Os Livros Ardem Mal

Moby Dick

Posted in Notas by Pamplinas on Sexta-feira, 20-02-2009

Lembro-me bem do prédio da Padre António Vieira. Não por causa da vizinha do 2º Esq. (não quero porém ser injusto na hora de saldar memórias…) mas porque foi aí que li o Moby Dick. Durante os dois anos que lá vivi, em regime ininterrupto. Não sei quantas vezes o li, mas sei que não li nada mais e que o li sempre, sem parar. Em loop. Deitava-me cedo, como sempre, e acordava pelas 5. Com a higiene matinal, um copo de água, meio pão e meio copo de leite, ficavam-me quase duas horas para ler, aproveitando a frescura e intensidade da percepção de quem acorda nesse momento em que todas as coisas libertam o seu espírito amordaçado pela noite numa torrente de pequeninos sons cristalinos. A essa hora, era-me como que natural a empatia com Ismael e acreditava que também eu escaparia para contar. Lia à beira da janela, num cadeirão posto num certo ângulo que me defendia da invasão do sol, espreitando de vez em quando a paragem do autocarro. Lia mesmo até ao último segundo. Guiava-me pelos meus companheiros de viagem que, também eles, chegavam apenas no último momento. Sabia que era assim pois habituara-me a reconhecê-los: sempre os mesmos, chegando à paragem todos os dias em cima da hora. Visivelmente, gostavam tão pouco dos seus empregos como eu do meu.

Desde que me mudei, não voltei a pegar no livro.

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Notas sobre o meu mestre Desidério Murcho

Posted in Notas by Pamplinas on Quarta-feira, 18-02-2009

Sou fiel às minhas venerações e uma delas, enfim sufragada pela opinião pública – com que melancolia o digo!… pois todo o apaixonado é egoísta e deseja não partilhar com ninguém os objectos da sua paixão -, é Desidério Murcho, autor-filósofo que a toda a hora mostra como o modo analítico de filosofar não tem de ser árido e chato, podendo antes enfrentar todos os dragões, e dissipar todas as névoas, da doxa lamacenta do «pós-moderno». Como duvidar, ante tal exemplo, da relevância social do pensamento, e, mais especificamente, do ramo da tradição filosófica em que pousa, qual coruja que nunca dorme, o meu mestre?

A minha já longa admiração por Desidério Murcho acaba de encontrar razões para se reforçar ainda mais. Num intempestivo post (eu sei que Desidério não aprecia a associação, mas nota-se nele, nos seus melhores momentos, um altivo desdém nietzschiano pelas rotinas pequeno-burguesas do pensar), o meu autor acaba de revolucionar a disciplina da História da Língua Portuguesa. De uma penada. Vale a pena transcrever o núcleo duro (melhor: o hardcoreda tese:

O segundo aspecto é que muitas línguas são puras mentiras políticas, inventadas por políticos espertos que queriam dividir para conquistar. É o caso da língua portuguesa. Não é mais do que latim à toa, que depois foi trabalhosamente aperfeiçoado numa nova língua, e que mais tarde foi artificialmente afastada do castelhano (eu sublinho).

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Uma apresentação

Posted in Notas by Pamplinas on Terça-feira, 17-02-2009

Desisti de concluir todos os livros que comecei, antes mesmo de atingir a p. 10. Não por tédio ante a hipótese de ver o meu nome na capa de um livro; não pelo fastio da obra acabada; não por horror ao plebeísmo da publicidade – mas sim pela distracção que em mim quase tudo induz. As árvores, a orografia infinita da sua pele rugosa, o vento, a chuva, acima de tudo a chuva, o passar das nuvens e as suas formas obsessivas na minha mente. As rachas e fungos na parede da minha casa. O peixe vermelho que cumprimento todas as manhãs. O chilrear das crianças no pátio da escola que ladeio à ida para o trabalho. O ruído dos carros ao longe, ou aproximando-se pelas costas: um nicho ecológico para a minha alma. Tudo no mundo me afasta do que na escrita me condena a deter-me em mim, ainda que por interposta pessoa ou obra. Tudo é pasto para a minha perda. Sei bem que esta renúncia moral (tão ascética quanto hedonística) à obra parece contradizer-se, a partir de agora, pela própria existência destes posts. Não divaguemos, porém: posts não são obra, mas antes, e permitam-me dizê-lo em modo gálico, désoeuvrement. Passagem das horas, migalhas do tempo que os vai deixando para trás enquanto corremos, sem ressentimento ou mágoa, por entre a floresta.

Os meus tão ilustres comparsas neste blogue cometem uma imprudência ao acolherem-me, sob a capa da milenar tradição da hospitalidade, nesta casa digna e sóbria. Não poderei contribuir senão com algumas fixações, seguramente espúrias, e um cortejo de venerações: a veneração pelo saber (ou, o que é o mesmo: por Desidério Murcho e Maria Filomena Mónica); a veneração pela inamovível placidez dos livros; a veneração pelo modo de eloquência da música, aquém e além de todo o discurso; a veneração, enfim, pelas tentativas para preencher com palavras aquilo que na música nos diz a mudez do mundo.

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