Os Livros Ardem Mal

Da paronomásia

Posted in Diálogos by Pamplinas on Sexta-feira, 10-04-2009

– Tive hoje um sonho estranho. Ou melhor: enigmático.
– Então, Pamplinas?
– Olhe, passo a descrever. Estou numa casa grande, com muitos compartimentos e corredores. Na cozinha duas mulheres conversam (suspeito que a minha mãe e a minha avó, mas não consigo ter a certeza). Ao andar pela casa, apercebo-me de que numa saleta há fogo. Retrocedo até à cozinha, procuro um recipiente, uma das mulheres (a minha mãe?) estende-me uma xícara de chá…
– Uma chávena de chá, quer você dizer…
– Hã?
– Já ninguém diz xícara, homem.
– Mais uma razão para não deixar de o dizer. Mas eu conto um sonho aflitivo e você faz comentários filológicos, Q.?
– Não confunda a frequência desinteressada dos dicionários com ciências da linguagem…
– Bom, adiante. Pego na xícara, cheia de chá, e atravesso a casa. Chego ao compartimento a arder (é a mesa do centro que arde) e deito o chá em cima do fogo. Regresso à cozinha, pelo longo corredor, virando à direita e depois à esquerda. Encho a xícara com água e regresso à cena do incêndio. Deito a água sobre o fogo…
– Que nessa altura já seria fogaréu, não?
– «Fogaréu»? Isso é a sua «xícara», não? Mas não, ainda não era. Só aí à quinta viagem é que a coisa se torna preocupante. Toda a mesa arde, as chamas ameaçam o tecto…
– «Lambem o tecto». É assim que (tão eroticamente) se diz nos romances e nas descrições de incêndios nos jornais, neste último caso quando ainda as havia.
– Como queira. Regresso à cozinha com a xícara na mão. Nessa altura, a minha mãe (percebo então que era mesmo ela, embora permaneça na dúvida quanto à identidade da mulher idosa com quem conversa: a minha avó?) diz-me: «Estás tão pensativo… Que se passa?» Explico-lhe que a saleta está a arder e que – aponto para a xícara – não estou a conseguir apagar o fogo, apesar dos meus denodados esforços.
– «Denodados»? Você hoje parece o próprio Moraes a falar, Pamplinas!
– Olha quem fala… A minha mãe levanta-se, diz-me calmamente «Mas por que é que não disseste antes?», esvazia a xícara do chá que estava a beber, chega-se à torneira e enche-a de água, a minha avó (é mesmo ela, percebo então) repete o gesto, eu idem, saímos, eu atrás delas, percorremos a casa, entramos na saleta e despejamos de uma só vez as xícaras por cima do fogo. Apaga-se instantaneamente. «Vê lá, não te esqueças de levar o Bobby a passear», diz-me a minha mãe e, acompanhada da minha avó, regressa à cozinha. Eu fico especado com a xícara na mão.
– Assim como está neste momento…
– Hã?! Sim, tem razão, tal e qual como agora. Ou melhor: não exactamente, pois esta é de café e a diferençazinha é importante, não?
– Sem dúvida. Uma vez que, e se me permite seguir de perto o Traumdeutung, lidamos aí com condensação…
– Ah sim, seguramente!
– … deslocamento e figurabilidade – tudo numa xícara, meu caro -, é claro que a escala da condensação conta.
– Pois, aquilo de apagar o fogo com uma xícara seria ainda mais absurdo se ela fosse de café, não?
– Absurdo ou cómico?
– A mim, não sei porquê, não me dá vontade de rir.
– Pois eu só não me desmanchei por respeito para com a aflição do seu facies
– Agradeço a solidariedade.
– Mas enfim, qual acha que é o significado do sonho?
– Sei lá. Dá para perceber que o meu futuro não está nos bombeiros…
– Também me parece. Ou melhor: até pode estar, desde que a sua mãe seja comandante da brigada…
– Acho que não estou a gostar do rumo que isto está a tomar…
– Compreendo. Mas sabe, atalhando a coisa, eu diria que o sonho se resume numa máxima.
– Uma máxima?!
– Sim, sim, Pamplinas. Esta: «Convém ter a mãe sempre à mão».
– Paronomásia cum incesto… A mais fácil das figuras, sabe?
– Não sei, não. O quiasmo ainda me parece mais fácil e contudo é bem performativo – veja o Marx (ou o Boaventura de Sousa Santos). E, em todo o caso, a verdade da paronomásia é a do incesto: muito próximo/a e afastado/a por uma diferença mínima. O fogo na casa materna, a mãe que o governa…
– Você agora rima? Tá a gozar com coisas sérias?
– Não dramatize. É só um sonho.
– Como se um sonho fosse só um sonho… Além de que a vida é sonho.
– Não é, não. É só a vida. E, em todo o caso, não é o sonho que a comanda. Vai outro café?
– Lamento, mas desta vez não o acompanho. Um chá frio. Aliás, gelado. De limão. Sem açúcar.
– Não seja tão benfiquista, homem…

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