Os Livros Ardem Mal

30 anos depois, os Xutos ainda (nos) tocam? (I)

Posted in Livros, Música, Recensões by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 27-05-2009

xutos

«Os Xutos são o povo. Os Xutos são as pessoas» (p. 254); «Xutos é Portugal» (p. 285); «Os Xutos tocam-nos» (p. 249): três frases, ou três máximas, reveladoras do impacto dos Xutos & Pontapés, entre as várias contidas no livro de Ana Cristina Ferrão (ACF), Conta-me Histórias. Xutos & Pontapés, recentemente reeditado, sendo apenas uma delas, a última, da lavra da autora.

Mas, 30 anos depois do brevíssimo concerto do dia 19 de Janeiro de 1979 nos Alunos de Apolo pela banda então chamada Xutos & Pontapés Rock’n’Roll Band, como significam hoje estas máximas? Desde logo, como significa, como funciona hoje, o livro de ACF, 18 anos após a sua 1ª edição? Para quem, como o autor desta resenha, entende que os Xutos duraram 10 anos – os anos dos grandes temas que são «Sémen», «Esquadrão da Morte», «1º de Agosto», «Barcos Gregos», «Homem do Leme», «Remar, Remar», «Não sou o único», «N’América» e alguns mais -, o livro de 1991 saiu na altura certa, criando aliás uma possível genealogia local para o «livro sobre banda rock» que não teve, como é manifesto, descendência à altura. Olhando aliás para trás desde este ano de 2009, o que nos fica do género é escasso e algo inconsequente. Penso nos dois casos mais óbvios – o livro de Luís Maio sobre os GNR, de 1989, e o de Vítor Junqueira sobre os Mão Morta, de 2004 -, muito diferentes entre si e que contudo revelam a mesma dificuldade: não conseguem gerir os problemas que os objectos que tratam lhes colocam, ao contrário do sucedido no livro de ACF na edição de 1991.

Luís Maio optou por uma solução híbrida, dando a voz aos membros da banda, que na altura estava ainda em processo de «redução» ao trio que a iria refundar para os 20 anos seguintes – Toli, Romão, Reininho -, o que significa que também Alexandre Soares e Vítor Rua são chamados a depor. Mas, uma vez que os GNR não queriam propriamente contar histórias e sim lançar um manto de irrisão sobre a suposta organicidade da «cultura rock» (que neles reivindicará a partir daí o hífen em «pop-rock»), Maio sente a necessidade de analisar em capítulos à parte as letras, as poses e as «intenções programáticas» do rei(zinho) dos trocadilhos, de seu nome Reininho. O livro não satisfaz, porque, precisamente em função do visível fascínio que Reininho provoca em Maio, hesita entre o «livro de percurso» e uma ensaística que por seu turno hesita entre a sociologia cultural, a antropologia social e aquilo que hoje chamaríamos Estudos Culturais, não convencendo nem como livro de percurso nem como ensaística. Mas não deixa de ser o esforço mais significativo entre nós para escrever sobre pop-rock de algum modo «fora» da tradição do livro de percurso (em data aliás anterior à «inauguração» dessa tradição entre nós, com o livro de ACF), sendo a «hesitação» a sua forma sintomática de interiorização do perfil complexo da banda. Quanto ao livro de Vítor Junqueira, que tem a virtude da muita informação que carreia, não consegue ser nem tão próximo, ou íntimo, do seu objecto quanto ACF, nem, na forma como narra a história da banda, consegue dar-nos toda a ressonância que a sua singularidade transportou desde sempre consigo, ficando muito aquém do universo da banda. Se o seu modelo é o livro de percurso à maneira do de ACF, a verdade é que se trata de um caso menor desse género de escrita, longe do conseguimento do livro de ACF.

O que faz então o lugar único do livro de Ana Cristina Ferrão, na edição de 1991, entre nós? Antes de mais, a fortuna histórica de ter vindo à luz no momento certo, quando os Xutos encerravam a sua gesta, tornando-se, para o bem e para o mal, «os Rolling Stones portugueses»: um monólito na paisagem, um culto transmitido de pais a filhos, uma coisa «muito lá de casa». Fechava-se a fase em que os Xutos nos contavam histórias (as que toda uma geração esperara ouvir em português eléctrico) e abria-se a fase da História: discos ao vivo, por vezes duplos e triplos, o rock de estádio, a produção do Guitar Hero Cabeleira, recordes de número de concertos e de público, o funcionamento em rede no meio musical português – como músicos noutros projectos, produtores e promotores -, as lógicas de representação simbólica interna e mesmo no plano externo, a comenda presidencial, etc. Ou de como viver depressa, não morrer jovem e envelhecer mais ou menos bem (o que inclui a barriga de Tim, mas não o desgaste da sua voz, já de si um dos pontos fracos da banda): uma arte ao alcance de poucos, reconheça-se.

Em 1991, o livro de ACF não encerrava apenas a grande década dos Xutos. Dava também a ver a definitiva, mas longa e laboriosa, naturalização do rock na nossa paisagem artística e sociocultural. Até aí, digamos, tínhamos assistido a uma interminável pré-história, mais digna de (re)encantamentos de arquivista do que de qualquer outra coisa, no plano musical mas também, e em perfeito espelhismo, no da difícil produção de uma rock culture local, ou simplesmente de um circuito urbano e suburbano de actuações. A década de 80 anuncia, com o generoso e indispensável contributo do «Portugal na CEE» cantado (e desejado) pelos GNR, as alterações estruturais da década seguinte, por meio de instrumentos, e posteriores lendas, como o Rock Rendez-Vous ou o Blitz de então. Os Xutos foram, muito hegelianamente, o espírito e o resumo desse mundo. Ou, na perspectiva posterior ao livro de 1991, e que justificaria a vida da banda desde então, foram o motor da modernização da nossa cena pop-rock, mostrando o caminho, ou melhor, dispondo-se a trilhar um caminho de terra batida, na altura percorrido apenas pelos desclassificados da cultura urbana – Marco Paulo, José Malhoa, o «trânsfuga» José Cid, enfim, o futuro pimba -, aceitando «ir a todas», tocando nos sítios mais improváveis (desde que os contratos incluíssem uma cláusula que exigia uma grade de cervejas durante a actuação…), forçando a situação às transformações que a década seguinte traria. A este propósito, um momento delicioso do livro é a nota sobre a primeira ida da banda ao Brasil, numa comitiva cujo «cabeça de cartaz» era Roberto Leal, que teria perguntado, segundo Zé Pedro: «Será que eles não partem nada? Não acontece nada?» (p. 25).

Para usar outra linguagem, os Xutos traduziram a sociologia e antropologia desse mundo português para os termos de uma cultura rock que, por esse efeito de tradução, se foi tornando tão orgânica por aldeias e vilas quanto o pimba. É difícil não manifestar algum assombro pelo génio com que os Xutos conseguiram levar a cabo esta operação: porque foi precisamente a sua origem punk, o facto de desde cedo terem funcionado como uma «unidade de combate» (António Sérgio), que permitiu que não se rendessem aos miseráveis dados de partida da cena rock, tanto quanto foi a crueza do rock praticado que permitiu superar as dificuldades técnicas do circuito de concertos ao vivo então, uma vez que a discrepância entre o som pretendido e o obtido, nessa primeira fase, não era demasiado traumática para a incipiência técnica da banda. Uma típica histórica rock de emancipação, digamos.

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