Os Livros Ardem Mal

Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (VII)

Posted in Livros, Poesia, Recensões by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 07-04-2009

corvo

Colocado expressamente sob signo infausto, Corvo seria a taumaturgia de um território que não sobreviveu. As três epígrafes do livro – Poe, La Fontaine e o rimance de D. Filomena que convém transcrever: «Os corvos lhe comam os olhos e a raiz do coração» – não apenas declaram esse fado como deslocam a questão do território para o plano de uma mediação situável entre poesia e cultura e, ainda, entre o popular e o erudito. O poema inicial, porém, declara o corvo (aqui um devir outronímico do poeta) um taumaturgo de feira – «de ti os vindouros sem penas / farão arroz de cabidela / ou quem sabe torpe gralha, / de corvo corruptela.» -, anunciando a sua desqualificação em gralha, consumada no último acto/poema do livro. Mas declara sobretudo a inutilidade da taumaturgia enquanto protesto que nada pode, tanto quanto a indignação ou revolta nada pode contra a naturalização do devir do mundo do tardo-capitalismo (chamemos-lhe «desertificação do interior», «abandono do mundo agrário» ou «efeitos da globalização»).

A inteligência deste livro reside porém na permanente sobreposição da «lógica do poético» à do mimético e, em consequência, na deflação das nem que apenas tentações de confiar um programa de salvação a um regime ou registo mimético. Os versos que transcrevi do poema inicial tanto são o auto-retrato do corvo enquanto taumaturgo falhado – e como o não seria, sendo ele, em rigor, uma persona vicária, e talvez propiciatória, do mundo secularizado, que delega em corvos e fantasmas os seus desejos inconvictos de crença? -, como são ainda o auto-retrato fiel do poeta moderno, de perfil aliás muito mallarmeano, magnificamente resumido no «inútil protesto / de utilíssimo nada».  

Deste poema deriva quase tudo: os rostos de morte e nada que regressam quase a cada poema; as refigurações do corvo, que se vai metamorfoseando em aves mais ou menos implumes e explorando um espectro de possibilidades, entre a deflação grotesca e a sábia destilação de um trágico cujo verdadeiro nome é sombra e nada. No primeiro caso, o livro reincide a todo o instante numa teoria de nomes e rostos da morte: «luto» (p. 13), «cangalheiro» (p. 15), «vigília sobre o nada» (p. 17), «o compromisso de morrer» (p. 29), «no palco das sepulturas» (p. 33), «estígio porto» (p. 42) e passim. No segundo, o corvo vai sendo usado como plasticina figurativa para «torpe gralha» (p. 11), «frango implume, ovo estragado / máxima cloaca» (p. 12), «corvo tosquiado» (p. 16), «reles corvo carbonizado» (p. 22), mocho (no poema «A um mocho nas termas de Vidago») e, finalmente, gralha. É o caso do poema final, em que o nome-título aparece entre parêntesis rectos – «[Gralha]» -, como uma deslocação figural que é, ao mesmo tempo, não-título (uma vez que não coincide com o primeiro verso, ao contrário da sugestão do diacrítico nas convenções da poesia), sendo, contudo, coisa produtivamente diferente de um «Sem título», tal como ele ocorre por exemplo nas artes plásticas, e ainda correcção final: como quem vê no corvo, e nas suas altas ambições simbólicas, uma gralha que coloca todo o projecto do livro sob o signo do lapso. É este o ponto crítico em que o corvo de Rui Lage inscreve, por meio do diacrítico que presentifica e, ao mesmo tempo, afasta de nós a [Gralha] que é e não é um corvo reescrito, no seu devir não-conclusivo – inscreve, dizia, a tensão, longa de dois séculos, entre símbolo e alegoria ou, se se preferir, entre Corvo e [Gralha]. As altas ambições do simbolismo do corvo – que rasurasse o abismo entre este nome taumatúrgico e a coisa transmontana (entre o omen e o morto), dando-a a ler na sua imediaticidade plena – são postas em causa pela incoincidência dos dois nomes e pela forma como o diacrítico final critica o título simbólico do livro, negando-lhe a organicidade e o sentido que difere para um momento pós-final, como se o corvo volvido [gralha] pedisse o Post Scriptum que de novo o devolvesse ao lugar (transmontano e simbólico) do sentido literalmente transcendental prometido pelo título do livro. E como vimos, aliás, este livro abunda em Post-Scripta – as «Notas aos Poemas», a «Playlist» -, como se a [gralha] que não consegue ser, de facto, o final do livro, diferisse para uma temporalidade sempre posterior a possibilidade de restauração da organicidade de Obra e Sentido.

O que resta do corvo, o que fica da sua taumaturgia, é uma sombra (gralhada) que alguém segue, nesse último texto:

Não saias da minha beira
amiga sombra
deixa
que te sigam meus passos.

Ou melhor: uma sombra que alguém não pode deixar de seguir, tal como à memória da infância perdida. Ou, melhor (pior?) ainda: uma sombra que persegue este sujeito que se julga ingenuamente dotado do livre-arbítrio de a seguir ou não. A questão não é contudo do foro ético mas antes do de um desespero ontológico em que a fatalidade da perda de vínculo a esta sombra – o resíduo memorial, i.e., temporal, de uma representação «territorial» – é ressentida como a redução de toda a pulsão de resistência da linguagem poética ao equívoco (um decisivo exemplo, ainda no domínio do memorial: «o passado é quem pinta / a pior pintura», p. 53). O corvo, como a poesia, são de facto gralhas: nomeações delirantes, falhanços miméticos, equívocos figurais e políticos. Nada ressuscita o já morto, pois nenhuma palavra tem o poder de descrever o que já se não oferece à descrição; mas, por outro lado, e na medida em que nenhuma descrição é uma questão rigorosamente verbal mas antes fantasmática (é essa a natureza da relação da linguagem com o real), a questão da descrição arrasta, como que necessariamente, a da fantasmagoria do mundo. A poesia, enquanto «descrição de cor» – literalmente: daquilo que já só mora no «coração» -, não pode, neste sentido, não ser uma rigorosa descrição dos equívocos de toda a descrição. Noutras palavras, não pode deixar de ser a tradução de corvo em [gralha]: um parêntesis recto colocado sobre todo o nome e toda a nomeação.

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