Os Livros Ardem Mal

Et in Arcadia ego: o corvo de Rui Lage (V)

Posted in Livros, Poesia, Recensões by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 16-03-2009

O que é, em Corvo, essa programática (e problemática) «retórica da terra»? Nada menos, para começar, e para começarmos pelo poema que tal expressão convoca, do que uma ars oblivionis, cumprida com o zelo que se vota aos impossíveis:

Cumprimos com zelo
a tarefa de esquecer a terra
até que surpreendidos por camélias
num quintal abandonado
escrevemos livros onde lembramos
a terra que esquecemos
e de tal sorte escritos
morremos.

Os versos parecem propor a reversibilidade de amnésia e anamnese: a camélia no «quintal abandonado» reintroduz no sistema a memória que pela escrita se eleva a algo assim como um imperativo. O correlato objectivo da memória recuperada que é a camélia é porém tão performativamente contraditório como o livro: ambos ratificam, por «surpresa» ou vanidade, a distância infranqueável da terra – essa entidade só convocável afinal por uma retórica – e são por isso, cada um à sua maneira, assinaturas (e tatuagens) de uma mão inútil.

Esta inutilidade ou aceno íntimo ao nada ganha em Corvo as duas tonalidades que, desde logo, reconhecemos neste poema: (i) a da má consciência com que o poeta, e a «poesia contemporânea», enfrentam a sua distância, já antropológica, face à intimidade produtiva com a terra: «Livros lançados por entre rasgos / de sincera comoção, / assinados por mãos demasiado / finas para cavar.»; (ii) a da plena consciência de que toda a retórica da terra não pode senão dizer o morto que nela se inscreve em profundidade: «pois não é todos os dias / que um homem sonha a obra morta / ou profana sepulturas.» E é na oscilação entre estes dois desenvolvimentos, demasiado enredados aliás, que este livro reescreve e desarruma os dois paradigmas da tematização de Trás-os-Montes na poesia contemporânea que antes recenseei (Pires Cabral e JMM).

«Da limpeza das matas» é talvez o poema que mais faz ressoar a questão da distância implicada em qualquer retórica da terra. Convém transcrevê-lo:

Desconhecem os versos
que escreves na terra
a firmes golpes de enxada
ou que recolhes em cestos,
maçãs de sol,
rotundos pêssegos

líricos frutos para os quais
não há leitores.

Ignoram como te segues
no voo da perdiz
quando o machado abala o tronco
no coração da floresta.

Um sujeito colectivo e indeterminado é colocado na posição genérica do não-saber contra o qual se recorta a «retórica da terra» do «transmontano», esse que produz «líricos frutos para os quais / não há leitores». Não existe já um leitor para o mundo rural, cujos habitantes se foram tornando ou aliens ou fantasmas. É toda uma semiótica que se aliena – versos escritos na terra, frutos, voos de perdiz sem leitores -, é todo um mundo que se defenestra quando a «limpeza das matas» deixa de resultar de um modo de vida e passa a ser um item de um sistema de gestão do mundo rural (que é também um modo burocrático do discurso: é aliás nestes desfasamentos, muitas vezes remetidos aos títulos, que se joga a improvável ironia do livro). A proximidade afectiva do poeta ao transmontano invocado na segunda pessoa contrapõe-se assim à distância genérica do desconhecimento «deles», mas a questão, obviamente, está em saber se essa proximidade pode ser mais do que afectivamente declarada – o que redundaria numa empatia ideologicamente buscada -, na medida em que se tece sobre um desconhecimento que quem escreve de facto partilha com esse sujeito de um não-saber genérico (em favor provavelmente de um Sujeito Suposto Saber que, porque mudo ou morto, nada transfere para quem o interpela).

A distância esbate-se porém em função dos níveis de inscrição da terra na retórica do poema. Em «Trolls», por exemplo, o recuo do antropológico em favor do sociológico – «Passaram fome, passaram frio, / moraram em casas que dizemos / se as vemos da estrada em viagem, / inabitáveis.» – permite mais facilmente tornar os transmontanos objectos de saber, já que se trata, prima facie, de os fazer envolver pelo aparato da distinção com que a burguesia de passagem (urbana e forânea, tudo recodificando em pitoresco) categoriza o «mau gosto» das casas de emigrantes, esses que «Fogem do passado e quanto mais fogem / mais desesperam por encontrá-lo». Trata-se, de novo, da gestão impossível das antinomias da memória e do esquecimento, agora deslocadas para o próprio objecto de saber, mas apenas na medida em que ele sofre a qualificação que o categoriza, e recorta com nitidez, no discurso do Portugal contemporâneo: o emigrante (e a sua casinha).

Em todo o caso, o poeta manifesta uma vívida insatisfação ante este saber, que tenta, como aliás todo o livro, deslocar em permanência para outras zonas da «retórica da terra». Neste caso, para uma zona das mais pregnantes na tropologia da obra, a do devir animal que cola o humano bicho à terra: «Abeiram-se da cova que os espera, / reconhecem a terra que lhes deu pão /semeada com mãos que escravizaram / e quase mortas recolheram aos bolsos // dóceis roedores às tocas.» 

A retórica da terra torna-se aqui, em plena consonância com o Sr. Corvo que comanda esta revisitação, uma tanatografia em modo (moderadamente) gótico. Assim, em «As últimas aldeias» o triunfo do mato sobre o esforço da inscrição do nome na natureza surge como um análogo da forma como o tempo apaga os trilhos dos carros de bois: «até que o cerco do mato / rasure dos mapas a placa / como dos trilhos faz tempo / o chiar do carro de bois?» A interrogação parece ser de facto retórica, a não ser que uma contra-retórica da terra (a de Corvo, neste caso) retarde (apenas isso) o processo. Num certo sentido, porém, toda a retórica da terra é necessariamente conivente no processo de substituição da terra – por «cidade», digamos, atribuindo a «cidade» o papel sígnico do que está por outra coisa, por todas as outras coisas que no processo civilizacional apagam realidades –, processo a que essa retórica responde ou reage: a retórica da terra institui o princípio sígnico da substitutio ou, o que é o mesmo, da desaparição fáctica a benefício de um avatar sígnico que falha identicamente a coincidência temporal da evocação. Por outras palavras, uma retórica da terra não pode não devir de imediato uma retórica da memória – i.e., da temporalidade ou, melhor, da sua ruína. Como nos últimos dois versos do poema em causa, em que «o chiar do carro de bois» (…) «dos trilhos faz tempo» (eu sublinho), toda a retórica da terra da carto/grafia faz tempo. «Fazer tempo» não é apenas, nem porventura essencialmente, o dúbio poder de desfazer traços e inscrições que consignamos à temporalidade. É talvez antes a capacidade de re-situar, num lugar estratificado pela memória, a inscrição territorial que a temporalidade necessariamente diferida da escrita desestabiliza: um lugar em que o morto permanece insepulto desde que uma retórica o reinscreva periodicamente na superfície não-cicatrizada da memória.

É aqui que percebemos como uma retórica da terra colocada sob o signo de um corvo se condena ao epitáfio. Corvo é, de facto, na versão não-patética de um romantismo negro, a insistente declinação de um epitáfio por um «território» cujos heróis na melhor das hipóteses são, como se declara em epígrafe inicial, «sobreviventes»: zombies, digamos. O poema «Endurecer a casa» promete, desde o título, esse devir antepóstumo. Atente-se na forma como, na estrofe de abertura, o autor dá a ver todo o seu domínio da técnica cinematográfica que distingue alguns dos seus melhores textos:

Cai o pano do sol
no palco das sepulturas.
Aos montes jacentes dão voltas
sebes e muros aluídos
guiando excursões do olhar
que vai da multidão reunida
às oliveiras mais antigas,
e destas, mergulhando,
às formigas.

Não está porém destinada ao sol
a cova, mas a ti, astro bem menor,
e antes da cova é preciso
não dar pretexto aos vermes,
endurecer a última casa,
vê-la em sonhos impenetrável,
sulcando segura as águas de um grande rio
contigo a bordo.

O filme, digamos, começa pela cena final: a multidão, no cemitério, despede-se. Mas se a cena é final, ela é também, a mais de um título, a cena primitiva de Corvo: «Cai o pano do sol / no palco das sepulturas». Traduzindo, e fala a Morte: «Lembra-te de mim, quando estiveres na Arcádia…». Ou antes: «A Arcádia é o meu palco; nela enceno a minha verdade». O resto parece ser uma panorâmica em picado: «excursões do olhar» que vão mergulhando, da multidão às oliveiras e, por fim, (numa sugestão um tanto à Lynch) às formigas. O humano não é aqui tanto aquele, ou aquilo, que olha mas, de novo, uma ocorrência da «retórica da terra»: as «sebes e muros aluídos» que guiam, como um alfabeto esboroado, o olhar de quem se detém, por uma como que imposição de leitura da terra, nas formigas, o mesmo é dizer, no ponto em que fim e começo se encontram para celebrar o triunfo necessário do inumano.

«Endurecer a última casa», «não dar pretexto aos vermes», são, em rigor, renomeações daquele triunfo necessário, que talvez se pudessem apresentar nos termos em que Claude Lévi-Strauss aborda a questão (pois creio ser de facto a mesma) no final de Tristes Trópicos e de L’Homme nu, quando nos faz perceber que o contrário da esperança não é o desespero mas a coragem. É porque não há esperança para nós, astros bem menores, que só nos resta endurecer a última casa, tornando-a «impenetrável» e «segura». Esta é, em Corvo, a verdade ética, e metafísica, da Arcádia.

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