Os Livros Ardem Mal

Estes tempos vagarosos (IV)

Posted in Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 11-02-2009

Não me parece possível, ou produtivo, abordar separadamente no poema de Cláudia Santos Silva as «políticas da identidade» nele encenadas e a questão da Voz lírica. Mas desejo chamar a atenção para a forma como a reivindicação da diferença no poema se faz em nome de uma hierarquia de diferenças que parece concluir pela não-diferença de certas diferenças. Ou seja, por um lado o poema alerta para o carácter ainda restritivo da celebração da diferença sinalizada pela vitória de Obama: faltaria que fôssemos todos Mulheres para que a lógica proliferante e emancipatória da diferença contaminasse de facto o corpo político. Logo a seguir, porém, o poema nota que «nessa matéria [sermos todos Mulheres] a cor da pele não revela  diferença». Esta concessão demasiado generosa à não-diferença da cor da pele, estando em causa uma diferença maior – a do sexo -, não pode deixar de ser vista como contraditória com o desejo de um reconhecimento da diferença, melhor, das diferenças. O problema reside talvez na entrada em cena de uma ontologização da diferença, denunciada pela maiúscula em «Americanos» e «Mulheres», mas já não (para mim estranhamente) em mestiços, que parece vitimar as diferenças que instabilizam uma leitura do corpo político como polarizado em dois ou três tipos maiores de diferença. A questão começa por ser política, pois assim como não se nasce mulher, também não haverá genericamente «Mulheres» mas mulheres menstruadas ou na menopausa, férteis ou inférteis, europeias secularizadas ou afegãs de burka, etc.

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Pressa e preconceito: uma resposta a Luís Januário

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 08-02-2009

Uma pessoa que admiro, Luís Januário, escreveu esta semana uma coisa muito pouco admirável, a propósito da última sessão de Os Livros Ardem Mal, com Nuno Júdice. Ao lê-lo, ocorreu-me aquele memorável título de CD de George Michael: Listen without Prejudice. Januário não conseguiu ouvir realmente Júdice e creio que não conseguiu sequer vê-lo. Manifestamente, não chegou a fazer qualquer esforço, razão pela qual saiu a meio, perdendo assim o melhor momento da noite, quando o poeta, de moto próprio, leu alguns poemas inéditos. E, como me diziam Luís Quintais e António Apolinário Lourenço no fim, leu magnificamente, a ponto de não se perceber a razão pela qual não existe ainda um CD com poemas de Júdice lidos pelo próprio.

Do mesmo modo, e por ter saído demasiado cedo, Januário não assistiu ao pedido que uma espectadora fez a Júdice, na parte dedicada às intervenções do público: que lesse o poema «Rol» do recente A Matéria do Poema, uma revisitação metapoética de Cesário Verde, pedido a que o poeta acedeu, numa leitura exacta, prenunciando a dos inéditos. Como também não ouviu Júdice falar das razões da «substituição», na progressão da sua obra, da referência a Pessoa pela referência a Camões, tendo a minha pergunta final sido justamente sobre Camões: é se calhar «academismo» (a palavra tem costas largas) mas interessa-me muito saber como se relaciona um poeta, hoje, com a obra maior da nossa tradição lírica, sobretudo naqueles casos em que tal relação é como que «declarada» (o que é também o que ocorre num certo Franco Alexandre, em Gastão Cruz ou neste último Herberto, por exemplo – para não referir o caso, muito à parte neste item, de Fiama). A resposta de Júdice, diga-se, foi bem interessante e pertinente. A pressa (de «marcar uma posição») e o preconceito são de facto um casamento imbatível, como se percebe lendo o justiceiro post em causa.

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As máscaras da fome no teatro da contemplação (III)

Posted in Artes by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 29-01-2009

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Ao entrar, conduzido pelo «revisor», no hall do andar inferior do edifício do Teatro da Cerca, o «espectador» ouve, imóvel e em silêncio, o início do conto de Kafka, Um artista da fome. E quando desemboca enfim na sala, todo o seu trabalho de «contemplação insone» do espectáculo é acompanhado pela escuta do texto de Kafka, lido por António Jorge, na jaula com que se mima o dispositivo «cénico» central do texto.

Escuta ou audição? Barthes notava que a segunda é um fenómeno físico, enquanto a primeira exige uma disponibilidade do foro psicológico. Ao entrar no edifício, as primeiras palavras do conto ressoam naquele regime auditivo de quem ouve uma informação em altifalante num qualquer não-lugar: um aeroporto, uma estação ferroviária, um hall de entrada de uma instituição pública. As palavras «O interesse por artistas da fome diminuiu muito nas últimas décadas» chegam aos ouvidos dos espectadores na modalidade pragmática de uma saudação: «Bem-vindos ao teatro!» Mas quando o espectador, já na sala, se depara com o espectáculo beckettiano do meio corpo do actor que lê, na jaula, o texto de Kafka, é demasiado claro que o alcance dramática daquela cena exige escuta: esvaziamento e disponibilização do sujeito para a re-saturação do seu espaço interior pela ressonância da palavra. É nesse ponto que o conflito mais produtivo do espectáculo se desencadeia, entre a necessidade de escuta de um texto que propõe a irrepresentável figura de um «artista da fome» e a imposição, sem fuga possível, de um espectáculo saturado de objectos significantes que não pode deixar de ser visto e percorrido até aos limites de toda a possibilidade de descrição. Os problemas, sintácticos e semânticos, da «instalação teatral» de António Jorge moram justamente aqui: (i) no facto de a opsis dispor nesta obra de uma força impositiva tal que tende a relegar a relação com a palavra para o estatuto da mera audição, quando de facto necessitaria (ii) que a palavra reordenasse, a partir de uma hierarquia centrada em si, o visível e a tirania fenomenológica da imagem sobre essa entidade reveladoramente (mas sempre erroneamente) denominada «espectador».

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O «Poema Inaugural»: Why not?

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 22-01-2009

Apenas 3 presidentes americanos de entre os 44 eleitos reclamaram a presença de um poeta na sessão de inauguração da sua presidência. O que dá 4 poetas, uma vez que Clinton teve, à sua conta, metade deste número: um para cada inauguração de mandato. Desta vez, a tarefa coube a Elizabeth Alexander e o poema chamou-se Praise Song for the Day. Num bom artigo sobre a questão de como escrever um poema para esta cerimónia, Jim Fisher aborda o tópico da «poesia de circunstância», evocando o paradigma de Goethe e sugerindo, em caso de desespero, uma adaptação pragmática um tanto abrupta de um poema pré-existente. Terá sido esse o caso de Robert Frost aquando da inauguração da presidência de Kennedy: o poeta, já idoso, compôs um texto para a cerimónia, «Dedication», mas à última hora, por não conseguir ler o texto devido ao brilho da luz do sol, recorreu à sua memória para dizer antes The Gift Outright. E esse, sim, era o poema absolutamente perfeito para a ocasião, sem a retórica demasiado «romana» (e que prometia «The glory of a next Augustan age») de versos como «A golden age of poetry and power / Of which this noonday’s the beginning hour».

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2008 Vintage: Osvaldo Manuel Silvestre (II)

Posted in Balanço by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 21-01-2009

Melhores livros (literatura)

Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008. ISBN 978-972-37-1371-8
Robert Musil, O Homem sem Qualidades, Lisboa, D. Quixote, 2008. ISBN 
Julio Cortázar, O Jogo do Mundo, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2008. ISBN 978-989-623-079-1

Para dizer a verdade, o meu livro do ano é um com data de 2006: o monumental Borges, de Adolfo Bioy Casares (Destino, Barcelona), 1664 pp. de selecções dos excertos do Diário de Bioy dedicados à amizade de décadas com Borges. Não pode haver Borges nesta lista mas há o maior Cortázar, apesar da tradução muito errónea do título, na sua opção pela metáfora em detrimento do sentido literal (o pecado venial dos tradutores), e os dois primeiros volumes do opus magnum de Musil, em tradução impressionante de João Barrento. Livros com a grande (des)vantagem de nos deixarem indispostos para a literatura que se vai fazendo. Por cá, creio não haver grandes dúvidas de que o livro do ano é o de HH. Devo confessar que a minha edição da Poesia Toda é a de 1981, no inexcedível «embrulho» de Manuel Rosa para a publicação 102 da Assírio. E, como na descrição canónica do processo, também eu não fiquei incólume à exposição ao livro. Há, quanto a isto, quem diga, e com alguma pertinência, que HH nos incendeia na juventude e que, depois, isso passa. Por mim, fui-me de facto afastando no quarto de século seguinte, embora permanecendo fiel ao todo de 1981, mais os dois grandes livros que aí não cabem: Os Passos em Volta e Photomaton & Vox. Se tivesse de produzir uma representação desse período entre 1981 e este último livro, seria qualquer coisa deste tipo: «Um quarto de século que um afinal não tão grande poeta gastou a bater com a cabeça na parede». A Faca não Corta o Fogo não a veio afectar inteiramente – desse demasiado longo período ficam-me poemas, do próprio ou em tradução, e problemas (uns mais estimulantes do que outros), não livros – mas veio-me fazer recuperar a intensidade da leitura de HH, desta vez pela via, obsessiva e mesmo devoradora nos inéditos, do corpo-a-corpo com a língua materna: «eu fodo, se me dão licença, / numa língua que vem com a sua fúria combústivel / dos fundos da / língua portuguesa, só fodo nela». Um reencontro que, pelo que me toca, agradeço.

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2008 Vintage: Osvaldo Manuel Silvestre (I)

Posted in Balanço by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 17-01-2009

No mundo dos blogues, 2008 foi um típico ano «normal». O que significa que o medium estabilizou (e o meio nitidamente estagnou), pelo que a sensação que se tem é de que está na altura de a tecnologia produzir outra coisa que recupere o feitiço inicial dos blogues (e o Twitter não é essa coisa). Para mim, foi o ano em que deixei de ler blogues políticos, precisamente por ser nessa área que a estagnação mais visível é, apesar da fuga para a frente dos «blogues de blogues», numa espécie de contenda de boxe entre agremiações de bairro exactamente simétricas. Mas também porque é nos blogues políticos que percebemos como o meio é, ou pode ser, um jornal meramente remediado e como, ao contrário de todas as declarações (sobretudo as de nojo), é a política estritamente mediática o que mais entusiasma toda a gente – quase sempre à custa de uma vitimização do político, na sua acepção mais densa e perturbadora. É aliás na área dos blogues políticos que melhor percebemos a lógica autorreferencial do sistema mediático, na forma como esses blogues suplementam a informação chegada dos média tradicionais, desde logo por meio da vertigem temporal do comentário que a instantaneidade do meio permite. Faz assim inteiro sentido que nas suas edições em linha os jornais linkem as reacções dos blogues às suas notícias; como faz também sentido, mas agora dentro de uma anexação da lógica dos blogues à lógica identitária dos jornais, que estes publiquem selecções do que «de melhor» se publicou nos blogues no dia anterior, quase sempre provindo da zona mais «política» da blogosfera. Mais grave, porém, para mim: foi o ano em que o formato blogue de Pedro Mexia me cansou. Saudei por isso com alívio a notícia da extinção do Estado Civil (e aguardo com curiosidade o que lhe sucederá, pois o percurso de Mexia neste universo tem um valor não despiciendo de sintoma). Finalmente, e isso parece-me também um sinal de crise, ou de estagnação, foi um ano em que o fetichismo do «estilo» na escrita nos blogues foi objecto de todas as hipérboles e de todos os elogios. Não consigo deixar de ver aí um análogo, retórico e político, do narcisismo da Body Art na sua época heróica, mas numa versão francamente conservadora: a escrita como exibição de dotes (tal como antigamente se dizia das meninas que «tocavam piano e falavam francês»), uma reificação da retórica como valioso capital simbólico num mercado (o dos média) em que a massificação da escola – e dos cursos de jornalismo… – teve o impacto que se sabe sobre a qualidade média do que se publica e diz. Nesse domínio, a cena dos blogues é hoje a transposição mais convincente da cena agonística do literário tal como Balzac a fixou em Ilusões Perdidas: uma via de acesso a mais altos galardões, quase sempre na imprensa tradicional ou no «meio literário» em sentido lato. Ou então, num Balzac mais de «lírios do vale», um viveiro de escritores alimentados por uma concepção muito oitocentista do literário, destinada a desembocar em livro e em preciosismos (máximas, reflexões, aforismos, morceaux de bravure). Há excepções, claro, algumas delas registadas abaixo, sobretudo naquela zona em que algumas pessoas usam o blogue como quem «escreve» numa língua que ainda não existe.

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Comentários Desativados em 2008 Vintage: Osvaldo Manuel Silvestre (I)

Marx & Engels: 750 exemplares

Posted in Livros, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 14-01-2009

marxengels

As Edições Avante! (não esquecer o ponto de exclamação) republicaram há meses o tomo I das Obras Escolhidas de Marx e Engels, uma edição com data inicial de 1982-83, em três tomos. Da responsabilidade de José Barata-Moura, Eduardo Chitas, Francisco Melo e Álvaro Pina, o volume surge editado com o cuidado filológico que se esperaria dos organizadores e inclui, entre outras coisas, alguns dos grandes textos do Marx «jornalista»: «As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850», «O 18 de Brumário de Louis Bonaparte» ou os textos sobre «A Dominação Britânica na Índia», em boa medida responsáveis pelo afastamento de Edward Said em relação ao marxismo. Isto para lá dos textos sobre «a questão judaica», o «Manifesto do Partido Comunista», ou o «Para a Crítica da Ecomonia Política».

É inútil chamar a atenção para a importância deste volume e destes textos. Mas como a insistência periódica em proclamar «retornos a Marx» parece sugerir que a amnésia – ou o primarismo de declarar Marx «ultrapassado» – vai também vitimando estas obras, permito-me citar as extraordinárias palavras iniciais do «18 de Brumário…»:

Hegel observa algures que todos os grandes factos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e a outra como farsa. (…)

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas. A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo. E mesmo quando estes parecem ocupados a revolucionar-se, a si e às coisas, mesmo a criar algo de ainda não existente, é precisamente nestas épocas de crise revolucionária que esconjuram temerosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem de combate, a sua roupagem, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem emprestada, representar a nova cena da história universal. Assim, Lutero disfarçou-se de apóstolo Paulo, a revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente com a  roupagem da República Romana e do Império Romano, e a revolução de 1848 nada soube fazer de melhor que parodiar aqui 1789 e ali a tradição revolucionária de 1793 a 1795. Assim o principiante que aprendeu uma nova língua: tradu-la sempre para a sua língua materna, mas só se apropria do espírito da nova língua e só é capaz de se exprimir livremente nela quando se move nela sem reminiscências e esquece nela a sua língua original. (pp. 434-5)

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Dicionários & funcionários (uma adenda, por Nuno Júdice)

Posted in Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 13-01-2009

PALAVRA A PALAVRA

Percorro o dicionário como se fosse
um mapa. Um abegão despeja-me sílabas
no abecedário para que abeberem no abdómen
dos abexins. E as abitas que apodrecem num abismo
abiótico abolem adrede os abrolhos numa
adubação de adriças. Colo-as com o betume
das bigornas, e levo até ao fim dos bútios
o bustrofédon de uma asa de blatídeo brocada
no bordado de uma borrasca boreal. E corro
nas florestas de cariocaráceas,
de cariofiláceas, de cariopses, calcorreadas
por caripunas sem carisma, tirando cera dos carnaubais
carnavelescos para untar os caroás, ouvindo um carrilhão
de cartilagens dobrar uma caterva de catilinárias
sobre um catre de cautelosos catingueiros, cativos
do cavalete carpindo a caxumba das cega-regas. Uma dança
de danaides dardeja um débito de debuxos nos dedos
da deidade, enquanto dédalos delidos pelo delíquio
das demoras derriçam num diedro didáctilo, desencabrestando
uma diérese de duendes. Deito-as numa emulsão
de cachoeiras, e emurchecem na emulsão encastelada
das enciclopédias, encristando a ênfase do enigma,
enredadas no entardecer entaramelado
de um entojo de entropias. Flébeis, fluem filicíneas
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Carlos Reis: Queirosiana Mínima

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 13-01-2009

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Carlos Reis dispensa apresentações: como professor da área dos estudos literários, como universitário – é actualmente Reitor da Universidade Aberta -, mas sobretudo como queirosiano, autor de obra vasta sobre Eça, coordenador da edição crítica, orientador de inúmeros estudos académicos sobre o autor de Os Maias.

Era talvez menos conhecida até ao momento a forma como Eça de Queirós – a obra, o homem, o mito – se foi implicando na pessoa de Carlos Reis até se tornar, em toda a extensão do termo, uma questão pessoal para este. É essa dimensão pessoal, e por isso também memorial, que agora podemos reconstituir lendo a rubrica Queirosiana Mínima que o reputado queirosiano começou hoje a publicar no blogue O português não tá cansado, da licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos da Faculdade de Letras de Coimbra. A rubrica iniciou-se com uma série intitulada Os meus Eças. Que, como se pode ver, são indissociáveis dos grandes queirosianos, aqui também objecto de uma selecção por «afinidade electiva». Neste caso, Ernesto Guerra da Cal, homenageado no primeiro texto da série.

Parafraseando o que se dizia do Tintim: «Para todos os queirosianos dos 7 aos 77 anos».

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As máscaras da fome no teatro da contemplação (II)

Posted in Artes, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 08-01-2009

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Boa parte das questões levantadas pelo espectáculo criado por António Jorge a partir da sua colecção de máscaras pode colocar-se sob a égide daquela proposição wittgensteiniana que prescreve a impossibilidade da teoria e a sua necessária substituição pela «mera» descrição. A estranheza do objecto parece de facto pedir a restrição cognitiva de quem se predispõe a tão-só descrever o que vê e ouve, uma vez que as teorias com que chega ao espectáculo – sobre «teatro», «espectáculo», «público», etc. – chocam com a coisa ali defronte (que aliás, e aí começam os problemas, não está «ali defronte»). Porque, desde logo, não é claro que a coisa integre as «artes performativas»; e porque uma das questões decisivas do espectáculo reside justamente na forma como põe em cheque a delimitação territorial mais pregnante na área, nas últimas décadas, entre «teatro» e «performance», delimitação na qual, a priori, o primeiro termo faz o papel conveniente de segmento estável de uma relação na qual o segundo termo funciona como elemento mais vasto, omnipresente, omniformativo e omnipotente. Digamos, por agora, que na actual economia desta relação a performance necessita de que o teatro seja uma coisa – um objecto, a que corresponde, na topografia de Philip Auslander, uma disciplina «objectual»: os estudos teatrais – para que a performance seja uma não-coisa a que corresponderia, ainda para Auslander, uma disciplina «paradigmática»: os estudos da performance.

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Dicionários & funcionários (II)

Posted in Média, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 06-01-2009

link

Volto à minha inexistente antologia, uma vez que todo este arrazoado serve de facto para apresentar aquele que é o meu «poema de dicionário» preferido em português de Portugal (que na altura incluía as colónias): «Amor das Palavras», de Rui Knopfli, incluído no seu primeiro livro, O País dos Outros, de 1959. Escrevi em tempos sobre o potencial didáctico deste poema, mas queria concentrar-me agora na questão do dicionário, ou melhor, na da historicidade da nossa relação com o dicionário «na era da acessibilidade técnica». Passo, pois, a reproduzir o poema, ligando as ocorrências lexicais mais problemáticas às soluções propostas pela recente ferramenta linguística em linha Português Exacto. Registo no mesmo plano os casos em que a ferramenta se revela impotente, impotência que opto por não suplementar com o recurso a outras ferramentas: 

AMOR DAS PALAVRAS

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor dos teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo, e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.

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Estes tempos vagarosos (III)

Posted in Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 01-01-2009

A estrofe intermédia do poema de Cláudia Santos Silva parece introduzir a questão maior da lírica: a representação da voz pessoal, patente em algumas instâncias decisivas: (i) na passagem da Natureza à História, e na versão desta como sendo feita «por nós», i.e., por sujeitos «dotados historicamente de voz»; (ii) na substituição do desejo de um devir-mudo por uma declaração categórica (e vocalmente poderosa) sobre o mundo; (iii) enfim, e numa ocorrência discursiva de superfície gerada por tudo isto, no recurso a formas verbais como «falo», digo» ou «não me calo».

Não significa isto, obviamente, que a «voz» não seja também instanciada pela lírica nas estrofes inicial e final. O modo dessa instanciação é porém repressivo (auto-repressivo) e a sua fundamentação é, em rigor, ético-moral: «erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente» (eu sublinho) é uma forma de protesto e não anda longe daquela ambígua radicalidade do protesto do místico, em que recusa e abdicação caminham lado a lado. A auto-repressão da voz na forma naturalizada da árvore assolada pela Natureza, mas também desafiadora desta, surge aqui matizada e mediada pela figura do exemplum: alguém se ergue como uma árvore, e resiste; e esse exemplo dispensa palavras, como todos os verdadeiros exemplos ético-morais pedem antes o nosso assentimento mudo. Noutros termos, o casamento de poesia e auto-repressão dá a ver a estrutura ideológica da repressão, que em rigor é uma estrutura retórica: um movimento substitutivo entre Sujeito e Natureza, ou melhor, o cancelamento e congelamento de todos os deslocamentos figurais entre essas duas entidades. Quando o sujeito devém Natureza, torna-se evidente a natureza da repressão: estátua agrilhoada ao mundo natural, «comida» (heras, líquenes) por ele.

Ainda assim, esta estrutura não é perfeitamente simétrica, exactamente como só na Natureza, com maiúscula, podemos representar árvores perfeitamente simétricas (embora, nesse ponto, haja decerto em cada um de nós um Mondrian desejoso de desenhar árvores por esquadria). As árvores não existem porém na Natureza mas no mundo fenomenal e, apesar das aparências, ou da nossa tentação para representar aparências como perfeitas projecções esquemáticas, são criaturas de uma história silvestre. Eis porque esta árvore tropológica na torrente não abdica, não pode abdicar, inteiramente do fenomenal, não conseguindo deixar de ser uma figura da contingência ou da historicidade desta encenação da voz reprimida. Pois não é difícil reconhecer nesta «torrente» na qual e contra a qual se ergue a árvore o rumor figural de uma História entretecida do murmúrio de um milhão de vozes reprimidas e, como diria Benjamin, recuperáveis apenas por uma leitura «a contrapêlo», que neste caso nos desse também a ler a dimensão estratégica desta auto-repressão da Voz: uma naturalização que é uma moral que é uma política que é um tropo duma «ordem natural» por vir. Um dia, esse dia prometido pela torrente da Natureza (uma torrente na qual não consigo deixar de ouvir um eco do «Da violência», de Brecht), toda a eloquência será dispensável (posição politicamente muito questionável, aliás).

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As máscaras da fome no teatro da contemplação (I)

Posted in Artes, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 29-12-2008

mascaras-net

700 Máscaras à Procura de um Rosto ou Um Artista da Fome é o estranho título do último espectáculo em cena n’ A Escola da Noite. Inicialmente anunciado para um curto período em Dezembro (de 11 a 20), o espectáculo foi felizmente prolongado para o período de 6 a 17 de Janeiro. Digo «felizmente» por se tratar de um espectáculo de grande impacto visual e de assinalável inteligência «conceptual», que seria pena limitar a 9 dias, ainda que em sessões duplas. O impacto do espectáculo deve-se à exibição das 700 máscaras, além de outros objectos escultóricos, da autoria de António Jorge, actor, cenógrafo, aderecista da companhia e obsessivo artesão; a inteligência, essa está patente na proposta de articulação, não muito evidente à primeira vista, entre a «mostra museológica» de 700 máscaras e o texto de Kafka «Um artista da fome», um texto dotado da capacidade de perturbação dos  textos maiores do autor.

O espectáculo vem com uma indicação de género: «Instalação teatral». Ou seja, não é claro que seja teatro, mas também não é claro que o não seja. Podíamos resolver o problema, como é usual na cena contemporânea das artes, decretando a impertinência teórica da questão; não creio que ele fosse assim resolvido, antes «pontapeado para canto», sendo talvez mais pertinente sugerir que não se trata ainda – e, n’A Escola da Noite, seria caso para dizer que essa é uma fronteira sempre repelida – de «teatro pós-dramático», uma vez que o espectáculo, como sempre na companhia em causa, confia aos poderes do texto boa parte do seu sortilégio: a estratégia de recurso a um grande texto literário, propondo a sua recodificação dramática, é aliás reconhecível no código genético da companhia. Em todo o caso, estamos, com este espectáculo, num dos limites de qualquer noção, por mais alargada, de «teatro»: o limite da imobilidade e da (quase) ausência de representação. O que é o mesmo que dizer que não nos livramos da questão colocada com grande inteligência pela designação «Instalação teatral», sendo ainda minha convicção que, mesmo apesar do texto (e apesar do texto ser de quem é), não conseguimos também, por causa de tudo o que no espectáculo solicita e responde à designação «Instalação teatral», livrar-nos da questão a que Hans-Thies Lehmann deu o nome de «teatro pós-dramático».

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Estes tempos vagarosos (II)

Posted in Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 26-12-2008

Como seria de esperar, também entre nós houve uma torrente de reacções à vitória de Obama. Nenhuma, porém, tão fulgurante como a deste poema de Cláudia Santos Silva. Li-o apenas há dias, passado o tempo, e sobretudo o sem-tempo, desse acontecimento maior. É um poema a dois tempos, aliás: o tempo primacial da Natureza, cuja longa duração não está no nosso tempo; e o tempo de uma história que, mesmo quando acelera, é sempre demasiado vagarosa para a vertigem da nossa brevidade. A primeira estrofe, que regressa assimetricamente no fim do poema, propõe uma «naturalização» do sujeito, que surge recoberto (recoberta, uma vez que se trata de um sujeito-fêmea) pela Mãe-Água, dentro de uma como que campânula, para cuja descrição mais perfeita poderíamos abonar-nos naquela que Adorno oferece, em vários lugares da sua obra, da mónada artística: separada do mundo da razão instrumental pela ténue película daquilo que nela é dialectizável, nos termos necessariamente abstrusos da «dialéctica negativa», como negação. Neste caso, uma imersão do sujeito na Natureza, que inscreve drasticamente a lírica no canto mudo do mundo (a primeira estrofe termina com a proposta de um orfismo em que a voz da natureza dispensasse a voz, por definição dispensável ou secundária em relação à natureza, da linguagem verbal). Será o emudecimento da lírica no seio da mãe-natureza, nos termos aqui propostos, ainda dialectizável como negação? E não será essa a grande questão deste poema?

Notemos que esta naturalização, que devíamos começar por tomar na acepção técnica de um tropo inverso do antropomorfismo, é-nos proposta, de facto, como uma cena de estatuária. Até metade do verso três, a cena é objectual e desprovida de marcas do sujeito – «a água corre pelas pálpebras pelas pontas do cabelo / curva na escápula nos seios no ventre nos joelhos / contorna as palmas dos pés» -, que só surgem no termo desse verso. Só aí, em «liberta-me o semblante», a deixis da primeira pessoa entra em cena e satura o verso que se segue – «sento-me no chão e penso» – e o que se segue da estrofe. O sujeito imobilizado sob a película (o celofane) da Mãe-Água é de facto um sujeito- monumento, oferecendo-se como Vénus na Natureza e, ao invés, oferecendo a Natureza como Vénus: princípio gerador, anexação do feminino e da fêmea ao mundo natural, redondeza contemplável (pois nenhuma aresta resiste ou sobrevive ao lento moer das águas). É necessária a alteração gramatical do verso três, com a irrupção do deíctico pessoal, para nos apercebermos de que a estátua vive: mexe-se, pensa, deseja. Curiosamente, o que esta estátua deseja é deixar de ser uma entidade desejante. O ioga seria apenas o primeiro estádio de um processo de re-naturalização que faria agora do corpo-estátua uma «árvore assimétrica na torrente»: «de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada / talvez me cobrissem heras ou vinha virgem / não usaria de palavras não as escutaria».

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Dicionários & funcionários (I)

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 24-12-2008

New Dictionary Words

Na sequência disto, ocorreu-me uma ideia antiga, admito que perversa: uma antologia de poemas com vocabulário rico, ou, se se preferir, raro (seria melhor dizer: rarificado pelo uso, isto é, pela doxa), e por isso de leitura pressupondo o dicionário. Um livro que exigisse a companhia de um desses vastos, pesados e exigentes companheiros de leitura e que fosse em si mesmo uma pedagogia do dicionário. Um livro, enfim, que combatesse as consequências mais questionáveis da política de língua adoptada pela burguesia que fundou ou refundou o Estado-Nação de Oitocentos, de que entre nós Garrett é o melhor exemplo: moderação lexical, recusa de vocabulário marcado por tipicismos locais, classistas (aristocráticos e populares) ou historicizantes, registo «médio», distensão coloquial. Em Garrett, isto dá o admirável português laboratorial das Viagens; em Eça, abre-se já o perigoso caminho para a pobreza lexical que, por meio do triunfo da imprensa que nele sempre se reviu, alimentou e legitimou, define os usos dominantes hoje, o literário incluído.

É difícil, de facto, não ficarmos impressionados com o panorama actual dos usos do português, mesmo nos melhores escritores de hoje: tudo se passa, no domínio do léxico (para não falar do trabalho sobre a sintaxe), num espectro muito reduzido, e incapaz de se distinguir dos usos correntes e mediáticos, como se estivéssemos – e é minha convicção que de facto estamos – no momento terminal de um processo, com cerca de dois séculos, de (re)produção de uma norma passível de tradução num «capital linguístico» socialmente acessível e distribuível por vários meios e instituições, com a escola e os média à cabeça. O aspecto curioso disto é o facto de a literatura ter sido instrumental na produção desta norma linguística, como percebemos em Garrett, não só nas Viagens mas em tudo o que escreveu sobre o idioma. Em grande medida, a Literatura, enquanto construção moderna e burguesa, foi o que foi nestes dois séculos em virtude do seu papel decisivo na produção dessa norma que forneceu, por exemplo à sociedade portuguesa, um idioma «democrático», supostamente universal, forjado nos textos e difundido pela escola. O paradoxo desta questão reside em que é a força dessa norma, ou do ideal que a regula, que, ao afastar cada vez mais a literatura do dicionário, o mesmo é dizer, ao anexá-la a usos cada vez mais pobres do idioma, a vai também banalizando entre os usos correntes da língua, num processo, que é também (sempre o foi) político, de esvaziamento histórico do lugar idiomático e cultural da literatura. Um típico caso, pois, da criatura que escapa ao controlo do criador, se é que a não devora no fim da história. 

Esse triunfo explica aliás a dificuldade de produzir revisionismos que atribuam um papel central a um autor tão extraordinário nos usos do idioma como Camilo, objecto ainda hoje do anátema lançado por Eça:  as suas personagens seriam «insuportavelmente bem-falantes», como se a divergência entre oralidade e escrita não definisse todas as personagens da literatura, incluindo as tão bem-falantes de Dinis Machado, no sobrevalorizado O que Diz Molero, uma obra maior no processo que venho recenseando; ou um revisionismo que atribuísse um papel central, por razões diversas, a Aquilino. Ou ainda o cunho «genialmente isolado», muito difícil de traduzir em exemplum, do trabalho de um Guimarães Rosa no português literário do século XX, que nele abrange léxico (e recomposição morfológica e semântica) mas também sintaxe. E não sugiro com este último caso que o devir desta questão é no Brasil idêntico ao português, longe disso, mas apenas que as suas consequências são, creio bem, assaz próximas. Como se vê aliás no recente A Viagem do Elefante de Saramago, a riqueza lexical ou sintáctica parece hoje marcada pelo estigma de um estranho ideologema: aquele que insidiosamente sugere que tal só é aceitável sob a forma de pastiche ou paródia de um estilo, que é um mundo mas também uma política de língua, irremediavelmente devolutos. A recepção típica deste último romance do autor mostra também o tropismo mais reconhecível do nosso «homem de Letras» de hoje ante esse fenómeno: um deslumbramento a priori pela técnica da coisa, mesmo que a coisa em si já não nos diga grande coisa («O melhor Saramago dos últimos dez anos», elogio que resgata a superfície do texto – léxico, escrita, estilo – mas depois sugere que o romance tem, como quase sempre no autor, problemas estruturais).

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Estes tempos vagarosos (I)

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 20-12-2008

Apercebi-me da diferença de Obama ao ver o clip (simplesmente extraordinário) do tema (identicamente extraordinário) de Will.i.am sobre o slogan da campanha do mais improvável dos candidatos: Yes We Can. O tema é justamente sobre e edifica-se como uma infindável derivação dos problemas, retóricos e políticos, contidos nesse «sobre»: um decalque do espantoso discurso de Obama na noite da derrota nas primárias de New Hampshire (um discurso na grande tradição americana da oratória pública, dos Founding Fathers a Lincoln, Roosevelt, Kennedy ou Luther King). Mas um sobre ou um decalque que propõe uma deslocação – e uma des/colagem – de discursos na qual podemos ler a heteroglossia constitutiva da república e da retórica. Quem fala, no tema de Will.i.am, nunca coincide plenamente com a palavra falada por Obama, quer porque a desloca minimamente para o canto (é isso o rap, de que este tema se aproxima do ponto de vista do débito vocal, como «conversa liberal»), quer porque faz incoincidir o débito de Obama com o de todos os que o envolvem, saturam e parasitam. Obama somos nós, como o homem político, no seu momento nobre, é a possibilidade de uma voz que migra por entre vários corpos sem se deter num único e sem ser, em rigor, reapropriável pelo homem político que a profere. É isso o Body Politic enquanto incoincidência entre a res publica e a sua tradução «orgânica» num corpo que só existe em diferido (e, o que é o mesmo, em contrato). A proliferação de rostos e corpos famosos, em contraponto e em desfile após Obama e por entre um multiplicado Obama, representa com exactidão todas as ilusões e aporias do corpo político: uma metonímia sempre factícia (a do animal inorgânico que é o Leviatã), aspirando à verdade e unicidade orgânica da metáfora, cujo nome aqui é «Obama». Aquilo que realmente conseguimos, ou que só a política consegue na era da secularização – o que não anda longe de sugerir que é nesses momentos raros que ela alcança o vínculo do sagrado –, é sermos um sendo nunca um, isto é, sermos vicariamente um no corpo propiciatório (e, por isso, infindavelmente parasitável) do político (seria talvez altura de recuperar aquela vinculação, retomada por Paul de Man, entre O Contrato Social e os escritos religiosos de Rousseau). Emoção rara, breve, fugidia, irrepetível, ou melhor, sublime: esse sublime político que vemos, se tal é visível, na parataxe supostamente redimida pelo verbo, do tema e clip de Will.i.am.

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O meu Lévi-Strauss

Posted in Efemérides by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 28-11-2008

ansel-adams

O meu Lévi-Strauss são vários. É, em primeiro lugar, aquele que em Nova Iorque, no contexto do exílio provocado pela barbárie nazi, vai assistir a umas aulas de Roman Jakobson (um dos meus heróis do mesmo século) e tem a revelação da linguística saussureana. Não pelos resultados da revelação, ou seja, o «método»; mas pelo carácter exemplar de um episódio que nos ensina como a nossa vida pode mudar se mantivermos a disponibilidade certa para ouvir, isto é, aprender, mesmo as lições mais improváveis. É o excepcional escritor, aquele que torna não só difíceis mas estéreis os debates sobre os limites territoriais entre etnografia e literatura. Mas é sobretudo o homem que escreve, no final de Tristes Trópicos, passagens como esta (na p. 408 da edição portuguesa), nas quais se destila um pós-humanismo serenamente emancipador, passagens para as quais toda a classificação disciplinar é curta: 

O Mundo começou sem o homem e acabará sem ele. As instituições, os costumes e os hábitos que eu teria passado a vida a inventariar e a compreender são uma eflorescência passageira de uma criação em relação à qual não possuem qualquer sentido senão talvez o de permitir à humanidade desempenhar o seu papel. Longe de ser este papel a marcar-lhe um lugar independente e de ser o esforço do homem – mesmo condenado – a opor-se em vão a uma degradação universal, ele próprio aparece como uma máquina, talvez mais aperfeiçoada que as outras, trabalhando no sentido da desagregação de uma ordem original e precipitando uma matéria poderosamente organizada na direcção de uma inércia sempre maior e que será um dia definitiva. Desde que ele começou a respirar e a alimentar-se até à invenção dos engenhos atómicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo – e excepto quando se reproduz -, o homem não fez mais do que dissociar alegremente biliões de estruturas para reduzi-las a um estado em que elas já não são susceptíveis de integração. Sem dúvida, ele construiu cidades e cultivou campos; mas, quando pensamos neles, estes objectos são, eles próprios, máquinas destinadas a produzirem inércia a um ritmo e numa proporção infinitamente mais elevada que a quantidade de organização que implicam. Quanto às criações do espírito humano, o seu sentido não existe senão em relação a ele, e elas confundir-se-ão com a desordem quando ele tiver desaparecido.

 Osvaldo Manuel Silvestre

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«O meu fim é o meu começo»

Posted in Notas, Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 15-11-2008

coliveira

«O meu fim é o meu começo»: de Machaut a Eliot ou a Carlos de Oliveira, o fim parece ser indissociável da questão do «depois do fim», ou melhor, de um depois do fim tematizado como uma necessária figura do recomeço. Seria tentador ver aqui a funcionar a perfeição de um anel de Moebius que nos lançasse em permanência na outra face de um tempo sem fim, mas essa teratologia não está, felizmente, ao nosso alcance. E no fundo, talvez a literatura exista apenas para nos dizer isso: que depois do fim só a palavra (escrita).

A melhor maneira de entrar nesta questão parece-me ser um episódio biográfico que em tempos me foi contado por Ângela de Oliveira, figura da obra e Grande Oficiante da escrita/reescrita de Carlos de Oliveira. Pouco tempo após a edição de Finisterra. Paisagem e Povoamento, Carlos de Oliveira foi visitado por Eduardo Lourenço, no que seria o último episódio de um encontro cujo episódio inicial terá ocorrido nesta cidade de Coimbra e nesta Faculdade de Letras, três décadas e meia antes. A certa altura da conversa, Eduardo Lourenço terá perguntado a Carlos de Oliveira: «E depois de Finisterra, Carlos?» Ao que o autor terá respondido: «Depois de Finisterra, nada. Acabou.» Depois de Finisterra, ou melhor, depois do par Finisterra/Pastoral, estaríamos nesse momento quando nada vem já depois do fim. E contudo, a própria biografia nos dá uma versão outra desse momento depois do fim. Porque sabemos que de facto Finisterra não foi o fim, assim como depois de Pastoral houve ainda 3 ou 4 poemas extraordinários enquanto justamente versões do fim. O fim, em rigor o depois do fim que Finisterra teria sido, foi um recomeço, isto é, a reescrita de Alcateia, obra expurgada pelo próprio autor desde cedo e a que, surpreendentemente, regressa nesse fim já póstumo em relação a Finisterra. Sabemos, também por Ângela, dos pormenores dessa última anti-epopeia: a reescrita, as versões, a obsessão mortificante contra a contaminação da prosa pelo decassílabo, por exemplo. Mas sabemos sobretudo do fim dessa história semipóstuma: poucos dias antes de morrer, o escritor pede/ordena a Ângela que ponha todo o trabalho num saco e o vá deitar ao lixo. Restam 2 ou 3 páginas desse episódio final.

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Joana Morais Varela

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 12-11-2008

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Sempre me impressionou o número de pessoas que, no meio literário, era capaz de pôr restrições à obra de Joana Varela à frente da Colóquio/Letras. O argumento era sempre o mesmo e era, digamos, virtuoso: «Para quê tanto luxo?» Outros, reivindicando outra família de virtudes, sugeriam que a Colóquio de antigamente é que era: sóbria, regular e dirigida por grandes académicos.

A este segundo argumento, que supõe uma Idade de Ouro da Colóquio que teria sido também a dos estudos literários em Portugal, convém responder sem grandes delongas que tal Idade de Ouro, muito simplesmente, nunca existiu. A Colóquio de Joana Varela era substancialmente superior na concepção global dos números, nos ensaios, no rigor e na transparência de actuação, à dos primórdios. Basta comparar. Não vale aliás a pena perder tempo e energia a inventar um Passado Grande para os nossos estudos literários, pois a verdade – e a ironia amarga da História – é que nunca tivemos uma geração, ou uma coincidência epocal de gerações, tão apetrechada como hoje. A um professor de estudos literários na universidade o que custa hoje é assistir ao desperdício de uma geração tão qualificada, e proficiente no seu domínio dos códigos da profissão, como nunca houve. E a Colóquio de Joana Varela dá a ver isso, com notável acuidade, na forma como soube acolher uma série vasta de novos autores, sem sectarismos em favor de novos ou menos novos.

Acresce que com Joana Varela a Colóquio deixou de ser uma revista em que se enfeixavam ensaios díspares para ser um projecto intelectual, artístico e patrimonial coerente, no sentido mais denso da palavra. Ou seja: criativo e interdisciplinar. Porque a Colóquio foi com Joana Varela um grande revista literária, estatuto que antes não podia reivindicar: vide por exemplo a extraordinária série «terminal» dos 5 volumes dedicados ao David Mourão-Ferreira tradutor. E isto sem deixar de ser institucional, como a Colóquio sempre foi e como o foi, com Joana Varela, sem vergonha.

Finalmente, com Joana Varela as práticas de edição da Colóquio ganharam um rigor sem par provavelmente em todo o mundo: na verificação das citações, da bibliografia, ou na correcção dos textos publicados. Sei que muita gente se queixava de que as correcções lhe «estragavam o estilo» (há sempre demasiada gente a reivindicar-se um estilo). Por mim, que aspiro mais à gramática do que ao estilo, devo dizer que as correcções que me foram sugeridas nos textos, aliás em número escasso, que lá publiquei (escassez de que sou o único responsável), melhoraram quase sempre os meus textos, coisa que só posso agradecer. Assim como agradeço a honestidade de quem não fazia correcções às escondidas, recusando-se a uma prática cómoda mas pouco decente.

Quanto ao «luxo», devo notar que sempre me surpreendeu uma tal acusação provinda de pessoas que, na sua esmagadora maioria – refiro-me aos cultores das Humanidades -, revelam uma flagrante incultura visual e gráfica. Quem tenha dúvidas só tem de percorrer as publicações que na Universidade passam por «sóbrias» ou – pior ainda – «clássicas», e em que por sistema se confunde esses epítetos com pobreza gráfica. No lançamento da Colóquio/Letras online António Feijó falou da revista como uma coisa única em todo o mundo, i.e., um objecto gráfico sem par. Tenho dificuldade em perceber por que razão não nos conseguimos orgulhar o bastante de uma tal realização, denegrindo-a sob a acusação ínvia e mesquinha do «luxo».

De uma coisa não tenho porém dúvidas: estamos mais pobres, sem a Colóquio que Joana Varela imaginou e, em acepção forte, produziu. Mas como sempre, só o vamos perceber plenamente daqui a um tempo.

P.S. Para todos os que desejem manifestar a sua admiração pelo trabalho de Joana Varela, existe agora um blogue criado por amigos/admiradores. Chama-se simplesmente Joana Morais Varela.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Melhor do que Moita Flores

Posted in Notícias by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 27-10-2008

Os jornais, com abundância de fotos e reportagem, informaram-nos de que alguém assaltou o computador pessoal de Miguel Sousa Tavares, no qual nasciam dois futuros livros, que tudo indica ficarão órfãos.

Acabo de ler a melhor versão do sucedido. Aqui. Policial, escritural, moral, fabulosa, direitinha dos irmãos Grimm. Agora sim, percebi. Muito obrigado, Rui.

P.S. Sobre a extraordinária personagem que dá título a este post, é favor consultar a Wikipédia.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Finis terrae?

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 24-10-2008

Os peregrinos deslizam nas paredes. Silhuetas a arder sobre um fundo rugoso. O gado atrás: cavalos rastejando, os carneiros maiores que os bois. Sobem barrancos de estuque, películas de cal inchada pela humidade; afundam-se em manchas de bolor; alongam-se ao dobrar os quatro cantos da sala, que os flectem, projectam para diante. Nas portadas da janela, as figuras tornam-se quase ruivas: a luz do halo atravessa a madeira e o seu poder continua. Caminham com o movimento articulado duma lanterna mágica, que não esfuma os contornos. Ao contrário: vultos de grande nitidez marcham num gráfico anguloso mas firme. E de súbito, param. Não tropeçam, nem se atropelam uns aos outros, param simplesmente no relevo do écran. Ao alto, nuvens presas por fios de cenário (invisíveis) detêm-se também.

Põe a lupa em cima do desenho e as imagens no estuque crescem quatro ou cinco vezes.

Como se chama o filme?

Não respondem.

Peregrinação?

Silêncio.

Finis terrae?

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«Bullshit»? A sério?

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 12-10-2008

Como quase toda a gente, não faço ideia de quem seja o secretário permanente da Academia Sueca para o Nobel, Sr. Horace Engdahl. Tomei conhecimento da sua existência por causa das suas declarações sobre a literatura norte-americana (ou seria a cultura norte-americana?), por si qualificada como isolacionista. Tanto bastou para que por cá o habitual coro dos sempre predispostos a excitar-se «contra o anti-americanismo» se levantasse, apodando Engdahl de imbecil e citando com volúpia a conclusão de um texto de «defesa da honra» por um escritor menor, de nome Giles Foden, que nesse texto publicado no Guardian remata com «a word conceived in America but universally understood: bullshit».

Sejamos justos: não está obviamente em causa a grandeza da literatura norte-americana e dos seus vultos maiores hoje, ou pelo menos dos mais nobelizáveis, como Roth ou DeLillo; assim como não está em causa o facto de esses grandes escritores, que muitos vivem (et pour cause) dentro do populoso mundo universitário norte-americano, protegidos por instituições locais como o «escritor residente» ou os «cursos de escrita criativa», integrarem o grande diálogo da literatura. Quanto a continuar a Europa a ser o centro do mundo literário, é uma afirmação que não surpreende no secretário da Academia que atribui o maior prémio literário do planeta, e que é europeia; já quanto ao facto de os escritores americanos serem «demasiado sensíveis» à sua cultura de massas, a observação não é desprovida de pertinência, embora a conclusão – que esse facto conduz a um abaixamento da qualidade da sua literatura – seja discutível.

Não obstante, a intervenção de Engdahl é absolutamente pertinente no seu ponto central, rapidamente obliterado pelo cansativo americanismo reinante em Portugal: a denúncia do muito escasso volume de traduções de obras literárias editadas nos EUA. Ponto que, esclareça-se, não é um estado de alma ideológico de Engdahl mas simplesmente uma (chocante) constatação de facto. O problema, aliás, é extensível à outra grande literatura em inglês, a inglesa, justamente, cuja taxa de tradução de obras literárias em 1990, por exemplo, era de 3,3% (recolho estes dados da obra de Pascale Casanova La république mondiale des lettres, de 1999). É certo que se pode argumentar com o facto de o mercado inglês absorver a poderosa produção norte-americana, o que lhe permite internacionalizar-se sem mudar de idioma, mas todos os observadores são unânimes ao falar de uma «quase-autarcia dos mercados anglo-saxónicos», sem comparação com o que ocorria nos anos 50 ou 60. Note-se que, de acordo com os conceituados estudos que a autora refere, Espanha, Itália, Portugal, Holanda, Dinamarca e Suécia estão na posição inversa de grandes importadores, com uma taxa de cerca de 25%, andando a média europeia pelos 15%. Os casos extremos, à altura, eram Portugal, com 33%, e a Suécia, do secretário Engdahl, que atinge os 60%, assumindo-se, em função do Nobel, como o verdadeiro ponto de encontro da literatura mundial.

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Paulo Henriques Britto (VII)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 05-10-2008

 

EPÍLOGO

Finda a leitura, o livro está completo
em sua solidão mais-que-perfeita
de couro falso e íntimo papel.

Lá fora, o mundo segue, arquitetando
as mesmas contingências costumeiras
que nunca esbarram numa irrefutável

conclusão que se possa resumir
em três letras letais, inalienáveis.
Que paz será possível nessa selva

sem índices, prefácios, rodapés?
indaga, da estante mais excelsa,
o livro. Porém, nada disso importa,

se todas as dúvidas se dissipam,
com tudo o mais, quando o bibliotecário
apaga as luzes, sai e tranca a porta.

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Considerações desencantadas sobre a FNAC

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 02-10-2008

Nem de propósito, a decisão da FNAC no sentido de acabar com o desconto generalizado de 10% no preço de capa dos livros, limitando-o aos portadores de cartão FNAC (que entretanto mudou de natureza, passando a ser na prática um cartão de crédito, coisa que não tem sido referida e traz em si vastas consequências), coincidiu com o apogeu da crise do subprime: estava o mundo aflito com a decisão, inteiramente racional, do Congresso americano no sentido de rejeitar a panaceia «nacionalizadora» de Bush (que de ironias supostamente pós-históricas…), e eis que a FNAC mostra como funciona a Realpolitik do capital: optimizar mais-valias, chama-se a isto.

Convinha recordar duas ou três coisas a que ninguém ligou a seu tempo (era então o tempo da «Europa», vale dizer, da euforia do pugresso, como dizia Cavaco). A FNAC Chiado arrasou com a grande discoteca da Valentim de Carvalho e, por arrasto, com a própria Valentim (o que mais ou menos aconteceu de forma idêntica com a Roma Megastore, no Porto). A oferta propriamente em discos da FNAC Chiado era, como é, generalista, na melhor hipótese, e muito inferior à da Valentim de Carvalho ou da Roma; é certo que estávamos no começo do fim do negócio dos discos, mas o efeito de concentração das valências comerciais da loja mostrou todo o seu poder, aí e em relação a todo o negócio do livro. Na altura, porém,  a FNAC ainda era aquela entidade a que, na juventude, fiz visitas obrigatórias na Rue de Rennes, por exemplo, pelo que se acreditou, a seu respeito, naquilo que ainda há dias ouvi Pacheco Pereira debitar a propósito da crise actual: tratar-se-ia de mais uma ocorrência da «destruição criadora» do capitalismo (Schumpeter treslido dá para tudo). Entretanto, em França a FNAC tornou-se uma rede livreira com lógica de hipermercado; e, com a décalage do costume, é o que estamos a ter por cá também (alguém se lembra ainda, por exemplo, da secção de poesia da FNAC Chiado do início?).

A decisão da FNAC, comentada com fundamentação vária pelos Booktailors, por Jorge Reis-Sá, por Jaime Bulhosa ou por Sara Figueiredo Costa, tem em teoria económica uma definição clássica, que mais uma vez me chegou por Manuel Resende: eliminar a concorrência e ditar a lei. Porque a concorrência foi de facto eliminada e aquilo que temos, do lado da Bertrand, é o que se sabe (a Bertrand pode proclamar agora o facto de ter «profetizado», na sua prática, as transformações da FNAC…), e do lado das livrarias independentes é demasiado dependente dos atavismos de sempre para ser realmente alternativo e concorrencial (as excepções são cada vez mais excepcionais e a criação das «Livrarias Independentes» não trouxe qualquer alteração para melhor, lamento dizê-lo). Não me vou repetir, pois já exprimi por mais de uma vez o meu desencanto de frequentador de livrarias face ao panorama actual. Resta-me esperar que uma rede de dimensão intermédia como a Almedina saiba resistir e entender que há um espaço no mercado para quem tenha algum peso negocial; ou seja, que tenha a inteligência para perceber que há muitos públicos que não se reconhecem nem fundem necessariamente no público. Continuarei pois fiel à Almedina Estádio, em Coimbra, neste momento provavelmente uma das duas ou três «grandes livrarias» que restam neste país (sendo uma das outras a Almedina Saldanha).

Osvaldo Manuel Silvestre

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O Império ataca de novo

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 28-09-2008

Conforme se pode ler aqui, o Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, declarou que vem aí uma «refundação» do Instituto Camões, afirmando:

Está previsto que se refunde o Instituto Camões. O que significa prestar uma especial atenção a todos estes currículos do ensino do Português, que vão ter que ter em consideração que há muita gente que não quer Português literário. É preciso motivar as pessoas e responder às necessidades e desejos das pessoas.

Que se refunde o Instituto Camões, é capaz de ser boa notícia, dependendo do que se entenda por «refundação» e desde que se não esqueça que o Instituto Camões tem sido praticamente objecto de uma refundação por governo, com os mesmos medíocres resultados de sempre. Haverá agora um notório salto quantitativo, devido à afectação ao Instituto do ensino do português a nível não-superior no estrangeiro. O problema é o resto – e seria caso para dizer que «o resto é (má) literatura»…

Eu estudei, e vou estudando nas horas livres, gramática e linguística (história, teoria, linguística aplicada, etc.) e, ao contrário do Ministro da Cultura, não sei o que seja exactamente o «Português literário», embora saiba o que são modalidades mais ricas, no plano lexical, sintáctico, semântico, etc., do português: aquelas que abrem possibilidades a priori não inscritas no sistema linguístico (como quando Pessoa escreve «Chove no lá fora»), mas que, como percebemos depois, são de facto permitidas por ele – razão para discordarmos do Barthes que afirmava, muito ao ar do tempo, que «a língua é fascista». Se é a isso que o ministro se refere, ou seja, ao papel decisivo da literatura nesse enriquecimento do idioma, bem-vindo ao clube. Nos próprios estudos literários, porém, a expressão não tem hoje curso, a não ser em pessoas de certa idade e quando, ante certas passagens, por exemplo, do Padre Vieira, reagem como o Bernardo Soares que dizia ter chorado ao lê-lo na selecta, sentindo, ante essa «majestosa língua», uma «grande emoção política» (note-se que, descontando a idade das pessoas, esta emoção política continua a ser o decisivo separador de águas entre as várias modalidades de relacionamento com o idioma). A esta intraduzível «emoção política» induzida pelo idioma, certas pessoas chamam «português literário», o que refere pois essencialmente uma modalidade de pathos. Ora, como o pathos não é, nem deve ser, apanágio dos ministros, que aliás dele se demarcam publicamente – a não ser que se esteja a sugerir, num gesto politicamente não inocente, que «lá em casa, no sofá do escritório, eu posso dar-me a esses luxos, que contudo não devo impor aos conterrâneos na diáspora» -, é óbvio que não é de nada disto que se trata.

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Paulo Henriques Britto (V)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 24-09-2008

Da série «Gramaticais», os poemas I e V: 

Uma palavra que entre as coisas caminhasse
tal qual um deus incógnito entre os mortais,
sem revelar a sua verdadeira face.

Uma palavra que vivesse na linguagem
perfeitamente engastalhada em meio às coisas,
como a maçã na casca ou a ervilha na vagem.

Uma palavra que pulsasse sob a derme
como aguarda sem pressa a hora de espocar
de sua cápsula, uma semente ou germe.

Enfim, uma palavra apenas que pudesse
abarcar todo mundo, e nele não coubesse.

 

(Mas nada disso faz sentido,
porque é concreto, é existente.
Só significa o construído,
o que é postiço e excedente.

E quanto ao mundo – o que independe
dos artefatos, o que é dado
a todos e ninguém entende –
o mundo vai bem, obrigado,

e não quer dizer coisa alguma.
Porém o jogo continua,
como sempre, é claro – talvez

um pouco mais seco, mais duro,
sim, um pouco mais inseguro.)
Pronto. – Agora é a sua vez.

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Aquele querido mês de Agosto (coda)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 22-09-2008

 

Morreu. Não vive já mais. Merda. Adeus.
Modorra que há-de ser p’ra sempre sobre
As coisas, que este solo um sol encobre,
Um mês de Agosto, sob os rios meus.

                Daniel Jonas, Sonótono

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Aquele querido mês de Agosto (IX)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 22-09-2008

E talvez seja enfim altura de sugerir que tanto ou mais do que a pergunta garrettiana «Onde está o povo?» é neste filme decisiva a pergunta camiliana «Onde está a felicidade?» A pergunta ocorre por todo o filme e a sua resposta condensa-se naquele momento literalmente sublime, já no final, em que Tânia chora e ri em simultâneo. A felicidade, aprende Tânia nesse momento em que Helder a atraiçoa, na medida em que não consegue estar à altura do seu amor, está onde Álvaro de Campos a colocou: na Austrália. Não está, pois, como certas leituras apressadas sugerem, no coração do país, na zona de Arganil, entre serras e pinhais; como não está de facto em nenhum arraial ou bailarico de Agosto, o que significa que não está no povo ou sequer na sua alma; está apenas, se isso é estar, no espaço entre-sonhado do desejo e da rememoração, o mesmo é dizer, nos três tão longos minutos de uma canção.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Paulo Henriques Britto (IV)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 22-09-2008

Da série «Balanços», o poema III: 

Ah, o haver amanhã –
bela solução
pra todo problema insolúvel –

melhor amigo do homem,
espécie de cão
abstrato, fiel, confiável,

sempre pronto a devorar
sem hesitação
o naco, por mais intragável.

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Aquele querido mês de Agosto (VIII)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 21-09-2008

O filme de Miguel Gomes descende de uma linhagem na qual a «música de baile» desempenha um papel de referência na moderação das altas exigências que a linhagem crítica, de Kant a Adorno, coloca à obra de arte, forçando-nos a baixar a temperatura teórica de noções operatórias que se foram transformando em imperativos («finalidade sem fim», por exemplo); a linhagem da festa e da dissolução do sujeito na experiência participada e ritualizada da arte, como aliás o cinema foi por longo tempo, das tendas de circo às vastas catedrais modernas que foram as grandes salas de cinema até aos anos 60-70. Não promete uma crítica do existente, optando antes por fazer um elenco de algumas das formas possíveis da good life; e, quando entra numa deriva meta-artística, fá-lo no regime deflacionado de quem não esquece que a arte é jogo e o jogo uma decisiva forma de vida. Propósitos modestos mas sages; e saudáveis, na medida em que dessacralizam a noção de arte que herdámos quer da experimentação moderna sobre as formas, quer da filosofia e crítica que a foi acompanhando e nos foi exigindo uma dieta tantas vezes imoderada (por mais que se goste de Straub, Godard, Peter Watkins ou Pedro Costa, quem não precisa de os alternar com Ford, Hawks, Sergio Leone ou todo o cânone B de Manny Farber?). E que o consiga fazer sem abdicar de uma frutuosa e gozosa experimentação e auto-reflexividade é a melhor medida das suas muitas qualidades, de entre as quais cumpre destacar a auto-irrisão com que enfrenta os seus problemas materiais e formais.

(more…)

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Paulo Henriques Britto (III)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 19-09-2008

Da série «Quatro Autotraduções», o primeiro e o quarto poemas:

 

SONETO SENTIMENTAL

O que você chama de amor é isso?
Essa perda do parco tempo e espaço
que ainda te restam, esse desperdício
de esperma? Esse viver sempre em compasso
de espera, sempre com o mesmo desfecho
que te faz dar o que te falta mais?
Que amor mais besta – uma espécie de peixe
palerma, que nada, nada e não sai
do lugar – é isso? Esse diz-que-diz
que não te deixa louco por um triz
e só te inspira mesmo ódio e horror?
Que te machuca tanto que no fim
não dá para perdoar? É isso? Sim,
é isso que você chama de amor.

 

SONETO SIMÉTRICO

Será o pavão vermelho? Ora, direis,
este raio não cai mais do que uma vez
no mesmo lugar – é a prova dos nove,
é Götterfunken, uma coisa arisca
só dada (e olhe lá!) a quem é jovem,
que ainda guarda em si uma faísca.
Porém, passado o mezzo del camin,
às vezes uma luz fraquinha pisca,
e é como se sumisse uma neblina
que há muito esconde uma paisagem bela.
É ela, sim – pensa você – ali, na
sua frente. Ou talvez a parte dela
que ainda lhe cabe. Encha os pulmões de ar.
Goze esse instante. Ele não vai durar.

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Aquele querido mês de Agosto (VII)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 18-09-2008

É talvez altura de reorientar a agulha da discussão, para o que me sirvo de uma palavra que Rui Bebiano decisivamente introduziu nela: dignidade. A dignidade das pessoas «retratadas» no filme, um filme em que, como diria Howard Hawks, a câmara é colocada à altura dos olhos das pessoas; a dignidade da «música pimba» nesse retrato. E porque não, se do que se trata, em Aquele querido mês de Agosto, é de recuperar, por meio do «pimba», a música (a arte) como uma «forma de vida», numa acepção que é cerradamente wittgensteiniana mas que, por isso mesmo, nos oferece toda uma antropologia da experiência estética, tal como ela, de facto, ocorre na vida de todos os dias? «Toda a música é música de baile», diz alguém, doutrinariamente, logo a abrir, acrescentando uma modalização decisiva, cuja «letra» reconstituo aproximativamente: se, e quando, executada em ambiente de arraial. Desse ponto de vista, a sequência mais extraordinária do filme é seguramente aquela em que se ouve «A casa nocturna», dos Diapasão.

Passo a descrevê-la: no início, a música está chocantemente em off, já que acompanha, sem produzir a priori qualquer efeito ilustrativo, a imagem de um javali a ser pendurado e esfolado. Podia ser cinema etnográfico, não fora a banda sonora, que falsifica o ethnos e nos remete para um fora de campo opaco e enigmático, e tão-mais quanto Miguel Gomes estica a duração desta primeira cena ao máximo. Num segundo momento, o plano é de Marante, cantando a extraordinária história desta canção moral. Aqui, como já sucedera com o javali, a câmara aperta o plano em torno do cantor, cortando-o pelo tronco e explorando corpo e performance (inolvidável, diga-se). A sequência é um daqueles momentos em que a enorme inteligência deste filme se manifesta, em boa parte ao retardador, pois só mais à frente perceberemos que a canção prefigurava já a história do pai e mãe de Tânia, ou um dos seus desenlaces possíveis (cabe-nos escolher, de acordo com a nossa constituição ético-afectiva). Mas é a construção da sequência que contém em si toda uma lição de cinema. Porque o mesmo plano apertado do javali e do esfolador, em primeiro lugar, ou de Marante, depois, produz, em função da articulação com a banda sonora, um efeito radicalmente oposto: no primeiro momento, e à primeira vista, o essencial do plano parece ser a minúcia cirúrgica do olhar da câmara que nos dá o espectáculo moroso do animal a ser pendurado e esfolado, mas de facto apercebemo-nos de que o elemento decisivo está fora-de-campo pois a música faz com que a imagem «clínica» do animal a ser esfolado choque com o pathos das palavras e da voz de Marante, o que nos deixa divididos, na fenomenologia da nossa percepção, entre imagem e som, e nos «dá a ver» o carácter factício dessa justaposição. O plano, digamos, dá-nos a ver a montagem, no seu funcionamento técnico e (ontologicamente) aberrante, coisa que muitos traduziriam, como se sabe, por «dá-nos a ver o que é o cinema»; no segundo momento, a cena primitiva do filme, o arraial, e a cena primitiva do cinema, o rosto como espelho e espectáculo da alma (imagem animada da alma, passe o pleonasmo), estão ambas contidas na canção e na performance do cantor: rosto, gestualidade, voz. É como se a performance corporal do cantor absorvesse em si todo o campo e suspendesse essa deslocação para o fora-de-campo que, sendo activada pelas palavras da canção sobre uma «casa nocturna», é contudo bloqueada pelo enquadramento que nos reconduz ao corpo e à performance nocturna de Marante. Como se, ao contrário da cena do esfolador que nos deixava perplexos pela falta de sintonia entre imagem e banda sonora, agora percebêssemos que esfolador e esfolado moram no corpo uno do cantor-artista, esse cordeiro sacrifical de todos nós – o que é talvez o mesmo que dizer que a cena primitiva do cinema vai gradualmente triunfando sobre a cena primitiva do filme, ou pelo menos sobrepondo-se a ela, já que é exactamente a essa sobreposição da alma sobre a festa que assistimos nos planos decisivos de Tânia/Sónia Bandeira como cantora do «agrupamento musical Estrelas do Alva», em especial nesse momento belíssimo em que canta «Morrer de Amor» e, ao acabar, fecha os olhos e inclina a cabeça, num tristíssimo assentimento (e nós com ela).

Em rigor, é nesta dimensão performativa da «música de baile» que mora o segredo do filme, que nos diz a todo o instante que a arte é, nos seus melhores momentos, uma coisa sem maiúscula mas, por isso mesmo, com a dignidade das (pequenas) coisas que enchem de sentido, festa e melancolia o dia-a-dia, abrindo-lhe, em certas raras ocorrências, uma dimensão insuspeita, enigmática e maior do que a vida, precisamente por estar fora-de-campo. Ou, o que dá no mesmo, por em certos raros momentos um só rosto, qual buraco negro, poder absorver e anular, numa aberração poderosa, a dicotomia campo/fora-de-campo.

Osvaldo Manuel Silvestre

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Paulo Henriques Britto (II)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 18-09-2008

 OSSOS DO OFÍCIO

O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.

Mesmo o maior esforço não adianta:
da sensação à idéia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.

Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir – e aí está o fascínio –
com a rima atravessada na garganta.

Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não é o que se canta,

mesmo porque (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta

é o trambolho que menos se agiganta
nesse percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,
depois que a rima atravessa a garganta.

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Aquele querido mês de Agosto (VI)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 17-09-2008

A sensação que tive, ao ver o filme, foi a de que ele é mais um sinal revelador do esgotamento dessa antinomia oitocentista – e de todos os modelos analíticos e metacríticos que sobre ela se edificaram, de António Sérgio a Vasco Pulido Valente, a Eduardo Lourenço e, se calhar, Boaventura Sousa Santos – e abre vias de superação para ela, a golpes de talento e (afortunado) desarrincanço. Seria talvez altura de passar àquilo que a este respeito o filme de Miguel Gomes nos ensina: que Portugal já não é cidade e serras, pois a «música pimba» não é um fenómeno definidor do «campo», sendo antes a banda sonora da nossa endémica suburbanização pós-Europa. A «música pimba», digamo-lo assim, está literalmente às portas da cidade, o mesmo é dizer, é já parte invasiva dela; é aliás, e em mais de um sentido, um produto típico da dialéctica, moderna por excelência, centro-periferia, já que boa parte dos seus autores, com Tony Carreira à cabeça, a aprendeu e amalgamou em Paris, ou «entre Braga e Paris», para parafrasear essoutro marco genial do turbo-pimba que foi António Variações e que preferia, como se sabe, Nova Iorque.

A esse título, aliás, o filme de MG envergonha os envergonhados cultores locais dos Cultural Studies, que não souberam ver, talvez por excesso de bibliografia anglo-saxónica, como o «pimba» é um muito rico e possível objecto dessa área de estudos entre nós – preferindo, por razões de uma óbvia ideologia do estético, fazer «etnografias do Bairro Alto». É isso que MG nos dá a ler na sua opção por legendar as canções do seu filme. Mas ao fazê-lo, dá-nos também a ver este «híbrido», tipicamente in-between, que é o «pimba»: canções que são muitas vezes versões (transduções, apropriações no limite do direito de autor, etc.) de canções estrangeiras, adaptadas à «casa portuguesa» mas que, por isso mesmo, debilitam a carga traumática da dialéctica centro-periferia herdada da modernidade cultural e política, na medida em que a parasitam sem vergonha; canções «em português» que, por isso mesmo, resistem ao triunfo do «International English» que se vai tornando avassalador na cena rock, ao contrário do que ocorre nesse outro híbrido suburbano que é o rap, no qual a defesa do português coincide, por vias muito travessas, com a do «pimba», e que por isso tentam recuperar uma acepção pura e plena de língua materna, que contraditoriamente a própria natureza deste híbrido musical «traduzido» põe em causa.

Não vale, pois, a pena apelar a estratégias brechtianas como terapia para a viscosidade do «pimba», que estaria pela viscosidade deste «bom povo» (mas o problema é que este quadro analítico é por completo ignorado pelo filme de Miguel Gomes). Devíamos agradecer, creio, a Miguel Gomes por ter resistido a recorrer ao bónus de boa-consciência que o brechtianismo sempre disponibiliza a quem decida envergar as suas grossas dioptrias. Aliás, o brechtianismo é de há muito uma produtiva estratégia do discurso publicitário – naqueles casos, muito frequentes, em que a publicidade dá a ver a sua estratégia, partilhando connosco a sua inteligência e tornando-nos apetentes do consumo de um produto caucionado por uma inteligência desdobrada e quase transcendental – ou de formas híbridas, entre arte e publicidade, como os vídeo-clips. Warhol, como sabemos, deixou bem clara a ilusão e esterilidade de uma posição brechtiana no capitalismo tardio e nisso mesmo, ou seja, nessa estratégia viscosa e apática, residiu grande parte do seu génio e da sua incomodidade para a crítica mais modernista ou brechtiana (o que neste caso significa o mesmo). E também não me parece que esse putativo brechtianismo ilibe um Nanni Moretti de contaminações, digamos, «pimba». Que eu saiba, Flashdance, que Moretti imortaliza em Querido Diário, recuperando memoravelmente Jennifer Beals bem antes de A Letra L, foi no seu tempo coisa pimba e é duvidoso que tenha deixado de o ser (e idem para os Abba, apesar dos delírios Queer, e da vampirização deles por Madonna, ou por causa disso mesmo – a não ser que, abonados em Susan Sontag, concedamos ao Camp o privilégio, digno de um transcendental, de uma irrestrita autoconsciência, privilégio que ao mesmo tempo não admitimos conceder ao «pimba», vá lá saber-se porquê); e, ainda em território morettiano, como esquecer o clímax de Palombella Rossa, a piscina esvaziando-se para toda a gente acorrer a uma TV no bar e aí assistir, de lágrima ao canto do olho e numa recuperação do vibrante modo comunitário do cinema clássico, ao culminar do pastelão em que David Lean transformou Doutor Jivago? Mas sobretudo, este modelo de análise, que desejaria que o filme nos oferecesse o objecto e a indispensável crítica, continua refém daquela antinomia atraso/reencantamento, antes referida, e típica da dialéctica moderna. Para a qual, se isto é o povo, então a única conclusão aceitável seria a de que ele continua muito necessitado de Luzes (aqui e no Alasca, em Minas Gerais e na Provença e em todo o lado e para todo o sempre, seria caso para dizer). Embora, logo a seguir, se confesse – o que eu seria incapaz de fazer – que um filme destes só não é perigoso para mentes avisadas e vigilantes. Leo Strauss diria, muito a propósito, que mais uma vez se aprende como as Luzes se devem derramar com parcimónia sobre a plebe…

Dir-se-á que evito a questão da inautenticidade desta música, cuja performatividade não poderia por isso não ser inautêntica. Na verdade, não tenho tratado doutra coisa. Mas, nesta área, convinha distinguir entre o autêntico em sede artística e o autêntico em sede estética. Ora, desta segunda perspectiva, o «pimba» é, neste filme, tão autêntico, nos efeitos – afectivos, éticos e estéticos – que desencadeia no seu público quanto o rap nas periferias lisboetas em que por seu intermédio se vai reinventando o gangsta norte-americano, o rock na cena urbana e suburbana nacional que se deseja ou «anglo-americana» (e não só, como se constata no momento em que o filme nos apresenta uma banda gótica ensaiando na garagem, creio que em Oliveira do Hospital), o fado no seu locus lisboeta manhoso, hoje recodificado em «world music chic», ou o canto alentejano no seu contexto patriarcal e machista. É uma questão de escolher, na nossa alma, entre as versões do autêntico promovidas por cada uma destas formas musicais… Porque em sede estética autêntico e inautêntico são função de contexto e uso, o que contudo não obvia a situações de pluralismo ou «jogo», na acepção schilleriana, com as nossas próprias reacções estéticas. Posso lacrimejar num melodrama por causa da mais-valia afectiva trazida por uma canção a uma cena, sem que isso signifique que essa canção se torne esteticamente importante para mim ou ponha em causa o meu gosto: o que isso significa é que a canção desencadeou em mim uma catarse que sem ela seria mais difícil, pelo que fico, momentaneamente ou não, em dívida para com ela (o que me acontece sempre que vejo Música no Coração e a muitos, que não a mim, com a canção de Casablanca). Posso sair deste filme a cantarolar Dino Meira (no meu caso aconteceu-me com «Morrer de Amor» de José Cid, aliás uma boa canção), sem que isso signifique mais do que a admissão de que a nossa relação com as artes não se processa necessariamente, ou sempre, por intermédio de «belas formas» ou de «formas autocríticas». E isto, receio bem, não é grave mas simplesmente recorrente ou banal, com toda a dignidade implícita nas coisas recorrentes e banais. Aquelas coisas «a que damos uso».

Osvaldo Manuel Silvestre

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Paulo Henriques Britto (I)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 16-09-2008

Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro em 1951. É um dos mais conceituados poetas contemporâneos do Brasil (e um dos mais pessoanos), tendo conquistado com o seu livro de 2003, Macau, o prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. É ainda um renomado tradutor de literatura anglo-americana, tendo traduzido já E. L. Doctorow, Henry James, V. S. Naipaul, Thomas Pynchon, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Don DeLillo, Nadine Gordimer, John Updike, William Faulkner, Ted Hughes ou Philip Roth. É professor na PUC Rio. Os poemas que, com a devida vénia, passo a transcrever integram a sua última colectânea, Tarde (2007, Companhia das Letras).

 

O METAFÍSICO CONSTIPADO

Não há epifanias nesta noite,
nem escatologias sob a mesa.
O caco de lua que a janela emoldura
dispensa pretensões a inteireza.

Mas diante de tal ânsia de infinito
como pode tão pouco ser bastante?
aos céus ele pergunta, e na terra procura
um bom compêndio e o frasco de purgante.

 

Osvaldo Manuel Silvestre

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Aquele querido mês de Agosto (V)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 16-09-2008

É curioso constatar como toda a crítica das Viagens na minha terra, desde a data da sua publicação até hoje, parte do pressuposto de que a obra existe para responder a uma pergunta que Garrett a si mesmo colocaria e que, podendo ser desdobrada em duas versões, é de facto uma só. Essa pergunta é, na versão I, «O que é o povo?» e, na versão II, «Onde está o povo?» A pergunta, um caso típico de dois em um, é toda uma vastíssima questão romântica – estética, filológica, política e filosófica – e, precisamente por ser obviamente romântica e por bater certo com o perfil do autor e da obra, é, a meu ver, a maior armadilha dessa obra maior da nossa literatura (e da nossa teoria cultural e política). Por outras palavras, que aqui não desenvolverei, é uma ilusão de leitura que no entanto foi produtiva durante século e meio de exegese da obra. Ora, é para mim muito curioso que a reacção ao filme de Miguel Gomes tenha reproduzido os exactos termos da história da produção, desenvolvimento e esgotamento deste modelo de leitura das Viagens, de Garrett, que é também todo um modelo de leitura da nossa modernidade.

Claro que a solução mais fácil, para não dizer primária, para os problemas agenciados por uma obra em que a personagem principal só com muita dificuldade – a dificuldade de um míope – consegue progredir até Santarém, não encontrando aí, de facto, o povo mas a tradução do seu Geist em monumentos fundacionais que são ruínas e vice-versa (reporto-me à leitura hoje mais «avançada» da obra, também ela devedora daquela pergunta), consistiria em reconhecer nela um diagnóstico implícito de modernização falhada e atraso, diagnóstico que será exactamente o que a geração de Eça de Queirós, do alto da arrogância de quem possui a dromologia do comboio, produzirá, três décadas mais tarde, elevando o atraso ao estatuto de categoria explicativa de toda a cultura portuguesa desde, digamos, 1580. A dificuldade em amar uma pátria atrasada e, até há pouco tempo, uma reserva de pitoresco para estrangeiros, é uma das heranças mais traumáticas dessa analítica que, porque produzida na imprensa – entre as farpas jornalísticas e os folhetins romanescos de Eça – se auto-reproduziu e multiplicou, ao sabor das revoluções tecnológicas nos média, por todo um século (quem duvida da sua pervivência, leia Vasco Pulido Valente, ou os seus avatares Filomena Mónica, António Barreto, etc.; quem queira certificar-se do seu esgotamento, leia também VPV). Pior ainda, esta analítica legou-nos uma antinomia, naturalmente avessa a qualquer dialéctica, entre atraso e reencantamento (o produzido por retornos como o de A Cidade e as Serras).

Não é seguramente culpa de Miguel Gomes que perante esta constituição do nosso campo cultural (outros diriam «identitário»), o seu filme tenha de ser lido ou como irónica, paródica ou cínica denúncia do atraso – o do campo e dos campestres que bailam ao som de Dino Meira – ou como apelo mal-disfarçado ao reencantamento, como quem passa da Vichyssoise aos rojões e admite que prefere, e no fundo sempre preferiu, os últimos e pode enfim confessá-lo «sem complexos», à imagem de um dos muitos talk shows televisivos em que se apela, de forma politicamente não-inocente, a que «o povo» se mostre «sem complexos», como se o povo só pudesse ser realmente mostrável em registo dessublimado, esse que coincidiria naturalmente com a sua alma – que, ao ser exibida, se afastaria vertiginosamente da ‘nossa’.

Osvaldo Manuel Silvestre

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O exemplo que chega do Brasil

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 11-09-2008

A decadência das incorrectamente chamadas «livrarias tradicionais» – e que se deviam chamar simplesmente «grandes livrarias» – parece atingir o seu ponto mais espectacular com o caso da Buchholz. Nada tenho a acrescentar ao post de Francisco José Viegas, que resume bem a minha ambivalência em relação à livraria, se bem que, na minha qualidade de não-habitante de Lisboa e de pessoa pouco impressionável com snobeiras ou maus-tratos a clientes, nunca tenha mantido uma relação «afectiva», para bem ou para mal, com a livraria. A minha livraria portuguesa era a Leitura, na Rua de Ceuta, no Porto, em tudo superior à Buchholz (e dou de bónus, no rol das vantagens, o atendimento com «pronúncia do Norte»). Lembro, por exemplo, como quem evoca um tempo dinossáurico, a secção de poesia, muitíssimo actualizada em edições nacionais e estrangeiras e com um fundo sem par em Portugal. Os livros estrangeiros (antes da Amazon…), idem. Infelizmente, visitei-a neste Agosto, coisa que me arrependo de ter feito, pois a livraria de que falo, e que frequentei fielmente durante 15 anos, já não existe: agora, é mais uma livraria de «rede». E surpreende-me, aliás, no tom de «vingança tardia» da maioria dos posts sobre a crise da Buchholz, que se exalte o bom atendimento das livrarias das redes, quase sempre função de um terminal de computador actualizado e pouco mais, mas que se não refira o vazio e banalização crescente desses espaços que já só vão sendo livrarias nominalmente. Como Francisco José Viegas, não consigo exaltar-me com a morte das grandes livrarias do passado.

Regressado há pouco de uma breve viagem ao Rio de Janeiro, não pude deixar de ser sensível ao contraste. O panorama da edição brasileira, que se vinha alterando qualitativamente desde há uns 15 anos, é hoje impressionante e muito superior ao nosso, em qualidade de títulos e de edições. Nenhuma editora de referência se especializa em romances internacionais sobre nada, a ritmo frenético, como por cá várias fazem. Pelo contrário, uma editora como a Martins Fontes parece não abdicar de uma linha de alta exigência nas ciências humanas – filosofia, direito, neste caso com grande parte em tradução dos grandes pensadores actuais da disciplina (coisa que por cá não ocorre nas editoras de direito) – e na literatura.  Uma editora como a Cosac & Naify, no seu cuidado material e inventiva gráfica, não tem equivalente entre nós (e poucos terá no mundo inteiro). A colecção de bolso da Companhia das Letras, «Companhia de Bolso», desenhada por Jeff Fisher, está graficamente a milhas das que se editam entre nós. E os exemplos poderiam suceder-se, quer nas grandes editoras quer nas «alternativas», tal o salto qualitativo que a cada ano se nota. Nas livrarias de referência do Rio – começando pela da Travessa – é possível ver uma proporção «livros-lixo impresso» absolutamente inversa à que tomou conta das nossas livrarias. Ou seja: há ainda livrarias (e aliás, em que livraria de aeroporto é cá possível comprar, como comprei à saída, livros equivalentes a este ou este?). A ficção, a poesia, o teatro, as artes permanecem em lugar de destaque. As Humanidades não desapareceram ainda das livrarias, quer porque as grandes editoras continuam a publicar na área, quer porque existem no Brasil as imprensas universitárias que por cá nunca houve. E o atendimento é feito por jovens que não só são cordiais como quase sempre sabem realmente do que falam (a mim, um tentou convencer-me a não comprar o volume 3 da obra sobre o «controle do imaginário», de Luiz Costa Lima, com o argumento de que, na nova edição num só volume, que eu deveria antes adquirir, o autor tinha redisposto os textos e reescrito boa parte…). Finalmente, nos quiosques é possível encontrar 5 ou 6 publicações sobre livros, entre os modelos da LER e de Os Meus Livros – Bravo, Cult, Discutindo Literatura, Biblioteca entre Livros, Livros & Literatura, etc. -, umas 2 ou 3 sobre filosofia, várias sobre história e ainda sobre sociologia, artes, etc. E ainda vários programas sobre livros na TV, nos canais por cabo. Único senão? Aquele que por cá também conhecemos muito bem: os livros não são baratos, em boa medida porque as tiragens não aumentaram (ainda) na proporção do brutal crescimento da universidade pública sob o consulado de Lula, pelo que o mercado brasileiro tem ainda fortíssimas distorções. E note-se, en passant, o facto de na universidade não faltarem alunos na área das Humanidades e, mais especificamente, nas Línguas e Literaturas. Para quem não saiba, convém esclarecer que se ensina hoje muito mais literatura portuguesa no Brasil do que em Portugal: basta notar que a literatura portuguesa é curricular em todos os cursos de línguas e literaturas, o que nem sequer acontece cá, em que ela é apenas obrigatória em Estudos Portugueses (e nem é bom pensar na ausência de reciprocidade no que toca ao ensino da literatura brasileira cá); esta situação não se limita aliás à universidade, e daí o facto de todas as grandes editoras terem Camões, Gil Vicente, Pessoa, Eça, etc. nos seus catálogos.

Ilações? Sobretudo uma: o mundo não se esgota todo em Londres e Nova Iorque, como a intelligentsia local hoje pretende (porque Paris, como sabemos, «já era»). Há mais mundo, ou seja, há mais com quem aprender. Porque, sobretudo, o mundo não tem de fazer todo a mesma caminhada rumo ao vazio. O que está a acontecer no panorama editorial e livreiro português não tinha de acontecer, tanto mais que o Brasil, por défices estruturais no domínio da educação, não é um exemplo assim tão distante do nosso. Os brasileiros, porém, sem abdicarem da lógica do mercado, estão a conseguir um equilíbrio entre mercado e exigência que por cá passa já por «candura de intelectuais» (ou, pior, de «elitistas»), exactamente por não perderem de vista a dimensão cultural, e por isso socialmente estratégica, do livro. E isto acontece num país que por cá muita gente gosta de representar como «um caso perdido» onde, supostamente, não existiria um espaço público digno desse nome. O que tudo isto significa é que o nosso lugar na cauda das nações civilizadas, que em nenhuma área é tão nítido como na cultural, está em vias de ser assegurado por longo tempo. Pelo caminho que as coisas levam, amanhã não será certamente a véspera de o abandonarmos.

Osvaldo Manuel Silvestre

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A nossa representante no Jabuti

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 03-09-2008

Alguns blogues, e alguma imprensa, referiram o facto de no Brasil ter sido apresentada recentemente a lista dos candidatos ao Prémio Jabuti, agora na 50ª encarnação, e que, como reza a sua assinatura publicitária, está «Desde 1959 premiando os melhores talentos da literatura brasileira». Sendo o prémio mais prestigiado no Brasil, o Jabuti reparte-se hoje por 20 categorias, das quais o romance, a poesia, a literatura infantil, levam a parte de leão da atenção dos média, lá como cá.

Surpreende-me, porém, que as referências que por cá surgem à publicação da lista não venham acompanhadas do justificado destaque pelo facto de a lista integrar uma obra de autor português. Ou melhor, de autora portuguesa, já que se trata de Maria Irene Ramalho Sousa Santos, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e do seu livro Poetas do Atlântico. Inicialmente publicado nos EUA, em 2002, sob o título Atlantic Poets: Fernando Pessoa’s Turn in Anglo-American Modernism (com uma bela capa de Manuel Portela), o livro foi editado no Brasil, pela imprensa da Universidade Federal de Minas Gerais, com o título Poetas do Atlântico, e será em breve posto à venda entre nós, com o selo da Afrontamento. É este livro, cuja importância para os estudos pessoanos é difícil escamotear, que se encontra na lista do Jabuti, na categoria «Melhor livro de teoria/crítica literária», ao lado de obras de alguns dos nomes mais importantes da disciplina no Brasil. Se somarmos a este destaque o facto de Irene Ramalho ter sido ainda este ano premiada com o «Mary C. Turpie Award», da American Studies Association, facilmente perceberemos que não se trata nem de um livro nem de uma autora qualquer.

É certo que Pessoa, e bem assim o projecto intelectual de o «integrar» no modernismo anglo-americano em que a sua obra faz mais sentido do que até aqui supúnhamos – projecto ao qual a autora votou longos anos da sua dedicação pessoana -, não é tão excitante quanto, sei lá, o impacto de José Luís Peixoto, e mesmo de Luís Miguel Rocha (cujo romance prelatício, segundo li em Isabel Coutinho, foi traduzido para inglês a partir da versão espanhola, o que seguramente não o terá prejudicado) no vasto mundo, ou seja, nos EUA. Mas há alguma coisa de desgostante na forma como os média se limitam a reproduzir a própria ordem mediática em que se movem, sem qualquer intervenção selectiva e crítica sobre os dados que lhes chegam. Por que diabo temos nós direito a toda uma abundância de pormenores «informativos» sempre que mais um medíocre escritor português é editado, por exemplo, no Brasil – o que ultimamente vem acontecendo com certa intensidade -, e por que carga de água ninguém refere o facto de, no país que, como nenhum outro, naturalizou Pessoa na sua cultura, da erudita ao samba, um dos mais importantes contributos para os estudos pessoanos nos últimos anos ser reconhecido ao ponto de integrar a lista do Jabuti? A resposta é simples: porque, nos média, ninguém perdeu tempo a percorrer o que ficava para lá do romance. O mesmo é dizer: o que ficava para lá do Star System. Ou, se se preferir, do mercado.

Osvaldo Manuel Silvestre

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