Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Gastão Cruz

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Segunda-feira, 23-03-2009

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Gastão Cruz destacou-se inicialmente na poesia portuguesa como membro do grupo que editou Poesia 61, um dos momentos fortes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Desde então publicou uma obra poética vasta, reunida já por várias vezes, a última das quais em 1999, no volume Poemas Reunidos. Aos seus livros foram atribuídos os mais significativos prémios literários portugueses (Prémio PEN Clube de Poesia, Prémio D. Dinis, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), tendo a sua última colectânea poética, A Moeda do Tempo (2006), conquistado recentemente o prémio Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa 2009. Traduziu poetas e dramaturgos (Blake, Strindberg, Shakespeare), foi um dos fundadores do grupo Teatro Hoje, para o qual encenou várias peças, e dirige a Fundação Luís Miguel Nava, integrando a direcção da revista Relâmpago, editada pela referida Fundação. O seu último livro é A Vida da Poesia, reedição aumentada do livro que inicialmente publicou em 1973 com o título A Poesia Portuguesa Hoje (com 2ª edição em 1999), e que denuncia a preocupação, longa de mais de quatro décadas, de acompanhar criticamente a poesia portuguesa contemporânea, embora não apenas. Agradecemos a Gastão Cruz a disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Questão prévia: é claro que não existe “o melhor livro de ficção portuguesa do século XX”; como não existe “o melhor livro de poesia”. Fazer tais escolhas é uma “missão impossível”. E é como “missão impossível” que, assumindo o paradoxo, as perguntas terão de ser respondidas.

Como decidir não arbitrariamente se A Confissão de Lúcio é melhor que A Farsa, se A Casa Grande de Romarigães é melhor que Os Passos em Volta, se Antigas e Novas Andanças do Demónio (em que está incluído “Super Flumina Babylonis”) ou Os Grão-Capitães (em que se integra essa outra obra-prima do conto que se chama “Homenagem ao Papagaio Verde”) superam Pequenos Burgueses ou Finisterra?

Só será possível escolher simbolicamente; isto é, indicar um livro que possa representar a ficção portuguesa do século passado no que ela tem de mais intenso e inovador.

A minha escolha recai sobre A Farsa de Raul Brandão, um livro de 1903, que, há quase quatro décadas, adquiri, na 4 ª edição, com capa de Stuart, das Livrarias Aillaud & Bertrand.

A obra está focada num mundo simultaneamente trágico e grotesco, em que se agitam, estagnadas, personagens desmedidas na sua pequenez revoltada: gente banal, esmagada pela brutalidade de emoções nascidas de perdas e de frustrações terríveis, de sonhos absurdos e irrealizáveis, e do peso de uma realidade infectada de mesquinhez e ódio, tudo isto potenciado por uma escrita condizente com as exigências de um mundo tão extremado. A morte é uma presença obscena, por vezes, originando a explosão  de  sentimentos  recalcados,  que  podem  ir  da dor descontrolada

(“ – Ai que ma levam! – É o único grito que irrompe do escuro, lúgubre, aflitivo, raspado. Depois o silêncio, a mudez concentrada da noite, a nuvem negra coalhada sobre as ruínas da vila toda lavada em lágrimas.”) à vingança:

A velha hesita; depois vai de súbito à porta e fecha-a de repelão. Transfigura-se: dum jacto sai daquela mulher amachucada e insignificante uma figura de aço e ódio. Curva-se sobre a irmã e fala-lhe baixinho ao ouvido .
– Hã? …      
Não se ouve, mas tais palavras lhe diz que um suor de aflição cobre-lhe o rosto da agonia. Senta-se e depois de a ter encarado cai para sempre, de chofre. Aquilo dura um minuto e um século. Ao pé da morte abre-se-lhe um abismo de desespero. A velha debruça-se sobre o cadáver, com o chale tombado aos lados como asas disformes, e numa sofreguidão repete palavras sobre palavras precipitadas – para que a outra não vá sem as ouvir. Entra a sombra pelos vidros embaciados: um último estertor e a moribunda queda-se, com espanto nos olhos e lágrimas arrancadas a um coração já frio. A velha encarniça-se:
– Ouviste? Ouviste? Ouviste?…
Prega a um cadáver, como quem fala para dentro dum túmulo. Quer contar-lhe tudo e não tira os olhos dos olhos vidrados da outra, que a escuta inteiriçada e fria. Morre vendo nos últimos minutos, não a mulher banal, com quem se habituara a lidar, mas outra desmedida e seca, atroz.
[…]
Do túmulo não se protesta. A morte é muda – não há horror que a transa. A Candidinha pode enfim desabafar, e as palavras sucedem-se-lhe na boca encostada ao ouvido daquele corpo, ressequido e murcho como o dum passarinho.
– Ouviste?  Ouviste? Ouviste?… – não cessa a velha de pregar.

Gente insignificante adquire uma dimensão inesperada. A Candidinha, o Anacleto, a desprezada criada Joana, movem-se por entre as velhas beatas, a Adélia, a Felícia, um bando de abutres que se lança vorazmente sobre  os moribundos:

Juntas são temíveis. Nenhum doente lhes escapa. Esperam, espiam, compram os criados, intrigam e caem-lhes em cima, à hora da morte, pregando-lhes Deus, o inferno e as labaredas eternas. Alguns protestam. Debalde: as servas de Deus não desanimam, nem os largam.

De seres desprezíveis passam a figuras larger than life, por força da sua capacidade de sonhar e de, perdido o sonho, se tornarem enormes no seu desespero:

Ei-la sem remissão cara a cara com a feroz realidade. Mergulha numa absorção, de que não é possível arrancá-la, e contempla o vazio da sua alma.
A realidade é o nada temeroso. […] A realidade é o negrume, o abismo donde só sai o silêncio. O sol foste tu que o criaste – porque a realidade é a treva: a luz nasce aos borbotões do teu ser.
Por isso a Candidinha preferiria ser cem vezes mais desgraçada e calcada, ver a todas as horas morrer-lhe o filho nos braços, viver sob o domínio e a piedade das velhas – mas poder tecer, poder sonhar ainda!…

A Farsa (1903) e Húmus (1917) formam uma espécie de díptico. Seria útil, sem dúvida, estudá-los comparativamente. Menos romanesco, talvez, o segundo retoma o tipo de personagens do primeiro: lá estão as “velhas”, lá está a humilhada e revoltada “mulher da esfrega”, ardendo em ódio e desejo de vingança. E, além disso, lá está aquele estilo incandescente, como um poderosíssimo projector incidindo nessas criaturas banais, como se elas estivessem num palco: “Há criaturas assim: todas banalidade – e inesgotável emoção.”

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Em 1966, quando o “clima experimental” ainda claramente vigorava na produção poética portuguesa, Ruy Belo publica o seu terceiro livro, Boca Bilingue, no qual é reconhecível a encruzilhada das linhas dominantes que definiam o momento: a pesquisa de novas formas de construir o discurso poético, na sequência dos avanços alcançados pela poesia, quer na mesma década, quer desde a instauração de uma linguagem moderna (e pré-moderna);  a necessidade de conciliar esse novo discurso com o impulso testemunhal, que derivava do imperativo ético (a que, de modos diversos, responderam quase todos os principais poetas das décadas de 40, 50 e 60) de denunciar ou, pelo menos, fazer ecoar os condicionalismos sociais e políticos da época; a superação de tudo isso, através do enquadramento, quer do ímpeto modernizador, quer  da percepção do momento histórico imediato, numa profunda e ampla reflexão acerca da existência e do seu sentido.

Creio que nenhum poeta português interroga de forma tão aguda e permanente como Ruy Belo a estranheza do que nos acontece e do que nos rodeia (“É uma coisa estranha este verão”; “Setembro é o teu mês, homem da tarde / anunciada em folhas como uma ameaça”), as contradições da nossa fala e as nossas idas e vindas (“Andaste de lugar para lugar e deste o dito por não dito”), a nossa insegurança e a nossa efemeridade. Em Boca Bilingue, ele atinge o domínio absoluto do seu estilo, encontrando o equilíbrio perfeito entre a expressão de uma inquietação que ia deixando para trás os traços da  religiosidade que marcara os começos da sua poesia e um novo sentido de elaboração do poema, que se afastava de algum informalismo que marcara o, nem por isso menos admirável, de resto, seu segundo livro, O Problema da Habitação – Alguns Aspectos.

É interessante observar que Ruy Belo concilia a pulsão experimentalizante com a solidez estrutural, escorando-se, em alguns casos, no recurso a formas clássicas como o soneto. É isso o que acontece em “O jogador do pião” e nas sete “Variações” sobre esse soneto, assim como em “Laboratório – I e II”.

Este trabalho oficinal é, de certa maneira, prosseguido no livro seguinte, de 1970, Homem de Palavra(s), antes de a sua poesia tomar um novo rumo, em Transporte no Tempo (1973), com o qual, claramente, se inicia uma segunda fase.

Também aqui se poderá, porventura, considerar (como no caso de A Farsa e Húmus) que os dois livros constituem um díptico. A observação da estrutura, de um rigor de relojoeiro, de um poema como “Um dia não muito longe não muito perto”, do livro de 1970, poderá ser elucidativa. A comparação de poemas como “Ácidos e óxidos”, do primeiro, com “Mudando de assunto”, do segundo, poderá, igualmente, mostrar semelhanças de processos, no que se refere a uma aparente descontinuidade do discurso.

Porém, Boca Bilingue veio primeiro e nele atingiu a poesia portuguesa uma capacidade, porventura única, de fazer coincidir no poema a máxima expressão do desconcerto existencial com o máximo domínio da máquina do poema e do seu funcionamento.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Poderiam, evidentemente, ser as mesmas. É difícil compreender que “o melhor” não seja, ao mesmo tempo, “o mais importante”. Porém, na linha de entendimento de que, quer estas perguntas, quer estas respostas, são do domínio da ficção (e não pertencerá, de facto, a crítica literária a esse domínio?), tratando-se, afinal, de “inventar” o melhor livro e o livro mais importante, direi que o livro de poesia mais importante é, no século XX português, Poesias de Fernando Pessoa, com o qual João Gaspar Simões e Luís de Montalvor iniciaram, em 1942, a publicação sistematizada da obra do poeta.

Nele estão incluídos muitos dos poemas que, sob a aparência de uma estrutura tradicional, revolucionaram a visão e a escrita da poesia em língua portuguesa. Mas esta é uma longa e conhecida história que não caberá aqui desenvolver.

Quanto à ficção narrativa, opto por Finisterra de Carlos de Oliveira, por ser o livro que, nesse domínio, mais longe levou as possibilidades de uma criação romanesca que, sem deixar de o ser, destrói todos os resquícios de convencionalismo do género, para ele transferindo o fulgor que caracteriza a grande poesia.

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