Os Livros Ardem Mal

Estes tempos vagarosos (V)

Posted in Crítica, Média, Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 24-03-2009

Há um elemento que aproxima o clip do tema de will.i.am sobre Obama do poema de Cláudia Santos Silva: a exploração da estética do preto e branco, no clip e nas fotos que acompanham e «ilustram» o poema. Na era do digital, que é a era da saturação, o p/b parece ter sido chamado à linha da frente de um projecto, informal e disseminado por todo o campo dos suportes artísticos, de reencantamento por primitivização. No cinema, o projecto ocorre ciclicamente, mesmo antes ou, depois, no exterior do digital, mobilizando cineastas maiores ou mais pequenos – Truffaut, Woody Allen, Jarmusch, João Botelho, etc. – e suscitando denúncias como a de Godard a propósito do último Truffaut (o de Vivement dimanche), centrada, se bem recordo, no carácter meramente fetichista de um p/b encarregado de transportar consigo a possibilidade de uma ressurreição do film noir, como se este fosse, apenas, um efeito de fetichismo tecnológico – ou, se se preferir, uma reificação, por via do p/b, do «cinema clássico.

Nos novos média, como a fotografia, o vídeo digital ou a net em versão YouTube, o p/b não é já, necessariamente, função de uma opção de partida por um suporte, como na época da película e da revelação química, mas uma possibilidade mais a jusante, que a tecnologia actual disponibiliza no mesmo plano de uma série de outras: cor ou sépia, por exemplo (Manovich chamou a isto a variabilidade dos novos média, ou seja, a capacidade para os seus objectos existirem em mais do que uma versão). O digital, na medida em que critica poderosamente a aderência clássica da tecnologia ao programa representacional adoptado, corrói o pesado investimento ontológico que a fotografia, mais do que o cinema, sempre fez no p/b, bem patente aliás no carácter excepcional da cor (ou pelo menos drasticamente minoritário) na longa história da fotografia artística, mesmo quando no plano social e mediático (o dos seus usos «médios») o p/b se torna não apenas muito minoritário mas reservado sobretudo àqueles momentos em que os próprios média parecem apelar à ontologia fatal do p/b. Por exemplo, nas fotos de personalidades públicas que quando, no dia posterior ao seu falecimento, chegam à primeira página, o fazem não raro em p/b, num esforço de reencantamento em que o p/b é estratégico para, por contraste, reintroduzir nem que uma reminiscência do carisma do morto (mais tecnicamente, da sua aura).

No cinema, a «normalização» da cor relegou o p/b para o plano do arquivo, fazendo com que a sua pontual ressurreição transporte consigo um significado, e um alerta, dirigido ao material, reinstituindo a visibilidade da convenção por trás de toda a representação (adopte ela o p/b ou a cor: não era isso o que, perversamente, fazia o technicolor nos anos 50 e 60?) e traduzindo-a em tecnologias de suporte. Na fotografia, em sede artística, é como se tudo funcionasse ao contrário e a cor denunciasse quase sempre o seu carácter não-natural, o que contrasta com a naturalização do seu uso no plano social , numa sequência que pressupõe o audiovisual inteiro.

No universo dos videoclips o p/b teve sempre uma presença forte e há mesmo realizadores emblemáticos desse uso marcante do p/b: Corbijn, por exemplo. O clip do tema de will.i.am é, a esse título, herdeiro de uma gramática muito estabilizada, em que o p/b higieniza momentaneamente um panorama audiovisual cromaticamente saturado. Neste caso, porém, dir-se-ia que esse efeito de suspensão do fluxo cromático «normal» do audiovisual decorre de um programa declaradamente político: fazer do p/b uma afirmação do esbatimento, ou mesmo da irrelevância, das diferenças de cor, dando a ver a sua constituição gramatical: o p/b como pura função de uma gramática da diferença. Na medida, aliás, em que essa gramática é tecnologicamente determinada, o clip é uma afirmação forte sobre o p/b como comutação de uma ordem cromática que não significa mais do que isso: uma possibilidade comutável com outras. A ordem cromática natural vale, em boa verdade, aquilo que vale a cor da pele como determinação de existência: algo cujo peso putativo não temos de respeitar – ou sequer considerar -, exactamente como, em sede tecnológica, não temos de nos render à cor natural ou, o que dá no mesmo, à imposição de um sentido ideológico a essa natureza mínima. Trata-se, no fundo, de lançar a política da gramática contra a ideologia da cor, ou da identidade, desfixando-a por um movimento irónico que reduz tudo ao p/b de uma república unida no culto político (e não ideológico) da diferença.

As duas fotos que acompanham o poema de Cláudia Santos Silva produzem um efeito ilustrativo declaradamente diverso entre si. A primeira, antecedendo o texto, fixa o que parece ser uma árvore, que poderia ser «a árvore» do poema, num p/b que um certo minimalismo cromático prolonga, num efeito reconhecível, no blogue – o minimalismo, em boa parte, da doxa do mundo actual da arquitectura e do design gráfico. A segunda foto, porém, dá a ver o truque da primeira: a árvore suposta é afinal ou ramo, ou arbusto ou líquen. A trucagem da segunda foto, denunciada pela mão agenciadora e pela luz que assim revela o seu carácter «de estúdio», reintroduz a questão da primitivização do p/b nos novos média de hoje, reforçando-a pelo referido efeito de manipulação, assaz contíguo à fotografia dos primórdios. A verdade desta foto é a trucagem, assim com0 a ilusão mimética resulta aqui do seccionamento e ampliação do detalhe (uma estratégia clássica do reforço do investimento epistémico no visível, suplementado ao longo dos séculos por uma panóplia de próteses de micro-visão).

Esta «ilustração» fotográfica do poema de CSS acaba pois por funcionar à imagem de um negativo. Porque é a própria hipótese de naturalização sobre a qual repousa o desenvolvimento imagético do poema – «erguer-me como uma árvore  assimétrica na torrente» – que é criticada pelo primado não tanto do p/b (em si, uma versão naturalizada da nossa percepção fotográfica, tal como ela foi historicamente constituída pela tecnologia e pelo uso artístico dominante) mas da trucagem. A foto final, que se segue ao verso final – «não usaria de palavras não as escutaria» -, reintroduz, de facto, as questões não apenas gramaticais (o p/b) mas retóricas (o artifício) que acompanham toda a linguagem. Renunciar à palavra não implica pois adoptar uma mística da natureza como imediaticidade do ser a si mesmo. Pelo contrário, essa renúncia parece ser indissociável de um dar a ver a constituição trucada (ou assimétrica) da nossa relação com o ser natural: somos seres trucados, seres condenados à mediação factícia das linguagens.

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