Os Livros Ardem Mal

Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (VII)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Terça-feira, 16-06-2009

Jorge Felício (1980, Vinhais). Estreou-se em 2004 com A Colher na Boca, a que se seguiu A Máquina Lírica, em 2006. Em 2008 seria a vez de A Faca não Corta o Fogo, obra saudada como a confirmação de um poeta genial. Por cada livro venceu alguns dos maiores prémios de poesia do país – o Prémio Optimus, pelo primeiro, o Grande Prémio Cimpor, pelo segundo, o Prémio de Poesia Sonangol, pelo terceiro -, tendo acompanhado a cerimónia de entrega de cada prémio com um discurso marcante, todos eles editados posteriormente em plaquette: «A poesia é uma experiência mortal», «Todas as coisas existem ritmicamente», e «Do magma». Poesia torrencial, dicção magnificante, sedução órfica do mistério e da obscuridade, desvanecimento do sujeito em favor de uma experiência radical do corpo-sem-órgãos, pulsão contra-cultural em favor de um dizer iniciático e epifânico, retracção pública do sujeito – eis um perfil em que o pré-moderno e o alto-moderno entram em curto-circuito, recuperando certas modalidades não-situáveis, em termos estritamente periodológicos, no moderno, aquelas que privilegiam formas de primitivismo reinventado em África, sobretudo. É surpreendente que uma obra com este perfil tenha irrompido tão tardiamente no arco moderno da nossa literatura, mas, como afirma judiciosamente Fernando Pinto do Amaral, «Cada literatura tem a sua história; e a nossa não fica a dever nada às outras. É simplesmente diferente, quantas vezes para melhor». «Poeta de culto», e perfilhando uma ontologia anti-mundana, a sua poesia de energia (energeia), desfiguração, anamorfose & vox, vem tendo um profundo impacto em leitores jovens que por ela descobrem a poesia e o poético, sub specie metafórica; manifesta porém uma acentuada dificuldade em produzir discípulos ou sequer imitadores, tal a singularidade da sua poética. Revela também um grande poder de fascinação sobre praticantes de artes plásticas, não sendo raras as obras com títulos extraídos de versos seus, da BD à escultura, da vídeo-arte ao rock e à música contemporânea (António Pinho Vargas prepara uma sinfonia inspirada na sua obra e cujo título – Luz crua, sal espesso na treva – foi directamente fornecido pelo poeta, após longa conversa com o compositor, que declarou já publicamente, por mais de uma vez, a sua admiração pelo autor).

«O poema é um objecto carregado de poderes terríficos, um abismo demoníaco, a invasão torrencial da nossa inocência. Uma coisa não-moderna, ante-moderna, anti-moderna, o júbilo do não-sentido ou da destruição da sua iminência. Magia negra, salto para fora da cultura, para a noite diluviana do mundo».

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