Os Livros Ardem Mal

Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (V)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Quinta-feira, 04-06-2009

Paulo Bento (1969, Lisboa). Estreou-se em 1990 com o fulgurante 400 Haikús, a que se seguiria uma produção copiosa (cerca de 80 volumes, até 2004, data do seu último livro), sempre com o mesmo título, variando apenas o especificador de quantidade. Que foi sempre diminuindo, até chegar, em 2004, a 2 Haikús. Entre 2004 e 2008, ausentou-se no Japão, onde seguiu estudos na Academia Shintoro, em Kyoto, sobre a tradição do Haikú. Em entrevista ao JL antes de partir para o Japão declarou que a sua obra estava praticamente terminada, faltando-lhe apenas coroá-la com o volume derradeiro 1 Haikú. Regressado do Japão, declarou à LER, em entrevista de brevidade telegráfica a Carlos Vaz Marques, que, ao fim de anos de meditação e laboração extática, tinha quase resolvidos os problemas do seu derradeiro haikú, isto é, do seu derradeiro livro. As editoras vêm-se digladiando pelo contrato de edição desse volume, constando nos mentideros que os montantes em causa serão, para o mercado português, discrepantes. Os seus livros conhecem grande sucesso de público, tendo alcançado, alguns deles, sobretudo os derradeiros – 5 Haikús, 4 Haikús, 3 Haikús, 2 Haikús –, as 20 edições, apesar dos preços algo proibitivos que os distinguem. Os volumes mais quantiosos são os menos populares, uma vez que a densidade gnómica e a estranheza retórica dos seus poemas tendem a afastar os leitores, que parecem sentir a necessidade de se enfrentarem com apenas dois ou três poemas de cada vez. A sua poesia está traduzida em todos os grandes idiomas do mundo e começa agora a sair no Japão. Bandas como os Metallica adoptaram já haikús de Paulo Bento para canções, enquanto em Portugal o próximo filme de Pedro Costa, com apoio já assegurado do Eurimages, será uma variação em torno de um haikú do poeta, sobre uma pedra. Muito inspirada em Ponge, a poesia de Paulo Bento consegue conciliar a sumptuosidade imagética com a concisão verbal e métrica, sendo muito notável na forma como ora se concentra e explora à exaustão um motivo ou imagem mínimos (muitas vezes coincidindo tal exploração com todo um volume, como em 237 Haikús seguido de um Post Scriptum em forma de Haikú, de 1995), ora desenvolve uma cornucópia de temas, fazendo coincidir cada um com um poema ou dois apenas. É igualmente impressionante a forma como o poeta salta dos agudos para os graves, nas suas explorações da música do verbo e do verso ou na gama temática, que pode ir das inquietações metafísicas da alma torturada pela experiência do desejo ou da culpa (um fundo católico que contende com uma crescente inclinação budista) à serena contemplação da natureza mais mesquinha e impávida, objectualmente contraposta a uma subjectividade que assim se esvazia e anula, alcançando o zen. A dificuldade expressiva que o poeta foi a certa altura sentindo, levando-o a reduzir drasticamente o volume da sua produção, e a criar uma espécie de «drama poético» em torno do último poema/livro, é talvez referível a uma tópica mallarméana que, nos últimos volumes, se vai tornando mais reconhecível, a do livro que resumiria o mundo nos seus apenas três versos. Os seus livros vão, em concomitância temática e temporal, desistindo da enumeração e exploração de vastas áreas do ser, para se concentrarem na questão órfica da palavra justa à designação/recriação do mundo. O livro por vir com um único Haikú, que muito logicamente coroaria a obra, vem sendo retardado decerto em função da magnitude da tarefa, que inscreve a sua obra na poética alto-moderna e nos dramas também heideggerianos da linguagem que nos diz e, de certo e profundo modo, desapropria, lançando-nos na experiência da despossessão radical.

«O que tinha a dizer, está dito nos versos. O que falta, e é já muito pouco, ficará dito em breve. Antes e depois, silêncio. Esse o drama da poesia: uma conquista, sílaba a sílaba, da mudez».

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