Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Gustavo Rubim

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quarta-feira, 17-12-2008

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Gustavo Rubim é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem-se dedicado sobretudo à reflexão e crítica sobre poesia, detendo-se em especial no período moderno e nalgumas figuras maiores: Pessanha, Pessoa, Herberto. A Pessanha, sua referência central, dedicou o livro Experiência da Alucinação (1993), premiado pelo PEN Clube, e vários outros ensaios dispersos pelos seus outros livros: Arte de Sublinhar (2004) e o recente A Canção da Obra (2008). Preparou ainda uma edição de Clepsydra para o número 155/156 da Colóquio/Letras. Preparou edições de outros autores e traduziu, sobretudo na área do teatro. Agradecemos a Gustavo Rubim a resposta empenhada que nos fez chegar.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Em meu entender, o que o século XX trouxe de mais evidente foi um grande sismo na ideia do que seja ou possa ser um «livro», mesmo que se trate de um «livro de ficção», facto que não me parece pressuposto nem nos termos desta pergunta nem nas linhas de orientação fornecidas aos respondentes. Mas o século XX trouxe ainda outra coisa, ao menos ao meu olhar (pelos vistos) anacrónico: aquilo a que Barthes chamou «escrita», quer dizer, uma prática única onde ficção, poesia, ensaio, teatro e o mais se contaminam e se ilimitam mutuamente. A conexão destes dois movimentos inseparáveis (que, só por si, geraram, nas imediações da chamada «ficção», espectaculares ruínas textuais como o Livro do Desassossego) com, ainda, a dissolução da ideia romântica de literatura nacional — deu cabo da possibilidade de designar, sem ironia mais ou menos óbvia, «o melhor livro» do que quer que seja (por outras palavras, deu cabo daquilo a que se chamava «crítica literária»). Vale a coisa, portanto, por um certo jogo com regras, no fim de contas, bastante incertas. Apostando, com precisão e alegria, nessa incerteza, aceito jogar desde que seja eu a definir as regras. Por exemplo, se for de facto «em meu entender», coisa que só eu entendo ou não me ralo nada que os outros desentendam, então o «melhor livro de ficção portuguesa do século XX» são dois: Nome de Guerra, de Almada Negreiros, e Pequenos Burgueses, de Carlos de Oliveira. A extraordinária prosa do 1º capítulo de cada um deles basta para «porquê». Se for ainda «em meu entender» mas já num plano em que se os outros não entendem é porque se calhar são burros, então o «melhor livro de ficção portuguesa do século XX» é o Húmus, de Raul Brandão. Se for num «meu entender» bastante preocupado com o «entender» de outros cujo juízo me afecta sempre, então o Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, está bem perto de ser o «melhor livro etc. e tal». A quem achar que são demasiadas hipóteses para poucas conclusões, ainda acrescento que isto é deixar de fora a) os «livros» de um dos maiores «ficcionistas» do século XX em português, chamado Manuel de Lima (Um Homem de Barbas e outros contos vale por todos os «porquês» concebíveis); b) todos os «livros de ficção portuguesa do século XX» que não li; c) um livro de «ficções» de um escritor vivo que, por essa razão, fica fora deste jogo para não entrar em desvantagem na competição com os mortos.

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Manoel de Oliveira: Coup de chapeau

Posted in Efemérides by OLAMblogue on Sexta-feira, 12-12-2008

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Uma certa recodificação da periferia cultural portuguesa aprecia denunciar a França e a sua «decadência». Um dia depois dos primeiros 100 anos de Manoel de Oliveira, nada como um exemplo da pertinência oca desse gesto pavloviano: a homenagem que os Cahiers du Cinéma fizeram, na p. 9 do seu último número, ao cineasta, sob o título «Coup de chapeau». Transcrevemo-la, traduzimo-la e oferecemo-la como exemplo daquele espírito de hospitalidade que sempre distinguiu a França que verdadeiramente importa. Neste momento, aliás, tão simbólico para o cinema português, convirá não esquecer a que ponto Oliveira é uma «invenção» francesa (como, depois dele, César Monteiro ou Pedro Costa; e, antes, Amália). Por outras palavras: aprendamos com os outros a não sermos avaros para com a grandeza, sobretudo quando ela é também, de algum modo, nossa.

Manoel de Oliveira tem cem anos. Bom aniversário, amigo Manoel.

Se aproveitamos esta ocasião para lhe endereçar esta saudação, não é tanto pelo motivo deste estado civil mas porque esta longevidade é a de uma aventura excepcional, e sempre activa. Aos 22 anos, Oliveira realiza um dos últimos muito belos filmes do cinema mudo, o experimental Douro, Faina Fluvial. Dez anos mais tarde, assina um inesquecível filme neo-realista, Aniki-Bobó, quando o termo nem sequer ainda existia. Com Acto da Primavera, reinventa a aliança do documentário e da ficção, do povo e do espírito. Pouco depois, a Revolução dos cravos arruína-o, e liberta-o. Desde essa altura, não pára. Não pára de pôr em causa, filme após filme, o teatro e a pintura, as imagens e as palavras, o romance e o ensaio, os corpos das estrelas e dos desconhecidos, as línguas de cá e de algures, de ontem e de agora, as canções, os textos sagrados, a grande história e todas as pequenas. O cinema de Oliveira é uma inesgotável máquina de pôr em causa, em crise e também de irrisão. As suas personagens são Madame Bovary, o papa e Krutschev, Chiara de Clèves, o telemóvel, o padre Las Casas, Job no seu monturo, um actor que representa Joyce, uma casa de infância, o diabo, Dostoievski, o paquete da civilização europeia, as vinhas do Douro, a Bíblia, os reis-fantasma e os militares perdidos do seu país. Mulheres, cavalos, Maria-das-sete-espadas, crianças, a roda da caleche que conduz à morte de um poeta, e a cinza do charuto. É isto que celebramos hoje, esta torrente impetuosa e incansável, que não cessa de escavar novos leitos: o aniversário de um homem, mas sobretudo uma festa para o cinema.

Os Cahiers

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Inquérito OLAM: Luis Maffei

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quarta-feira, 10-12-2008

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Luis Maffei é Professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense (Niterói/ Rio de Janeiro). Concluiu, em 2007, seu Doutoramento, que resultou na tese Do mundo de Herberto Helder. É membro do Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Como poeta, lançou, em 2006, A, seu livro de estréia, e, em 2008, Telefunken. Para a editora Oficina Raquel, coordena a série Portugal, 0, dedicada à nova poesia portuguesa, que editou no Brasil antologias de Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Luís Quintais e Pedro Eiras. Como ensaísta, escreve freqüentemente para periódicos de literatura, tendo textos em revistas como Telhados de vidro, Diacrítica, Camoniana e Metamorfoses.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

O Delfim, de José Cardoso Pires. Poucas vezes, na história da ficção portuguesa (e não só), uma obra logrou ser tão absolutamente vária. O Delfim é muito: romance político sem ser ingênuo ou panfeltário; romance com tintas policiais sem ser, é evidente, refém de traços banais desse gênero; romance de finíssima construção de personagens sem que eles, jamais, deixem de dizer outras coisas, metaforicamente, simbolicamente, e, digo sem receio, poeticamente. E bastante mais.

Justamente agora, enquanto respondo a este inquérito, espreito minha estante de livro e procuro com os olhos meu exemplar do romance. Dou-me conta de que está emprestado a um grupo de estudantes. Ocorrem-me, de imediato, os pequenos dramas que esses jovens têm confrontado, sobretudo a partir da idéia, ainda vigente em certos leitores sem muita experiência, de “entender o texto”. Eles, decerto, poderão entender O Delfim, desde que se lancem a essa aventura com novos olhos. Foi o que fiz, há muitos anos, quando o li pela primeira vez, ainda nos tempos de Faculdade. Sem exagero, posso dizer que aquela leitura representou para mim um rito de passagem.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Poesia Toda, de Herberto Helder, edição de 1996, que ainda traz algumas traduções/ mudanças para o português. Porque a poesia herbertiana é poderosa, no âmago e na relação com o mundo. Porque se trata Herberto de um dos maiores poetas de todos os tempos, em qualquer língua – e Herberto, sabemos, é um dos poetas portugueses do século XX a se aproximar mais agudamente da idéia de um idioma pessoal no português, o que sempre foi notável, mas fica explícito no recentíssimo A faca não corta o fogo. Porque essa poesia é uma explosão romântica em recorrências barrocas, um gesto moderno e antigo, um lugar de expansão inesgotável. Porque a morte e a vida, ali, se acham magicamente imbricadas num processo contínuo enquanto tragicidade e descontínuo enquanto música, ou vice-versa. E por muitas outras razões.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

No caso da primeira questão, se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», eu responderia Livro do desassossego, de Fernando Pessoa/ Bernardo Soares – já que entendo aquilo como livro de ficção, é claro –, por se tratar não apenas de uma intensa exploração dos territórios da escrita, mas também por ser um texto fundador, que ressoa em muitíssima literatura portuguesa posterior – e ainda segue a ressoar. No caso da segunda questão, minha resposta seria a mesma.

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Inquérito OLAM: José Emílio-Nelson

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 05-12-2008

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José Emílio-Nelson é poeta, com obra iniciada em 1979, com o livro Polifonia, e poesia recolhida em 2004, no volume A Alegria do Mal, prefaciado por Luis Adriano Carlos. O seu livro mais recente é Bibliotheca Scatologica, de 2007. Agradecemos ao autor a disponibilidade revelada para responder ao nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, na terceira versão (minha opção depois do cotejo das anteriores versões). Pelo plágio contínuo, decifrável e indecifrável, com que o romance queirosiano absorve e se valoriza e simetricamente responde a Flaubert, a Zola e a Balzac. Pela intencionalidade ideológica iludida, em que a satisfação exaltante da modelação literária se sobrepõe a qualquer recategorização de romance à clef.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

O melhor da poesia do século XX: Mensagem de Fernando Pessoa (na grafia «antiquada» da primeira edição). Pela perfeição formal (analógica a Camões e paradoxalmente de «correcção») que trespassa a Mensagem e a incorpora no senso/contra-senso nacionalista «místico» «e até em contradição com isso, muitas outras coisas» (Fernando Pessoa). Porque a sua (imperial) ideia poética («nada» «que é tudo»), com o kitsch comum a todas as ilusões salvíficas, é «sebastianista». E é nessa instância (de refundição metafórica da poesia) que Mensagem se reafirma como o livro mais simbólico (conceptual e intelectivo) do modernismo poético.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Se se perguntasse «qual o mais importante» livro de ficção do século XX, responderia: Sedução, de José Marmelo e Silva (1937). Pela importância da subversão dos cânones à época instalados, através da rejeição de todas as ortodoxias (da escrita/ ideológicas). Sedução, no índex do regime fascista, conduz-nos por uma anamorfose: as distorções ficcionais desdobram-se até «Adenda» com que finaliza (e reabre) a ficção, alongando-a com essa «dobra» para uma segunda leitura através de um discurso duplamente censório da própria realização ficcional acabada (uma vez que essa coda a completa) e da (re) interpretação (assumidamente cínica, a contrario) acerca das interdições morais da sexualidade ou outras.

Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante» livro de poesia do século XX, a minha resposta seria diferente: Peregrinatio Ad Loca Infecta, de Jorge de Sena (1969). O postulado que o título antecipa, oferece a síntese (da contemporânea) peregrinação poética, simultaneamente arte menor e arte maior como é o Mundo. Peregrinatio Ad Loca Infecta, peregrinação de vivências e peregrinação compulsiva de erudição, conjuga a razão (surpreendentemente judicativa) e a imaginação numa contiguidade esplêndida de perfeição.

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Os 100 anos de C. Lévi-Strauss: Hermínio Martins

Posted in Efemérides, Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 28-11-2008

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Hermínio Martins foi professor nas Universidades de Leeds, Essex, Harvard, Pennsylvania e Oxford, e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Autor dos livros Hegel, Texas e outros ensaios de teoria social e Classe, Status e Poder e outros ensaios sobre o Portugal contemporâneo; organizou o livro Knowledge and Passion – essays in honour of John Rex; co-organizador de Scientific Establishments and Hierarchies, Max Weber’s Science as a vocation, Debating Durkheim, A Morte em Portugal e Dilemas da civilização tecnológica. Publicou ensaios sobre federalismo, teoria social, epistemologia e o papel actual da ciência e da tecnologia, em revistas e colectâneas académcias. Agradecemos a Hermínio Martins a gentil colaboração nesta evocação de Claude Lévi-Strauss no dia em que comemora um século de vida.

OLAM: O que representa para si Claude Lévi-Strauss, hoje?

Se, para Bergson, o Homem seria uma “machine à faire des dieux”, para CLS, parafraseando essa visão, o Homem pode ser visto como uma “machine à faire des mythes” (embora não só, claro: também é natural que produza ciência, que por sua vez se espelha em mitos). Se professou a fé materialista, neurológica, a sua apreciação da nebulosa mitopoeica é rarissima entre os materialistas hodiernos “eliminacionistas”, os neurofilósofos da identidade (na versão forte da type-identity) do cérebro e da mente, para os quais a psicologia de senso comum teria que ser rejeitada completamente ab initio (como todos os modos de experiência e cognição não-científicos). Note-se que, crucialmente, a nota de reflexividade qualificaria a tese da “machine à faire des mythes”, pois se criamos os mitos, também é verdade que “les mythes se pensent en nous” (CLS foi um mestre da reflexividade: mais do que uma questão de estilo, o reflexivo joga na sua obra um papel homólogo ao do quiasmo no pensamento de Merleau-Ponty). Nesta vertente, a sua obra insere-se na grande tradição de pensamento ocidental sobre a função simbólica, de Vico, Schelling e Cassirer, património da antropologia filosófica transcultural. Toda a sua reflexão, segundo o próprio autor, se concentra na problemática de “l’ esprit humain”, os seus invariantes funcionais e ao mesmo tempo toda a diversidade imprevisível e precária das suas realizações: daí que, apesar de tudo, foi, de longe, o mais humanista dos estruturalistas. Como se vê também quando afirma que devemos recuperar o Direito Natural para a conservação comum de todos os povos. A sua obra escapa à aridez, estilística e conceptual, ao “pathos metafísico” caracteristico de tantos mestres antihumanistas franceses do último quartel do século XX, e pode-se ler e reler com proveito depois da ressaca niilista, sem falar do prazer estético da sua linguagem e da arquitectura musical de alguns dos seus trabalhos, numa época em que a escrita e a reflexão académica padecem tanto de amousia.

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Os 100 anos de C. Lévi-Strauss: Filipe Verde

Posted in Efemérides, Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 28-11-2008

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Filipe Verde é professor no Departamento de Antropologia do ISCTE e investigador do CRIA-CEAS. A sua pesquisa mais recente centrou-se num contexto clássico da etnografia ameríndia, os Bororo (Brasil), sobre os quais publicará em breve o livro O Homem Livre, e na teoria e epistemologia da Antropologia. Agradecemos a Flilpe Verde a sua disponibilidade para colaborar nesta evocação de Claude Lévi-Strauss, no dia dos seus 100 anos.

OLAM: O que representa para si Claude Lévi-Strauss, hoje?

Para mim C. Lévi-Strauss representa as horas e horas que ao longo de anos passei com os seus livros na mão, tentando perceber o que raio nos queria ele dizer para assim poder explicá-lo aos meus alunos. Representa também o rumo que o meu trabalho de investigação seguiu, porque quanto mais entendia o que ele dizia mais ia percebendo que não era nada daquilo que eu queria dizer. Os aficionados de Lévi-Strauss produziam então um trabalho que me parecia estéril e absolutamente destituído de relevância cognitiva – uma espécie de exercício cabalístico pelo qual, sempre idiossincraticamente e por recurso ao vocabulário da linguística de Saussure, se convertiam sintagmas em paradigmas, inventariavam códigos e as suas permutações, oposições, correlações e transformações, para depois, no fim de tudo, serem trazidas à luz “estruturas mentais universais” que se espremidas se revelavam tão rígidas e secas como uma noz. Para os estruturalistas o jogo de olhar para uma cultura e dispor assim os seus elementos justificava-se a si mesmo, absortos em baralhar e rebaralhar o baralho dos códigos distraíam-se da pergunta que tinham de colocar para poder abandonar a sua compulsão: para que serve fazer isso?

E no entanto, como se fosse preciso dizê-lo, a obra de Lévi-Strauss é uma obra clássica da antropologia, que marcou um tempo, um modo e um estilo de a praticar, é uma obra genial. Não fora o génio do seu autor, provavelmente a mais ninguém ocorreria sequer começar a percorrer os caminhos que Lévi-Strauss dir-se-ia percorreu até ao ponto mais distante, ou mesmo excessivo, a que ele conduz. O estruturalismo foi uma magnífica experiência antropológica, que incendiou polémicas, alargou enormemente os domínios da curiosidade etnográfica e acabou por contribuir, reactivamente, para apontar os caminhos futuros, mais interpretativos, politizados e radicalmente pós-objectivistas, da antropologia – gostar ou não gostar desses novos caminhos e julgar os méritos de os percorrer ou não percorrer é outra coisa, porque entretanto já se virou uma página da história da disciplina. O estruturalismo antropológico, que dir-se-ia não poderia ter saído da cabeça de mais ninguém senão de Lévi-Strauss, (e que em certo sentido com ele se confunde e a ele se resume) foi a manifestação do que os românticos chamavam génio, como aquele que através de um visão íntima e em última análise incomunicável produz as obras nas quais o mundo é iluminado de uma forma própria, tão própria que no-lo revela em termos que de outro modo nunca chegaríamos a ver. Mas resta sempre, claro, saber se é verdadeiro o que assim vemos.

O estruturalismo ficou para trás por boas razões: pela sua inatenção às dimensões fenomenológicas da cultura; pela sua negação da dimensão interpretativa do conhecimento antropológico; pela visão estreita da ideia de linguagem que tomou como guia; pelo seu pan-logicismo de proporções hegelianas; pela fundamentação da sua metodologia numa filosofia (um idealismo materialista, ou materialismo idealista, tanto faz) muito dúbia ou, pelo menos, muito, muito apressada.

E daqui a 100 anos? Fica aqui um vaticínio. A sua obra antropológica estará há muito esquecida e será apenas alvo da curiosidade de historiadores das ideias, que o são justamente porque lêem o que já ninguém há muito lê. Mas Tristes Trópicos ainda serão editados e lidos, um memorial de paisagens humanas fascinantes há muito desaparecidas e do talento literário do seu autor – de que celebramos o prémio maior de uma interessante e longa vida, um século de vida.

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Os 100 anos de C. Lévi-Strauss: Francisco Vaz da Silva

Posted in Efemérides, Inquérito by OLAMblogue on Quinta-feira, 27-11-2008

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Francisco Vaz da Silva ensina antropologia e folclore no departamento de antropologia do ISCTE, em Lisboa. Trabalha sobre representações simbólicas numa perspectiva comparativa. Se lhe perguntassem, diria que o mais recente estado das suas ideias está impresso num livro chamado Archeology of Intangible Heritage (New York: Peter Lang, 2008). Agradecemos a Francisco Vaz da Silva a disponibilidade que revelou para colaborar connosco nesta comemoração do centenário de CLS.

OLAM: O que representa para si Claude Lévi-Strauss, hoje? 

A ÚLTIMA PALAVRA

Há Lévi-Strausses para todas as ocasiões, agendas e gostos. Hoje Lévi-Strauss é para mim, num sentido muito real, Lévi-Strauss em mim. A sua obra suscitou-me uma tal efervescência mental, na voragem e plasticidade intelectual dos vinte e picos anos, que caldeou e renovou os meus processos intelectivos. Pondo as coisas simplesmente, devo-lhe em grande medida o modo como desde então entendo o mundo.

Em boa verdade, este entendimento resulta largamente de um processo de erosão. Gradualmente dispensei discursos com efeitos especiais lógico-matemáticos, virei costas a cogitações abstrusas sobre conjunções e disjunções  e (com um ligeiro sentimento de culpa) larguei até o dogma venerando dos processos mentais de base binária.

Mas, no mesmo processo, a essência da herança intelectual de Lévi-Strauss naturalizava-se como parte do meu fluxo de consciência. Assim, dou hoje como adquirida a noção de que o pensamento simbólico opera a partir dos dados da sensibilidade, ao mesmo tempo que assumo  que compreender é sempre ir além das aparências. Tornou-se-me natural assumir que o sentido se constitui nas e pelas relações entre elementos (cada um dos quais seria opaco em si mesmo). E assumo que o pensamento simbólico é  dinâmico, pelo que a noção de transformação é fundamental para entender processos mentais que usam a metáfora para abarcar o mundo in toto.

Ocasionalmente suspeito até que a necessidade de totalização que Lévi-Strauss atribui ao pensamento mítico — e que a sua própria obra manifesta grandiloquentemente — infecta o meu próprio pensar, que é portanto menos «meu» do que admito. Em todo o caso, é certo que compreendi a pouco e pouco que certas mentes têm uma especial facilidade para se aplicarem às dinâmicas do pensamento simbólico. Tenho como certo que tal é o caso de Lévi-Strauss, assim como o de Freud — o qual Lévi-Strauss define desde cedo como um precursor e que afronta, num acto de freudiano parricídio intelectual (e portanto de homenagem derradeira), quase no termo da sua obra.

Seja como for, da frequência assídua destes dois autores aprendi a extraordinária complexidade de processos mentais a que chamarei totais (com um vago aceno a M. Mauss) dado que unem os recursos dos pensamentos «selvagem» e «domesticado». Tentei em tempos delinear aspectos e consequências desta complexidade da obra de Lévi-Strauss. Enviei-lhe o resultado deste esforço para comentário e recebi,  em carta datada de 21/3/2003, a seguinte resposta:

Quant à votre interprétation, je suis d’accord pour reconnaître qu’en matière de parenté aussi bien que de mythes, j’ai tenté de mettre en évidence un état de déséquilibre foncier. Je vous avoue toutefois qu’à la fin de ma vie, j’éprouve vis-à-vis de ce que, pour simplifier, j’appellerai mon œuvre, un certain détachement, et qu’à supposer qu’elle le mérite, je laisse à d’autres le soin de décider quel sens il convient de lui donner.

No que me diz respeito, esta é a sua última palavra quanto à obra que deixa. Entendo-a como sinal da rara grandeza de alma — síntese de humildade intelectual e de olhar distanciado — que revela Lévi-Strauss enquanto ideal longínquo a alcançar numa época em que «grandeza» e «alma» são noções de pouca monta.

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Amanhã: os 100 anos de Claude Lévi-Strauss

Posted in Autores, Efemérides by OLAMblogue on Quinta-feira, 27-11-2008

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Claude Lévi-Strauss nasceu a 28 de Novembro de 1908. Estudou leis e filosofia, mas as suas influências são vastíssimas. Imagine-se um lugar de encontro entre a geologia, a psicologia freudiana, o marxismo, a linguística moderna, e, indiscutivelmente, a música. Esse lugar de encontro chama-se Lévi-Strauss. Em 1934, deixou a França e partiu para o Brasil para ensinar sociologia. Terá lido, nesse mesmo ano, o livro de Robert Lowie, Primitive Society (1920). Virá então a realizar a sua viagem aos territórios dos Bororo, que coincide com uma das mais fascinantes viagens intelectuais do século XX. Em 1939 regressa a França, juntando-se à Resistência. Porém, é, na sua condição de judeu, aconselhado, a partir para Nova Iorque. É aí que vai passar a conviver com os elementos imigrados do Círculo de Praga (em particular com Jakobson) e com os surrealistas fugidos à guerra (Breton, Ernst). Lévi-Strauss recolhe vastas influências, em que avultam ainda os trabalhos de Durkheim e Mauss, mas também os dos culturalistas americanos, como Boas, Lowie, e Kroeber.  Logo após o final da Guerra, regressa a França. A sua tese de doutoramento (Doctorat d’ Etat) sobre «as estruturas elementares do parentesco» é publicada em França em 1949. A segunda edição surge em 1967. Les structures élémentaires de la parenté é seguido do magnífico (e já clássico) livro de viagens Tristes tropiques (1955). Seguem-se dois livros decisivos sobre classificação, publicados ambos em 1962, Le totémisme, aujourdhui e La pensée sauvage; e quatro volumes intitulados no seu conjunto por Mythologiques: Le Cru et le cuit (1964), Du miel aux cendres (1966), L’origine des manières de table (1968), e  L’Homme nu (1971). Destacam-se ainda duas colectâneas de ensaios (Anthropologie structurale [1958] e Anthropologie structurale deux [1973]) e vários estudos sobre linguagem e arte, o último dos quais publicado no ano de 1993, Regarder, écouter, lire. Em 2008 uma parte significativa da sua vastíssima obra é publicada na prestigiada la Pléiade.

Lévi-Strauss fará cem anos amanhã. A nossa homenagem começou neste texto de Luís Quintais e continuará hoje e amanhã, com depoimentos de Francisco Vaz da Silva, Filipe Verde e Hermínio Martins.

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Inquérito OLAM: Mário de Carvalho

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Segunda-feira, 24-11-2008

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Mário de Carvalho é ficcionista e dramaturgo. Estreou-se em 1981, com Contos da Sétima Esfera, tendo ao longo dessa década e da seguinte publicado uma série de obras que se tornaram referências centrais da ficção portuguesa contemporânea, quer no conto, com Casos do Beco das Sardinheiras (1982) ou A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (1983), quer na novela – Quatrocentos Mil Sestércios, seguido de O Conde Jano (1991) -, quer sobretudo no romance, do atípico e decisivo O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana (1982) ao consagrado Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, com que venceu, entre outros prémios, o Grande Prémio da APE, no romance, em 1995. Publicou entretanto teatro: Água em Pena de Pato (1991) e Se Perguntarem por Mim, Não Estou seguido de Haja Harmonia (1999). Neste ano de 2008, editou A Sala Magenta.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Porquê um? Porquê a propensão para o único? É a marca do monoteísmo? Ainda assim, há quem no faça trino. Porque me hei-de de comprometer hoje? Porque é que hei-de fechar a hipótese de não ser outro daqui a bocado? Um desses sábios da antiguidade disse: Desconfia do homem dum só livro. Recolhamo-nos por momentos, obedientes, desconfiando. Os velhos dizedores abasteceram-nos de frases. Para quê acrescentar mais? Os praticantes dos questionários costumam, ao menos, autorizar dez livros prà ilha. Porquê um racionamento tão drástico? É a crise? Já?

Apetece-me é fazer perguntas, mas desconfio de que o objectivo do “inquérito” (quiseram mesmo chamar-lhe assim?) não é apurar a capacidade interrogativa do respondente. Em todo o caso, que sei eu?, como dizia o outro.

Para mim, no dia em que escrevo estas regras, o melhor romance do século XX é A Casa Grande de Romarigães. É um ponto de confluência do antes e uma irradiação para o que virá depois. A Casa Grande… não seria possível sem o Amor de Perdição e Os Maias. Mas, sem A Casa Grande… duvido que fossem possíveis A Noite e o Riso, as Casas Pardas, A Paixão, ou Levantado do Chão. A Casa Grande é temperada com graça, dom que, em não havendo, condena. Não me refiro à comicidade (que é sempre, aliás, um ponto positivo), mas àquele sentido entre o irónico, o benevolente e o amargo que impregna, desfamiliariza e nos devolve as coisas iluminadas por um halo que cintila. Esta graça pode favorecer mesmo os autores de pessoa mais sisuda, como o insuportável conde Tolstoi. Eu bem gostaria de falar até em “aura”, mas considero o vocábulo embargado enquanto a moda não passar.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

A Feira Cabisbaixa do Alexandre O´Neill. Porque retoma e nos devolve, actualizando-a superiormente, uma tradição satírica que passa por outro grande poeta menosprezado: Nicolau Tolentino. Porque a cada verso surpreende a nossa farronca, o nosso esgar de portugalório armado ao pingarelho e o desgosto disso. Porque vem ressoando e vai continuar a ressoar, até mais ver. Porque contém “poemas que gostaram de mim”, como O’Neill dizia. E, sobretudo, last but no least, tratando-se de poesia, por razões que me transcendem.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Na prosa, o Memorial do Convento pela espantosa propagação que teve, a caminho do Nobel. Na poesia, a Mensagem. Eu sei que mete raiva, mas…

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Inquérito OLAM: Manuel Resende

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quarta-feira, 19-11-2008

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Manuel Resende é poeta e tradutor. Como poeta, publicou três livros, com grandes intervalos entre a edição de cada um. Como tradutor, traduziu Lewis Carroll, Beckett, Shakespeare, Elytis (é provavelmente o maior conhecedor da poesia grega moderna entre nós), Sloterdijk, e vários outros. Agradecemos a Manuel Resende a disponibilidade que manifestou para responder ao nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
 
O Malhadinhas de Aquilino Ribeiro. Porque, sendo embora prosa regionalista, rompeu com as tradições folclóricas.

Em tempo: estive quase para dar como resposta a este inquérito que o livro de ficção mais importante do século XX para a literatura portuguesa foi o Ulisses de James Joyce traduzido por João Palma-Ferreira (ou até por António Houaiss), pela simples razão de que o original foi um dos livros mais importantes para a Weltliteratur e a literatura portuguesa (seja lá o que isso for) não se pode isolar da literatura mundial: de resto, a maior parte das escolas literárias portuguesas são reflexo e tradução de escolas nascidas “lá fora”. Além disso, ao fazê-lo, defenderia a tradução como criação legítima.

Mas não tive coragem de o fazer.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

O livro de poemas do Álvaro de Campos, de Luís de Montalvor na sua sintaxe compositiva e na ortopedia do seu regime de manuseamento e leitura. Porquê? Porque é.
 
3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?
 
No caso da prosa, a resposta seria a mesma.
 
No da poesia, a resposta já seria diferente: Manual de Prestidigitação de Mário Cesariny de Vasconcelos, porque aponta para um certo grau de insubordinação que é necessário à fluidez do trânsito intextinal. Quero eu dizer, porque assentou definitivamente o surrealismo em Portugal. Com atraso? E quê? A culpa é do Cesariny?
 
Dito isto, o respondente não está certo de haver «um» livro melhor ou mais importante, abrindo uma excepção para Der Mann ohne Eigenschaften, que, infelizmente, não é português. O Valente Soldado Schveik também não é. Nem O Processo. Idem aspas para L’Amour fou.

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Abel Barros Baptista sobre Machado de Assis

Posted in Entrevista by OLAMblogue on Terça-feira, 18-11-2008

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Abel Barros Baptista é professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde ensina literatura brasileira. É um dos grandes especialistas de hoje sobre Machado de Assis, autor a que dedicou duas obras de referência, ambas editadas também no Brasil. Com a segunda dessas obras, Autobibliografias, conquistou o Grande Prémio de Ensaio da Associação Portuguesa de Escritores. Além desses dois livros, publicou vários ensaios sobre Machado, preparou e prefaciou edições dos contos e romances do autor. Coordenou a mais notável colecção de literatura brasileira editada em Portugal, o Curso Breve de Literatura Brasileira, nos Livros Cotovia.

Figura incontornável das comemorações do centenário da morte de Machado de Assis no Brasil, em Portugal e noutros lugares, Abel Barros Baptista trocou algumas impressões connosco sobre as comemorações. Agradecemos-lhe a disponibilidade revelada.

OLAM A sensação com que se fica, nesta comemoração do centenário de Machado, é que há uma certa estabilização dos grandes paradigmas ou regimes de leitura da obra e que, as novidades, se assim as podemos chamar, provieram de zonas entre o filológico e o histórico ou sociológico: quais eram os leitores reais de Machado ao seu tempo?, por exemplo. Concordas com esta descrição?

ABB Não sei se há novidades. Segundo o que pude acompanhar, o movimento de publicação tem poucas novidades, ou nenhumas. Biografias, estudos parcelares, colectâneas de ensaios, apesar de tudo em quantidade inferior ao que seria de esperar de um centenário desta importância. (Falo do Brasil, evidentemente.) Faria apenas duas observações. A primeira para realçar que os centenários podem ser momentos de viragem ou de revitalização, mas em qualquer caso não nos apercebemos disso senão après coup. O centenário do nascimento de Machado, em 1939, foi um momento de viragem importante nos estudos machadianos, ali surgiu um Machado mais profundo e crítico do que a imagem que dele davam académicos e modernistas. Mas a percepção dessa viragem levou tempo, exigiu a leitura de livros de Augusto Meyer ou Lúcia-Miguel Pereira. Não sabemos, por isso, se algum dos livros agora publicados não virá a ter eficácia parecida. Por outro lado, e é o segundo ponto, tudo indica que nada disso pode acontecer. De facto, a novidade deste centenário parece ser antes a visibilidade da exaustão do paradigma que tem dominado os estudos machadianos no Brasil. Leitores, estudantes, críticos dão evidentes sinais de cansaço diante das leituras historicistas e sociológicas. O Machado crítico subtil das elites dominantes, o Machado «historiador» da escravidão e do século XIX brasileiro, começa a cansar, parece esgotado, incapaz de suscitar novas abordagens. O sinal mais evidente disso deu-o o próprio líder desse paradigma, Roberto Schwarz. Num congresso internacional promovido pela Unesp, Schwarz, convidado a proferir a conferência de abertura, limitou-se a ler parte de um ensaio que publicou há dois anos! Curiosamente, o ensaio era dedicado a formular uma diferença entre a crítica nacional e a crítica internacional e a demonstrar que a crítica nacional leva vantagem, por poder apreciar a verdadeira originalidade de Machado de Assis. Além disso, no final, havia a indicação de que se tratava apenas de uma primeira parte de um estudo mais longo. Schwarz não só não continuou como repetiu, não só repetiu como eliminou da repetição o argumento a favor da superioridade brasileira, talvez por cortesia para com os convidados, na esmagadora maioria estrangeiros. 

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Inquérito OLAM: Jorge Fernandes da Silveira

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quinta-feira, 13-11-2008

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Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ, onde se doutorou, em Literatura Portuguesa, em 1982, e formou alguns dos melhores estudiosos brasileiros da literatura portuguesa. Foi Professor Visitante nas Universidades Brown (onde se pós-doutorou), Santa Barbara at California, Minnesota e Salamanca. Tem obra vasta, dispersa por revistas de referência – Colóquio/Letras, Relâmpago, Metamorfoses, Cadernos de Literatura Comparada, Veredas, Scripta, Semear – e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986); Verso com verso [Estudos de Poesia Portuguesa] (Coimbra, 2003); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008). Agradecemos a Jorge Fernandes da Silveira a disponibilidade para responder ao nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Finisterra de Carlos de Oliveira.
Porque:

a) a tragédia anunciada em Casa na Duna, romance de 1943, volta à boca de cena no poema “13” de Área Branca de Fiama Hasse Pais Brandão, de 1978, mesmo ano em que se publica Finisterra de Carlos de Oliveira. Como um gesto de leitura por meio da escrita, maneira de expressar o seu conhecimento dos “reescritos” do Poeta, como uma forma de reconhecimento pelo Amigo mais velho, numa palavra, o criador de um Trabalho Poético em que a construção da textualidade através da interlocução entre o lido e o escrito é motivo de permanente homenagem, Fiama escreve o seu poema. E eu o cito: “Em horas trágicas, a centelha/ do trovão fracturava o verniz lívido/ do céu verde e as copas/ que a fascinação do céu elevava/ desde o solo, nesses dias,/ até à incandescência das nuvens./ Vi levitar árvores e arestas/ de casas, até se fundirem/ na deflagração, e transformarem/ a sua natureza em seres celestes./ Não era música a piedade/ que purificava as casas/ maculadas, terrenas e habitadas./ Nada se alcançava subindo/ ao ardor da terra aérea./ Nenhum dom humano/ me trouxeram os símbolos/ satânicos e angélicos do fogo./ Ouvi e vi o raio dúctil,/ pensando que era a paisagem/ que estava a exprimir/ uma tragédia clássica pelos tons/ de sangue, de ouro, de saliva./ Vi a boca dos céus que/ num poema grego era a/ do mar ou uma fonte.// Ao princípio, nos primeiros anos/ do texto, eu via-me/ como uma poeira debaixo/ da grandiosidade das árvores./ Como um pequeno som/ de martelo na madeira/ contra as forjas altas/ de um trovão. Como um corpo/ que a linguagem movimentava/ segundo um gráfico/ das comparações. No empedrado,/ embatendo em víboras/ fugitivas, em rebentos de/ vegetais, em nuvens de insectos/ invasores. E o aljófar/ que gotejava sobre a terra,/ água vinda dos lábios dos ventos// ou da mesma garganta rouca./ O ribombar que lhe dá/ uma forma gigantesca.”;

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Depois do Fim: amanhã

Posted in Comentários, Notícias by OLAMblogue on Quinta-feira, 13-11-2008

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Inquérito OLAM: Fernando Guerreiro

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Terça-feira, 11-11-2008

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Fernando Guerreiro é poeta, com obra vasta e sempre em edição marginal, ensaísta, com obra dispersa por vários volumes mas sempre centrada na questão da representação – do irrepresentável, muitas vezes chamado fantasma -, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e editor underground, com trabalho significativo no selo Black Sun (e, antes, na Quatro Elementos Editora). Agradecemos a Fernando Guerreiro a resposta que nos fez chegar ao nosso inquérito. 

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso? 

Face à questão que colocam, o melhor que lhes posso dizer é que, quando muito, posso referir obras que tiveram um grande efeito em mim (mas portugueses em particular?, porquê? isto vai por nações? será que a língua é de facto a nossa pátria?, duvido): Ângelo de Lima e António Maria Lisboa, em poesia (?), Céu em Fogo de Mário de Sá-Carneiro e o Livro das comunidades de Maria Gariela Llansol (Onde vais Drama-Poesia?). Mas dizer isto é já um erro. Discutir o cânone, ou sequer des-construí-lo, é algo que me diz muito pouco. O terreno da escrita-poesia – a poder-se, hoje em dia, ainda delimitá-lo nestes termos, isolando-o de outras práticas formais(-materiais): as imagens, os sons, os objectos ou práticas de vida – é um terreno móvel e convulso: as camadas geológicas alteram-se, sublevam-se, há terramotos (grandes e pequenos) constantes e instantâneos que revolvem o terreno, confundem os estratos, fazendo dele um tapete-rizoma orgânico-inorgânico, virtual- material em transformação contínua, decididamente não antropomórfica (a lógica do xisto não é humana). Nessa paisagem (oriental, muito oriental) a montanha não é mais alta ou importante do que o vale, a caverna ou o lago; não só porque tudo coexiste num desequilíbrio que define a sua configuração momentânea e em devir, mas também porque  tudo depende do ponto da vista: olhando para baixo, projectando-se no céu negro do precipício, a cratera é um Evereste. E depois:  Hölderlin, naquele que o começa a ler, não é um autor tão recente como …….? Todos os tempos se intersectam num (não-)tempo virtual-real – uma memória invenção cristal (o Manuel Gusmão tem escrito sobre isto) – em que nós próprios instantemente mudamos e somos compreendidos. Como escrevia Artaud – esse autor antigo-recente e português do futuro: “Et je vous l’ai dit: pas d’oeuvres, pas de langue, pas de parole, pas d’esprit , rien. /Rien , sinon um beau Pèse-Nerfs./ Une sorte de station incompréhensible et toute droite au millieu de tout dans l’esprit”.

Chega?

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Inquérito OLAM: Helena Buescu

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Terça-feira, 04-11-2008

Helena Buescu é Professora Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem obra vasta, sobretudo no domínio da literatura comparada (teoria e crítica) e nos séculos XIX e XX. Foi professora visitante em várias universidades da Europa, do Brasil ou dos EUA. É directora-fundadora do Centro de Estudos Comparatistas e membro da Academia Europaea. Publicou nove livros, entre os quais o Dicionário do Romantismo Literário Português, que coordenou (1997), A Revisionary History of Portuguese Literature (com Miguel Tamen, 1999), Chiaroscuro. Modernidade e Literatura (2001), Cristalizações. Fronteiras da Modernidade (2005) ou Stories and Portraits of the Self (2007, com João Ferreira Duarte). Acaba de editar Emendar a Morte. Pactos em Literatura. Agradecemos a Helena Buescu a prontidão com que acedeu a colaborar no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Considero Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, como o melhor livro de ficção portuguesa do século XX (tanto quanto esta escolha absoluta nos obriga a gestos de exclusão a que não temos justamente de nos obrigar). Porquê. A resposta talvez resida, para mim, naquilo a que eu chamaria a sua incomensurabilidade e a grandeza com que aceita e até almeja o irregular, o imperfeito (como livro). É um romance voraz, daqueles projectos de alcance quase transcendental em que o autor se endereça a Deus (à sua possibilidade ou contingência), à história (hesitando entre as duas guerras mundiais, Nemésio coloca o mundo e o século XX encapsulados dentro das ilhas do arquipélago central dos Açores, Faial, Pico e São Jorge) e às aporias do sujeito obscurecido da modernidade (em herdeiro do grande autor que foi, para todo o século XX, Dostoiévski). Um romance que aceita acabar dentro do terreno do inexplicado (ou inexplicável), que aceita dizer-se completo no preciso momento em que o inacabamento se torna evidente, que tem a coragem de olhar para a felicidade como o lugar estranho de escolhas por vezes incompreensíveis, que fazem da vida humana o lugar de um sentido que, se é procurado, é também incerto. É por fim um romance em que uma das personagens femininas mais vibrantes que conheço, Margarida Dulmo (que responde à Gretchen do Fausto de Goethe), conduz a história a cavalo (metáfora vinda do livro) das suas “venetas”: o mundo é muitas vezes aleatório e imprevisível. Nemésio “responde a” (e por isso fala com) outros projectos incomensuráveis dele conhecidos: mencionei Dostoiévski e Goethe, poderia ainda referir Proust ou Thomas Mann (a Montanha Mágica não fica longe do canal entre o Faial e o Pico, talvez o Pico seja outra montanha mágica como a de Thomas Mann, aliás).  Para ser inteiramente justa, há outro romance português no século XX que não se propõe algo de muito diferente: Sinais de Fogo, de Jorge de Sena. Nem a sua incompletude apaga um semelhante encapsulamento do mundo inteiro (via Guerra Civil de Espanha) na história pessoal dita em português. Outros livros que me são pessoalmente muito próximos (e associo também os seus autores numa linhagem de família) são Maria Judite de Carvalho (Seta Despedida é a meu ver uma preciosa colectânea do presente desespero) e Carlos de Oliveira (Finisterra, romance também das fundações infundadas, como Maria Judite). As últimas linhas que escrevo são, reconheço, uma forma de desviar a conversa da escolha absoluta que me foi pedida. Mas cumpri a resposta. 

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Hoje, nova sessão de OLAM

Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 03-11-2008

A segunda sessão desta época de Os Livros Ardem Mal, decorrerá nesta 2ª feira, dia 3 de Novembro, pelas 18 Horas, no Café-Teatro do TAGV (Coimbra), com a participação do painel habitual. Uma co-organização do TAGV e do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Desta vez, o convidado é Carlos Fiolhais, professor do Departamento de Física da FCTUC e director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

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Inquérito OLAM: A. M. Pires Cabral

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Terça-feira, 28-10-2008

A. M. Pires Cabral estreou-se na poesia com Algures a Nordeste (1974), tendo em seguida publicado, até 1981, ano de Boleto em Constantim, mais três livros de versos. Seguiu-se um longo interregno na sua produção poética, ocupado pela revelação de um ficcionista que percorreu o conto, a novela e o romance, sempre com inspiração transmontana, a que se seguiu ainda a crónica. Com a edição de Artes Marginais, antologia da sua poesia, em 1998, regressa à poesia, editando desde então a um ritmo assinalável. Com Que Comboio É Este?  vence o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, em 2006. Reuniu a sua poesia em Antes que o Rio Seque (2006). O Cónego (2007), no romance, e As têmporas da Cinza (2008), na poesia, são os seus últimos livros. Agradecemos a Pires Cabral a disponibilidade para responder ao nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro. Porque não conheço outra saga familiar multigeracional com a força desta. Pelo fôlego narrativo. Pelo vocabulário incomparável. E também porque faço questão de preferir livros que não descartam a pontuação e cujas páginas não parecem muros maciços de tijolos.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Aquele Grande Rio Eufrates, de Ruy Belo. Pela unidade e coerência exemplares. Pela forma simultânea e paradoxalmente distanciada e envolvida como contempla a transitoriedade e a finitude. Pela eufonia íntima. 

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Não. Seriam, respectivamente, o Memorial do Convento e as Poesias, de Álvaro de Campos. Só por uma razão: pela tremenda força seminal.

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Inquérito OLAM: Rui Lage

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Domingo, 26-10-2008

Rui Lage é poeta, com um primeiro livro, Antigo e Primeiro, editado em 2002, e o mais recente, Revólver, em 2006. Publicou ainda teatro, fez tradução de poesia e fundou e co-dirigiu a revista aguasfurtadas. Tem crítica publicada em várias publicações periódicas. Integra a direcção da Fundação Eugénio de Andrade e anima ainda o blogue Vala Comum. Agradecemos a Rui Lage a disponibilidade para responder ao nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
 
Esquivando-me aos parêntesis, cuja informação neles contida me ensinaram na escola poder ser descartada sem prejuízo da oração principal, vejo-me compelido a escolher o Livro do Desassossego do “semi-heterónimo” de Fernando Pessoa, Bernardo Soares. É certo que a sua estrutura não obedece aos trâmites da ficção tal como comummente a entendemos (nesse caso escolheria Sinais de Fogo, a obra-prima inacabada de Jorge de Sena, onde ainda há espaço para heróis e heroínas e que nos brinda, por acréscimo, com um Bildungsroman, espécie de “retrato do poeta enquanto jovem”). Mas o mesmo se poderia dizer de um “romance” como Finisterra: paisagem e povoamento ou dos “romances” que António Lobo Antunes vem publicando nos últimos anos. Já para não falar das Ficções de Borges (que ele não chamou de “contos”, quando ninguém estranharia se o tivesse feito). Assim, diria que o Livro do Desassossego é a ficção do inexistente ou, como o próprio enunciador diz, “a autobiografia de quem nunca existiu”, uma “história sem vida” escrita por alguém que gosta de sentir-se “coevo de Cesário Verde”. Poderia ser, por exemplo, a biografia, de preferência não autorizada – we “would prefer not to” – do escrivão Bartleby. Nem romance, nem conto, nem novela, nem ensaio, nem diário mas uma espécie de milagre que não mais voltou – nem voltará – a repetir-se, o Livro do Desassossego é a obra “melhor” e “mais importante” do século XX português. E europeu. Portugal não se orgulha o suficiente da única obra engendrada neste insignificante rectângulo que se pode medir, sem medo, com os Essais de Montaigne, os Pensées de Pascal, as Confessions de Rousseau, as Mémoires d’outre-tombe de Chateaubriand, e por aí fora, ficando somente pela Gália, ultrapassando-os, como se não bastasse, a todos. Não vale sequer dizer que é a arte do fragmento levada a um clímax, ridículo de tão assombroso. Basta atentar nos Fragmentos de Novalis para se perceber a diferença, abissal. Ou até no tão badalado e fashion O homem sem Qualidades, de Musil. Em vão se procura perceber como foi possível, de onde veio, e para onde vai o Livro do Desassossego. Mas uma conclusão se pode tirar: o desassossego do título é um desassossego universal. Não universal de uma forma meramente retórica, como é costume dizer-se da obra Y ou do escritor X, quando, por exemplo, é agraciado com o Nobel. Universal em todo o alcance da palavra. Universal porque, tratando-se do desassossego de alguém que viveu quase anónimo, não interessa se ajudante de guarda-livros ou correspondente comercial na baixa lisboeta, e que talvez fosse Fernando Pessoa, pode ser o desassossego de qualquer outro anónimo, em qualquer outro tempo, lugar, língua, cidade. Uma prova? A quantidade de estrangeiros que, depois de lerem o Livro do Desassossego, de imediato o sentem e o adoptam como o livro da sua vida – e das suas vidas. Como foi isto possível, isto é, como pôde um indivíduo, sem deixar de ser indivíduo, ter tido consciência do seu anonimato e insignificância a ponto não da “alegre”, mas da triste “inconsciência disso”? O Livro do Desassossego é a verdade a ser-nos revelada; não a verdade sobre um qualquer sistema, valor, ideia, conceito, realidade, ou o quer que seja, mas a verdade do vazio, e o vazio da verdade: a consciência de que somos é aquilo que nos priva do sossego. Pessoa desejou, escutando a sua ceifeira, “ser ela, sendo eu”. No Livro do Desassossego, nós, leitores de Pessoa, sendo nós, somos ele – persona, ninguém. E este “livro”, que podemos ler desde 1982 graças ao labor de Maria Aliete Galhoz, Teresa Sobral Cunha e Jacinto do Prado Coelho, desassossega o próprio sossego da literatura, ou perturba a sua sonolência. Não esqueçamos que o ajudante de guarda-livros aparecia a Pessoa, escrevia este na célebre carta a Casais Monteiro, sempre que Pessoa estava “cansado e sonolento”. Para Mallarmé a poesia era “a linguagem a sonhar”. Talvez para o autor do Livro do Desassossego a ficção fosse a linguagem a dormir.

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Depois do Fim: nos 30 anos de «Finisterra»

Posted in Comentários by OLAMblogue on Sexta-feira, 24-10-2008

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Inquérito OLAM: Nuno Júdice

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quinta-feira, 23-10-2008

Nuno Júdice estreou-se, como poeta, em 1972, com A Noção de Poema. Desse volume até ao muito recente O Breve Sentimento do Eterno vai um percurso marcado por um ritmo alto de publicação, na poesia mas também na ficção, no teatro ou ainda no ensaio, uma vez que é também professor universitário de literatura (na Universidade Nova de Lisboa). Coligiu pela primeira vez a sua obra poética em 1991 (Obra Poética. 1972-1985), datando a última reunião dos seus versos de 2000. Poeta traduzido em várias línguas e na prestigiosa colecção da Gallimard, foram-lhe atribuídos já os mais significativos prémios literários portugueses. Agradecemos a Nuno Júdice a sua pronta colaboração neste inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
 
Os Passos em Volta de Herberto Helder, na colecção Novos Contistas da Portugália Editora, edição de 1963, com a capa de João da Câmara Leme e uma dedicatória que o Rui Diniz me fez: «De uma época de PASMO tecem-se as RENDAS DELIRANTES». Nestes contos está tudo, mesmo aquilo que na época não se podia dizer – o comunismo, a prostituição, a dor, uma angústia solitária, o exílio, e um tempo em que pouco mais havia a fazer do que ficar «a tremer e soluçar, debaixo da esplêndida luz do mês de novembro». Aprendi muito da minha escrita ao lê-lo; e tenho dentro dele uma folha de árvore seca com muitas décadas, apanhada talvez no jardim do Campo Grande por onde passava a caminho da Cidade Universitária levando-o comigo, uma folha de papel pautado com um endereço lisboeta manuscrito pelo Herberto Helder que ele me terá dado por qualquer razão, e um título inventado durante alguma aula mais aborrecida: «Como eu fugi da Sibéria (L’OEIL DE LA MOSCOWIE) narrativa verídica dos horrores por que um sacerdote austro-búlgaro passou, antes de ser capturado e barbaramente agredido».

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

A Memória dum Pintor Desconhecido do Mário Dionísio, na colecção «Poetas de Hoje» da Portugália, com um dedicatória que ele me fez em 1966, estava eu no último ano do liceu Camões e era ele meu professor de Francês. Veio daí, em parte, a relação que sempre estabeleci entre a poesia e a pintura. Foi nele que fiquei a saber «que tudo começa num ramo/de oliveira» ou que, «neste café quase deserto/não espero hoje ninguém/senão a cor difusa duma ausência/que não magoa e sabe bem». E é sem dúvida o melhor porque, além de mim, não deve haver meia dúzia de pessoas mais a saber que este livro existe.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Seriam diferentes nos dois casos. Poria a Aparição de Vergílio Ferreira no primeiro caso: um romance onde cabem todas as histórias do mundo, e que me dá uma história  diferente a cada leitura que faço dele. E o Homem de palavra(s) do Ruy Belo: tudo o que há a dizer sobre o século XX de que este livro faz parte está ali, e também sobre o que, do século XX, passou e há-de passar para este século XXI, e outros que vierem.

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Inquérito OLAM: Luís Mourão

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Terça-feira, 21-10-2008

Luís Mourão é professor na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo. Ensaísta com obra vasta, publicou especialmente sobre ficção portuguesa do século XX, com particular atenção ao tópico do «fim da história» e sempre com especial dedicação à obra de Vergílio Ferreira. A sua última reunião de ensaios, de 2003, intitulou-se Sei que já não, e todavia ainda. Anima, desde há alguns anos, um blogue pessoal, Manchas. Agradecemos a Luís Mourão a disponibilidade revelada para responder ao nosso inquérito. 

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Na tua face, de Vergílio Ferreira. Por causa da Luz, do Luc, da Ângela, da Bárbara, do Daniel, do mar, da aflição, da paz porque sim, do impossível para além disso, e por nenhuma destas razões.
 
2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Poesias, de Álvaro de Campos, naquela edição da Ática. Há uma biblioteca imensa a explicar porquê. E depois disso, nunca consegui ler poesia que me atingisse que não fosse, de alguma maneira, sub specie Álvaro de Campos, desde Herberto (o que  se compreende) a Sofia ou a Eugénio (o que já pediria alguma explicação, mas também se compreende).

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Seriam diferentes. Dizer do “melhor” faz-nos deslizar para o campo do subjectivo e do afectivo sem que sintamos que com isso cometemos qualquer crime “teórico”. Dizer do mais importante implica trabalhar no cânone. A esta distância, não acho que se consiga apontar “o mais importante”, mas apenas obras muito importantes em diferentes períodos (em que por acaso se incluem as duas que elegi como melhores). Daqui por trezentos anos, talvez haja umas notas de rodapé sobre o século XX, talvez um capítulo, mas sobre isso não me pronuncio para manter a coerência do meu percurso académico: nunca escrevi uma linha sobre literatura portuguesa com trezentos anos…

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Inquérito OLAM: Frederico Lourenço

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 17-10-2008

Frederico Lourenço é Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Helenista, traduziu os poemas homéricos, mas não apenas, tendo visto o seu trabalho reconhecido pelos maiores prémios de tradução de Portugal (é ainda autor de uma muito popular adaptação da Odisseia para jovens). Publicou naturalmente, em seu nome ou como organizador, volumes de ensaios sobre a Antiguidade Grega. Num período relativamente curto, deu ainda à estampa uma série considerável de volumes de ficção, da premiada trilogia romanesca Pode um Desejo Imenso a volumes de contos e autobiografia, além de crónicas e de uma revisitação dos Caracteres de Teofrasto. Agradecemos a Frederico Lourenço a disponibilidade para responder a este inquérito (e a prontidão nessa resposta).

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

É difícil responder à pergunta sem logo desdobrar a resposta numa multiplicidade de ressalvas e de justificações. Mas terei “a coragem das minhas convicções”, para adaptar o provérbio inglês, e, dando de barato que ninguém quererá fazer-me a maldade de dissociar a minha resposta do subjectivismo absoluto que lhe é inerente (o subjectivismo neste caso de um “leitor” de literatura, e não de um professor ou crítico da mesma), afirmo que o melhor livro de ficção publicado em Portugal no século XX é, em meu entender, A Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queirós, dado à estampa em 1900.

A minha resposta não seria diferente se nela reproduzisse literalmente a expressão formal da pergunta, de modo a entender “ficção portuguesa” como abrangendo ficção em língua portuguesa; logo aí se levantaria o espectro do óbvio candidato a melhor livro de ficção em língua portuguesa do século XX, que é Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa: mas, mesmo assim, prefiro A Ilustre Casa de Ramires.

(more…)

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Inquérito OLAM

Posted in Notícias by OLAMblogue on Quinta-feira, 16-10-2008

Nos próximos tempos Os Livros Ardem Mal  lançam um inquérito, a um número significativo de escritores, críticos e jornalistas da área da cultura, sobre «os dois melhores livros da literatura portuguesa do século XX». Não só sobre os melhores mas ainda sobre a diferença entre «os melhores» e «os mais importantes». Para que se perceba exactamente do que falamos, eis as três perguntas que estamos a enviar desde há dias:

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

As perguntas vão acompanhadas de duas notas, com função clarificadora, que neste momento nos abstemos de transcrever. Não foi colocado qualquer limite à extensão das respostas. Insistiu-se apenas em que, mais do que debitar títulos, importava que as respostas fossem argumentadas.

É essa argumentação que começaremos a publicar amanhã.

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O regresso

Posted in Notícias by OLAMblogue on Domingo, 05-10-2008

A primeira sessão da nova época de Os Livros Ardem Mal, decorrerá nesta 2ª feira, dia 6 de Outubro, pelas 18 Horas, no Café-Teatro do TAGV (Coimbra), com a participação do painel habitual. Uma co-organização do TAGV e do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Desta vez, o convidado é Francisco José Viegas, escritor, crítico e divulgador cultural, actualmente o director da revista LER.

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Read a book!

Posted in Vária by OLAMblogue on Quarta-feira, 01-10-2008

Uma proposta que não costuma aparecer nos programas eleitorais. E menos ainda em comícios. Uma ideia daqui.

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Paulo Henriques Britto (VI)

Posted in Comentários by OLAMblogue on Domingo, 28-09-2008

Da sequência «Sete peças acadêmicas», os poemas VI e VII:
 

Por mais que se fale ou pense ou
escreva, eis o veredicto:
sobre o que não há de ser dito
deve-se guardar silêncio.

Ser, não-ser, devir, dasein,
ser-pra-morte, ser-no-mundo:
Valei-me, são Wittgenstein,
neste brejo escuro e fundo
sede minha ponte pênsil,
escutai o meu não-grito:
pois quando não há o que ser dito
deve-se guardar silêncio.

 

Mas isto também é ser –
isto que está acontecendo.
Aliás, mais que tudo, isto.

Dito isso, o que dizer
que não mero suplemento
ao tudo já dito e escrito?

(No entanto, como conter
o impulso fraudulento
de acrescentar um asterisco

e num escuso rodapé
murmurar entredentes:
penso, portanto rabisco?)

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Será?

Posted in Comentários by OLAMblogue on Domingo, 31-08-2008

Será que ardem mesmo?

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A nossa equipa no TAGV

Posted in Notícias by OLAMblogue on Domingo, 20-07-2008

Como aqui ficou dito logo no início, Os Livros Ardem Mal é uma iniciativa conjunta do Centro de Literatura Portuguesa, unidade de I&D da FCT localizada na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e do Teatro Académico Gil Vicente, da mesma universidade. Quer o CLP quer o TAGV entendem desempenhar assim o seu papel na área das actividades de «extensão à comunidade» que são parte integrante da sua função social.

Como se imagina, uma iniciativa como esta, que implica contactos com autores, editoras e média, exige, para lá de alguns meios financeiros, uma logística particular. Aquilo que, de Setembro de 2007 a Julho de 2008, se concretizou quando, na primeira segunda-feira de cada mês, pelas 18 h, 3 ou 4 pessoas, mais um convidado, se sentaram à mesa no foyer do TAGV para falarem de livros e de tudo o que por eles passa, pressupõe uma dose razoável de trabalho na sombra. É justo que, agora que a saison chegou ao fim, apresentemos esses trabalhadores da sombra, aproveitando para lhes agradecer – e, neles, a todo o TAGV – o empenho, o cuidado, a dedicação que colocaram na preparação de cada uma das sessões.


Teresa Santos é Coordenadora dos Serviços Artísticos e de Produção do TAGV. É a responsável pela produção da agenda mensal do TAGV, e é ela quem nos envia, no início de cada mês, o cartaz promocional da sessão seguinte (com grafismo de Joana Monteiro) e quem trata da divulgação da iniciativa junto dos média. Sempre com o seu jeito sóbrio e eficiente.

Marisa Santos é Coordenadora da Frente de Casa do TAGV. Cabe-lhe a preparação do espaço do Café-Teatro para o acolhimento dos intervenientes e do público, e também a coordenação dos assistentes de sala designados para acompanhar a sessão. Tanto como assegurar a funcionalidade do espaço, cabe-lhe garantir a hospitalidade do Teatro – o que faz muito bem.


Elisabete Cardoso é a responsável pelos serviços de recepção e de bilheteira do TAGV. Coordena os contactos com as editoras, recolhe a informação sobre os convidados e faz circular entre os membros d’ Os Livros Ardem Mal as novidades editoriais recebidas. Ao telefone ou por e-mail, o seu entusiasmo e profissionalismo manifestam-se em cada mensagem.


Mário ‘sonomario’ Henriques é sonoplasta dos Serviços Técnicos do TAGV. N’ Os Livros Ardem Mal, para além de sonorizar a sessão para o espaço do Café-Teatro, é também o responsável pela gravação. Dos seus registos, uma vez editados, depende a transmissão pela Rádio Universidade de Coimbra da conversa com o convidado de cada sessão. Se, adoptando uma sugestão sua, o programa decidir fazer itinerância, claro que será ele a tratar dos micros…

A todos os outros funcionários do TAGV que participaram, de um modo ou de outro, na produção das sessões, o nosso sincero Obrigado. E até Setembro, após as merecidas férias.

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Sessão com Gonçalo M. Tavares

Posted in Notícias by OLAMblogue on Domingo, 06-07-2008

Nesta 2ª Feira, dia 7 de Julho, pelas 18 horas, a última sessão desta temporada de Os Livros Ardem Mal no Café-Teatro do TAGV (em Coimbra). O convidado deste mês é o escritor Gonçalo M. Tavares. Em breve daremos notícia, neste blogue, sobre o que sucederá ao programa no próximo ano.

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Prémios de edição Ler/Booktailors

Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 16-06-2008

A revista Ler e os Booktailors acabam de criar os Prémios de Edição, sobre os quais se pode ler tudo o que importa aqui.

A ideia é excelente, vem colmatar uma lacuna evidente no panorama português, e Os Livros Ardem Mal associam-se a partir deste momento à iniciativa da Ler e dos Booktailors. Cá estaremos para anunciar também ao mundo os prémios e para opinar, se for caso disso, sobre eles.

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Sessão com Pedro Mexia

Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 02-06-2008

Hoje, segunda-feira, pelas 6 da tarde e no Café-Teatro do TAGV de Coimbra, decorre outra sessão de Os Livros Ardem Mal, com António Apolinário Lourenço, Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre. Desta vez o convidado é o poeta e crítico literário Pedro Mexia. Informações mais detalhadas aqui.

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Nós, vós, eles

Posted in Notícias by OLAMblogue on Quarta-feira, 14-05-2008

As boas ideias, como os bons exemplos, frutificam. Nós, n’Os Livros Ardem Mal, saudamos a chegada da concorrência (e esperamos pela perseverança – sim, que já levamos quase dois anos disto – e pelo blogue, para deveras se poder falar em tal…).

Já quanto ao nome da coisa, francamente, não havia necessidade…

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Sessão com Ana Lopes

Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 05-05-2008

Tem lugar hoje, 2a. feira, mais uma sessão de Os Livros Ardem Mal. Pelas 18 horas, no Café-Teatro do TAGV (Coimbra). A convidada deste mês é Ana Lopes, antropóloga doutorada pela University of East London, autora de Trabalhadores do Sexo, Uni-vos! e criadora da Internacional Union of Sex Workers. Mais informação aqui.

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Sessão de 3 de Março

Posted in Vária by OLAMblogue on Quarta-feira, 05-03-2008

Algumas imagens da sessão de 3 de Março de Os Livros Ardem Mal, com Ricardo Araújo Pereira como convidado. Aqui.

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OLAM com Ricardo Araújo Pereira

Posted in Notícias by OLAMblogue on Segunda-feira, 03-03-2008

Ricardo Araujo Pereira

Os Livros Ardem Mal desta Segunda-feira, 3 de Março, conta com a presença como convidado do humorista e colunista Ricardo Araújo Pereira. Como é habitual, o «mensário de actualidade editorial» decorrerá em tom de conversa, terá a participação da assistência e decorrerá no Café-Teatro do TAGV, em Coimbra, pelas 18 Horas.

Nesta sessão serão comentados Gilles Deleuze, Mil Planaltos (Assírio & Alvim); Daniel Dennett, Quebrar o Feitiço (Esfera do Caos); Ruy Duarte de Carvalho, A Câmara, a Escrita, e a Coisa Dita (Livros Cotovia); Amadeo de Souza-Cardoso – Fotobiografia (Fundação Calouste Gulbenkian – Assírio & Alvim); João Pedro George (org. e intro.), O Crocodilo que Voa. Entrevistas a Luiz Pacheco (Tinta da China); Vítor Aguiar e Silva, A Lira Dourada e a Tuba Canora (Livros Cotovia) Sheila Moura Hue, org., Antologia da Poesia Portuguesa. Século XVI. Camões entre os seus Contemporâneos (Rio de Janeiro, 7 Letras); Sheila Moura Hue, edição, introdução e nota, Diálogos em Defesa e Louvor da Língua Portuguesa (Rio de Janeiro); Georges Minois, História do Riso e do Escárnio (Teorema); Os Monty Python, Autobiografia pelos Monty Python (Oficina do Livro); Grandes Ideias Impossíveis de Provar, coord. John Brockman (Tinta da China); Laura Espido Freire, Mileuristas (Ambar); Adolfo Caminha, Bom-Crioulo (Palimpsesto); Gani Jakupi e Miquel Jurado, Vinícius, o poeta (Barcelona, Discmedi/Blau); CD Jô Soares, Remix-em-Pessoa, Perfomance Music (Brasil).

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Sessão de 11 de Fevereiro

Posted in Vária by OLAMblogue on Segunda-feira, 11-02-2008

Algumas imagens da sessão de 11 de Fevereiro de Os Livros Ardem Mal, com Manuel António Pina. Aqui.

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Ano dois

Posted in Vária by OLAMblogue on Quarta-feira, 06-02-2008

E agora tem sido assim. (um, dois cliques para ampliar uma, duas vezes)

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Desenho gráfico de Joana Monteiro

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Começou assim

Posted in Vária by OLAMblogue on Segunda-feira, 04-02-2008

(um clique para ampliar)

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Desenho gráfico de Joana Monteiro

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