Os Livros Ardem Mal

Acidente e simulação em JG Ballard (pré-publicação)

Posted in Artes, Autores, Crítica, Efemérides, Livros, Notícias, Recensões, Vária by Luís Quintais on Segunda-feira, 20-04-2009

ballardsroom6Negativity is a positive task.
Paul Virilio

De que forma é que a literatura cooptou um dos dados mais fundamentais da experiência moderna: a presença incontornável (e o lado inexorável dos processos que essa presença reclama) de uma paisagem radicalmente transformada pelo concurso da ciência, ou melhor, da tecno-ciência? A pergunta instala-se imediamente num contexto de contornos difusos, mas mesmo assim decisivo para nós. A noção de tecno-ciência faz-nos assumir que o conhecimento científico se inscreve em complexas configurações de natureza social e material que lhe dão a sua gravidade, densidade, e poder. De que forma é que a literatura respondeu às figurações utópicas e distópicas do projecto moderno que visava projectar o mundo de acordo com os preceitos de um conhecimento politicamente necessário porque experimentalmente validável e universalmente verdadeiro?

Como alguém que prefere uma singularidade para fazer ecoar forças  de improvável cartografia que a atravessam, sugiro que nos concentremos num exemplo cujas reverberações se tornam, a meu ver, reveladoras. A minha sugestão é que nos atenhamos a uma espécie de genealogia mais ou menos solta da escrita de um romance particularmente influente e sobre o qual se projecta uma luz que gostaria de caracterizar como oracular, isto é, como se se tratasse de um objecto que reclama uma exploração extrema (e extremada) realizada num território de potencialidades que parecem emergir sinuosamente do presente, esse presente que se dilata e que nos colhe irremediavelmente. Estou a falar de Crash (1973) de JG Ballard, e Crash pode ser pensado a montante, porque o livro é o resultado de um conjunto de obsessões que lhe são prévias.

Em conformidade com um dos preceitos ballardianos que nos diz que, para lá das nossas obsessões, pouco haverá que valha a pena ser perseguido, Ballard aventurou-se quase sistematicamente, desde finais da década de sessenta, num território de inquietação profunda a que Freud designou de Das Unheimliche, e a que o antropólogo Victor Turner chamaria certeiramente de liminar, isto é, um território de improvável classificação, porque betwixt-and-between: nem dentro nem fora, mas antes no umbral, aí onde a viscosidade (um mundo que não é líquido e que não é sólido) se torna uma constante afectiva, e onde aquilo que nos fascina é igualmente aquilo que nos repugna.

O cenário é o de um mundo onde se dramatiza e performatiza o espectáculo debordiano de uma sociedade de consumo que faz das derivas tecnológicas – e dos sulcos que estas deixam no tecido da história e da paisagem – uma alavanca para o seu exercício autofágico e onde, polémica e prescientemente, tecno-ciência e pornografia se associam num exercício de reconfiguração do poder e do desejo.

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No seu último Miracles of life, Shanghai to Shepperton: an autobiography (2008), Ballard revisita Crash, revelando-nos, mais uma vez, como se trata um livro profundamente enraizado num período histórico (os sixties) e como a tópica do «acidente» e da «simulação» percorrem as suas páginas.

A modernidade e os seus estilhaços a exigirem constantemente uma reapreciação das implicações do gesto humano, e a ficção – a ficção nos termos em que a coloca Ballard – tomada como um simulador de uma natureza humana imensamente plástica e profundamente estratificada, sendo que uma parte muito significativa desses estratos se afigura desconhecida ou por determinar (a influência de Freud e dos surrealistas é aqui visível). Ballard olha para esse mundo da guerra do Vietname, da expiação da culpa pela morte do Presidente Kennedy, do consumo e do ludismo, da celebridade e da fusão entre sexo e tecno-ciência, como um laboratório de experiências não inteiramente literárias, pese embora a inescapável presença de Atrocity exhibition (1970) e de Crash (1973), que serão eventualmente os dois momentos mais citados dessa convulsão ballardiana em nome do acidente e da simulação.

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O automóvel é aqui o «objecto sensível» dessa modernidade onde o acidente se tornou, talvez, a única figuração possível da «revelação» de uma irónica e trágica linha de fuga que compromete o fechamento só imperfeitamente proporcionado pela climatização moderna. Ballard vai testá-lo antes da escrita do seu Crash, através de uma experiência muito particular.

Em 1970 foi-lhe proposto pelo New Arts Laboratory de Londres a possibilidade de fazer algo nas instalações deste centro de artes. Num pavilhão enorme que fora antes um armazém de produtos farmacêuticos, existia agora um teatro, um cinema, e uma galeria de arte. Ballard irá testar ali a sua hipótese sobre a relação inconsciente entre sexo e acidente de automóvel através de uma exibição de carros destruídos. O espaço da galeria ficou ao seu dispor durante um mês e Ballard deambulou por aqueles dias por cemitérios de automóveis destruídos, comprando então três espécimes para serem entregues na galeria. Os automóveis foram instalados no espaço da galeria sem qualquer outro material associado, como se se tratasse de peças escultóricas. Um circuito interno de televisão foi também instalado de forma a que os convidados se pudessem ver enquanto circulavam em torno dos automóveis. Uma rapariga parcialmente desnudada (em topless) entrevistaria os convidados. A noite inaugural com jornalistas e escritores foi copiosamente regada com álcool. O caos depressa se instalou. O vinho era atirado sobre os automóveis, as janelas eram quebradas, a rapariga era molestada sexualmente no assento traseiro de um Pontiac. Ballard terá sido objecto de uma tentativa de agressão por parte de uma jornalista do New Society. Ao longo do mês em que a exposição esteve aberta, os automóveis foram atacados repetidas vezes, manchados com tinta branca por um grupo Hare Krishna, virados ao contrário, e os seus retrovisores e matrículas roubados. A experiência de alcance antropológico tinha sido sugestiva.

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É destes «poderes nocturnos» e desta dobra entre ficção e realidade de que trata Crash. Dir-se-ia porém que Crash é um romance que apela a uma estratégia experimental que só poderia decorrer de uma certa concepção tecno-centífica moderna em que o laboratório se tornou parte integrante da pólis. Poderemos, aliás, considerar que a cidade de Ballard é um laboratório de experiências onde as ficções da ciência e as ficções da arte se enlearam definitivamente. Um laboratório onde acidente e simulação se afiguram os dois vértices experimentais de uma complexa encruzilhada de hipóteses em torno de uma natureza humana infiguravelmente plástica e, em última instância, opaca. Uma natureza humana cujo perfil indeterminável deve ser testado. É assim que a pólis contém o corpo e o corpo a pólis. Incluem-se mutuamente e iluminam-se reciprocamente em fulgurações de violência e de velocidade. O automóvel encena este drama em que, como nos diz o filósofo e urbanista Paul Virilio, «o acidente é o diagnóstico da tecnologia». A cidade tornou-se assim, desde Ballard, uma máquina de simulação onde o acidente, a sua lógica, é reiterada. E o acidente é, como nos diz também Virilio, «positivo», isto porque revela algo de importante que de outro modo não seria percebido.

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Este ensaio será publicado na íntegra no próximo número da revista Nada.

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