Os Livros Ardem Mal

Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (VIII)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Quinta-feira, 25-06-2009

Gatinha Felpuda (1985, Figueira da Foz, pseudónimo de Maria Amélia da Purificação Duarte). Publicou, até ao momento, um único livro, o monumental Grrrrr! (2006), com mais de 600 pp. ilustradas por alguns dos melhores desenhadores da Imprensa Canalha. A crítica, perplexa, ficou silenciosa, com excepções esporádicas laudatórias (o caso de Maria Alzira Seixo) ou hiper-criticas (Manuel de Freitas). Sextinas, odes, éclogas, sonetos à maneira inglesa, epitalâmios, ditirambos, a sua poesia percorre com suma competência todos os géneros clássicos, vazando nessas formas um conteúdo moderno, urbano e cosmopolita, feito de flâneries, iluminações profanas, delírios alucinados da rock culture, palpitações do inconsciente acelerado por psicotrópicos e tudo o mais que houver à mão, explorações do território do amor em versão romântico-erótica em estrofe adequada ao fado que também pratica nos locais desse culto. Jorge Fallorca chamou-lhe «A Ovídio do underground», expressão que pegou nos média. Poesia também cosmopolita em sede idiomática, tanto recorre ao português como a um híbrido anglo como ainda, em certos momentos de excesso erótico ou satírico, ao latim (integra a corrente, minoritária mas de grande visibilidade, dos «neo-latinos»). O seu volume, publicado em edição da autora, tornou-se rapidamente um objecto de culto, atingindo preços exorbitantes no eBay. São já lendárias as performances nas quais a autora vai rasgando as páginas à medida que as lê, incendiando-as e atirando-as para cima de um público que, em transe, se digladia por essas relíquias em chamas.

«Sempre achei que todos temos Deus, ou vários deuses, dentro de nós, qualquer que seja a nossa religião ou cultura. Há algo dentro de cada um de nós a que todos chamamos Deus. Pode ser uma forma de energia, uma força a que podemos dar vida e forma sendo jardineiros, mães, pintores, poetas… Todos possuímos essa coisa feroz e fascinante bem fundo em nós. E apenas podemos aspirar a ser o veículo em transe dessa coisa sem nome».

Anúncios

Comentários Desativados em Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (VIII)

%d bloggers like this: