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Inquérito OLAM: Joana Matos Frias

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Terça-feira, 31-03-2009

frias

Joana Matos Frias é professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O seu livro O Erro de Hamlet: Poesia e Dialética em Murilo Mendes, venceu o Prémio de Literatura Murilo Mendes, na categoria de Ensaio, tendo sido editado no Rio de Janeiro pela 7 Letras, em 2002. Doutorou-se com uma tese sobre Retórica da Imagem e Poética Imagista na Poesia de Ruy Cinatti. Para as edições Quasi preparou e prefaciou uma antologia de Ana Cristina César. Em colaboração com Luís Adriano Carlos, preparou a edição facsimilada dos Cadernos de Poesia. Tem-se dedicado preferencialmente à literatura portuguesa do período moderno e contemporâneo e, ainda, a questões de teoria literária e retórica e à relação entre a literatura e outras artes. Agradecemos a Joana Matos Frias a disponibilidade para colaborar com o nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

«Só quem nunca pensou chegou alguma vez a uma conclusão»: a provocação de Pessoa salvaguarda com a finura possível a imprecisão das respostas que se seguem, escudada ainda pelo conhecido parecer de Edmund Burke, «a clear idea is […] another name for a little idea».
Com alguma pena por a pergunta não ser «de que livro de ficção portuguesa do século XX mais gosta?», terei que responder que o melhor livro de ficção portuguesa do século XX é Para Sempre, de Vergílio Ferreira (1983). Porquê? Porque é o melhor livro da melhor fase do melhor ficcionista português do século XX. Subentenda-se, naturalmente, «no meu entender», mesmo que aqui a subjectividade aspire à validade geral graças à perspectiva crítica mediada pelo próprio juízo de gosto, onde se cruzam a razão e o sentimento. Para Sempre, escrita do limite no limite da escrita, articula a unidade e a totalidade, e portanto o efeito de harmonia, o estado de perfeição e de acabamento, com a a vertigem da imperfeição e a força fragmentária de um discurso que exprime a tomada de consciência do terrível. Belo e Sublime, portanto, Para Sempre é um romance que atinge os princípios estéticos mais antigos no centro nevrálgico da própria Modernidade, que não convive bem — como sabemos — com categorias apriorísticas. De todas as obras de Vergílio Ferreira pós-Aparição, esta é aquela onde melhor se consumam as características que já conferiram ao autor um lugar único na história da literatura portuguesa do século XX: a prevalência do modo lírico num género tendencialmente narrativo — com todas as implicações de expressão e de conteúdo que tal imprevisibilidade acarreta —, o domínio rigoroso e sempre inesperado das categorias da narrativa — muito em particular do tempo, sua raiz estruturante —, e uma profunda reflexão sobre a condição humana, o pensamento, a palavra e a escrita, ou melhor, sobre a escrita como pensamento, e sobre a palavra como o essencial da condição humana.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

A Margem da Alegria, de Ruy Belo (1974). Porque é o mais perfeito exercício rítmico da poesia portuguesa do século XX. E porque poderá funcionar como sinédoque de toda a obra poética de Ruy Belo, que não deixa de ser também um livro, Todos os Poemas, cuja publicação em 2000 pode contudo perturbar (ou não) os limites do que se entende por «século XX».

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Seriam diferentes. A pergunta «qual o mais importante» introduz o critério histórico e reforça assim o factor valor estético, que contraria a ideia de um valor estático, pois está sujeito a flutuações de gosto e à própria escala de valores que a colectividade estabelece. Neste caso, e na época pós-romântica em que vivemos, os princípios da novidade e da individualidade tornam-se absolutamente indispensáveis para aferir a importância de um livro no sistema literário em que se integra. Isto é, a violação da norma estética, que leva a que com frequência o prazer estético se confunda com o desagrado, constitui o gesto mais essencial para fazer de uma obra a obra «mais importante», e pressupõe obrigatoriamente a perspectiva diacrónica. Aqui, é preciso ter em conta a data, a tradição e o cânone, a relação do livro com o público e, naturalmente, as consequências da obra — em geral outras obras —, que até podem vir a ser, não os livros mais importantes, mas precisamente os melhores.

Dito isto, o mais importante livro de ficção portuguesa do século XX é Húmus, de Raul Brandão (1917). Por tudo o que disse, a minha resposta poderia ser outra se o Livro do Desassossego de Bernardo Soares não tivesse sido publicado pela primeira vez apenas em 1982.

O mais importante livro de poesia portuguesa do século XX é Poesias, de Álvaro de Campos (1944).

Se a pergunta não fosse «qual o melhor», nem «qual o mais importante», mas «qual o que prefere», as minhas respostas também seriam diferentes. Mas isso seria um outro inquérito.

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