Os Livros Ardem Mal

Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (III)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Domingo, 24-05-2009

Ricardo Araújo Pereira (1974, Lisboa). A vox populi atribui-lhe um primeiro livro, editado sob o pseudónimo Angélico Martins, com o título Versos Livres & Rima Presa (1994), que nunca assumiu, talvez por discrepância estética em relação ao seguinte rumo da sua obra, óbvia o bastante para indexar esse livro inicial sob a categoria da «juvenília». Com atribuição inequívoca do seu nome editou, em 1997, Perguntas de um Intelectual Iletrado e, três anos depois, Ainda não é poesia nem prosa calma é apenas alguma coisa parecida com isto. Por comunicado datado de 1 de Abril de 2003 informou que a partir daí se assinaria R. I. P. e que aderia ao movimento do «literalismo» (v.), renunciando pois ao suporte livro e passando a lançar os seus poemas ao ar pendurados em balões. Fez várias dessas operações, sempre com grande afluência e adesão de público mas sem qualquer consenso crítico (com a entusiástica excepção de Vasco Graça Moura, que exprimiu repetidamente o seu apreço pela obra e suas públicas manifestações). Muitos dos poemas que lançou nessas ocasiões tornaram-se peças de colecção, atingindo preços altíssimos no circuito da bibliofilia, com a sua total discordância e mesmo ameaça de processo judicial, uma vez que (palavras suas, aos jornais) «Só por propósito obsceno se pode capitalizar aquilo que é lançado ao ar e que pertence, a partir daí, ao devir-mundo da palavra». A sua poesia é uma densa e intransigente meditação metapoética sobre a possibilidade representacional da poesia (e, antes dele, da própria linguagem) no mundo pós-metafísico, numa filiação heideggeriana que, no seu livro de 2000, alcança uma rara fundura onto-teológica. Poesia da secularização e dos seus limites, não deixa de recolocar a vexata quaestio das fronteiras entre o poético e o filosófico, pela destreza com que consegue dar forma poética – e admiravelmente rítmica – a uma série de filosofemas de teor metafísico (refiram-se títulos de poemas maiores como «O estar-aí da sombra» ou «Um corpo amado-para-a-morte») e contudo muito dizíveis e mesmo possuídos de um furor cantabile, em poemas naturalmente tendendo para uma extensão significativa. O que algo paradoxalmente contrasta com uma vertente da sua poesia, mais explorada no livro apócrifo inicial – para alguns, argumento em desfavor dessa atribuição de autoria -, mas também nos da fase «literalista», em que a interrogação se volve balbuceio, soluço, gaguez ou mesmo babugem de uma linguagem que nunca acede a uma gramaticalidade mínima, apresentando-se antes em estado de resto e resíduo, como se fora mais uma das inevitáveis ruínas da modernidade, empilhadas ante o olhar esbugalhado, não raro assolado por um muito peculiar pathos, do poeta-anjo da História.

«O signo distintivo dos poetas, hoje, consiste em que a essência da poesia se tornou, para eles, digna de ser posta em causa. Pois, poeticamente, eles estão no rasto do que está por dizer, nomeadamente, a questão do poético: quando há canto quem é que, essencialmente, canta? Esta questão só se colocou quando o dizer do poeta alcançou verdadeiramente a vocação poética da poesia, que corresponde à nova Idade do mundo. Esta Idade não é nem queda, nem declínio. Enquanto destino, ela repousa no ser e captura o homem no seu ser-para, na sua pertença ao devir da noite do mundo. É esse destino que decide aquilo que, no interior da obra, pode ainda vir a ser um historiável».

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