Os Livros Ardem Mal

Truques baratos

Posted in Diálogos by Pamplinas on Quarta-feira, 18-03-2009

– Que vê você aí no seu portátil, com ar tão atento?
– Uma coisa comovente, Q.! Ora veja, que eu passo de novo.
– …
– …
– Mas que raio, Pamplinas: agora está numa de cinema português?
– Não percebo…
– Homem, uma coisa cheia de deficiências técnicas básicas. Já viu bem esta sonoplastia? Até parece dobragem de antigamente. Está bom para a RTP Memória…
– Por acaso até tem a ver com isso, sim. Mas em versão irónica.
– Pois, só falta agora dizer que isto é intencional… E profundo, imagino!
– E não acha esta história profunda? Uma belíssima história, com suicídio por amor, mordedura de serpente na Arcádia e tudo. Não vejo que se possa oferecer mais peripécias ou ser mais profundo. Todas as histórias do mundo oferecessem tanto…
– Mas se é assim belíssima, não seria curial que o filme o fosse também? E não com este gajo a dar aos queixos em seco?
– Mas Q., se é uma história de amor impossível não lhe parece que seria um truque baixo fazer o que propõe? Já agora, um naco de música de melodrama, da xaroposa, não?
– Nada tenho contra a música de melodrama. Aliás, sou fã de melodramas e dessa «sopa» musical, para usar a expressão rancorosa daquele chato do Straub a propósito da música nos filmes.
– Também eu nada tenho, mas est modus in rebus
– Hã?!
– Bolas, esqueço-me sempre da sua ignorância na língua de Virgílio! ‘Cada macaco no seu galho’, é o que quer dizer. Aqui, a imperfeição da ‘dobragem’ faz com que se oiça assim uma espécie de uivo silencioso…
– Hã?!
– …o uivo das dores de amor daqueles dois corações condenados a desentenderem-se.
– Você está sob influência…
– Apenas do café, aromático e bem forte.
– E o que está aí a ler? Desconfio que foi isso…
– Isto? Uma coisa que trouxe do Porto. Uma revisteca de distribuição gratuita nos cafés, de título Um café.
– Imaginativo…
– Também acho.
– Eu ironizava, Pamplinas.
– Eu também não. 
– Isso é um truque baixo!
– Como o do filmezito…
– Nem mais!
– Como os de todos os filmes… Mesmo aqueles que têm truques baixos que você aprecia, como os que abundam nos melodramamas mais melosos…
– Lá vai você de novo! Eu aprecio truques, sabe?, mas gosto é que não se dê por eles. Parece-me básico.
– Percebo. Pois eu sou ainda mais básico e prefiro os truques quase falhados. Ou quase conseguidos.
– Truques baratos, em resumo.
– Exacto. E quanto mais baratos melhor…

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