-06-2008

A minha edição do Animalario: (arte de la India) foi encontrada numa feira do livro na Galiza, perdida na secção de livros infantis. Não é por acaso que sublinho a propriedade deste livro – mencionando «a minha edição» – e que o considero mais «perdido» do que normalmente estão todos os livros que se amontoam em feiras de livros.
O Animalario é um livro da Faktoria K, uma editora de Vigo vocacionada para a edição do livro infantil, e consiste em reproduções em serigrafia de imagens de animais na tradição da arte religiosa, ritual e decorativa da Índia. São imagens originalmente pintadas, sobretudo por mulheres, nas paredes das casas, em tecidos e em folhas de palma. Nas palavras de uma das coordenadoras da obra, cada imagem é tratada «como se fosse uma pintura original». A sensação de se estar na posse de um livro original é reforçada pelo slogan – «A arte de criar Livros Únicos» – e pelo número de série atribuído (o meu é o nº610) numa «edição especial» de 2000 exemplares. Este livro, impresso artesanalmente na Índia – o folheto que o acompanha menciona a impressora Heidelberg de 1950 onde foi feito e mostra a fotografia do homem que o coseu e encadernou à mão – permite-me a ilusão da possibilidade da fuga à reprodução, à lógica do mercado em grande escala, com os direitos das vendas do livro a serem repartidos por todo os/as artistas indianos/as que trabalharam neste projecto. Chamo-lhe ilusão porque o privilégio de possuir um livro «como se fosse» só meu também pode ser partilhado por outros 1999 leitores.
Resta agora entender como é que esta «peça de coleccionismo para bibliófilos» (volto a citar o folheto promocional), ao qual foi atribuído o 1º Prémio do Ministério da Cultura Espanhol para o Livro de Arte Melhor Editado em 2007, vai parar à secção dos livros infantis nas feiras do livro e, suponho, também nas livrarias. Afinal, trata-se de um livro de arte ou de um livro infantil, ou de ambas as coisas? Questiono-me sobre o que fará com que estas reproduções sejam classificadas para um público infantil, quando são imagens que, na origem, têm uma função religiosa, normalmente relacionadas com mitos e crenças hindus, e que são pintadas em ocasiões de casamentos e festivais indianos. Talvez por ser um livro com ilustrações de macacos, girafas e leões. Ou talvez por ser um livro sem texto, acessível a crianças que ainda não sabem ler. Ou talvez por ser um livro profusamente colorido – azuis eléctricos, amarelos florescentes, vermelhos sanguinolentos- que foge ao branco e negro da idade adulta. Ou talvez porque o estilo naif das imagens é traduzido em «europeu» por «arte infantil». Eu gosto de pensar que é porque só um curator de renome, ou um miúdo de cinco anos, podem verdadeiramente entender a beleza destes animais.

Arni, Kanchana e Gina Wolf (coord.). Animalario: (arte de la India), Vigo: Faktoría K de Libros, 2006, 74 pp. [ISBN: 978-84-934713-6-184-934713-6-4]. Tradução de Beasts of India, Reino Unido, Tara Publishing, 2003. [978-84-934713-6-1-84-934713-6-4]

Ana Bela Almeida

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Cuidado! «Revisão gráfica» aproxima-se

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 31-05-2008

Porque será que, desde há uns anos, sempre que um periódico nos anuncia que vai proceder a uma revisão gráfica do seu suplemento cultural/literário, nos preparamos para o pior? Decerto, porque a experiência nos diz que «revisão gráfica» significa hoje (i) mais espaço para imagens, quase sempre dispensáveis; (ii) menos espaço para texto; (iii) menos espaço para livros. No fim do processo, o saldo é sempre o mesmo: mais um magazine, mais um suplemento dispensável como leitura.

Ocorreu-me isto de novo há dias com a mais recente revisão gráfica do Actual. Mas infelizmente entre nós os exemplos sucedem-se.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Um bem necessário

Posted in Comentários by Sandra Guerreiro Dias on Sábado, 31-05-2008

Contra o excesso, não o sendo, a Revista Criatura assoma enquanto projecto urgente e desmedido que é na asserção pela palavra que não se esgota no exercício estético. Já com dois números editados, trata-se de uma publicação literária organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope, da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que recolhe a colaboração de jovens autores emergentes. Despretensiosa, discreta, e incessante na beleza e eminência dos pressupostos que convoca, esta revista afirma-se pela coerência de uma arquitectura a assentar na experiência da poesia enquanto desafio. Dizendo-se pela criação, pela criatura em movimento, assume-se, além disso, contra a globalização, normalização e, logo, neutralização da natureza primordial da linguagem artística. Vigilante, actua assim em prol da sujeição a um desígnio que, em constante processo de assombro disfórico, propende para o esclarecimento do real, ultrapassando em muito o mero jogo poético experimental ou o vulgar ensaio reprodutor de tendências. E se é verdade que «toda a criação é afinal um bem desnecessário», como é afirmado em nota introdutória ao segundo número, não o deixa de ser menos que é a palavra, aqui enquanto sinopse desse processo de criação, que se assume neste contexto enquanto objecto que cumpre o esboço de uma espécie de avassaladora catarse geracional. A Revista Criatura é assim, e também, a diegese dessa «geração do silêncio» em si mesma, a que é simultaneamente filha «daqueles que lutaram no dia 25 de Abril», e “geração revoltada/simplesmente porque não tem a sua revolução». Projecto que se declara pela indigente necessidade do silêncio, empreende-se pela concretização desse reduto último ou dessa «ciência última» que Herberto Hélder, há vinte anos atrás, anunciava e sintetizava como «unânime, fundamental, áurea».

Sandra Guerreiro Dias

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Aproveitando o embalo do Maio (coda)

Posted in Comentários by Miguel Cardina on Sexta-feira, 30-05-2008

Um número do L’Esprit interessado em esbater o predomínio «franco-francês» das evocações de ’68.

Miguel Cardina

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Kant na noite do Ártico (1)

Posted in Comentários by Luís Quintais on Segunda-feira, 26-05-2008

(Claude Lévi-Strauss fará cem anos em Novembro próximo. Uma parte significativa da sua produção intelectual e literária foi reunida num volume na Bibliothèque de La Pléiade.)

Começo com uma imagem que me persegue há muito. Franz Boas lendo a Crítica da Razão Pura pela noite do Ártico adentro.

Em 1883, Boas, um então jovem estudante de física, deixou a Alemanha e partiu para Baffinland no Canadá setentrional. A sua intenção primeira era estudar o modo como os esquimós percebiam a cor do gelo e da água do mar no seu meio natural. Durante essa longa estadia de um ano no Ártico, Franz Boas sujeitou-se a condições ecológicas de extrema dureza, e um dos aspectos mais violentos da sua experiência de fieldworker traduziu-se no isolamento intelectual extremo que teve de suportar. De modo a manter-se ocupado durante as longas e frias noites árticas, Boas lia uma cópia da Crítica da Razão Pura. Consigo imaginá-lo concentrado, procurando, por exemplo, compreender a justeza da caracterização que Kant aí faz de «esquema», noção que mais tarde viria a fertilizar o pensamento de Frederic Bartlett ou de Jean Piaget, e que a antropologia americana retomou com efeitos consideráveis no nosso entendimento do que é a cognição enquanto propriedade emergente do sistema cérebro-mente na sua interacção com uma ecologia manifestamente simbólica e social.

Dir-se-ia que a antropologia moderna tem aqui uma das suas histórias mais emblemáticas, que se desdobra afinal num conjunto de interrogações acerca das eventuais relações entre o mundo objectivo e as representações mentais. A dificuldade do empreendimento fez recuar os melhores. Boas não foi excepção, tal como o não foi William Rivers. E só Lucien Lévy-Bruhl e, muitos anos mais tarde, Lévi-Strauss procuraram dar uma resposta a isto.

Lévy-Bruhl viria a tropeçar numa linguagem desajustada a uma correcta enunciação do que poderia vir a revelar-se uma resposta a tal conjunto de interrogações, sendo porém provável que encontremos nas suas páginas, ainda hoje, matéria de assombro pelo facto de Lévy-Bruhl se encontrar à beira de qualquer coisa de teoricamente significativo que poderia transformar seriamente a história da antropologia moderna.

(more…)

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O francês e o direito do consumidor

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 26-05-2008

De cada vez que passam 10 anos sobre Maio de 68, é inevitável o balanço: «Que reste-t-il?» Desta vez, o que mais me tem impressionado, de entre aquilo que se esvaiu nesta última década, é a total e flagrante ignorância no que toca ao domínio do francês.

Apercebi-me primeiro disso no Câmara Clara dedicado ao evento. A certa altura, uma peça jornalística referia obras recentes de líderes e participantes no Maio de 68 e, fatalmente, nomes e títulos. Não só Cohn-Bendit passou a «Bandit» (prática aliás geral), numa espécie de triunfo derradeiro do gaullismo, como a jornalista que debitava o texto não conseguiu dizer um único nome ou título de obra em francês sem os ler literalmente à portuguesa, com o artigo «Un» a ser lido «Um» ou o «s» da desinência do plural a perder por sistema o seu carácter mudo, entre muitos outros mimos.

Hoje, último episódio deste festival: na RTP N assisto à notícia do filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, «Entre les murs». Mais uma vez, lido à portuguesa, sem temor nem tremor.

OK, a cultura francesa já não governa o mundo, o que justifica o ror de tolices que, a pretexto disso, vamos ouvindo, nos mais variados quadrantes (estético, intelectual, político, etc.) e tantas vezes por uma estranha espécie de despeito (o que pode ir de João Carlos Espada a José Manuel Fernandes e a uma série de jovens turcos). Mas não consigo deixar de me lembrar de uma frase que, algures em Sinais de Fogo, uma personagem do sobrevalorizado romance de Jorge de Sena lança, como comentário a um francófilo de então: «Todos os cretinos dizem frases em francês!». Hoje podíamos certamente reescrever a frase, não para pôr o inglês no lugar do francês – a cretinice do gesto seria idêntica à de quem se entusiasma com denúncias como a dessa personagem de Sena – mas sim para referir a pacífica incompetência de todo o mundo no que toca ao francês. O espantoso nisto, em tempo de união europeia e hysteresis comunicacional, traduzida de resto em cursos de comunicação e jornalismo a que acorrem hordas de jovens, é a constatação de que os nossos jornalistas de TV e rádio não só não sabem francês como também continuam a confundir o espanhol com o portunhol, julgam quase todos que o italiano é um português cantado e, claro, não têm a menor ideia do alemão para lá de Siemens ou Volkswagen – o que significa que se pode ser jornalista em Portugal dominando apenas 10% do International English.

O resto, ou seja, que filósofos, músicos, cineastas ou cientistas franceses sejam hoje entrevistados em Portugal em inglês, é o ar do tempo, e nada a dizer. Mas, que diabo, que saibam inglês a sério; e que, quando refiram nomes de pessoas ou títulos de obras, recorram à transcrição fonética dos dicionários. Trata-se, afinal, de uma questão de direito do consumidor. Daqueles que ainda sabem francês…

Osvaldo Manuel Silvestre

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O Maio de 68 de A. J. Saraiva, 38 anos depois (II)

Posted in Comentários, Polémica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 25-05-2008

O que se celebra então na actual recuperação do livro de Saraiva? Pacheco Pereira, num daqueles momentos que o definem como criatura dos média, lembrou, contra Sarkozy, que não fora Maio de 68 e a relação daquele com Carla Bruni não seria aceitável… O problema é que se de Maio de 68 nos fica isto (os «costumes» alterados), a leitura é demasiado curta para poder recuperar o livro de Saraiva. Relembro um passo decisivo do livro. Trata-se do final de uma descrição de mais um dos longos debates na Sorbonne ao longo desse mês:

Um anarquista, muito calmo e metódico, diz que o marxismo intelectual não é subversivo, e a prova é que o Marx é estudado na Sorbonne e faz parte das matérias de exame nas Ciências Políticas. Uma moça entrar no quarto com um livro de Marx debaixo do braço não é subversivo. Subversivo é ela entrar com um amante. Subversivo é haver uma música de jazz no pátio da Sorbonne. Metodicamente, o nosso anarquista enuncia quatro atitudes subversivas e portanto revolucionárias: 1º a liberdade sexual; 2º a contemplação e a atitude mística, sem finalidade (a este propósito lembrou a perseguição da polícia aos hippies); 3º a preguiça; 4º a reclamação da mudança da situação do homem (que não mudou desde o princípio do século XIX). De tudo, foi o que mais me interessou no tempo que assisti a este debate. (p. 89)

Somemos a isto (sobretudo aos pontos 2 e 3) a insistente denúncia da «superstição do Progresso»; ou a colocação da verdadeira revolução – a espiritual e cultural – sob a égide de figuras como S. Francisco de Assis, Gandhi ou Tolstoi. Cabe então perguntar de que celebração se trata, esta a que assistimos no corrente mês a propósito do livro de Saraiva. Porque explicar os adquiridos de Maio de 68 pela presença de Carla Bruni no Eliseu é ainda tudo reduzir à lógica da sociedade do espectáculo, o que, para Saraiva, seria mais do mesmo. O que Saraiva busca no seu livro de 1970, e o que busca, por interposto João Cândido, no Maio de 68, é o momento místico em que a linearidade da história se suspende e o sublime político irrompe, lançando-nos naquela terceira margem do rio de que falava João Guimarães Rosa (e que Saraiva traduz na expressão «um mar sem margens»). Nesse sentido, o livro de Saraiva é o mais falso dos adquiridos deste Maio de 2008, já que estes 40 anos nos afastaram vertiginosamente daquilo que em Maio de 68 parecia prometer «que a sociedade industrial moderna, tal como aparece nos países capitalistas, ia estalar» (p. 54). Sejamos justos: Pacheco Pereira, como na prática quase todos os ex-revolucionários de 60 e 70, estão hoje mais longe ainda das coordenadas do livro de Saraiva do que estavam à data da sua edição. Porque se podiam então partilhar com Saraiva a «crítica do capitalismo» (mas não os pressupostos em que repousava a crítica de Saraiva, e que o autor desenvolverá depois no período, já pós-Abril, em que será co-director de Raiz & Utopia), estão hoje maciçamente «do lado do capitalismo» ou da modernidade burguesa. Não se trata de reivindicar, fora de tempo, uma pureza filosófico-política perdida; trata-se sim de dar a ver a evidência de que o livro de Saraiva é hoje mais inassimilável ainda do que no passado, na medida em que a derrota do comunismo alargou ainda mais o espectro da crítica de Saraiva: agora, todos os que se sentiam atraiçoados por Saraiva em 1970 estão declaradamente do outro lado. O que equivale a dizer que Saraiva nos fala cada vez mais de lado nenhum.

O que isto significa, simplesmente, é que a geração que, pela voz de Pacheco Pereira, se reconcilia com o livro de Saraiva (ao fim de 38 anos, note-se – e registe-se a resistência a essa reconciliação ainda há 10 anos), se reconcilia, sim, com a sua boa consciência geracional, como quem diz: «Não devíamos ter tratado assim o homem: éramos radicais e fomos apressados e injustos». A resposta a esta (pequena) contrição moral e a esta falsa contrição política é dupla. Em primeiro lugar, convirá insistir em que, ao contrário das aparências, quem era radical era Saraiva. Pacheco Pereira, esse (e todos os que o acompanhavam) limitava-se a seguir a cartilha da grande narrativa moderna da emancipação pelo progresso, em que continua obviamente a acreditar, e se calhar agora mais do que dantes. O segundo ponto é um resumo ético-político de tudo o que tentei dizer a propósito desta recuperação, 38 anos depois, do livro de Saraiva, e para isso recorro a uma citação do livro: «A partir de agora mesmo, a história começará a ser falsificada» (p. 74).

Era fatal; e foi ainda a isso que tivemos o privilégio de assistir ao longo deste mês.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Maldoror: para terminar

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 25-05-2008

 

 

 

 

 

 

Uma das questões difíceis que os últimos Mão Morta levantam tem a ver com aquilo que poderíamos descrever como o seu devir destribalizado. A questão é difícil pois os Mão Morta sempre foram um dos raros casos de acérrima tribalização, numa cultura (a nossa) cuja formação social moderna e contemporânea resistiu notoriamente à tradução social orgânica – em termos, digamos, de classe – de formas de expressão cultural. No caso do rock, isto foi sempre patente na tendência ou para a morte no berço, por insuficiente «nicho ecológico», ou para a rápida transformação em banda para toda a família (vide o caso dos Xutos & Pontapés). A excepção a este estado de coisas foram os Mão Morta e, por isso, a sua passagem a um trabalho «temático» sobre autores e livros claramente exteriores ao mundo do rock não pode deixar de surpreender, se bem que a presença da grande poesia da tradição negativa da modernidade sempre fosse reconhecível nos textos de Adolfo e, por extensão, no imaginário da banda.

Em todo o caso, esta destribalização não é sem problemas e induz necessariamente a banda a um comportamento bipolar, oscilando entre a actual fase «temática» e conceptual centrada em alguns grandes livros não-canónicos e o concerto rock puro e (muito) duro, «à Mão Morta». No fundo, é como se os Mão Morta tivessem respondido aos problemas da nossa formação social de uma forma dupla e duplamente inteligente, ou adequada: (i) na medida em que são uma banda com uma história descontínua e, de há um tempo a esta parte, organizando-se em função de projectos «globais» de média duração – CD, concerto, DVD –, não dependem das regras do mercado, que é como quem diz, não dependem de uma situação de conflito entre a tribalização pedida pelo seu ethos e a necessidade de a trocar por uma lógica abrangente, por razões de sobrevivência (a situação lembra irresistivelmente a frase famosa de Gautier sobre Flaubert, que possuiria “a inteligência de vir ao mundo com algum património, coisa absolutamente indispensável a quem deseja fazer arte“); (ii) por outro lado, a sua evolução conduziu-os a uma situação de pluralismo que mima, na sua oscilação bipolar, o pluralismo da cena contemporânea das artes e que o conflito entre corpo e verbo ou entre música e não-canto, ambos corporizados em Adolfo, tão bem traduz. Por outras palavras, os Mão Morta são hoje rock e arte contemporânea ou, se se preferir, são a performance rock como dispositivo multimédia estratégico para enfrentar algumas das questões centrais da situação contemporânea das artes performativas.

Maldoror resume-as abruptamente de várias maneiras (e digo Maldoror para dizer aqui num só nome o trabalho dos músicos, encenador, cenógrafo, figurinista, etc.), de que destaco a instabilização a que submete o nome da coisa em palco, cuja atribuição se pode fazer apenas pragmaticamente: É rock? É arte contemporânea? É, de novo, o espectro da Obra de Arte Total ou, como Wagner preferia dizer, da Obra de Arte do Futuro? Mas, se a obra de arte do futuro respondia, em Wagner, ao vazio que a modernidade instituiu no próprio coração – no animus – do corpo social, propondo um novo vínculo e uma nova organicidade, que vazio pretende Maldoror colmatar? Nenhum, obviamente. Maldoror rejeita um diagnóstico da modernidade desse teor, propondo antes uma ética do abismo e das trevas como resposta verdadeira (a única verdadeira, a única possível, a única decente) à morte de Deus. Ora, o rock nunca pretendeu coisas tão altas, ou desviadas, como uma «obra de arte total» – ou pretendeu-o pontualmente e quase sempre em momentos auto-caricaturais (embora não necessariamente: penso em Zoo TV dos U2). Pelo contrário, sempre foi, desse ponto de vista, uma forma de arte pobre mas acessível, e também por isso uma muito viável intensificação corporal do devir. Foi isso aliás que aprendemos com Adolfo ao longo de mais de duas décadas: um indivíduo que não canta e pouco se mexe pode ser uma notável reinvenção da figura do «vocalista» (não do clássico «cantor») que define, numa larga margem de indefinição, a linha da frente das bandas rock. O que surpreende talvez em Maldoror é o facto de tudo isto se transformar em dispositivo contemplável. Dir-se-á que o mesmo ocorria na obra anterior sobre Heiner Müller, com a diferença, porém, de essa obra nos propor desde o início uma revisitação fantasmática do Anjo da História, obviamente destinada a contemplação onírica. Não se esperaria contudo que tal ocorresse em Maldoror, obra que parece prometer a libertação de toda a luxúria canibal de uma banda cuja filiação em Lautréamont sempre foi nítida. E contudo é nesse momento que as coisas se imobilizam numa contemplação do espectáculo das trevas que, ao contrário das aparências (ou seja: do próprio espectáculo), nos sugere que tudo se joga numa interiorização e ascese da experiência do Grande Outro: o Mal, o Monstro, o Irrepresentável. Estranho espectáculo, pois, estranho multimédia que nos propõe esse mergulho interior que sempre acompanhou a estética do gótico, ainda para mais «monitorizado» pela palavra, uma palavra enredada em todas as suas restrições representacionais: pode ela dar a ver aquilo que o show mostra ser da ordem do irrepresentável? É aí que Maldoror gera um movimento não-dialéctico, enredado no seu não-devir, entre o que vemos e o que ouvimos, entre o que contemplamos e o pesadelo que sonhamos, cujo ponto de partida e de chegada é sempre o corpo/voz de Adolfo, como uma espécie de muro a que, cegos pelas palavras de Lautréamont, vamos sempre bater de novo.

É isto rock? É isto arte contemporânea? Seguramente, e ao mesmo tempo. Um híbrido poderoso, como antes disse, um nó cego de questões que, entre o triunfo do corpo e a sua textualização, entre as ilusões do visível e a irrupção abrupta e excessiva do sublime, entre obra material e performance, entre negatividade e catarse – entre o rock e tudo o resto -, fazem de Maldoror um dos episódios decisivos das artes performativas em Portugal neste momento.

Osvaldo Manuel Silvestre

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O Maio de 68 de A. J. Saraiva, 38 anos depois (I)

Posted in Comentários, Polémica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 25-05-2008

Quando, há 10 anos, escrevi, para uma evocação colectiva dos 30 anos de Maio de 68 no Ciberkiosk, um ensaio sobre Maio e a Crise da Civilização Burguesa, de António José Saraiva – o ensaio intitulou-se «Um Mar sem Margens. Paris, em Maio de 1968, no Olhar de João Cândido e nas Palavras de António José Saraiva», e foi depois recolhido no nº 2 de Zentralpark -, comecei o texto notando a estranheza de o livro de Saraiva ser, de entre todos os do seu vasto corpus, aquele que nunca conhecera reedição, após as duas primeiras de 1970, sucessivas e sem dúvida justificadas pelo escândalo provocado pela edição do volume. Significativamente, o livro viria a ser apenas reeditado em 2005, ou seja, 35 anos depois.

Há 10 anos, as referências ao livro de Saraiva na imprensa portuguesa e nos textos evocativos do evento foram ainda residuais e remetidas quase sempre para o domínio do arqueológico: teria havido uma polémica, sobretudo nas páginas de O Tempo e o Modo, entre os maoístas que então por lá abundavam e o autor, que aqueles apodaram de tudo e mais alguma coisa. 10 anos depois, a diferença da actual evocação do Maio entre nós passou muito nitidamente pelo livro de Saraiva. E porquê? Basicamente, por duas razões: 1) Pelo volume de remissões para o livro, como sendo o livro português sobre o evento (de súbito, toda a gente reconhece o valor de referência da obra e toda a gente sugere a sua leitura); 2) Porque Pacheco Pereira (PP) contribuiu para esse fenómeno, o que, no seu caso, como se pode ler por exemplo aqui, suscitou o clássico debate sobre o valor a atribuir a incandescentes afirmações do passado juvenil. De facto, no caso de PP a revalorização do livro implica uma palinódia pessoal, já que na sua contribuição para o volume colectivo editado então por Zeferino Coelho sobre o livro de Saraiva, PP rematava dizendo que se tratava de «mais um livro para ler atentamente e queimar». Não é que Sottomayor Cardia ou Sebastião Lima Rego dissessem coisas muito diferentes – mas não usavam o fatídico verbo «queimar» aplicado a livros, o que no Ocidente pós-nazi se tornou imediatamente suspeito, tão suspeito que nos bloqueia a hipótese de haver de facto muitos e muitos livros queimáveis. O problema, contudo, é que não nos cabe decidir disso, pelo que a única forma decente de «queimar» um livro é esperar que os vindouros o não leiam; mas para que isso possa ocorrer, é necessário que eles possam vir a decidir, razão pela qual necessitamos de respeitar o princípio ético de preservar todos os livros publicados. Pacheco, tipicamente, decidia – e decide agora que decidiu mal. Do meu ponto de vista, a questão acaba aqui, em sede ético-moral.

Mas não, contudo, em sede política, que é onde o livro de Saraiva nos continua a desafiar. Porque este consenso sobre o livro de Saraiva é não apenas frágil mas falso, pois o que se tem recuperado é, em menor grau, a reportagem daquele mês, e, sobretudo, a crítica, pela esquerda – mas não pela extrema-esquerda, que não era a de Saraiva, e sim pela tradição libertária que marcará o autor na sua fase tardia –, da perspectiva com que os Partidos Comunistas enfrentaram e, em boa medida, atraiçoaram, a dinâmica do movimento estudantil. Tem-se referido bem menos a crítica radical de Saraiva ao capitalismo e, mais do que isso, à Razão instrumental, que para Saraiva definia capitalismo e comunismo juntamente (posição que à época justificava reacções como a de Pacheco Pereira, nisso emblemáticas de toda uma geração) e, antes disso, todo o projecto da modernidade, que Saraiva preferia qualificar como «burguesa»: dissociação entre trabalho e capital, triunfo do espírito de «mensuração» e «contabilização», perda da relação não-instrumental com a Natureza e com o Outro. O marxismo, para Saraiva, seria ainda parte deste devir e, em rigor, a ele só se oporiam duas alternativas: (i) a do cristianismo, que «nas entranhas do seu espírito, tal como o definiram Cristo e S. Paulo, é incompatível com a mentalidade burguesa, porque contém uma semente de desmesura mística inconciliável com a contabilização da vida: uma máxima evangélica diz que quem quer poupar a vida perde-a» (cito da 1ª edição, p. 19); (ii) a da «antiquíssima cultura camponesa»: «A civilização camponesa é actualmente o único foco de resistência ao aburguesamento geral do mundo» (p. 35).

Osvaldo Manuel Silvestre

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A feira, outrora agora

Posted in Comentários, Polémica by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 23-05-2008

Com todo o frenesi informativo em torno da realização, ou não, da Feira do Livro de Lisboa – em certos blogues, como o da Ler ou o Blogtailors, as notícias eram bidiárias ou mais e ora pendiam para o sim, ora para o não – aprendemos, em directo, a noção de não-evento. Alguns, digamos, os opinadores da estirpe daqueles críticos de Baudrillard que nos garantem, com um sorriso trocista, que a guerra do Golfo teve de facto lugar (até quando teremos de aturar o primarismo dos que nos ensinam que o real existe realmente, em si e por si?), dirão que, na medida em que abre no sábado, a feira será de facto um evento, para a felicidade das multidões de sempre. Por mim, prefiro insistir no que deveria ser óbvio: o único evento desta feira é o dissídio entre editores em função da chegada do corporate capitalism ao mundo da edição lusa (um episódio mais da luta de classes). O resto – ou seja, a feira em si – é um penoso anacronismo que o mercado, na sua dinâmica mais recente, veio banalizar e dissolver enquanto «excepcionalidade anual». O próprio devir das feiras do livro, cada vez mais preocupadas em investir nas novidades e menos nos fundos de catálogo, reproduzindo assim os efeitos mais perniciosos da circulação vertiginosa dos livros pelas livrarias, fez com que estas se fossem auto-anulando, pois não oferecem hoje muito mais do que qualquer Almedina ou FNAC (sendo, em contrapartida, bastante mais desconfortáveis).

Neste contexto, insistir no velho modelo e, desde logo, na uniformidade de stands e práticas, como se assim, ao menos durante o tempo da feira, «todos os editores fossem iguais» – terrível ilusão! -, não é a melhor maneira de revitalizar o evento. Entre redes livreiras, descontos em sites Web, feiras em livrarias, etc., o espaço das feiras do livro é hoje quase nenhum. Quanto ao resto, não creio que «a emoção de subir e descer o Parque Eduardo VII» chegue para sustentar um evento desta dimensão e, menos ainda, o investimento passional, e obviamente não apenas, de tantos editores. A Leya tem pois razão ao querer mudar alguma coisa na feira – mesmo se aquilo que lá quer fazer anuncie, muito provavelmente, a transformação da feira noutra coisa, destinada à glória do star system literário (ou melhor: dos romancistas que vendem).

É pena? É um mundo que desaparece? Talvez. Mas a única maneira de enfrentar um mundo em mudança é começar por aceitar. Aceitar que, como diria Carlos Drummond de Andrade, «O mundo não é o que pensamos». O mundo é o que é. E, no caso do capital, como sabemos há muito, um mundo no qual tudo o que é sólido se transforma em ar. A Feira do Livro de Lisboa é apenas a última ocorrência, modestamente pitoresca, desse fenómeno.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Aproveitando o embalo do «Maio» (IV)

Posted in Comentários, Notas by Miguel Cardina on Quinta-feira, 15-05-2008

O carácter plural do «Maio de 68» e a sua dívida notória ao «tempo quente» no qual se insere – tantas vezes funcionando como uma metáfora do ano ou da década – tem levado a leituras distintas sobre o acontecimento, por vezes incapazes de ver que o pomo da discórdia está simplesmente na mútua parcialidade dos dialogantes.

Por outro lado, também é certo que a memória tende a recatalogar o passado de acordo com aquilo que o presente nele reconhece. Reescrita essa que é, por si só, um interessante objecto de análise, e porventura um processo salutar, mas que nem sempre conduz a um conhecimento mais completo (e complexo) do acontecido.

Por ambas as razões, é útil deixar aqui os onze temas principais que, segundo Bertram Gordon, constituem as linhas mais comuns através das quais, retrospectivamente, o antigo activista soixante-huitard olha para os acontecimentos:

1. O entendimento do movimento francês como parte de um fenómeno mundial;
2. A luta por uma sociedade anti-hierárquica e igualitária;
3. A componente radical [“More red than Mao”, dizia o L’Express a 13 de Maio];
4. A ênfase no socialismo e no melhoramento das condições de vida dos trabalhadores;
5. Argumentos a favor de uma revolução cultural e de uma transformação libertária;
6. O atenção às temáticas emergentes do feminismo;
7. A ideia de “fracasso”;
8. A contestação ao funcionamento da universidade;
9. A repressão policial;
10. Os efeitos a longo prazo nos participantes;
11. A importância do Maio de 68 no século XX francês.

Bertram Gordon (2003), “The Eyes of the Marcher: Paris, May 1968 – Theory and its consequences”. In: De Groot, G. (org.), Student Protest. The Sixties and After. London e New York: Longman, pp.39-53.

Miguel Cardina

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Contra Arcadia

Posted in Comentários, Notas by Pedro Serra on Terça-feira, 13-05-2008

Num ensaio atómico dedicado ao género pastoril, “The Despised Pastoral”, H. P. Lovecraft (1890-1937) proporciona-nos um frestão por onde adentrar-nos no seu universo ficcional. Recordo muito brevemente o argumento, apostado em contraditar a desvalorização do género de Teócrito e Virgílio, com interregnos de revitalização em Spencer ou Pope. Lovecraft posiciona-se claramente contra uma pulsão estruturalmente “realista” da poiesis, da invenção moderna, e o seu imperativo de “reprodução da Natureza”. Contra esta pulsão, menciona a figura de Poe – um dos seus mais decisivos influxos -, mestre de uma poética jogada, claramente, no “prazer e não na verdade”. Uma argumentação certamente ajustada ao esteticismo finissecular, não anda longe dos termos de um Oscar Wilde e o seu The Decay of Lying, publicado nos inícios da década de noventa do século XIX. Compare-se, por exemplo, a seguinte sequência final de “A Sombra sobre Innsmouth”, o regresso em tropel das hordas intra-mundanas que conduzem à loucura do protagonista, com o passo do diálogo de Wilde que também transcrevo:

Será realmente possível que este planeta tenha engendrado tais criaturas, e que olhos humanos tenham visto a verdade, em carne e osso, tenham visto aquilo que o género humano não conheceu até agora senão em febris devaneios e lendas pouco convincentes? § E contudo, vi as criaturas em interminável oleada – batendo as asas, dando saltos, grunhindo, gemendo – que surgia inumanamente através do espectral luar numa sarabanda grotesca e maligna de fantástico pesadelo.

Eis o retrato wildeano, por seu turno, da fantasia que sobrevirá à “narrativa moderna” de pendor realista:

O próprio aspecto do mundo mudará diante dos nossos olhos estupefactos. Do mar surgirão Behemot e Leviatã, e navegarão à volta das galeras de alta popa, como nos deliciosos mapas daquelas épocas em que os livros de geografia eram ainda legíveis. Vagarão os dragões pelos ermos e a ave fénix elevar-se-á no ar do seu ninho de fogo. Acariciaremos o basilisco e veremos a jóia na cabeça do sapo.

A prospecção bucólica de Wilde, diríamos europeia, contrasta com a de Lovecraft, que muito embora nos propõe a dessublimação da tradição pastoril americana, sempre cara a sublimar quer a Natureza quer a Tecnologia. Lembremos, a este respeito, e como mero apontamento, a conhecida injunção de Ralph Waldo Emerson, para quem “Nature and Technology agree well”. Lovecraft, de facto, será neste aspecto mais “europeu”, em quanto mais “tecnófobo”. Seja como for, o que Lovecraft sobrelevará da tradição pastoril inglesa é o facto de ela encerrar uma potentíssima máquina de produção de sonhos e mitos, somando-lhe, ao contrário do que aponta o trecho de Wilde, a pervivência de um baixo-contínuo gótico. Assim, a língua rústica, dirá, é “irresistível”: “A magia deste tipo de poesia é, para toda e qualquer mente imparcial, irresistível, capaz de evocar melhor uma série deliciosa, plácida e refrescante de retratos na imaginação do que aquela que podemos obter em formas mais realistas. Toda a fantasia não contaminada engendra visões ideais, de que a composição pastoril constitui um reflexo legítimo e artisticamente necessário”. Todavia, a irresistibilidade do sermo rusticus assume, em Lovecraft, a modulação de uma prosa berradora.

O sonho radical seria o “refúgio luminoso”, a possibilidade de fuga das “feias trivialidades da vida”. Na verdade, o onírico é tanto um mundo de beleza, de “velhos jardins e florestas encantadas”, de “bosques úmbrios”, como também um espaço de senectude absoluta que infunde por igual “deslumbramento” e “horror e decepção”. A língua rústica assimila-se a um berro que visa detonar o medo. Recolho escassos lapsos descritivos desse mundo de beleza no conto “Ex oblivione”, publicado em Março de 1921 em The United Amateur. Fábula que leio pela tradução da ficção completa de H. P. Lovecraft editada por e Juan Antonio Molina Foix (Francisco Torres Oliver, José María Nebreda, para além do editor, traduziram), dois volumes que acabam de ser publicados pela editora Valdemar. Destaco as duas excelentes introduções de Molina Foix, faltando nelas apenas o entrosamento dos textos ficcionais com os ensaios críticos de Lovecraft, muito embora  o editor sim tenha em conta alguns lugares da vasta epistolografia. O protagonista do conto, imerso num estado de letargia sonolenta, encontra na cidade de Zakarion um antigo papiro amarelecido onde lê a existência de um lugar situado mais além do “vale e dos bosques úmbrios”. O acesso a essa paisagem escusa é feito mediante uma “droga”. Cito extensamente, de modo a destacar o devaneio desse espaço obscuro: (more…)

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