Os Livros Ardem Mal

Vá ser «gauche» na vida

Posted in Diálogos by Pamplinas on Terça-feira, 28-04-2009

– Você leu ontem o seu mestre Desidério no Público, Pamplinas?
– Leio sempre, como sabe, Q. Religiosamente.
– Notou que ele está do início ao fim a falar da fausse gauche?
– Um leitmotiv magistral!
– Pois: mestre, magistral. Tá bem. Mas olhe lá: por que diabo usa ele sempre a expressão no modo gálico? E por que diabo a esquerda é sempre fausse?
– Ironia transcendental, meu caro. Para o palato de muito poucos… A França é o país da esquerda, desde a Revolução, a França persiste em sair à rua e manifestar-se a torto e direito, a França foi, com Busch, a pátria europeia do anti-americanismo primário…
– Logo, é falsa. A França e a esquerda. Tou a ver. Profundo, de facto… Já a direita, suponho, é sempre true. É o «estado natural do mundo», como dizia o Prof. Lourenço e se percebe bem ao ler o seu mestre.
– Exacto. É como o argumento dele sobre a «ditadura do proletariado»: tudo sempre a reivindicar o apoio do Estado para coisas que ninguém está disposto a aturar: filosofia, latim e grego, filmes de João Botelho. Exacto, desmistificador e profundo.
– Não sei se reparou que essa lista é sem fim… Ou seja, quando se começa, não se acaba: ele, curiosamente, começa e acaba logo, referindo essas coisas que apontou. Não percebo aliás porque não extrai ele todas as consequências do exemplo da escola, que só dá prejuízo ao Estado e seca a toda a gente: pergunte à miudagem, e aos pais dela, o que pensam da escola e vai ver como se trata apenas de mais uma manifestação ditatorial… Devia simplesmente mudar de vida, dado que é prof., e dedicar-se, sei lá, à publicidade, uma vez que é bom em soundbytes. Mas já notou que a existência do jornal em que ele escreve, o Público, é um caso de ditadura do capital?
– Como?!
– Ora, meu caro: toda a gente sabe que o jornal nunca deu lucro e só existe porque o Boss Belmiro quer ter um jornal. Por esse andar, se o mercado funcionasse plenamente, sem «subsídios», o seu mestre não tinha onde publicar aquela croniqueta e lá perdia aquele gancho…
– Isso cheira-me a calúnia. Campanha negra.
– Pois, pois. É caso para dizer que se trata, sim, da verdade do falso. La vérité du faux, diria ele. Se soubesse francês, claro.
– Não percebo essa sua insinuação!
– Ó homem, mas é simples. Só você é que é capaz de ver naquela repetição pedestre de fausse gauche tudo isso que esteve aí a debitar.
– Ai é?
– Pois é. Eu explico. O seu mestre sofre do morbo analítico, não é verdade? Logo, o que se passa é que tem não só desprezo e rancor por all things continental (gostou desta?) como, de facto, conhece, do francês, aquelas expressões que o cidadão semiculto conhece, sei lá, do latim: a priori, a posteriori, etc. Se ele repete sempre fausse gauche é, muito simplesmente, porque não sabe que o contrário disso é vraie gauche.
– Eu…
– Veja se controla a sua apoplexia, Pamplinas. O argumento é sofisticado, como passo a demonstrar. Não era Wittgenstein que dizia que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo»? Ora aí tem a tese em acto (em latim deve ser in actu, não?): como ele só conhece aquele refrão, só conhece também aquela versão da esquerda. São os limites do mundo dele, que estão todos nas limitações do francês dele. Soubesse ele mais francês e o mundo dele seria bem menos simplista.
– Eu…
– Uma típica inferência a contrario, meu caro: um espírito que se obstina tanto em ser simples só pode provir de uma relação simples com a linguagem… O que não é, de facto, contaditório com o modo analítico, que confunde a linguagem com o Lego.
– Eu…
– Acresce que, como se aprende também em Eduardo Cintra Torres, quanto mais barbaridades se disser sobre política cultural, mais certa gente (Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, etc.) considera tais barbaridades «discurso desassombrado». Como se fosse muito difícil dizer coisas dessas… Que ainda por cima levam depois o selo dignificante do «politicamente incorrecto», quando não são mais do que incorrecção intelectual para deleite das massas… Um tanto como a revolta contra a educação que nos priva do inconfessado prazer de coçar os ditos…
– Ai sim?
– Pois você acha muito difícil, e desassombrado, dizer que o povão só quer fado, futebol e Fátima?! E que, em consequência, quem reivindica apoios do Estado para mais do que isso, é elitista e quer impor uma «ditadura do proletariado»? Aliás, meu caro, reparou que o seu mestre não faz ideia do que seja a ditadura do proletariado? É que se tivesse a menor ideia do assunto não usava uma metáfora tão errada, além de historicamente chocante (parece aquela gente que está sempre a ironizar com o «centralismo democrático» dos comunistas sem perceber que é exactamente isso que define o seu mundo profissional: por exemplo, e desde logo, o universitário). Mas também, faz sentido: o espírito analítico tem horror à metáfora.
– Você não atinge, é o que é. Anda para aí a ler pós-modernos deletérios…
– Deixe-se de Sokalices, Pamplinas. Deixe isso para quem não gosta de ler vastos tomos, sobretudo se de Humanidades, e prefere resumos ou panfletos. Aliás, sabe o que me apetecia recomendar ao seu mestre?
– Não sei se quero saber…
– Que vá ser gauche na vida, como dizia um grande poeta que sofria da terrível limitação de escrever em português e não em inglês-para-a-FCT. Mas gauche de verdade, e não nesta versão de pensamento proletário.
– Não o reconheço. Está sob influência, seguramente. Espero que não da gripe suína… Um café?
Vivement, Pamplinas. Vivement.

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