Os Livros Ardem Mal

Cuidem da liberdade, que a verdade cuidará de si mesma

Posted in Diálogos by Pamplinas on Domingo, 14-06-2009

irão

– Veja aqui, Pamplinas, veja aqui!
– Que maquineta é essa, Q.?
– Bolas, homem: é um iPhone! Não acredito que nunca tenho visto um! Veja estas imagens de Teerão! Veja como estes gajos batem no pessoal que se manifesta!
– Pois. Uma cena antiga…
– Antiga?!
– Sim, homem! Quantas vezes já vimos nós polícias a bater selvaticamente em quem só quer exprimir a sua fundada revolta?
– Pois, tem razão. Mas veja esta foto desta mulher desafiando os gorilas sozinha. Ou esta deste indivíduo ensanguentado… É preciso coragem…
– Ou desespero…
– Sim… E esta…
– Deixe-me mas é ler, Q. Deixe-me ler…
– Você e a sua extraterritorialidade! Às vezes não o entendo…
– Qual extraterritorialidade, homem! Já viu o que estou a ler?
– Deixe ver… Rorty?
– Sim, desde ontem, quando começou a revolta. Ocorreu-me que era o melhor comentário que se podia fazer a essa cena antiga, agora a ter lugar no Irão.
– E porquê, se me permite a pergunta?
– Ora, por causa daquilo a que Rorty chamava o seu slogan político: «If you take care of freedom, truth takes care of itself». Não acha que é isto? Não havendo liberdade, a verdade torna-se um ricto facial a tender para o pornográfico. O Ahmadinejad a declarar as eleições «limpas», com aquele sorriso cândido. O líder supremo Khamenei a declará-las uma «benção divina».
– Mas acha que a liberdade é garantia da verdade?
– Parece-lhe pouco? Olhe que é a única garantia de que dispomos. E se fosse assim tão débil, acha que seria tão difícil conquistá-la? Mas há pior, sabe?
– Pior ainda?!
– Sim, o pior é que, como diz também Rorty, quando um entrevistador lhe pergunta se não considera que a política permeia todos os domínios da vida humana, precisamos de muita sorte para que tal não ocorra… Precisamos de viver no país certo… Nas palavras dele, «With luck, politics doesn’t permeate all realms of human life. It does so in countries like China». Só em certos países em melhor situação isso não sucede, pelo que não se percebe, diz Rorty, por que razão há tanta gente a desejar que a política seja realmente tudo… E conclui, à sua maneira (que é também a minha), que a finalidade de uma política liberal consiste em reservar o maior espaço possível à expressão da privacidade.
– Acha então que os iranianos estão condenados a viver num universo político, é?
– Não leu ainda descrições de encontros entre homens e mulheres por lá, em festas privadas nas quais elas podem tirar o lenço da cabeça, fumar, beber? E, coisa espantosa, muitas delas dizem que nem têm vontade de o tirar, ou de fumar ou beber, dada a estranheza e alienação dessa vida às escondidas.
– Sim, já li várias dessas histórias. Mas o que acha que eles podem fazer, nesta situação?
– Ora, meu caro, aquilo que estão exactamente a fazer: a cuidar da liberdade, para não perderem a possibilidade da verdade.
– Percebo. Mas, agora que penso no que acabou de dizer, é perturbador admitir que o não-político é, como se vê por mais este caso, um luxo.
– Como a  liberdade…
– Enfim, que desespero… Acompanha-me num café? Apolítico?
– O café sim. O apolítico, hoje, é que é difícil.
– Tão longe que estamos dele, e ainda assim aquele Ahmadinejad consegue estragar-nos a privacidade do café…
– É a especialidade dos Ahmadinejad’s…

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