Os Livros Ardem Mal

A ditadura da poesia & ensaio

Posted in Diálogos by Pamplinas on Terça-feira, 23-06-2009

– Essa sua paixão pelos suplementos económicos, Q.!
– Economia & futebol, neste caso. A economia de 93 milhões de euros…
– Ah bom, já percebo.
– A propósito, o que é que você fazia com 93 milhões de euros, Pamplinas?
– Ia visitar a Paris Hilton…
– Vá, seja sério.
– O mais possível.
– Quer dizer: pouco…
– Quero dizer que não me importava de conhecer a Paris Hilton.
– Curiosidade intelectual?
– Acha possível?
– Você está nos seus dias!
– Bom, se insiste, então eu digo-lhe: com essa massa toda eu comprava a Leya…
– Hã?!
– Exacto. E punha todas aquelas editoras a publicar apenas duas coisas…
– Que coisas?
– Poesia e ensaio.
– Mas ia à falência, meu caro! Puro suicídio!
– Claro que não, Q. Para já, tendo 93 milhões não se vai à falência no negócio dos livros facilmente. Depois, comprar a Leya seria apenas o início…
– Então?
– Seguir-se-ia a compra daquilo que é hoje o calcanhar de Aquiles da Leya: o retalho.
– O quê?
– Pois: a Almedina, a Bertrand, etc. Com umas transacções em offshores – coisa que pelos vistos só os tansos não praticam – o negócio fazia-se sem queimar a massa toda, longe disso. E depois, sim…
– Vejo-o demoníaco…
– Chame-lhe o que quiser… Com essas redes livreiras na mão, podia perfeitamente não permitir que se vendesse nelas nenhum livro que não entrasse nessas duas categorias: poesia e ensaio.
– Censura! Ditadura! Fascismo!
– Com franqueza, Q.! Deixe esses delírios logomáquicos para os miúdos da António Arroio… Pura lógica de mercado, meu caro: bastava impor condições – «custos de exposição», percentagens, devoluções, portes, prazos de pagamento – que tornassem absolutamente desanimadora a tentativa de comercializar esses livros. Ora, como sabe, no mercado quem pode manda…
– Mas só mesmo poesia e ensaio?
– Bom, vá lá, também alguns bons livros infantis. Ou seja: nada de António Torrado, António Mota, José Jorge Letria, Isabel Alçada, e mais 155 desses.
– Mas isso seria a falência de inúmeras editoras que vivem da ficção mais ou menos colorida, das crónicas de gente semi-famosa, da auto-ajuda, dos livros de políticos…
– Exactamente…
– Os seus olhos brilham, seu safado…
– E claro que, conforme essas editoras fossem falindo, trataria de as adquirir… E ainda mais uma série de livrarias independentes de nomeada.
– Mas isso é… um pesadelo!
– Essa agora! Desde quando – vejo-me forçado a insistir – o livre jogo do mercado o é? «Destruição criadora», «sobrevivência do mais apto», tubarão que papa tubarão, etc. Nunca ouviu essa melopeia? E, no fundo, para uma finalidade nobre, não esqueça: a da finalidade sem fim da poesia e do ensaio. O capital ao serviço da educação poética da humanidade!
– Mas, meu caro, admitindo que sim, à poesia e ao ensaio, não seria de admitir um romancezito para as férias estivais?
– Bom… Talvez, quando o mercado estivesse domado, e as massas convertidas à causa da poesia e do ensaio, um Thomas Bernhard, um Beckett, uma Iris Murdoch, Borges, Proust, alguma Atwood… Muito em conta-gotas, para o pessoal não se entusiasmar.
– Um policial de vez em quando? Vá lá…
– Só o Poe e o Conan Doyle. Chega e sobra. Você havia de ver as tiragens da poesia e do ensaio a irem por aí acima! Já imaginou as pessoas a lerem Blake, Alegre e Zizek na praia?… «Deixas-me ler umas páginas do teu Sloterdijk, quando voltar da água?» «Ok, fazemos uma troca e cedes-me o Quintais por uns minutos: para ganhar coragem para a água gelada deste Atlântico…»
– Bolas, retiro a minha pergunta: não estou minimamente interessado em saber o que você faria com 93 milhões. Que pesadelo leninista! Só espero que uma coisa dessas nunca suceda!
– É a minha vez de estranhar e perguntar: mas em que mundo é que você vive?!
– E porquê a estranheza e a pergunta, se é que posso perguntar?
– Ora, porque obviamente isso a que você chama pesadelo é o que ocorre hoje, a toda a hora e em todo o lado. Só que vitimando em particular a poesia e o ensaio… Ou seja, o que eu proponho é uma espécie de reparação histórica. Uma pedagogia do oprimido. Justiça poética, em suma…
– A justiça poética de 93 milhões, é? Você tem cada uma…
– Também lhe pode chamar creolina, se preferir…
– Já ninguém sabe o que é a creolina, Pamplinas!
– Como também já quase ninguém sabe o que é a poesia e o ensaio… Não é razão para supormos que esgotaram a sua nobre função. Tal como a creolina, ou os seus upgrades actuais…
– Pois olhe, depois de o ouvir, sabe em que é que eu gastava convictamente os 93 milhões?
– Diga.
– A comprar o Cristiano Ronaldo. Poesia e ensaio, meu caro, poesia e ensaio!
Touché!
– Hã?!

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