Os Livros Ardem Mal

Dicionário Crítico por Intermitência: Poetas (I)

Posted in Dicionário, Poesia by Pamplinas on Terça-feira, 19-05-2009

RR Fortuna (1958, Paranhos). Estreou-se com Grãos de Pólen (1978), tendo sido saudado como a voz mais densa da sua geração. O coro crítico manteve-se no longamente aguardado segundo livro, que surgiria apenas em 1994 – Medula da Água -, a que se seguiria, logo no ano seguinte, em volume com a configuração de Obra Completa, e enfeixado aos anteriores, um novo inédito, Alma Orográfica (que passou a ser o título da sua obra poética). O volume coleccionou os maiores prémios de poesia do país e o autor remeteu-se desde então a um mutismo quebrado apenas por uma mão-cheia de poemas editados em revistas. Vem sendo traduzido para vários idiomas. A sua poesia é uma versão do poético como voo intransigente do espírito, inquirição órfica da mínima natureza como dos enigmas e mistérios da paisagem interior desdobrada em panejamentos sem fim, explorando formas como a ode mas em especial o hino, com extensão tendencialmente vasta – e, no seu último livro, coincidindo com um longuíssimo poema apenas. Com a sua obra, a poesia portuguesa recuperou a dicção rilkeana que raramente lhe foi conatural, se excluirmos os promissores poemas de Pascoaes e os hinos à noite, incorrectamente chamados «odes», de Pessoa ou ainda os «mistérios órficos» de António Rosa. De grande impacto na geração posterior, sobretudo em Jorge Felício (v.) e Maria Carlos Maria (v.), a sua poesia vem também exercendo um crescente fascínio sobre a crítica, em especial em Américo Lindeza Diogo e Pedro Mexia (Eduardo Lourenço dedicou-lhe um pequeno mas significativo ensaio, incluído na muito recente versão alargada de Tempo e Poesia).

«Ter falta de tudo, e ter tudo em falta, é o trabalho da sinédoque como figura da aspiração fracassada ao todo. Como é que um todo falta à parte, eis a questão. É preciso de tudo para fazer infimamente um mundo? Talvez… Como proporcioná-lo, eis talvez a questão. E que a parte seja mais integrante, com menos falta de tudo se o todo lhe faltar menos. A poesia é este dizer o que falta – e este dizer em falta».

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