Os Livros Ardem Mal

Projecto para um glossário do século vinte (JG Ballard)

Posted in Autores, Comentários, Notas, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 14-07-2008

#Zipper. Esta pequena mas astuciosa máquina terá encontrado um modo elegante de reprimir e redescobrir todos os encantos perdidos da carne.

LQ

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Projecto para um glossário do século vinte (JG Ballard)

Posted in Autores, Comentários, Oficina by Luís Quintais on Sexta-feira, 04-07-2008

[O «Projecto para um glossário do século vinte» de JG Ballard foi originalmente publicado num livro colectivo (simplesmente magnífico e hoje out-of-print). Refiro-me a Incorporations, editado por Jonathan Crary e por Sanford Kwinter na Zone books. Publicado originalmente em 1992, e esgotado há uma série de anos, Incorporations é um dos meus livros favoritos: daqueles que não empresto a ninguém! Para matizar este egoísmo (plenamente justificável), gostaria de partilhar com os leitores de Os Livros Ardem Mal o glossário de JG (pp. 269-279). As entradas foram fornecidas por Crary e Kwinter a Ballard que as preencheu. Traduzirei o glossário na íntegra nos próximos meses (ainda que numa ordem diversa daquela que surge em Incorporations). Ah, é verdade, a fotografia é de um encontro entre Ballard e Borges nos idos sessenta, sobre o qual pouco se sabe. Ballard, um admirador do escritor Jorge Luis Borges, parece não ter apreciado o homem, nem os seus gostos literários. Eu, se o tivesse conhecido, subscreveria certamente JG: aprecio muitíssimo o autor, aprecio pouco o homem, ou melhor, a sua persona, ou melhor ainda, uma parte da persona não inteiramente comensurável com o «autor», e que se prende com uma certa afectação classicista e profundamente reaccionária.]

# Máquina de escrever. Escreve-nos a nós, codificando a sua tendência linear através do espaço livre da imaginação.

Luís Quintais

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Kant na noite do Ártico (1)

Posted in Comentários by Luís Quintais on Segunda-feira, 26-05-2008

(Claude Lévi-Strauss fará cem anos em Novembro próximo. Uma parte significativa da sua produção intelectual e literária foi reunida num volume na Bibliothèque de La Pléiade.)

Começo com uma imagem que me persegue há muito. Franz Boas lendo a Crítica da Razão Pura pela noite do Ártico adentro.

Em 1883, Boas, um então jovem estudante de física, deixou a Alemanha e partiu para Baffinland no Canadá setentrional. A sua intenção primeira era estudar o modo como os esquimós percebiam a cor do gelo e da água do mar no seu meio natural. Durante essa longa estadia de um ano no Ártico, Franz Boas sujeitou-se a condições ecológicas de extrema dureza, e um dos aspectos mais violentos da sua experiência de fieldworker traduziu-se no isolamento intelectual extremo que teve de suportar. De modo a manter-se ocupado durante as longas e frias noites árticas, Boas lia uma cópia da Crítica da Razão Pura. Consigo imaginá-lo concentrado, procurando, por exemplo, compreender a justeza da caracterização que Kant aí faz de «esquema», noção que mais tarde viria a fertilizar o pensamento de Frederic Bartlett ou de Jean Piaget, e que a antropologia americana retomou com efeitos consideráveis no nosso entendimento do que é a cognição enquanto propriedade emergente do sistema cérebro-mente na sua interacção com uma ecologia manifestamente simbólica e social.

Dir-se-ia que a antropologia moderna tem aqui uma das suas histórias mais emblemáticas, que se desdobra afinal num conjunto de interrogações acerca das eventuais relações entre o mundo objectivo e as representações mentais. A dificuldade do empreendimento fez recuar os melhores. Boas não foi excepção, tal como o não foi William Rivers. E só Lucien Lévy-Bruhl e, muitos anos mais tarde, Lévi-Strauss procuraram dar uma resposta a isto.

Lévy-Bruhl viria a tropeçar numa linguagem desajustada a uma correcta enunciação do que poderia vir a revelar-se uma resposta a tal conjunto de interrogações, sendo porém provável que encontremos nas suas páginas, ainda hoje, matéria de assombro pelo facto de Lévy-Bruhl se encontrar à beira de qualquer coisa de teoricamente significativo que poderia transformar seriamente a história da antropologia moderna.

(more…)

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Transgressão conceptual

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Recensões by Luís Quintais on Terça-feira, 29-04-2008

Deleuze é, como se sabe, um pensador da explosão conceptual. Uma parte muito significativa da história do pensamento canónico euro-americano na qual nos revemos pode ser descrita através de uma diferença entre aqueles que procedem por análise e contenção e aqueles que procedem por explosão. Wittgenstein será certamente um dos exemplos mais emblemáticos da contenção e Deleuze um dos exemplos – senão o exemplo mais significativo – da explosão. Minimalismo e maximalismo seriam certamente duas expressões muito adequadas para caracterizar esta irredutibilidade. Sinal dessa irredutibilidade é a recusa liminar que Deleuze faz de toda ou qualquer consideração útil do pensamento de Wittgenstein.

Confesso que esta aporia – a existir aporia – me parece produtiva. Como se, em certos momentos, o meu perspectivismo reclamasse a cautela analítica de Wittgenstein, e noutros, o maximalismo de Deleuze. Isto porque certos problemas podem ser dissolvidos como pseudo-problemas, e outros se me afiguram reais problemas – e problemas «complexos» – que exigem uma espécie de transgressão conceptual, uma forma de recalibragem do complexo pelo complexo que só Deleuze nos permite.

Um dos aspectos desta abertura à complexidade em Deleuze prende-se com o modo como o seu pensamento convoca – e é contaminado por – universos tão distintos como a literatura, as artes plásticas, o cinema, ou certos sectores do conhecimento científico (desde a neurobiologia à biologia molecular). Deleuze procede através de diagonais – insuspeitas diagonais – que nos fazem lembrar a noção de “enunciado” de Foucault (com quem o pensamento de Deleuze estabelece uma relação de mútua fertilização). Mais que um criador de conceitos (como seria tarefa da filosofia), Deleuze é um criador de enunciados, isto é, de multiplicidades, de heterogeneidades. Deleuze (ou o contínuo Deleuze-Guattari) é uma máquina ou um distribuidor de conexões e diferenças. Ninguém como Deleuze (ou, mais uma vez, o contínuo Deleuze-Guattari) para suspender ou rasurar toda a lógica do autor que não será certamente diversa da lógica do cogito ou da funesta lógica da identidade.

Esta máquina de fazer conexões trouxe-nos uma ruptura também com um pensamento (uma parte muito significativa do cânone) que teima em proceder no interior de uma matriz que vai do particular para o geral e do geral para o particular. Um pensamento arborescente a que Deleuze responde com um pensamento rizomático, transverso, sem centro, sem origem. Pensar os universais é aqui pensar a repetição da diferença, o que nos poderá levar a reconsiderar seriamente quase tudo o que passa por filosofia, arte, e ciência. Como antropólogo, diria que é o fim da antropologia, ou, mais seriamente, um recomeço, o único recomeço que poderemos sequer cogitar. Uma nova forma de realismo passará eventualmente por aqui.

Poucos são os exemplos prévios. Talvez somente Espinosa, Nietzsche, ou Bergson o tenham logrado também (aliás, estas serão, com David Hume, as maiores e assumidas influências de Deleuze). Talvez só um neurocientista como Gerald Edelman (em certos aspectos do seu darwinismo neuronal) nos permita, hoje, apreciar as virtualidades (mais que as virtudes) deste pensamento de intensidades e planaltos. O seu alcance reclama uma leitura atenta de Manuel DeLanda ou de Brian Massumi.

Deleuze enlouqueceu o pensamento filosófico euro-americano através de uma aventura na twilight zone. Uma vez visitado esse espaço de aventura e criação – uma vez reiterado esse devir de perene repetição e diferença – não nos será certamente possível voltar a frequentar as fundações supostamente seguras de uma tradição sem a percepção do desgosto e da perda.

(Tudo isto poderá servir como homenagem à recente edição portuguesa de Mil Planaltos Capitalismo e Esquizofrenia 2 de Gilles Deleuze e Félix Guattari pela Assírio & Alvim com tradução de Rafael Godinho.)

Luís Quintais

Gilles Deleuze & Félix Guattari (2008) Mil Planaltos Capitalismo e Esquizofrenia 2, Lisboa, Assírio & Alvim, 653 pp. [ISBN: 978-972-37-1272-8]

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O tecno-encantamento como motivo e causa

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Notícias, Recensões by Luís Quintais on Quinta-feira, 10-04-2008

A Nada ocupa um espaço de interrogação incomum: trata-de de pensar as relações entre arte, ciência, e tecnologia no presente. De alguma forma, trata-de de equacionar aquilo que parece estar em permanente conflito com uma certa acepção de modernidade à la Weber, entendida esta como uma tópica do desencantamento, de que a racionalidade científica seria o veículo e o desígnio.

Os seus já inúmeros colaboradores (o primeiro número é de Novembro de 2003) têm vindo a procurar enunciar as preposições, o entre, os interstícios da cultura tecnológica, tomando como dado axial algo que é motivo de perturbação para tantos: afinal a modernidade desdobrou e remapeou possibilidades de encantamento, de excesso ou dispêndio (como escreveria certamente Bataille) que os sacerdotes da Razão não previram.

De alguma forma, a Nada assume que a modernidade só pode ser pensada como um momento histórico em que o encantamento do mundo é reconfigurado protésica e tecnologicamente. A noção de híbrido enfileira aqui, ou, de outro modo, a de monstro. Poderíamos, aliás, divertir-nos dizendo (elogiosamente) que se trata da única revista sobre monstros escrita em Português e distribuída pelo mundo fora (agora também em Barcelona e São Paulo), e poderíamos ainda, de forma mais séria, dizer que é uma revista de tese: trata-de cartografar as logísticas que a percepção tecnológica assume na paisagem contemporânea, qual a sua fenomenologia, quais as suas qualidades sensíveis, as suas metamorfoses e os seus rizomas.

Um dos exemplos desta ponderação prende-se com a bio-arte, e é comum encontrarmos na Nada textos de e sobre figuras destacadas deste campo de intensidades do presente, onde se destaca o trabalho da portuguesa Marta de Menezes.

O número 10 contém ensaios de Jorge Leandro Rosa, Luís Graça, Susana Ventura, Byron Kaldis, Daniel Innerarity, e Susana Viegas. Destaque para duas entrevistas: uma com José Luís Garcia e outra com Rudolf Bannasch. Este número contém ainda experiências literárias e conceptuais só possíveis numa revista que vive serenamente fora do espaço académico, pese embora a sua atenção para com aquilo que de mais estimulante se passa dentro da academia. Encontramos aí, por exemplo, duas interpelantes incursões de Adam Zaretsky, «Birdland» e «Balde de Facs».

Convém ainda destacar o belíssimo conto de João Urbano, «O Homem Sem Bagagem».

Ah, é verdade, o grafismo da revista é exemplar.

Nada, 2007, Novembro, Nº 10.

Luís Quintais

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Num esguicho infindável de esperma e refrigerante de motores

Posted in Autores, Comentários, Crítica, Notas, Recensões by Luís Quintais on Sábado, 05-04-2008

JG Ballard é um escritor que apela constantemente à ideia de cenário. Em frequentes momentos do seu trabalho e em vários depoimentos, Ballard fala-nos da contingência de todos os cenários, e do modo como estes podem ser removidos de um momento para o outro para nos confrontarmos com a inumanidade do mundo e, sobretudo, com a inumanidade dos humanos.

A natureza humana não suporta tanta realidade, e daí a exigência do cenário ou do reflexo no escudo, como Perseu, incapaz de olhar a górgona de frente. O mundo em que vivemos – esse mundo do pós-guerra submerso e insensorializado pelo consumo – é afinal um «enorme romance». Como fugir ao enorme romance em que se transformaram as nossas vidas?

De duas formas. Através de uma distância terâpeutica que nos permita adestrar as nossas faculdades morais – e Ballard é um autor da distância, da simulação, do laboratório, em suma, um escritor de ideias que ensaia constantemente uma geometria moral -, ou através de um acto de implicação violenta.

Ballard socorre-se da distância para testar/simular/anatomizar a violência como manobra de reconfiguração moral. Em Crash (1973) o acidente é a parábola de uma desocultação: a tecnologia é a expressão mais acabada da inevitável auto-superação do humano, a particularidade definicional que lhe cabe em direcção à hybris do desejo e da irracionalidade sem freio.

Lembremo-nos então dos seus magníficos passeios de bicicleta em criança por uma Xangai controlada pelos japoneses, onde assiste a momentos de extrema crueldade. Ballard é um produto da guerra, e o que ele faz, como alguém que aprendeu desde cedo a observar o comportamento dos humanos face à urgência e à necessidade (que os metamorfoseia em seres eminentemente morais), é bascular o pensamento na imprecisão que se instala entre o cenário e a crueza (e o improvável) de um mundo sem cenários. O que acontece quando alguém atravessa de um modo quase imperceptível (e depois de um modo escandalosamente perceptível) a fronteira que parece separar a urbe-cenário da «realidade», a mais insolúvel das categorias? Esta é a grande pergunta que atravessa transversalmente toda a sua produção literária.

Veja-se o título, ou melhor, o subtítulo do seu último (e talvez derradeiro) livro: From Shangai to Shepperton. Xangai: a heterotopia da infância tomada como lugar de máxima atenção ao cristal de crueldade que a guerra convoca. Shepperton (os mais famosos estúdios de cinema ingleses situam-se na área): a heterotopia do cinema, isto é, do cenário que esconde, que recorta, que ilude (mas também do écran, esse plano onde se projecta a multidimensionalidade do desejo ilimitado, da inconsolada desrazão que habita a carne). Estes dois lugares cruzar-se-iam um dia: Spielberg reconstruiu uma parte da Xangai de Ballard em Shepperton quando realizou o seu Empire of the Sun (1987), e é muito sugestiva a descrição que Ballard nos dá do episódio em Miracles of Life:

Several of my neighbours in Sheppeton worked as extras, drawn by the nearby film studios, and took part in the scenes shot in England. I vividly remember the mother of a girl at the same school as my daughters calling out to me: «We’re going back to Shanghai, Mr Ballard. We’re in the film…» I had the uncanny sense that I had chosen to live in Shepperton in 1960 because I knew unconsciously that I would write a novel about Shanghai, and that extras among my neighbours would one day appear in a film based on the novel (p. 258).

Esta recursividade entre Xangai e Shepperton é, pois, a recursividade entre a crueza da guerra como experiência limite que põe à prova a tessitura do humano e as logísticas de mediação que o cinema reclama. Em Crash tal tensão está presente de modo insuperável, e o acidente integral que Vaughan antevê, assume contornos apocalípticos, revelatórios, tal como em Virilio:

Neste mundo iluminado pela violência e pela tecnologia, ele [Vaughan] estava agora a guiar para sempre a cento e sessenta à hora numa auto-estrada vazia, deixando para trás estações de serviço desertas na orla de vastos campos, esperando por um único carro vindo ao seu encontro. No seu espírito, Vaughan via o mundo inteiro a perecer num desastre de automóvel simultâneo, milhões de veículos precipitando-se uns contra os outros numa cópula definitiva, que culminaria num esguicho infindável de esperma e refrigerante de motores (pp. 36-37).

É esta tensão – espacializada, sempre espacializada – entre a violência como estratégia global e revelatória e o cenário a destruir (inevitavelmente) que Ballard faz convocar transversalmente. As figurações do humano emergem aí «iluminadas pela violência e pela tecnologia».

Luís Quintais

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JG Ballard, topoi #1: a piscina vazia

Posted in Autores, Notas by Luís Quintais on Segunda-feira, 17-03-2008

miracles_coverMiracles of life. Shanghai to Shepperton: An Autobiography (2008) é, como afirmei aqui, o livro que irá certamente fechar o percurso de um dos mais significativos escritores do século XX e arredores.

Há uma atmosfera nas suas novelas e contos que não tem precedente óbvio na ficção, e que é, como o próprio Ballard admite, o resultado de um encontro entre os surrealistas e a escrita de ficção científica. Aliás, as artes plásticas serão certamente a sua influência maior, e a ficção científica um expediente a partir do qual se consagra uma nova forma de ficção que é fundamentalmente um exercício anatomo-patológico dos pesadelos da Razão. Ballard foi estudante de medicina em Cambridge durante dois anos (pensou vir a tornar-se psiquiatra), e a sua assumida escola é o teatro anatómico.

A mestria de Ballard não promete seguidores. Todos aqueles que o têm como referência conhecem os riscos (de Martin Amins a Will Self, passando pelo notável Iain Sinclair). Seja como for, a sua influência pode ser medida pelo facto do Collins English Dictionary integrar o adjectivo «ballardian» para definir um conjunto de elementos que são recorrentes na sua ficção, onde avultam a modernidade distópica e os efeitos ecológicos e psicológicos da tecnologia. A escrita de Ballard é o lugar em que as landscapes se tornam mindscapes.

Ballard, no estilo seco e directo que o define, e com a urgência a insinuar-se em todas as páginas, conduz-nos em Miracles of Life até à sua infância em Shangai, cenário do seu livro mais conhecido, Empire of the Sun (1984). A infância de Ballard é genuinamente um acervo de momentos – de topoi ballardianos – que nos permitem dizer que este escritor oracular é ensombrando pela memória, e, em particular, pela memória da guerra e pelo limite que a guerra desenha quando se trata de equacionar uma certa ideia de «natureza humana». A visão de Ballard só poderá ser produtivamente comparada à de Paul Virilio, o urbanista e ensaísta francês criador da «dromologia». Ballard é, como Virilio, um produto de uma certa sensibilidade que foi moldada pelas experiências da guerra moderna, onde a tecnologia adquiriu a sua acepção mais virulenta e mortal.

Referi os topoi ballardianos. Aqui fica um deles: a piscina vazia:

Curiously, the house we moved to had a drained swimming pool in its garden. It must have been the first drained pool I had seen, and it struck me as strangely significant in a way I have never fully grasped. My parents decided not to fill the pool, and it lay in the garden like a mysterious empty presence. I would walk through the unmown grass and stare down at its canted floor. I could hear the bombing and gunfire all around Shanghai, and see the vast pall of smoke that lay over the city, but the drained pool remained apart. In the coming years I would see a great many drained and half-drained pools, as British residents left Shanghai for Australia and Canada, or the assumed «safety» of Hong Kong and Singapore, and they all seemed as mysterious as that first pool in the French Concession (…) I think now that the drained pool represented the unknown (…) (pp. 26-7).

J.G. Ballard (2008), Miracles of life. Shanghai to Shepperton: an Autobiography. Londres: Fourth Estate/Harper Collins. 278 pp. [ISBN 978-0-00-727072-9]

Luís Quintais

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Modelo de uma regra só para a vida moderna (e pós-)

Posted in Autores, Comentários, Vária by Luís Quintais on Quinta-feira, 06-03-2008

Proposta de Iain Sinclair: quando em dúvida, citar sempre JG Ballard.

Luís Quintais

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Um anjo à nossa mesa

Posted in Autores, Comentários by Luís Quintais on Terça-feira, 04-03-2008

Lisboa, anos 90. Comprava livros de Maria Gabriela Llansol. Era sagazmente impenetrável, e isso atraía-me. O meu entendimento da sua escrita seria afinal a confrontação com um limite: uma sala onde não se entra porque não se acha digno de nela entrar. A beleza, e a moderna inexorável desconfiança em relação à beleza, àqueles textos, àquele Texto, como ela certamente (certeiramente) preferiria.

Há seres que vivem encantados. Sonham, conversam com Bach, Hölderlin, Rilke, figuras de plasma, figuras de crença. E a crença, para bichos como eu, é sempre o limite. O desencantamento do mundo, e o magnífico brilho daquilo que nos escapa, sempre.

Que sortilégio nos escapou, que sortilégio necessário nos escapou, interrogamo-nos? É isso que encontro outra vez no que ela escreve em Contos do mal errante, por exemplo: «heréticos e ortodoxos declararam-nos hoje fora do género humano. Não tenho coragem para lhes perguntar a que espécie pertencemos.» (p. 136)

Ela permanece, permanecerá sempre, como uma sala onde não posso entrar. É assim que a prefiro recordar.

Luís Quintais

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Yeats

Posted in Comentários by Luís Quintais on Sexta-feira, 29-02-2008

Yeats

Toda a gente fala do novo filme dos irmãos Coen. Menos gente fala de Cormac McCarthy que escreveu No Country for Old Men (ainda que muita gente fale certamente disso). Mas muito menos gente (quem, afinal?) fala do poema de Yeats que começa assim: «That is no country for old men.» O poema tem por título «Sailing to Byzantium» (lembram-se?), e nem sequer McCarthy o cita (uma epígrafe?) no seu livro.

Luís Quintais

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A perigosa experiência da origem

Posted in Comentários by Luís Quintais on Segunda-feira, 25-02-2008

NubaLeni Riefenstahl interessou-se pelos Nuba depois do seu contacto com uma fotografia de George Rodger, um dos fundadores da Magnum. Nessa fotografia de lutadores Nuba publicada pela National Geographic em 1951, o vencedor surge-nos aos ombros do vencido, numa dramatização do poder e da derrota que nos poderá parecer destituída de qualquer mínimo civilizacional. Riefensthal terá talvez encontrado aí um índice perfeito da glorificação do corpo e da política-pelo-corpo que a perseguia desde o início da sua carreira de actriz-cineasta.

Para o que interessa aqui, importa dizer que Rodger foi o primeiro fotojornalista a entrar em Bergen-Belsen onde haveria de captar imagens que correram mundo através de revistas como a Time e a Life. Tais imagens mudaram seguramente a nossa percepção do que poderá ser o humano e o inumano, e fizeram-nos também pensar como nunca antes na necessidade e na urgência do infigurável.

Rodger conta-nos como durante a sua visita a Bergen-Belsen deu por si a compor imagens esteticamente atraentes de pilhas de corpos e de corpos espalhados entre árvores e edifícios do campo, como se se tratasse de naturezas-mortas. Perturbado com esta experiência, Rodger ter-se-á voltado para África e, em particular, para os Nuba, de forma a libertar-se do odor pestífero de tal experiência.

Conduzida pelo olhar de Rodger, Riefensthal fez dos Nuba a sua decisiva obsessão de cineasta e de fotógrafa no pós-guerra. A sua relação com os Nuba põe a descoberto um dos aspectos mais insidiosos do seu trabalho. Revela-nos, justamente, as perigosas encruzilhadas da exoticização e da projecção fantasiosa.

Se pensarmos que tal relação tem uma espécie de motivo original – a sua ur-doxa – na fotografia de Rodger, dir-se-ia que a exoticização e a esteticização andam quase sempre de braço dado. A experiência do exótico e a experiência do estético são experiências da origem, e, como sabemos, toda a experiência da origem é potencialmente perigosa, potencialmente intoxicante.

A insensibilidade contextual de Leni Riefensthal pode ser aferida através da sua primeira expedição em território Nuba. Em 1962, Riefensthal segue os passos da expedição Nansen coordenada pelo antropólogo Oskar Luz da Universidade de Tubingen, e o mal-estar entre os antropólogos da expedição torna-se muito evidente. Como sugere Steven Bach na sua biografia de Riefensthal já recenseada por mim aqui, o trabalho de Leni denunciava uma vontade de construção da realidade Nuba que os antropólogos só poderiam repudiar:

Como a única mulher entre os cientistas, ela pode ter gerado más vontades sexistas, mas a sua independência era disruptiva. A sua busca fervorosa de imagens «do que é belo, forte, saudável» conflituava com os objectivos dos antropólogos de obterem documentação metódica e não mediada. Ela era franca quanto ao seu desinteresse por nativos usando andrajosos calções de ginástica impostos pelo islamismo que «não os fazia parecer diferentes dos negros das grandes cidades». (…) O dramático sentido de imagética de Leni impregnou a versão que transmitiu ao seu diário sobre o que viu (…):«Mil ou duas mil pessoas caminham a balançar à luz do sol-poente num espaço aberto rodeado de muitas árvores. Pintados de uma forma estranha, fantasticamente adornados, parecem criaturas de outro planeta.» No relato mais calmo e menos colorido de Luz, a respeito do mesmo momento, os membros da expedição meramente se dirigiram a um cacho de cubatas e apresentaram-se aos mais velhos da aldeia com a ajuda de uma mensagem gravada que explicava o seu objectivo no dialecto local. (pp. 374-5)

A experiência da origem é coincidente com a experiência do encantamento. As inflexões modernas do trágico prendem-se, afinal, com o modo como esta experiência do encantamento não foi afinal rasurada, mas, pelo contrário, multiplicada através de «tecnologias do encantamento» muito particulares, para usar a expressão do antropólogo Alfred Gell. Aí avultam indubitavelmente a fotografia e o cinema, que são também, e se me permitem a expressão, tecnologias de reinvestimento na origem. Sem este reinvestimento, as condições históricas que conduziram ao extermínio seriam talvez improváveis – e Leni Riefensthal é o exemplo maior disso mesmo, e é por isso que o seu trabalho nos traz desconforto.

Terá sido a tomada de consciência da monstruosidade deste problema que levou um fotojornalista, George Rodger, a trocar a Europa pela África. Mas poluído por tal monstruosidade, haveria de ser por ela perseguido, como se os seus olhos não a dispensassem (talvez tivessem cegado em Bergen-Belsen se a tivessem dispensado).

Riefensthal haveria, por seu turno, de corresponder ao seu sopro e ao seu vestígio.

Luís Quintais

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JG Ballard: observações incivilizadas

Posted in Autores by Luís Quintais on Domingo, 17-02-2008

BallardSaiu este ano o trigésimo livro de JG Ballard. Miracles of Life. Shanghai to Shepperton é a autobiografia que irá certamente fechar o percurso de um dos inevitáveis e notáveis escritores modernos. Ballard é aquele que emblematiza melhor o perfil distópico do progresso científico e da razão para todos. E disse «fechar» porque sabe-se que a motivação para esta autobiografia encontrou-a Ballard no facto de lhe ter sido diagnosticado um cancro em estado avançado. A aguda percepção da sua morte próxima, pois. Não vou escrever aqui (para já) sobre este livro genuinamente comovente (o que não é, como muitos pensarão, algo de insólito em Ballard). Gostaria apenas (e para já) de aqui deixar alguns fragmentos de uma entrevista que Ballard deu a Paulo Moura em 2004 para a Pública (7 de Novembro):

«Que podem fazer os políticos?
Não podem fazer nada. Estão presos ao conceito tradicional de política. Veja a Administração americana. Ainda está agarrada aos conceitos do século XX. Pensam sempre em termos de navios de guerra, tanques, ataques aéreos. É a América de 1945 com muito mais tecnologia, mas a mesma filosofia: se alguma coisa corre mal, bombardeia-se os gajos. Ora isto não se compadece com o mundo que temos. E depois os políticos ainda pensam que o seu papel é organizar a sociedade de forma mais justa e razoável. Também tem de ser isso, mas não só. Vocês já se viram livres da realeza, não é verdade?
Sim, em 1910.
Boa jogada. A monarquia está desacreditada. Mas a república também. Bem como a Igreja. Bom nos EUA, 60 por cento das pessoas voltam-se para a Igreja, numa busca desenfreada do irracional. Eles têm uma indústria de entretenimento desde 1930. Uma prosperidade enorme e ainda a crença de que se trabalharem podem ter uma vida melhor. Mas o que será essa vida melhor? A Disneylândia? Mais consumo?
Não é isso que as pessoas continuam a procurar?
Tem de haver algo mais na vida do que apenas consumir coisas. Isso foi um bom ideal até certa altura, mas agora é um projecto que está esgotado.
A civilização ocidental vai então acabar?
A filosofia da Luzes, nascida com a Revolução Industrial, com a sua promessa de riqueza, prosperidade, já deu o que tinha a dar. O Iluminismo é um projecto acabado. Está nas suas últimas fases e as pessoas estão a voltar-se para o irracional. Para a religião, como nos EUA ou na Arábia Saudita, ou para o irracionalismo político, como os grandes projectos utópicos do século XX, o comunismo e o fascismo, que originaram dois gigantescos pesadelos…
Estará para nascer mais algum grande projecto utópico?
Eu vejo a possibilidade de o consumismo, para sobreviver, sofrer uma mutação. Transformar-se numa espécie de versão soft de fascismo. Há muitas similitudes. Os princípios psicológicos que lhe subjazem são os mesmos.
O consumismo não pressupõe a liberdade individual?
Não. É um tipo de autoritarismo, porque é um sistema de promessas. Compre isto e terá a felicidade. É uma promessa ideológica. A publicidade é um meio de dominar as nossas mentes, de forma autoritária, prepotente, sem argumentos racionais. As pessoas sabem isso e aceitam, porque gostam de obedecer.
Não se pode dizer que seja um optimista quanto à natureza e futuro da humanidade. Até que ponto a sua infância na China, durante a guerra, num campo de concentração, influenciou a sua visão do mundo?
Vivi em Xangai durante a ocupação japonesa, até aos 16 anos. Tive de crescer muito depressa. Aprende-se muita coisa, com essa experiência de viver, durante uma guerra, sob controlo inimigo. Ser civil e estar completamente à mercê deles. Ser uma criança e ver os pais também à mercê, inseguros. Sem terem comida para nos dar, cheios de medo. É absolutamente assustador. Ensina-nos para sempre que não podemos tomar nada por garantido. E que o mundo em que vivemos é muito mais perigoso do que parece.
É, de certa forma, um mundo fictício.
É um cenário. É assim que eu o vejo. Como um cenário de um filme, que pode ser derrubado em dez minutos, para ser substituído por outro.»

Luís Quintais

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Bilal ou a neuropolítica

Posted in Notas by Luís Quintais on Sábado, 16-02-2008

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Sempre me fascinou a importância que Baudelaire tem para Bilal. Assim, por exemplo, em A feira dos imortais (1980), o fim do regime fascista de J. F. Choublanc coincide com a loucura de Nikopol, cuja figura servira um dia os desígnios de vingança e poder do deus Horus que lhe tomara o corpo, roubando-lhe o arbítrio e a decisão.

O que é interessante aqui não é somente o modo como Bilal usa o tema eminentemente baudelairiano da possessão para falar de poder e de metamorfose (metamorfose política também, porque sem a possessão de Horus-Nikopol não seria possível chegar ao fim do terrível regime fascista de Choublanc), mas também o modo como, através desse tema, faz inverter o par loucura/sanidade inicial. Isto é, a relativa sanidade (e ironia) de Nikopol e a “desrazão” do sistema político de Choublanc do início dão lugar à relativa sanidade do sistema político (que coincide com o fim do fascismo) e à “desrazão” de Nikopol.

Este último já não é o possuído (Horus retira-se do seu corpo) do início, mas o condenado a viver entre Baudelaire e o humor. A manifestação do progressivo colapso da mente de Nikopol está no facto dele se limitar a recitar o lírico moderno (o primeiro poeta moderno?) e a ser sacudido por violentas gargalhadas.

Horus retirou-se e deixou-lhe o cadáver mais que esquisito das “flores” de Baudelaire inscrito no seu cérebro. E se aceitarmos que Baudelaire é o primeiro poeta moderno (o criador de uma poesia metropolitana que nos destituiu de vez de todas as declinações pastorais), então é como se a metrópole e tudo o que ela representa de complexo, estranho, e mortal lhe tivesse tomado de assalto a arquitectura cérebro-mente.

Bilal parece querer dizer-nos, afinal, que o que importa ver, desenhar, escrever, e pensar está algures escondido em Nikopol, sendo as palavras de Baudelaire e as gargalhadas demenciais de Nikopol a chave de acesso à vida secreta nas grandes cidades.

Tudo o resto seria ordem e justiça – dias felizes pois, e como se sabe os dias felizes não têm história.

Luís Quintais

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Dobra e escala: anotação sobre Ruy Duarte de Carvalho

Posted in Notas by Luís Quintais on Sábado, 16-02-2008

Namibe

Quando leio Ruy Duarte de Carvalho sou assaltado por uma certeza: estamos perante um escritor na fronteira, um escritor em que o “interior” e o “exterior” estabelecem relações de contiguidade que só podem ser descritas topologicamente.

Deleuzianamente, dir-se-ia que o Ruy é um escritor das dobras, das plicas, em que a psicologia profunda se encena na sua recursividade constante com o território, com a geografia, com a paisagem.

Não é por acaso que ele usa o artifício do diário de terreno do etnógrafo para falar em nome de uma possibilidade: a da linguagem mais descritiva e neutral sobre uma paisagem nos transportar para uma região de opacidade em que aquilo que está em causa é a “auto-colocação” do sujeito que se propôs mapear um mundo que o excede, que o excederá sempre. Toda a transparente adequação da linguagem ao que o cerca é, para ele, a porta de entrada para aquilo que está aquém ou além disso: uma densa viagem de descoberta em nome próprio. É fundamentalmente para isso que ele usa a etnografia. Como Leiris o faria. Quem mais?

Assim nada melhor do que usar um exemplo maior da sua escrita para pensarmos este aspecto. Refiro-me a «Diário (1993-1998)», contido em Lavra. Poesia Reunida 1970/2000. Aí escreve-se logo na primeira entrada:

«1. Moçâmedes // rendido ao torpor de um domingo à tarde e a dois passos de uma rua que tantas vezes recordo, e me remete ao fim da infância, os sons lá fora – crianças que brincam, um carro ou outro que passa, um cão que ladra – transportam-me a um passado que afinal é outro, de adulto já, entre os vinte e cinco e os trinta anos, saído de calulo e acabado de chegar à catumbela, despejado também num quarto de passagem tão alheio como este e da mesma forma alerta porque atento à novidade dos sons, da luz e de cheiros inabituais. e assim entro no sono, projectado de súbito para cima pela sensação de que me observo e meço, e ao fazê-lo me descubro observado e observador, e quem observo é o resultado de tanta combinação fortuita, mas inexorável, que um outro qualquer (fugaz) momento do passado, de sono ou de vigília, teriam feito um outro qualquer de mim. mas a hipótese (que subitamente me iluminava) de poder isolar (identificar e preservar) um eu observador para vários eus obsevados, é ela mesma a despertar-me e assim se anula e me decepciona.»

O que este texto convoca é uma reapreciação de quaisquer tentativas de enquadramento de uma descrição num universo neutral de referências. Essa ausência de neutralidade do observador é anatomizada. O exercício parece uma fenomenologia da percepção à la Merleau-Ponty. Parece. O observador «rendido ao torpor» de uma tarde de domingo, descobre na rua da sua infância a rua da sua idade adulta («entre os vinte e cinco e os trinta anos»), e (sinestesicamente) «alerta» à luz, aos cheiros, aos sons, tal qual como antes, também aí «despejado num quarto de passagem tão alheio como este». Vê-se então a entrar no sono e «projectado de súbito para cima pela sensação de que me observo e meço», e, nesse preciso momento, ocorre uma intensificação da lógica fractal que parece ser afinal a grande lição do fragmento.

O sujeito que se debruça sobre as fontes da percepção e da memória desdobra-se, re-plica-se ad infinitum. Aquele que observa é afinal observado, e por aí fora. A (falsa) estabilidade de um para vários é, aliás, o que conduz a um despertar (aqui) contrafeito e decepcionado, em que o des-dobrar se assume como a única realidade de que deve partir – e de que parte, aliás – a literatura (este é significativamente o primeiro fragmento do notável diário).

Duas coisas pois: (1) O Ruy alucina o texto, para nos mostrar, como diria certeiramente Philip K. Dick (e cito de memória), que a fronteira entre a alucinação e a realidade é outra alucinação; (2) O Ruy escreve numa literatura multi-escalar cuja tradição ele mesmo inventou.

Luís Quintais

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O limite da palavra: anotação sobre «Ludwig W., em 1951» de Manuel António Pina

Posted in Notas by Luís Quintais on Sexta-feira, 15-02-2008

Um nome, uma data. Ludwig Wittgenstein morreu em 1951, justamente. E o poema de Manuel António Pina (publicado pela primeira vez em Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança de 1999, pp. 10-11) devolve-nos o coincidente limite: a morte e a impossibilidade de dizer. O poema é aqui a linguagem da morte, ou a sua alegoria, porque é a linguagem do que não pode ser dito ou tão-só do reconhecimento de que só podemos balbuciar mesmo quando julgamos dizer. Estranha esta coincidência que faz da palavra e da morte o mesmo tema. Injustificável esta exigência a que o poema dá corpo de dizer o que à partida não poderá ser dito nunca. Assumir isso, e porém procurá-lo, como se o poema fosse apenas o vestígio disso. Há uma melancolia extrema na poesia de MAP que tem a ver com o modo como ela nos reenvia para a consciência do seu desamparo. LW é uma figura de eleição para compreendermos isto, porque em LW o drama que se encena é o do limite da palavra: sem ela não há azul, mas nem todo o azul do mundo cabe nela, sem ela não há dor, mas nem toda a dor do mundo cabe nela.

Luís Quintais

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O pesadelo da história

Posted in Crítica by Luís Quintais on Domingo, 10-02-2008

Leni RiefenstahlHistory is a nightmare from which I am trying to awake.
James Joyce

Leni: a vida e obra de Leni Riefenstahl de Steven Bach é uma biografia que nos coloca perante um problema provavelmente insolúvel: em que medida somos ou não somos sujeitos da história, ou, de outro modo, em que medida a história – com os seus poderes de tracção colectiva e de sedimentação simbólica – pode ser flanqueada pelas percepções e acções daqueles que a fazem?

O drama de Leni Riefenstahl pode ser lido à luz disto mesmo: qual o lugar do sujeito na história, em que medida as prerrogativas morais e políticas são ou não apenas uma questão de sorte?

Bach parece comtemplar os dois pratos da balança para nos mostrar fundamentalmente uma personagem que, insensível aos desígnios da história, não deixou de a procurar reinvestir de alguma ficções estratégicas, num trabalho de rasura que nos parece, hoje, aviltante para as verdadeiras vítimas: os milhões que pereceram sob a violência racial sem nome – nem perdão – do nacional-socialismo.

“Fascismo fascinante”, chamou Susan Sontag ao trabalho visual de Leni Riefensthal (cit. Bach, p. 394). Uma parte considerável do poder intoxicante do Reich deve-se à eficácia com que Leni Riefensthal ergueu, em estreita colaboração com Goebbels e Speer, a ficção visual que haveria de alimentar o Estado nazi. A ambição estética e estetizante de Riefensthal não lhe admitia compromissos com quaisquer escrúpulos ou considerações de outra índole. O que Bach – tal como Sontag antes dele – nos devolve é o risco que se esconde no «brilho» encantatório de uma arte que se furta a exigências contextuais, e que apela apenas a uma noção de beleza desirmanada da acção.

Riefensthal passou uma parte considerável da sua vida no pós-guerra a tentar libertar-se do pesadelo da história, porque a percepção de que se tratava de um pesadelo era afinal – e para muitos alemães no pós-guerra assim foi – concomitante ao seu fim. Bach mostra-nos que o interesse da história de Leni Riefensthal está na revisitação impossível de um passado, na procura patética de uma “desnazificação” que nunca aconteceu verdadeiramente, e que não poderia acontecer.

A Leni de Steven Bach poderia tomar como suas as palavras de Stephen Dedalus e dizer, «a história é um pesadelo do qual estou a tentar acordar». Mas talvez não seja possível acordar do pesadelo da história, parece querer dizer Bach, por seu turno.

Nota: a tradução, selecção de notas, e glossário é de Oscar Mascarenhas. O trabalho é simplesmente desastroso. Em certos momentos, a tradução é quase ilegível. Dois exemplos menores: como é possível traduzir «campfires» por «fogos de campo» (p.94) ou «mainstream» por «corrente principal» (p.81). Um outro aspecto: porque é que os leitores portugueses são tratados como uns ignorantes, ao ponto de se amputar o texto de muitas das notas do autor (que nos permitiriam ter acesso à suas fontes), e de incluir outras que são totalmente impertinentes? Por exemplo, a uma referência do autor a adaptações cinematográficas de Moby Dick, o tradutor faz incluir a seguinte nota de pé-de-página: «Baseado no romance homónimo de Herman Melville, de 1851, centrado no ódio sem tréguas do Capitão Ahab àquela baleia-branca» (p.105). E isto são exemplos menores, volto a realçar. A coisa é duplamente grave porque o livro foi objecto de revisão por Silvina Sousa. A edição portuguesa só tem uma vantagem: um lúcido prefácio de João Lopes.

Steven Bach (2007), Leni: a vida e obra de Leni-Riefensthal. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 468 pp. [ISBN: 978-0-375-40400-9]

Luís Quintais

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