Os Livros Ardem Mal

Scriptor ex machina (V)

Posted in Autores, Crítica by Manuel Portela on Sábado, 20-09-2008

«Um Longo Nascimento» (49-76)

Só tenho uma única ambição na vida: conhecer o Alberto Caeiro. (59)

Dorme à vontade. O pão está já escrito. (59)

Folheias os livros. Os lábios. Os olhos às vezes. Nada encontras. Nem som. Nem sangue. Folheias sempre. (59)

Zola: uma vela de três sous era uma noite de literatura. Escrevo à sombra da electricidade. Entre dois meios de iluminação a mesma preocupação. A mesma atmosfera sobre as costas. (60)

Manuel da Silva Ramos compra Manuel da Silva Ramos. (61)

Manhã do lápis. Compreendes? Lápis que (me) se gasta. (62)

Tenho os olhos no dicionário. Grossos. Inflamáveis. (63)

Na relva que está para lá dos barcos e para cá da rua há uma criança que brinca com uma bola. Às vezes, a criança apanha a bola e leva-a ao peito. Outras vezes esconde-a nas costas. A bola nasceu bem dela. A bola vive e há-de morrer como a criança.
O pai de mãos nos bolsos, perto, não pensa nisso porque criou a criança com sangue. Ainda hoje era capaz de semear as suas mãos pela criança. Embora a criança lhe coma lentamente a vida.
Se a criança lançasse a bola ao poema eu apanhá-la-ia? (63)

Entretenho-me com as pessoas. Combino-as. Meto-as depois na minha vida. Assim a caneta vai forçando o papel: uma rapariga e um rapaz. (64)

Um dia hei-de ser velho… Não. Nunca serei velho. Mato-me. Há mais, muitas pessoas no café. Mas a tinta falta-me. Procuro a tampa e enrosco-a no aparo e escondo a caneta no corpo interior do casaco e deixo de pensar. Como se fosse a entrar no sono sem nada na manga. (64-65)

P.S. Um vómito para o leitor. (70)

Manuel da Silva Ramos, Os Três Seios de Novélia, Dom Quixote, 2008 [3ª edição]. ISBN 978-972-20-3597-2 [1ª edição, Inova, 1969; 2ª edição, Fenda, 1996]

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Scriptor ex machina (IV)

Posted in Autores, Crítica by Manuel Portela on Sábado, 20-09-2008

«Os Três Seios de Novélia» (17-48)

 
De pé desço a rua duma grande cidade.
De pé sobes a rua duma grande cidade. (17)

Aqui neste café, onde sou docemente desconhecido, olho para a décima sétima página do romance. Poiso os olhos sobre as coisas como se quisesse que elas falassem e ganhassem de repente mil e uma formas tranquilas ou assustadas e depois decrescessem lentamente até desaparecerem por completo. A décima sétima página é todo um sorriso de Novélia. Um sorriso vivo. Pedi-lhe um sorriso. Meti-o entre duas páginas. Até ele depois se colar à cara dum leitor. Mas é um sorriso que deve ficar no livro. Por isso, o leitor o retribuirá depois. São e salvo. Escrevo «Há apenas dez maneiras de sorrir. A primeira, é sorrir antes do tempo…» (38)

«Quem tocou nas letras com as mãos? Que estacas as seguravam? Também perguntei a mim mesmo: as palavras nunca se cansam, não fazem outra coisa senão correr sem cessar de manhã à noite; mas, onde param? Quem as força a correr desta maneira? Quem as manda? Ontem na minha página não havia uma só letra nascida: fui lá hoje e encontrei várias. Quem deu a terra, a sabedoria, o poder para o fazer? E tapei a cara com as mãos.» (40)

Portugal. Hoje, Novélia não apareceu. A rua desta cidade crescia à cinco e um quarto da tarde. De Novélia apenas o cheiro característico da rua: Arothron aerostaticus. É que para lá da rua há um mercado. Agora a rua ganhou a sua exacta dimensão real e está assente finalmente na estatística com as suas leis, geometria, equilíbrio vital, tempo rígido. Uma rua que ia dar a todas as ruas do mundo. Uma rua onde nunca mais passarei. (47)

Manuel da Silva Ramos, Os Três Seios de Novélia, Dom Quixote, 2008 [3ª edição]. ISBN 978-972-20-3597-2 [1ª edição, Inova, 1969; 2ª edição, Fenda, 1996]

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Scriptor ex machina (III)

Posted in Autores, Crítica by Manuel Portela on Sábado, 20-09-2008

…no ano em que entrei para a escola o meu pai morreu. Foi uma tia, uma velha tia, solteira, perdida na memória das famílias que me levou para a sua casa e que me ensinou a correr com ela pela tabuada fora. Depressa aprendi o brilho dos números e a evidência das letras. Depressa descobri o lápis, a borracha, o desenho. Ficava longas horas a copiar o gato da minha tia. Nunca o consegui meter no papel. Um dia o gato morreu e como não tinha mais nada para desenhar comecei a olhar para a minha tia às escondidas. Ela ficava todo o dia sentada numa cadeira a experimentar, a multiplicar o fio, o frio, porque dali sairia uma camisola para o meu inverno. Eu espreitava pela porta entreaberta: o lápis nos dedos, o caderno no chão e com um grande incêndio nos olhos. (23-24)

A sensorialidade é a sensorialidade da máquina evocativa e rememorativa da escrita. Mas é sobretudo a própria materialidade da língua, nas associações sonoras e semânticas, na corporalidade perceptiva dos seus sons e sentidos, na dinâmica permutativa e recursiva das frases. Os Três Seios de Novélia contém o genoma da escrita como acto de escrita que exulta com a sua capacidade de invenção, que é capacidade de associação infinita e de ressignificação inesperada, de replicação regenerativa do código verbal. A oscilação entre impulso narrativo e impulso lírico produz, a nível discursivo, um ritmo imagético que ecoa o ritmo sincopado do fraseio sintáctico. E o riso, à beira de estalar a meio da frase -um dos efeitos viscerais da escrita no acto de leitura -,  logo se transmuda em devaneio surreal, em imagem fantástica, em acontecimento recordado, em acontecimento observado. É o histrionismo do acto de escrita que aqui se escreve a si mesmo, e que coloca em dúvida, no próprio momento em que a ela se entrega, a possibilidade de referência extratextual: «E ao fundo da décima sétima página, já na curva para a décima oitava encontro Novélia sentada.» (39)

Tal como a personagem, o escritor surge como um efeito da radiação ontológica da máquina da escrita que o produz como sujeito do seu acto de escrita: «13/ Só tenho uma única ambição na vida: conhecer o Alberto Caeiro. 14/ Dorme à vontade. O pão está já escrito.» (59) Dentro do texto, o mundo é o efeito do seu acto de fala particular, do acto de escrever, que é ao mesmo tempo o acto de fala que o produz como escritor fora do texto e lhe confere identidade social. A profunda consciência do acto da escrita e o encantamento sensorial com as possibilidades narrativas e estilísticas da língua são duas características definidoras da sua obra posterior – uma obra onde o plano do discurso e o plano da estória parecem encantar-se não só com a ficcionalidade da ficção, mas com a ficcionalidade da linguagem. Mais do que a sua dimensão representacional, é esta espécie de luxúria verbal ou de gozo com a língua que constitui a experiência de leitura nos romances de Manuel da Silva Ramos. A sensorialidade da palavra, a sua verbalidade, faz retroceder para segundo plano a arquitectura narrativa, fixando o leitor no desenrolar das próprias frases como essência da narratividade. E é essa função da palavra e da escrita que Os Três Seios de Novélia mostram através da consciência nascente do escritor enquanto scriptor ex machina. O verbo faz surgir o mundo, sim, mas faz surgir sobretudo o mundo do verbo. Um mundo onde é possível ao escritor inventar para os leitores a carnalidade da linguagem que os constitui – escritor e leitores – como produtos e sujeitos de actos de escrita e de actos de leitura particulares.

Manuel Portela

Manuel da Silva Ramos, Os Três Seios de Novélia, Dom Quixote, 2008 [3ª edição]. ISBN 978-972-20-3597-2 [1ª edição, Inova, 1969; 2ª edição, Fenda, 1996]

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Scriptor ex machina (II)

Posted in Autores, Crítica by Manuel Portela on Sábado, 20-09-2008

Não conseguir dizer o que lhe acontece com os signos que inventou – para se dizer e para dizer o mundo – parece constituir a própria natureza dos signos e do ser simbólico que através deles lhe cabe ser. Nasce, cresce, reproduz-se, morre. A cada frase revive a insuficiência das palavras para o dizerem e para dizerem o mundo. O mundo é uma breve alucinação que não chega sequer a apreender, e o sujeito um produto dessa alucinação contaminada de signos. Escrever a escrita é seguir as frases até onde não sabe que elas o levam. É abrir com elas um caminho que não havia antes. Fazer aparecer, ao mesmo tempo, como que por magia, um ponto de vista sobre o mundo e o mundo que esse ponto de vista faz aparecer. E essa é uma das experiências que a leitura de Os Três Seios de Novélia lhe oferece: a experiência da singularidade do acto de fala da escrita, capaz de fazer acontecer o que diz, seja a escrita, seja o sujeito, seja o mundo. Novélia surge como a própria condição da novela e do romance, da ficção enquanto possibilidade de mundo. Não é apenas um nome que abre a possibilidade de um referente extratextual, isto é, a mulher que a escrita conjura nas ruas e lugares da cidade. Novélia é também – é sobretudo – o movimento incessante da própria escrita que aponta para si mesma e para a natureza do seu acto. O escritor escreve-se ao escrever. Produz a linguagem que lhe há-de permitir ver-se como produto da performatividade da escrita. A escrita faz acontecer a escrita e o mundo como efeito da escrita. É esta descoberta da escrita como acto de fala o que sobressai neste três primeiros textos de Manuel da Silva Ramos. Escrevendo-se (isto é, descrevendo-se e narrando-se a escrever), o narrador descobre a co-extensibilidade entre mundo e linguagem. Um e outra são o avesso e o direito da capacidade de representação e de expressão contida na escrita. Escrever é uma forma particular de criar mundo, de criar mundos no mundo: «Novélia (chamo-te Novélia) mostra as mãos. Agora sorri para eu sorrir. Para eu acreditar. Para tu viveres.» (18)

«Romance? Poema?» – a interrogação com que Óscar Lopes apresentava a edição de 1969, vale ainda, quarenta anos depois, para toda a obra posterior de Manuel da Silva Ramos. A tensão entre o desejo de narrativa e de hetero-referência do romance, por um lado, e o desejo de plenitude lírica do poema como lugar auto-suficiente de comoção com a beleza dolorosa mundo, por outro, continua a constituir o motor da combinatória linguística que a sua escrita inventou. Dessa tensão fazem parte a oscilação frequente entre clímax e anti-clímax, a combinação da pincelada psicológica com a caricatura social, a surrealização do registo realista, a paródia estilística (como no «Sermão de Santo António aos Astronautas») e uma lógica combinatória nas variações técnicas e temáticas (como os nomes de ruas e cafés n’ «Os Três Seios de Novélia», ou os meses do ano n’ «A Respiração», ou os aforismos em «Um Longo Nascimento»). Reconhece-se, retrospectivamente, o início da sua escrita maximalista e inclusiva, à maneira de James Joyce, de acumulação das múltiplas formas da experiência humana. Reconhece-se também a permutação gerativa, à maneira de Calvino. A técnica de justaposição desierarquizada, de que depende a lógica onírica do texto, contamina igualmente o registo realista, cuja sensorialidade surge assim intensificada.

Deitado. Nu. Vou pedalando pela modorra. Acordei há meia hora e vou. Minha bicicleta tentando a velocidade. Às vezes um furo. Um prego? Um grito duma mulher na rua. No guiador levo um embrulho antigo: a minha cabeça. Não há vento. A manhã vai turvando. Agora é dum verde reluzente. Pinga. A estrada pouco desce. É branca. Relincha. Dos lados há homens e mulheres amando-se. Risos, choros, gás, gaviões. Dolorosa fila indiana. Sangue, esperma, filhos, países. (34)

Manuel Portela

Manuel da Silva Ramos, Os Três Seios de Novélia, Dom Quixote, 2008 [3ª edição]. ISBN 978-972-20-3597-2 [1ª edição, Inova, 1969; 2ª edição, Fenda, 1996]

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Scriptor ex machina (I)

Posted in Autores, Crítica by Manuel Portela on Sábado, 20-09-2008

O que tem de específico uma forma de escrever? O que faz um acto de escrita? Se considerarmos que a escrita é uma categoria particular dos actos de fala, de onde lhe vem a força? Ou quais são os seus efeitos? O que é que a escrita faz acontecer? Que relação institui entre escritor e texto, entre texto e mundo, entre escritor e leitor?

Escrever, na sua manifestação mais aberta, isto é, quando a escrita é a invenção e a descoberta de si mesma e das possibilidades contidas na língua, parece tomar a forma de uma luta contínua entre o sujeito e a linguagem. Se o sujeito se constitui na linguagem, que lhe oferece a possibilidade de se auto-referir e de referir o mundo, isso significa também que o ser, as formas do ser, são produzidas pela linguagem. É nelas e através delas que é dado ao sujeito a possibilidade de se constituir: pensar-se, sentir-se, ver-se; pensar o mundo, sentir o mundo, ver o mundo. É talvez essa experiência da intimidade entre língua e ser que a escrita permite tornar processualmente consciente no acto de fazer traços sobre o papel ou de digitar as letras que o teclado transfere para o ecrã. O desejo pode então ser pensado como um processo, sempre diferido, de o sujeito tentar dizer a linguagem que o diz a si próprio e ao mundo.

Mas dizer a linguagem só é verdadeiramente possível fazendo a linguagem dizer o não-dito, o ainda não-dito, o entre-dito, o interdito, o que não se sabe como dizer, o que não se sabe que é possível dizer. Esse é, num certo sentido, o ofício do escritor: descobrir e inventar hipóteses de dizer-se e de dizer o mundo contidas nas possibilidades combinatórias da língua. A sua função particular consiste nisto: entregar-se ao jogo combinatório da língua e produzir as frases capazes de dizer a possibilidade de o sujeito e o mundo serem na linguagem. Em certa medida, a luta com os signos é uma luta perdida e um acto falhado, que o escritor está disposto a perder e a falhar, sempre mais uma vez, sempre disposto a recomeçar. Este fracasso é também o seu esplendor, já que cada lance de dados da escrita abre uma nova possibilidade de mundo e de ser. Pensado como acto de fala singular, cada acto de escrita constrói uma forma específica de mundo e de ser. O efeito principal da escrita é a própria escrita. Por outras palavras: a escrita é o registo de si própria. Dá-se a ver dando-nos a ver como nos mostra o mundo, quer dizer, como cria o mundo que nos mostra.

Manuel Portela

Manuel da Silva Ramos, Os Três Seios de Novélia, Dom Quixote, 2008 [3ª edição]. ISBN 978-972-20-3597-2 [1ª edição, Inova, 1969; 2ª edição, Fenda, 1996]

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Paulo Henriques Britto (III)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 19-09-2008

Da série «Quatro Autotraduções», o primeiro e o quarto poemas:

 

SONETO SENTIMENTAL

O que você chama de amor é isso?
Essa perda do parco tempo e espaço
que ainda te restam, esse desperdício
de esperma? Esse viver sempre em compasso
de espera, sempre com o mesmo desfecho
que te faz dar o que te falta mais?
Que amor mais besta – uma espécie de peixe
palerma, que nada, nada e não sai
do lugar – é isso? Esse diz-que-diz
que não te deixa louco por um triz
e só te inspira mesmo ódio e horror?
Que te machuca tanto que no fim
não dá para perdoar? É isso? Sim,
é isso que você chama de amor.

 

SONETO SIMÉTRICO

Será o pavão vermelho? Ora, direis,
este raio não cai mais do que uma vez
no mesmo lugar – é a prova dos nove,
é Götterfunken, uma coisa arisca
só dada (e olhe lá!) a quem é jovem,
que ainda guarda em si uma faísca.
Porém, passado o mezzo del camin,
às vezes uma luz fraquinha pisca,
e é como se sumisse uma neblina
que há muito esconde uma paisagem bela.
É ela, sim – pensa você – ali, na
sua frente. Ou talvez a parte dela
que ainda lhe cabe. Encha os pulmões de ar.
Goze esse instante. Ele não vai durar.

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Paulo Henriques Britto (II)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 18-09-2008

 OSSOS DO OFÍCIO

O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.

Mesmo o maior esforço não adianta:
da sensação à idéia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.

Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir – e aí está o fascínio –
com a rima atravessada na garganta.

Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não é o que se canta,

mesmo porque (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta

é o trambolho que menos se agiganta
nesse percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,
depois que a rima atravessa a garganta.

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Paulo Henriques Britto (I)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 16-09-2008

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro em 1951. É um dos mais conceituados poetas contemporâneos do Brasil (e um dos mais pessoanos), tendo conquistado com o seu livro de 2003, Macau, o prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. É ainda um renomado tradutor de literatura anglo-americana, tendo traduzido já E. L. Doctorow, Henry James, V. S. Naipaul, Thomas Pynchon, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Don DeLillo, Nadine Gordimer, John Updike, William Faulkner, Ted Hughes ou Philip Roth. É professor na PUC Rio. Os poemas que, com a devida vénia, passo a transcrever integram a sua última colectânea, Tarde (2007, Companhia das Letras).

 

O METAFÍSICO CONSTIPADO

Não há epifanias nesta noite,
nem escatologias sob a mesa.
O caco de lua que a janela emoldura
dispensa pretensões a inteireza.

Mas diante de tal ânsia de infinito
como pode tão pouco ser bastante?
aos céus ele pergunta, e na terra procura
um bom compêndio e o frasco de purgante.

 

Osvaldo Manuel Silvestre

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (10)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Estudos do tempo e do movimento Eu sou eu mesmo e a forma que o universo faz à minha volta. Os estudos do tempo e do movimento representam a nossa tentativa em ocupar o mais pequeno e humilde nicho no universo em redor.

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (9)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Pornografia O sonho casto e não erótico do próprio corpo.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (8)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Aerodinâmica Aerodinamizar satisfaz o sonho de voar sem o esforço de fazer crescer asas. A aerodinâmica é a escultura em movimento do espaço-tempo não euclidiano.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (7)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

A pílula O passo atrás da natureza de modo a dar dois passos à frente, presumivelmente em direcção às mais potentes possibilidades evolutivas do sexo integralmente conceptualizado.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (6)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Guerra de trincheira O corpo como esgoto, a sarjeta do seu próprio matadouro, descarregando os seus medos e agressões.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (4)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Telefone Um santuário à desesperada esperança de que um dia o mundo nos escutará.

LQ

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JG Ballard: projecto para um glossário do século XX (3)

Posted in Autores by Luís Quintais on Terça-feira, 02-09-2008

Jazz O ver-se livre da memória de curta-duração da música, mas não menos doloroso por isso.

LQ

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Arménio Vieira (V)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 24-07-2008

TRAGÉDIA CONJUGAL

Uma lagosta em cima de um pano verde
é um evento a partir do qual as interpretações
podem atingir números assustadores.
Algumas, se bem que poucas,
revelam que existem imaginações fora
do comum e até assombrosas, ao passo
que outras, em vez de provocarem o riso,
podem gerar nalgumas almas sensíveis
uma vontade louca de suicídio. Que se matem!

Ora bem, um pobre homem viciado em jogos
de casino teve que ficar uma noite em casa,
porque a mulher não quis que ele fosse
divertir-se à custa dela, que o dinheiro,
segundo ela, custava muito a ganhar.

É claro que uma mulher rica e ciumenta
é capaz de atar o marido com uma corda
de seda, pode mesmo matá-lo com uma
pistola de ouro e a seguir desatar aos gritos.

A viúva, em desespero, pega
na corda de seda e enforca-se mas, por uma
razão qualquer, não morre. Os milagres são
raros mas acontecem, sobretudo quando a
mulher é bruxa. A viúva sai enquanto o cadáver
olha para o pano verde com a lagosta em cima.
O relógio de casa vai batendo horas,
até que a viúva, por sinal vestida de branco,
regressa numa vassoura, trazendo um
homem consigo, um demónio talvez, mas diferente
dos outros, já que não tem chifres e usa gravata.
Pois bem, o cavalheiro embrulha o cadáver
no pano verde,  a seguir come a lagosta, sem ligar
o molho e a mulher, e vai-se embora levando
a pistola de ouro. A viúva pega num lenço de
bolso, mas não chora. Um gato negro entra
pela janela, diz boa noite à senhora
e, à maneira de um gato normal,
atira-se para cima do sofá e dorme.

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JG em Barcelona

Posted in Autores, Comentários, Notícias by Luís Quintais on Quarta-feira, 23-07-2008

Sugestão de verão: dêem um salto a Barcelona. Foi ontem inaugurada no Centro de Cultura Contemporànea de Barcelona a exposição/homenagem a JG Ballard, Autopsy of the New Millennium. Ficará no CCCB até dia 2 de Novembro. A não perder!

Luís Quintais

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A Sala Magenta

Posted in Autores, Crítica by Manuel Portela on Domingo, 20-07-2008

A advertência com que Mário de Carvalho abre o seu último romance sinaliza a condição paradoxal do próprio romance enquanto género. Constituindo-se como representação ficcionada de um mundo que é co-presente ao acto de escrita, o romance tem de reafirmar, a cada instanciação, e a um mesmo tempo, a sua verosimilhança e a sua ficcionalidade. Lê-se na advertência: «A acção e as figuras deste romance reportam-se a um mundo ficcional de entrada franca, sem chaves ou gazuas. Procurar moldes da vida real para acontecimentos e personagens é ter em má conta a imaginação do autor. Pode ser que ele o mereça, mas não os lesados por equívocos de leitura.» (7)

O que isto quer dizer é que o mundo representado deve ser reconhecível, mas toda a referencialidade não deve ser senão intratextual – própria da escrita enquanto acto de fala que cria um mundo imaginário no acto de o escrever. Procurar os seus referentes no mundo real seria desconhecer a pragmática da comunicação literária e aplicar um código de leitura duplamente inadequado: primeiro, porque a este romance não se aplicaria o modo de leitura dos romances-com-chave, e das suas cifras e alegorias; segundo, porque a possibilidade de fazer existir na linguagem o mundo que representa parece residir integralmente na ficcionalidade enquanto exercício de imaginação.

A advertência não deixa, no entanto, de contemplar a possibilidade de uma leitura factual, e de dar voz ao receio dessa leitura. Marcando a distância entre os dois mundos (o da vida real e o da imaginação do autor), reconhece-se, em simultâneo, a sua proximidade, a quasi-contiguidade. A existir, tal leitura da vida real no mundo ficcional resultaria de uma deficiência nos circuitos de produção e recepção do discurso do romance: ou um equívoco no lado da leitura, ou um défice de imaginação do autor, mas nunca produto da sua intencionalidade. Ler o real na ficção resultaria de um fracasso do acto de escrita ou do acto de leitura. Para que o mundo ficcional possa constituir-se, todo o real deve ter sido transfigurado para além dos défices de escrita e dos equívocos de leitura.

Procurar referentes extratextuais para acontecimentos e figuras seria ou sair fora do pacto de leitura da ficção, ou um efeito secundário de um mau exercício da função autoral, como se a escrita só fosse possível a partir de uma contiguidade indicial com acontecimentos e figuras da vida real. Esta indicialidade, que uma chave pudesse vir descodificar, seria ainda uma marca do défice de imaginação, de uma entrada estreita à mercê de uma gazua. Ao mesmo tempo, o desejo de proximidade entre real e ficção constitui o paradoxo do romance, já que este quer representar uma experiência do mundo que é contemporânea e co-extensiva com o acto de escrevê-la.

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Arménio Vieira (IV)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 15-07-2008

QUEM PASSA?

Dado que o poema, rimado ou não,
é apenas um eco daquele som,
antiquíssimo e áspero,
com que Homero tentava furar
os tímpanos de Zeus,
quem se arrisca a jurar
que os poetas passam
pelo buraco de uma agulha?

Os camelos esforçam-se,
mas em vão.

As putas até rezam,
porém não passam.

O Rei da Macedónia, voilà,
parte a agulha e passa.

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Projecto para um glossário do século vinte (JG Ballard)

Posted in Autores, Comentários, Notas, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 14-07-2008

#Zipper. Esta pequena mas astuciosa máquina terá encontrado um modo elegante de reprimir e redescobrir todos os encantos perdidos da carne.

LQ

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A crítica e Margarida Rebelo Pinto

Posted in Autores, Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 14-07-2008

Depois da capa da LER nº 3, neste fim-de-semana o último romance de Margarida Rebelo Pinto (MRP) teve direito a resenhas destacadas no Ipsilon e no Actual, por Maria Conceição Caleiro e Rogério Casanova, respectivamente. Lendo os textos, como já lendo a entrevista de Carlos Vaz Marques, fica-se com a sensação de que um grosso equívoco paira por aqui. O equívoco é o que consiste em dar atenção crítica a quem passa melhor sem ela (digo-o no próprio interesse de MRP); e em dar atenção crítica no modo em que ela ocorre nos três casos: isto é, de forma mais ou menos desinvestida e ressalvada ou pela ironia ou pela mordacidade. Chama-se a isto, em rigor, uma contradição performativa e não parece haver volta a dar-lhe, tanto mais que as pessoas em causa não são propriamente incompetentes. Ou seja: houveram-se com a encomenda da única forma que, a seu ver, lhes foi possível. Mas se é assim, só podemos concluir que a encomenda é impertinente, pelo menos tanto como os textos em causa, na óbvia imotivação da sua putativa necessidade.

 
O equívoco vem já dos tempos do DNA e do seu então director, que se lamentava periodicamente de a crítica não enfrentar o fenómeno da literatura light. Falsa questão, pois, como Pedro Mexia já disse (e não me lembro se o escreveu também), os leitores de MRP não lêem resenhas em suplementos literários; e os leitores destes não lêem MRP. A que atribuir então esta missão auto-delegada, do Público e do Expresso, no sentido de dedicarem resenhas longas ao romance de MRP? Podemos invocar o mercado e o peso dos números; ou o papel supostamente pedagógico de quem – autora e editora – assim «arrasta para a leitura quem habitualmente não lê». Mas este último argumento é também o mais demagógico e inútil: «arrastar pessoas para a leitura» não é em si um mérito, tanto como «arrastar pessoas para o consumo de charros» não é necessariamente um mal: depende do uso que se dá a essas coisas e sobretudo do que sucede depois. Se um/a leitor/a não sair de romances como os de MRP para outro tipo de livros, não se vê em que é que essa ocupação do seu tempo seja superior àquela que consiste em gastá-lo na leitura de jornais (por mim, vou ao ponto de sugerir O Jogo, aliás um jornal competente) ou mesmo na de legendas de séries de TV. A leitura, em si, sejamos claros, não é um bem: depende, sempre, do que se lê e de como se lê. E a evidência empírica demonstra à saciedade que quem lê autores como MRP por sistema não passa mais tarde a, digamos, Thomas Mann. Pretender o contrário – e é curioso como os eternos advogados desta tese beata são os editores de lixo literário – consiste em supor uma espécie de bondade ontoteológica no acto de ler que integra o legado mais cansativo e dispensável do humanismo.

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Arménio Vieira (III)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 10-07-2008

COLIBRI COLORIDO

Com a Suma Teológica na mão
e um candeeiro sobre a mesa,
passei uma noite em claro
pesando os prós e os contras
de haver Deus e o Diabo,
e, consequentemente, duas
balanças, uma no Céu e outra
no Inferno. Na rua, não obstante
o frio, ouvia-se o cantarolar
dos bêbedos, ao qual se juntava
uma outra música, melhor
e mais antiga, já que as putas
quando riem são aves a cantar.
A seguir deve ter chovido, e muito,
porque as próprias rãs se calaram.
Fechei o livro e pus-me a pensar se a morte
e suas sequelas valiam uma noite
de insónia. Nisto, um pássaro pousou
na janela e depois entrou no quarto.
Ora bem, não era um corvo, senão seria
negro. Não era negro nem falou.
Talvez fosse um colibri, mas um colibri
pintado com todas as cores do arco-íris.
Os animais, segundo os teólogos,
não têm alma. Quando morrem é de vez,
são como a lâmpada que se funde, compra-se
outra e já está. Tinha parado de chover.
Bem, o livro estava ali e coloquei
o pássaro em cima. Pus um disco a tocar.
Uma dança de Tchaikovsky, ao acaso.
As aves não têm alma, a menos que…
saibam dançar. Não digo mais nada.

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O «outro» Quaresma

Posted in Autores, Crítica, Recensões by A. Apolinário Lourenço on Quarta-feira, 09-07-2008

Uma leitura fora da Quaresma, aqui.

António Apolinário Lourenço

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Arménio Vieira (II)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 09-07-2008

DERIVAÇÕES

Heliofante: filho de um deus
chamado Sol. Gosta do arco-íris
e do girassol. Quando fode,
é por foder. Nunca come.
Para quê? Basta um raio
para lhe carregar a pilha.

Helifante: tem um hélice na cauda,
e caso quisesse poderia voar.
Mas não. Cada um é o que é:
o condor sente-se feliz lá em cima,
porém o sapo coaxa contente no charco.

Leofante: tem o seu quê de leão,
mas não quer ser rei. Às vezes
sente raiva e um nó na garganta.
Porém controla-se e vai embora.

Olifante: tem chifres enormes,
mas é mole de pila. Dão-lhe
com os pés as damas, mas ele
não se zanga, pois sabe
que o amor para durar
só pode ser o amor
de que falava Platão.

Polifonte: não tem pátria, por opção.
Tanto se lhe dá que faça sol
ou caia neve, nada o aquece
ou arrefece. Até gosta de Pasárgada,
que, entre outras coisas,
é o melhor sítio do mundo
para se andar de burro.

Plurifante, Mitofante, Necrofante,
Ornifante, Putifante, Androfante,
Fenolofante
e assim por diante.

Elefante não, porque já existe.

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Arménio Vieira (I)

Posted in Autores, Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 09-07-2008

É um objecto estranho, esta «Antologia de Poesia Inédita Caboverdiana», organizada por Francisco Fontes e intitulada Destino de bai. Entre outras coisas pelo seu conteúdo – «poesia inédita» -, revelador da dificuldade em passar da escrita à edição em Cabo Verde, ainda hoje. Mas também por abrir com um «Prefácio» de José Maria Neves, Primeiro-Ministro de Cabo Verde, e por terminar com um poema seu que, seguramente, ganharia em permanecer inédito. Como, já agora, muitos outros da antologia e não apenas de gente inédita em livro… Continuamos, como dizia João Vário a propósito da poesia de Cabo Verde, a assistir à obsessão, típica das literaturas emergentes, de apresentar grandes colectâneas daquilo que ganhava em ser bem mais reduzido.

Mas bastariam os poemas inéditos de G. T. Didial, um dos noms de plume de João Varela, de quem aqui ficamos a conhecer excertos do seu poema épico pan-africano Sturiadas, e ainda os poemas inéditos de Arménio Vieira, para este livro justificar a sua existência.

Fico-me pelo segundo nome, um dos segredos mais bem guardados da literatura caboverdiana (desde logo pelo próprio, pouco dado a ausentar-se do seu mundo), autor de dois notáveis romances, aliás editados em Portugal sem qualquer tipo de impacto, talvez por nada dizerem ao programa identitário herdado da Claridade, e de uma produção poética que se distribui hoje, ao que sei, pela sua obra até 2006, reunida em Poemas (uma colectânea magra para cerca de quatro décadas), e por um livro entretanto editado, Mitografias, que não conheço. Vieira é um dos melhores poetas de entre os que hoje escrevem em português, e estes sete poemas, de grande e desenfadada maturidade, são disso prova evidente, na sua sábia administração do «estilo mesclado», tal como este foi estudado e desenvolvido na filologia moderna por Erich Auerbach, neste caso na passagem de um registo erudito e citacional – cujos objectos são ainda os grandes heróis da literatura e do pensamento modernos, mas que podem recuar até aos clássicos – para a oralidade de um quotidiano dito, com frequência, por um nível baixo de linguagem; na sua interrogação, sempre ressalvada e desistente, da morte; ou numa ironia algo drummondiana, que, podendo alcançar o metafísico ou, de forma mais chã, o doméstico, nunca deixa de funcionar a nível composicional, dando a ver a grande inteligência formal e, não raro, metapoética, do autor.

Tomo a liberdade de, em próximos posts, transcrever alguns desses poemas, apresentando o poeta não apenas aos leitores portugueses mas também a algum editor clarividente e caridoso que se atreva a publicá-lo por cá.

Francisco Fontes, org. (2008). Destino de bai. Antologia de Poesia Inédita Caboverdiana, Coimbra, Saúde em Português, 356 pp. [978-989-958556-0-7]

Osvaldo Manuel Silvestre

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Projecto para um glossário do século vinte (JG Ballard)

Posted in Autores, Comentários, Oficina by Luís Quintais on Sexta-feira, 04-07-2008

[O «Projecto para um glossário do século vinte» de JG Ballard foi originalmente publicado num livro colectivo (simplesmente magnífico e hoje out-of-print). Refiro-me a Incorporations, editado por Jonathan Crary e por Sanford Kwinter na Zone books. Publicado originalmente em 1992, e esgotado há uma série de anos, Incorporations é um dos meus livros favoritos: daqueles que não empresto a ninguém! Para matizar este egoísmo (plenamente justificável), gostaria de partilhar com os leitores de Os Livros Ardem Mal o glossário de JG (pp. 269-279). As entradas foram fornecidas por Crary e Kwinter a Ballard que as preencheu. Traduzirei o glossário na íntegra nos próximos meses (ainda que numa ordem diversa daquela que surge em Incorporations). Ah, é verdade, a fotografia é de um encontro entre Ballard e Borges nos idos sessenta, sobre o qual pouco se sabe. Ballard, um admirador do escritor Jorge Luis Borges, parece não ter apreciado o homem, nem os seus gostos literários. Eu, se o tivesse conhecido, subscreveria certamente JG: aprecio muitíssimo o autor, aprecio pouco o homem, ou melhor, a sua persona, ou melhor ainda, uma parte da persona não inteiramente comensurável com o «autor», e que se prende com uma certa afectação classicista e profundamente reaccionária.]

# Máquina de escrever. Escreve-nos a nós, codificando a sua tendência linear através do espaço livre da imaginação.

Luís Quintais

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As cidades legíveis

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 24-06-2008

assim se aprende,
ao anoitecer, como o verão
escreve cidades mais legíveis;
embora breves; sobre
alicerces que flutuam
em torno do leitor nocturno,
e são talvez a imagem
do meio círculo que falta
à lua, no horizonte.

De «Noite de Verão», poema de Entre duas Memórias, de Carlos de Oliveira, e um dos «poemas camonianos» do autor. Difícil não pensar nestes versos quando, depois da meia-noite estival, os carros ressoam surdamente ao descer a rua e fazem mais legível o mundo.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Ainda a propósito dos 120 anos de Pessoa

Posted in Autores by A. Apolinário Lourenço on Sexta-feira, 13-06-2008

Tendo como referência a comemoração dos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, o poeta José Luiz Tavares resolveu brindar alguns escritores e críticos portugueses com o poema que – com a devida autorização do autor – a seguir transcrevemos (A.A.L.).

MADRUGADA DO CHIADO
(Desconversando com F. Pessoa)

Múltiplo solitário poeta
com o universo inteiro na cabeça,
eis-te agora sentado em extática glória
aqui onde te assopram ao ouvido
os lodosos detritos dos dias
e as líquidas profecias
gizadas ao refluir das luzes.

Triste despessoado fernandinho,
aqui posto em estado de estátua,
a rara chuva destes dias
já não aleita as raízes donde crescem
as visões – roubam-te o desassossego
com o escárnio da madrugada e os tráficos
que a noite desfecha contra o sono,

mas ainda te ouço sonhador ao griso
que descampa este largo (pois sem sonho
não há glória), embora o enxame turístico
empalideça o manso rufar das náufragas estrelas,
as madrugadas de fêveros ecos
quando o universo cisma nas razões que cunham
a solidão e seu luminoso rasto debruando a alba.

Dos desastres da pátria, nem te falo:
tu que navegaste soçobrados sonhos
de império, hoje és segura escada para cátedra;
não te cotaram ainda em bolsa, mas é coisa
para ser pensada, agora que no fundo da arca
nenhum enigma se dissimula, nem o arroto
que prateia algum verso descartável.

Sei que rumoreja mal o altivo rogo por entre
o tinir dos copos nas mesas da esplanada
onde se empoleira a viçosa vacuidade do mundo
e não há porfia que acenda o coração amortalhado,
drenando ainda, como intérmina rebentação,
fulgores de vinho sorvidos com a mansidão de um
touro, mas manda sempre a este que não é teu devoto,
porém, como tu, peregrina sob o essencial desamparo,
à acrílica mansidão com que a treva nos acolhe.

JOSÉ LUIZ TAVARES

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Boa Noite, Senhor Pessoa

Posted in Autores, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 13-06-2008


Proponho um excerto de Boa Noite, Senhor Soares, de Mário Cláudio (MC). António da Silva Felício, que em jovem fora empregado do escritório da Rua dos Douradores em que Bernardo Soares desempenhou tarefas de tradutor e não apenas, já idoso, ao adormecer, é visitado pelo espectro do Senhor Soares:

E é então que principio a resvalar em definitivo para o sono, quando a claridade me entra já pelas frinchas da persiana, e o senhor Soares se dirige a um país muito distante que no meu torpor se chama «Mar Português». Atrás dele segue uma fosca multidão, e a primeira individualidade que nela distingo é aquele famoso doutor Reis, marchando muito erecto, e com um livro aberto na mão direita, e um lápis em riste na mão esquerda, e que vai contando as sílabas de um verso, ou dividindo as orações de uma estrofe. E logo depois desloca-se um ser muito especial, do qual em breve fornecerei detalhada notícia, de monóculo, traçando uma perna sobre a outra, ao caminhar, tal e qual como fazem as putas de luxo, e fixando com magnética intensidade o olhar no olhar de quanto moço de trolha se cruza com ele. Desfilam por fim diversas figuras inidentificáveis, precipitando-se para o crepúsculo do Tejo com uma pressa no limite da cabriola. E quando cada uma delas retira a máscara de cera, e volta para mim a cabeça, é o rosto do senhor Soares que reconheço, tão lívido e solitário nos óculos e bigode que um espasmo me arrepanha as tripas, e me sento estremunhado na cama desfeita. (pp. 57-58)

Descontando a demonstração de domínio da arte da prosa, em que Mário Cláudio por demasiadas vezes se compraz, o que temos aqui é um compacto dos lugares-comuns do tratamento romanesco da ficção-Pessoa nas últimas três décadas: (i) a «fosca multidão» que segue Soares, Soares que páginas antes fora, de modo muito congruente com essa multidão, descrito como «uma ausência, ou […] um homem que por ser todos os homens atravessasse a existência como homem nenhum» (p. 48); (ii) Ricardo Reis, digamos, d’après Almada ou em versão animada do desenho daquele; (iii) Álvaro de Campos d’après o Cesariny de O Virgem Negra e da, hoje muito popular, revisão gay; (iv) a «máscara de cera» que esconde o rosto de Soares, que é muito nitidamente o rosto de Pessoa, ou não fosse ele apenas meio heterónimo, sob todos os outros. Ou seja, e resumindo, mais daquele mesmo com que os ficcionistas contemporâneos julgam enfrentar a ficção-Pessoa: fantasmas, ausências, ou o preenchimento delas com coisas como sexo, episódios domésticos & literatura da literatura (Pessoa faz com que todos os pós-modernos se tornem de súbito modernos e com que todos os modernos se revelem afinal pós-modernos). E nem a caução que MC parece procurar na «espiral das representações» – as máscaras pessoanas da lavra do próprio ou obra daqueles que, depois de Pessoa, um pouco por todas as artes, lhas (não) foram colando à pele – faz da novela (assim o livro se classifica na capa, embora na folha de rosto se diga antes «romance»…) mais do que uma ocorrência daquela figura, viral e banal, do simulacro, em que este funciona dentro do princípio da remissão enciclopédica: um simulacro remete para outro, este para outro, e por aí fora, todos eles reconhecíveis, todos eles domesticados e domésticos na nossa imaginação pessoana, todos eles tropos do tropo maior que deveria ser a Literatura (a que Pessoa preferia chamar Sonho) mas que aqui é só uma forma de comprazimento na constatação da ubiquidade do Sr. Pessoa, esse fantasminha brincalhão a quem se deve toda uma pujante literatura derivativa.

O romance do Sr. Pessoa, lamento dizê-lo, não parece ganhar nada de realmente relevante com a novela do Sr. Soares. Aguardemos, pois, o próximo derrotado pela ficção-Pessoa.

Mário Cláudio (2008). Boa Noite, Senhor Pessoa. Lisboa: D. Quixote, 96 pp. [978-972-20-3632-0]

Osvaldo Manuel Silvestre

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E agora, como brinde…

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 08-06-2008

um magnífico poema, que começa assim: «À noite leio os grandes livros / e interrompo a minha musa». Há tanta má poesia nos blogues, e tanta beatice em torno dela, que quando ela deveras ocorre, como ocorre quase sempre com este poeta bissexto e sem livros, e quase sempre rugoso na forma e adstringente naquilo a que dá forma, não convém sermos modestos.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Maio de 68 em Ítaca

Posted in Autores, Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 05-06-2008

«maio de 68» é seguramente um dos poemas mais dispensáveis da obra, em geral não dispensável, de Vasco Graça Moura (VGM). O poema condensa tudo o que há de mais problemático na poética e na persona do Autor, sempre que esta é introjectada no poema, coisa que aliás acontece com grande frequência, para o bem e para o mal (embora esse mal ocorra sobretudo nos romances). Como não me vou alongar, passo a um elenco dos problemas: (i) A motivação do título resume-se a pouco mais de 3 versos (os iniciais), que remetem título e «mensagem» do poema para o domínio menor da provocação ideológica – bem denunciada no «tempo / feito de equívocos» dos versos 2-3 -, mais do que para qualquer tentativa de propor uma «versão alternativa do evento e seu culto». Tudo o resto tem tanto a ver com aquela data, ou seja, Maio de 68 em Alfama, como qualquer evento teria com aqueles mesmos 3 versos a abrir. Ou seja, não se sente a necessidade interior do texto, e sente-se em excesso o seu carácter gratuito (não quero dizer «fútil», pois o fútil pode ser e é quase sempre motivado ou, se se preferir, necessário, ainda que com frequência ao serviço de uma ontologia derivativa); (ii) Na aparência, o poema é uma ocorrência mais da poética circunstancial de VGM: um episódio popular em Alfama, cuja lição político-filosófica residiria justamente na superioridade («crítica») do particular histórico sobre o mítico. A verde árvore da vida, uma vez mais, desbancaria a cinzenta cristalização da teoria ou, pior ainda, da ideologia. O problema reside, porém, (iii) na deriva incontinente de VGM para o território da biblioteca, fazendo do episódio a enésima variação, aliás não memorável, sobre Ulisses e Penélope. Como é manifesto, a subrogação de Luísa por Penélope e do marinheiro por Ulisses derroga o intento crítico subjacente à opção por uma cena situada em Alfama, essa suposta alternativa crítica, porque periférica e «operária», ao meio universitário afluente da Paris de Maio de 68. O culturalismo do poeta esvazia esses putativos seres populares e concretos, atraiçoando título, personagens e intencionada instância crítica, ainda que em modalidade ressalvada pela ironia desta cena entre uma Luísa que apanhava malhas em meias (eis a nota marxista neste revisionismo do tear de Penélope…) e um marinheiro grego.

O maior problema do poema reside pois no programa crítico que a sua própria natureza culturalista arruina, uma vez que não se trata sequer de gerar, no casal improvável, um universal concreto que estaria antes e depois e para lá de todos os Maios. O que esta revisitação da Odisseia arrasta é antes uma passagem drástica do concreto ao abstracto, do histórico ao retórico, enfim, do político – plano em que Alfama poderia talvez combater, via luta de classes, Paris em Maio de 68 – ao puramente ideológico. De facto, VGM responde ao prestígio político do Maio de 68 com o prestígio da cultura clássica e com a ideologia dos «clássicos», como se cometesse a Ítaca, e não tanto a Alfama, a tarefa de funcionar como instância crítica do Quartier Latin… Ou seja, entramos naquele regime de equipolência em que Alfama pode ser Ítaca e em que tudo pode ser traduzido para grego, o que equivale a dizer que tudo é esvaziado da sua mundanidade irrepetível. Ficam-nos as quadras, que poderiam dar fado, e assim fazer-nos regressar à Alfama de que o poema tão depressa nos afasta, e fica-nos a competência técnica e retórica do poeta. Mas não nos fica nada a que possamos chamar «Maio de 68 em Alfama», porque este Maio de 68 é sem tempo e lugar. Mora, em rigor, na estante, e não na da minha biblioteca mas sim na de Alexandria, para sempre imobilizado sob o peso do mito.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Obituário de Pedro Mexia em 2048

Posted in Autores, Vária by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 02-06-2008

“Faleceu ontem Pedro Mexia. Foi poeta, crítico, pioneiro daquilo que há umas décadas se chamou blogosfera, romancista (com um único romance) e desempenhou uma série de cargos institucionais, de subdirector, e depois director, da Cinemateca Portuguesa, a Ministro da Cultura. Após uma publicação inicial algo intensa de volumes de poesia, passou a ser um poeta bissexto, editando cada vez menos. As suas duas últimas colectâneas, espaçadas por 12 anos, bem como a reunião, muito desbastada, da sua obra poética, suscitaram um consenso crítico que a certa altura parecia ter desaparecido. O seu único romance, já tardio, uma vasta suma intitulada Só e mal acompanhado, foi amplamente premiado mas debatido com rara virulência: houve quem referisse Blanchot e Beckett, houve quem dissesse ser o mesmo de sempre, numa espécie de vasto blogue feito de pequenos e grandes nadas. Publicou dois volumes de crítica literária, o último dos quais em 2010, com o título Fogo Lento. Depois dessa data, que coincide com a extinção do último suplemento literário na imprensa portuguesa, deixou a actividade. É consensual que revolucionou a Cinemateca no período em que a dirigiu, mas ao preço, acusam muitos, de a ter aberto em excesso ao mainstream e de ter manifestado um profundo descaso por cineastas radicais da linha de Pedro Costa, o que lhe valeu um famoso abaixo-assinado de protesto contra «A segunda morte de Bénard da Costa». Como Ministro da Cultura distinguiu-se por não ter mudado o nome a nenhum dos institutos sob sua alçada e por ter continuado as boas práticas do seu antecessor directo, Rui Tavares. Como ele, queixou-se de falta de verbas para a Cultura. No cômputo geral, a sua obra escrita, muita dela produzida para os média, deixa uma impressão de dispersão por demasiados mundos, manifestando, segundo alguns, a incapacidade de Mexia para escrever uma obra ensaística de grande fôlego. Quando confrontado com semelhante acusação, Mexia concordou sempre com a crítica, lembrando porém a máxima de Borges segundo a qual «Esforço inútil é conceber vastas obras. Mais vale partir do princípio de que elas existem e escrever-lhes breves comentários». Católico não muito praticante, foi a partir de certa altura membro do Conselho Consultivo da Universidade Católica. «Morreu dentro da fé», garantiu o Cardeal Patriarca Tolentino de Mendonça, que o acompanhou nos últimos momentos, momentos em que, segundo fontes bem informadas, não nos deixou sem citar um dos seus autores de cabeceira, Machado de Assis: «Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria».”

                                                                                                        Correio da Manhã, 2/06/48

Osvaldo Manuel Silvestre

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Maio de 68 em Alfama

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 26-05-2008

maio de 68

um belo dia em maio
de sessenta e oito, tempo
feito de equívocos,
em alfama, as vizinhas conversavam.

a roupa secava ao sol.
os filhos estavam na escola.
elas falavam dos maridos.
e comentavam luísa, a

apanhadora de malhas em meias,
com o marido fora há dez anos,
sem dar notícias. tinha havido
desordens entre quatro

homens daquele bairro, por causa
de luísa, que os
ignorou e continuava a
cuidar do filho e a

apanhar malhas, sossegadamente,
na janela do rés-do-chão,
inclinando a cabeça como
a rendilheira de vermeer.

estavam as vizinhas
nisto, deplorando
o desperdício da
juventude de luísa,

por absurda esperança e
por delicadeza
assim perdendo a vida, quando
se aproximou um estranho.

deitaram-se a adivinhar.
aquele bem podia ser fernando,
marido de luísa
e alvoroçaram-se e um cão ladrou.

no beco, entre
os potes de sardinheiras
e a roupa ainda a secar,
estavam enganadas, mas

tinham razão num ponto:
era um marinheiro grego,
exausto, ainda a ofegar,
depois de uma cena de porrada

das antigas, que não tinha
nada a ver com luísa,
mas que se
chamava odisseus.

Vasco Graça Moura, in Laocoonte, Rimas Várias, Andamentos Graves (2005)

Osvaldo Manuel Silvestre

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Manuel da Fonseca e a apologia do belo

Posted in Autores, Vária by Sandra Guerreiro Dias on Terça-feira, 06-05-2008

Em 1988, em entrevista a Francisco José Viegas, Manuel da Fonseca confessava-se um militante moderado do Neo-Realismo doutrinário: «Nunca fui um homem que pensasse no Neo-Realismo senão como eu pensava que ele devia ser realizado. (…) Há outro Neo-Realismo mais simples, como as formas mais altas de ver o mundo, de voar sobre ele, de poder sonhar com ele…». De facto, no que diz respeito ao amadurecimento e à definição daquilo que seria a disposição do seu projecto enquanto escritor e enquanto ser humano integrado numa sociedade às avessas, Manuel da Fonseca antecipa-se claramente à sua geração.

Emergente de uma atitude de grupo que cultivava «a obstinada recusa a ser feliz num mundo agressivamente infeliz», «a ânsia da dádiva total», ou ainda «o grande sonho de criar uma literatura nova, radicada na convicção de que, na luta imensa pela libertação do homem, ela teria um papel inestimável a desempenhar» o escritor irá desenvolver um percurso muito particular, num ritmo que será o do seu próprio empenho solidário, o da própria pulsação contemplativa, numa luta diligente e infatigável pela defesa dos mais desfavorecidos. Não se trata, no entanto, de uma mera empatia doutrinária pelo oprimido mas antes, conforme José Carlos Barcellos, de uma «fidelidade a uma ética e a uma estética fundamentalmente comprometidas com o humano».

Para tal, Manuel da Fonseca sustenta a sua produção no constante equilíbrio entre o conteúdo e a forma, revogando uma tendência do movimento cuja laboração estética radica, pelo menos teoricamente, na demanda arrebatada pelo triunfo da mensagem ideológica. De outra forma não podia ser, já que, para o autor, realidade, ideia e poesia não existem separadamente, são uma mesma realidade, a única realidade que a sua sensibilidade conhece.[continua aqui >>>]

Sandra Guerreiro Dias

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Transgressão conceptual

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Recensões by Luís Quintais on Terça-feira, 29-04-2008

Deleuze é, como se sabe, um pensador da explosão conceptual. Uma parte muito significativa da história do pensamento canónico euro-americano na qual nos revemos pode ser descrita através de uma diferença entre aqueles que procedem por análise e contenção e aqueles que procedem por explosão. Wittgenstein será certamente um dos exemplos mais emblemáticos da contenção e Deleuze um dos exemplos – senão o exemplo mais significativo – da explosão. Minimalismo e maximalismo seriam certamente duas expressões muito adequadas para caracterizar esta irredutibilidade. Sinal dessa irredutibilidade é a recusa liminar que Deleuze faz de toda ou qualquer consideração útil do pensamento de Wittgenstein.

Confesso que esta aporia – a existir aporia – me parece produtiva. Como se, em certos momentos, o meu perspectivismo reclamasse a cautela analítica de Wittgenstein, e noutros, o maximalismo de Deleuze. Isto porque certos problemas podem ser dissolvidos como pseudo-problemas, e outros se me afiguram reais problemas – e problemas «complexos» – que exigem uma espécie de transgressão conceptual, uma forma de recalibragem do complexo pelo complexo que só Deleuze nos permite.

Um dos aspectos desta abertura à complexidade em Deleuze prende-se com o modo como o seu pensamento convoca – e é contaminado por – universos tão distintos como a literatura, as artes plásticas, o cinema, ou certos sectores do conhecimento científico (desde a neurobiologia à biologia molecular). Deleuze procede através de diagonais – insuspeitas diagonais – que nos fazem lembrar a noção de “enunciado” de Foucault (com quem o pensamento de Deleuze estabelece uma relação de mútua fertilização). Mais que um criador de conceitos (como seria tarefa da filosofia), Deleuze é um criador de enunciados, isto é, de multiplicidades, de heterogeneidades. Deleuze (ou o contínuo Deleuze-Guattari) é uma máquina ou um distribuidor de conexões e diferenças. Ninguém como Deleuze (ou, mais uma vez, o contínuo Deleuze-Guattari) para suspender ou rasurar toda a lógica do autor que não será certamente diversa da lógica do cogito ou da funesta lógica da identidade.

Esta máquina de fazer conexões trouxe-nos uma ruptura também com um pensamento (uma parte muito significativa do cânone) que teima em proceder no interior de uma matriz que vai do particular para o geral e do geral para o particular. Um pensamento arborescente a que Deleuze responde com um pensamento rizomático, transverso, sem centro, sem origem. Pensar os universais é aqui pensar a repetição da diferença, o que nos poderá levar a reconsiderar seriamente quase tudo o que passa por filosofia, arte, e ciência. Como antropólogo, diria que é o fim da antropologia, ou, mais seriamente, um recomeço, o único recomeço que poderemos sequer cogitar. Uma nova forma de realismo passará eventualmente por aqui.

Poucos são os exemplos prévios. Talvez somente Espinosa, Nietzsche, ou Bergson o tenham logrado também (aliás, estas serão, com David Hume, as maiores e assumidas influências de Deleuze). Talvez só um neurocientista como Gerald Edelman (em certos aspectos do seu darwinismo neuronal) nos permita, hoje, apreciar as virtualidades (mais que as virtudes) deste pensamento de intensidades e planaltos. O seu alcance reclama uma leitura atenta de Manuel DeLanda ou de Brian Massumi.

Deleuze enlouqueceu o pensamento filosófico euro-americano através de uma aventura na twilight zone. Uma vez visitado esse espaço de aventura e criação – uma vez reiterado esse devir de perene repetição e diferença – não nos será certamente possível voltar a frequentar as fundações supostamente seguras de uma tradição sem a percepção do desgosto e da perda.

(Tudo isto poderá servir como homenagem à recente edição portuguesa de Mil Planaltos Capitalismo e Esquizofrenia 2 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela Assírio & Alvim com tradução de Rafael Godinho.)

Luís Quintais

Gilles Deleuze & Félix Guattari (2008) Mil Planaltos Capitalismo e Esquizofrenia 2, Lisboa, Assírio & Alvim, 653 pp. [ISBN: 978-972-37-1272-8]

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O tecno-encantamento como motivo e causa

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Notícias, Recensões by Luís Quintais on Quinta-feira, 10-04-2008

A Nada ocupa um espaço de interrogação incomum: trata-de de pensar as relações entre arte, ciência, e tecnologia no presente. De alguma forma, trata-de de equacionar aquilo que parece estar em permanente conflito com uma certa acepção de modernidade à la Weber, entendida esta como uma tópica do desencantamento, de que a racionalidade científica seria o veículo e o desígnio.

Os seus já inúmeros colaboradores (o primeiro número é de Novembro de 2003) têm vindo a procurar enunciar as preposições, o entre, os interstícios da cultura tecnológica, tomando como dado axial algo que é motivo de perturbação para tantos: afinal a modernidade desdobrou e remapeou possibilidades de encantamento, de excesso ou dispêndio (como escreveria certamente Bataille) que os sacerdotes da Razão não previram.

De alguma forma, a Nada assume que a modernidade só pode ser pensada como um momento histórico em que o encantamento do mundo é reconfigurado protésica e tecnologicamente. A noção de híbrido enfileira aqui, ou, de outro modo, a de monstro. Poderíamos, aliás, divertir-nos dizendo (elogiosamente) que se trata da única revista sobre monstros escrita em Português e distribuída pelo mundo fora (agora também em Barcelona e São Paulo), e poderíamos ainda, de forma mais séria, dizer que é uma revista de tese: trata-de cartografar as logísticas que a percepção tecnológica assume na paisagem contemporânea, qual a sua fenomenologia, quais as suas qualidades sensíveis, as suas metamorfoses e os seus rizomas.

Um dos exemplos desta ponderação prende-se com a bio-arte, e é comum encontrarmos na Nada textos de e sobre figuras destacadas deste campo de intensidades do presente, onde se destaca o trabalho da portuguesa Marta de Menezes.

O número 10 contém ensaios de Jorge Leandro Rosa, Luís Graça, Susana Ventura, Byron Kaldis, Daniel Innerarity, e Susana Viegas. Destaque para duas entrevistas: uma com José Luís Garcia e outra com Rudolf Bannasch. Este número contém ainda experiências literárias e conceptuais só possíveis numa revista que vive serenamente fora do espaço académico, pese embora a sua atenção para com aquilo que de mais estimulante se passa dentro da academia. Encontramos aí, por exemplo, duas interpelantes incursões de Adam Zaretsky, «Birdland» e «Balde de Facs».

Convém ainda destacar o belíssimo conto de João Urbano, «O Homem Sem Bagagem».

Ah, é verdade, o grafismo da revista é exemplar.

Nada, 2007, Novembro, Nº 10.

Luís Quintais

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Num esguicho infindável de esperma e refrigerante de motores

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sábado, 05-04-2008

JG Ballard é um escritor que apela constantemente à ideia de cenário. Em frequentes momentos do seu trabalho e em vários depoimentos, Ballard fala-nos da contingência de todos os cenários, e do modo como estes podem ser removidos de um momento para o outro para nos confrontarmos com a inumanidade do mundo e, sobretudo, com a inumanidade dos humanos.

A natureza humana não suporta tanta realidade, e daí a exigência do cenário ou do reflexo no escudo, como Perseu, incapaz de olhar a górgona de frente. O mundo em que vivemos – esse mundo do pós-guerra submerso e insensorializado pelo consumo – é afinal um «enorme romance». Como fugir ao enorme romance em que se transformaram as nossas vidas?

De duas formas. Através de uma distância terâpeutica que nos permita adestrar as nossas faculdades morais – e Ballard é um autor da distância, da simulação, do laboratório, em suma, um escritor de ideias que ensaia constantemente uma geometria moral -, ou através de um acto de implicação violenta.

Ballard socorre-se da distância para testar/simular/anatomizar a violência como manobra de reconfiguração moral. Em Crash (1973) o acidente é a parábola de uma desocultação: a tecnologia é a expressão mais acabada da inevitável auto-superação do humano, a particularidade definicional que lhe cabe em direcção à hybris do desejo e da irracionalidade sem freio.

Lembremo-nos então dos seus magníficos passeios de bicicleta em criança por uma Xangai controlada pelos japoneses, onde assiste a momentos de extrema crueldade. Ballard é um produto da guerra, e o que ele faz, como alguém que aprendeu desde cedo a observar o comportamento dos humanos face à urgência e à necessidade (que os metamorfoseia em seres eminentemente morais), é bascular o pensamento na imprecisão que se instala entre o cenário e a crueza (e o improvável) de um mundo sem cenários. O que acontece quando alguém atravessa de um modo quase imperceptível (e depois de um modo escandalosamente perceptível) a fronteira que parece separar a urbe-cenário da «realidade», a mais insolúvel das categorias? Esta é a grande pergunta que atravessa transversalmente toda a sua produção literária.

Veja-se o título, ou melhor, o subtítulo do seu último (e talvez derradeiro) livro: From Shangai to Shepperton. Xangai: a heterotopia da infância tomada como lugar de máxima atenção ao cristal de crueldade que a guerra convoca. Shepperton (os mais famosos estúdios de cinema ingleses situam-se na área): a heterotopia do cinema, isto é, do cenário que esconde, que recorta, que ilude (mas também do écran, esse plano onde se projecta a multidimensionalidade do desejo ilimitado, da inconsolada desrazão que habita a carne). Estes dois lugares cruzar-se-iam um dia: Spielberg reconstruiu uma parte da Xangai de Ballard em Shepperton quando realizou o seu Empire of the Sun (1987), e é muito sugestiva a descrição que Ballard nos dá do episódio em Miracles of Life:

Several of my neighbours in Sheppeton worked as extras, drawn by the nearby film studios, and took part in the scenes shot in England. I vividly remember the mother of a girl at the same school as my daughters calling out to me: «We’re going back to Shanghai, Mr Ballard. We’re in the film…» I had the uncanny sense that I had chosen to live in Shepperton in 1960 because I knew unconsciously that I would write a novel about Shanghai, and that extras among my neighbours would one day appear in a film based on the novel (p. 258).

Esta recursividade entre Xangai e Shepperton é, pois, a recursividade entre a crueza da guerra como experiência limite que põe à prova a tessitura do humano e as logísticas de mediação que o cinema reclama. Em Crash tal tensão está presente de modo insuperável, e o acidente integral que Vaughan antevê, assume contornos apocalípticos, revelatórios, tal como em Virilio:

Neste mundo iluminado pela violência e pela tecnologia, ele [Vaughan] estava agora a guiar para sempre a cento e sessenta à hora numa auto-estrada vazia, deixando para trás estações de serviço desertas na orla de vastos campos, esperando por um único carro vindo ao seu encontro. No seu espírito, Vaughan via o mundo inteiro a perecer num desastre de automóvel simultâneo, milhões de veículos precipitando-se uns contra os outros numa cópula definitiva, que culminaria num esguicho infindável de esperma e refrigerante de motores (pp. 36-37).

É esta tensão – espacializada, sempre espacializada – entre a violência como estratégia global e revelatória e o cenário a destruir (inevitavelmente) que Ballard faz convocar transversalmente. As figurações do humano emergem aí «iluminadas pela violência e pela tecnologia».

Luís Quintais

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Cravan (II)

Posted in Autores, Notas by Pedro Serra on Quarta-feira, 26-03-2008

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Domingo Sánchez Blanco, Autorretrato.

Que dizer, que dizer sobre o Primeiro Campeonato Mundial de Poetas Pesados? A situação foi esta: nem abstracção, nem acção, nem acontecimento, nem agressão, nem amor, nem anormalidade, nem antiguidade, nem anti-sistema, nem apostolado, nem apoteose, nem aprendizagem, nem arquétipo, nem artesanato, nem aura, nem autenticidade, nem auto-criação, nem autoridade, nem auto-suficiência, nem bens, nem cabelos compridos, nem cegueira, nem céu, nem chocolate, nem claustrofobia, nem contemplação, nem contorções musculares, nem copistas, nem coração, nem crânios, nem crueldade, nem delícia, nem delinquência, nem delírio, nem demência, nem depressão, nem desassossego, nem desespero, nem desmedida, nem destreza, nem desvio, nem devoção, nem dialéctica, nem disciplina, dissidência, nem dívida, nem divisão social do trabalho, nem doença, nem dons inatos, nem dor, nem educação, nem elitismo, nem embriaguez, nem emulação, nem engenho, nem ensimesmamento, nem entranhas, nem entusiasmo, nem epilepsia, nem erotismo, nem erro, nem escola, nem escravo, nem escuridão, nem escuta, nem esforço, nem especulação, nem espírito, nem espontaneidade, nem estupidez, nem excepcionalidade, nem exercício, nem experiência, nem êxtase, nem faculdade, nem faíscas, nem fanatismo, nem fantasia, nem fascinação, nem favoritismo, nem fealdade, nem felicidade, nem fetichismo, nem filiação, nem fingimento, nem físico, nem flecha, nem fogo, nem fonte, nem freak, nem frenesim, nem furor, nem genialidade, nem glória, nem gosto, nem graça, nem halo, nem hedonismo, nem herói, nem homo literatus, nem honras, nem humanidade ideal, nem ignorância, nem iluminação, nem ilustríssimos, nem imediato, nem imitação, nem ímpeto, nem inadaptados, nem inarmonia, nem inchaço vazio ou viciosa inchação, nem incompreensão, nem inconformismo, nem inconsciência, nem incultura, nem inspiração, nem instinto, nem instrumentos, nem intimidade, nem intestinos, nem intuição, nem irracionalidade, nem lágrimas, nem liberdade, nem língua de fora, nem lucidez, nem magia, nem maldição, nem mania, nem martírio, nem maturidade, nem mecanismo, nem mediato, nem medida, nem melancolia, nem mensurável, nem mérito, nem microcosmo, nem mimo, nem missão, nem mistério, nem moda, nem modelo, nem modernidade, nem moradas, nem moral, nem mudança, nem natura naturans, nem natura naturata, nem naufrágio, nem néctar, nem nervos, nem neurose, nem nobreza, nem novidade, nem observação, nem ofício, nem olfacto, nem oráculo, nem origem, nem originalidade, nem paciência, nem paixão, nem pedantes, nem pés, nem peso, nem poética, nem porta-vozes, nem possessão, nem pouco esforço, nem precocidade, nem privilégios, nem profecia, nem progenitores, nem psicobiografia, nem pulsão, nem Q.I., nem queda súbita, nem racional, nem ranger de dentes, nem raro, nem razão, nem rebeldia, nem rebuçados, nem regras, nem revelação, nem rito, nem sacrifício, nem sangue, nem sensações, nem sensibilidade, nem sentimento, nem singularidade, nem sobre-natureza, nem sofrimento, nem sombra, nem sorte, nem stercore, nem subjectivização, nem substancialização, nem talento, nem torrente, nem tortura, nem trabalho, nem transe, nem transgressão, nem turbulência, nem utilidade, nem venenos, nem veneração, nem verdade, nem vermes, nem vibrações, nem vício, nem vidência, nem vinho, nem violência, nem vítimas, nem voz interior, nem voz primigénia… Nem isto, nem o inverso de tudo isto, que também foi verdade. Que dizer sobre o combate “Tiger Tiger Escarpa” vs. “La Tanquetilla de Fresno” e sobre os três assaltos do combate “El Tigre de Gales” vs. “El Boss Sexuador”? Como performance (colectiva) que foi, terá sido uma pós-performance na linha de A destajo. 500 performances en un dia de Domingo Sánchez Blanco, frenética e assumidamente ridícula/risível passagem à acção para esgotar o corpo que age. Cansar fisicamente o corpo, esgotar o agonismo do ditame da passagem ao acto: porque, no fundo, só um cansaço físico assim pode chegar a trazer-nos a renúncia dos textos.

Pedro Serra

Domingo Sánchez Blanco (2005), A Destajo. 500 performances en un día. Murcia: CendeaC. 318 pp. ISBN: 84-6094-276-7.

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