Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Luís Miguel Queirós

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quarta-feira, 11-03-2009

lmqueiros

Luís Miguel Queirós nasceu em 1962, no Porto, e é jornalista do Público, onde escreve ocasionalmente sobre poesia. Entre outras publicações, é autor de uma antologia da poesia portuguesa do Século XX – Vingt et un poètes pour un vingtiême siècle portugais – publicada em França em 1994. Agradecemos a Luís Miguel Queirós a disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Os Incuráveis de Agustina Bessa Luís. O livro foi publicado em 1956, mas li-o numa edição dos anos 80, em dois volumes. Escolho-o por três razões.
a) Lembro-me de ter gostado muito do livro, mas nisso não se distingue de outros que me terão dado prazer equivalente quando os li pela primeira vez, como Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, ou mesmo, entre outros mais razoavelmente citáveis, um livro que a ninguém, nem a mim, ocorreria considerar determinante na ficção portuguesa do século XX, como Directa, de Nuno Bragança.
b) O primeiro volume de Os Incuráveis desapareceu-me já há anos, de modo que nunca mais o li e – circunstância decisiva – não posso ir agora confirmar se a predilecção se mantém. Infelizmente (infelizmente para este efeito) conservo os livro de Sena e Bragança, bem como os vários outros que poderia considerar.
c) Andei a espreitar as respostas anteriores, e pareceu-me que começava a fazer-se sentir um consenso algo entediante em torno de obras, chamemos-lhes assim, híbridas, nas quais a prosa anda um bocadinho próxima de mais dos pressupostos e propósitos da poesia. É claro que nenhum dos livros que citei me provocou uma impressão tão intensa e duradoura como, por exemplo, Os Passos em Volta, de Herberto Helder. Mas essa impressão, sentiu-a, essencialmente, o leitor de poesia, e não o agradecido leitor de Henry James (ou Rex Stout). Estou perfeitamente consciente de que sugerir que temos dois leitores na cabeça, que se chegam à frente consoante os textos que se lhes deparam, não é menos controverso do que admitir que existe uma fronteira (sempre) reconhecível a distinguir a poesia e a prosa do século XX.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Parto do duvidoso princípio de que as preferências pessoais implicam um mínimo de singularidade. Que sejam do género que nos permita dizer a alguém: “Tens de ler este livro”. A quem é que hoje se poderia recomendar: “Tens de ler os poemas do Álvaro de Campos.”? Nesse sentido, o livro que durante mais anos foi o “meu” livro da poesia portuguesa do século XX é Sobre o Lado Esquerdo, de Carlos de Oliveira. Dirão que, tendo em conta o argumentário exposto na questão anterior, poderia ter-me ocorrido  uma obra mais exemplarmente decantada das impurezas da prosa, como a Clepsidra, que, aliás, bem podia ter escolhido. E se um dia destes me voltarem a fazer a mesma pergunta, talvez escolha a Pena Capital, do Cesariny.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Não sei muito bem o que é que quer dizer “mais importante”. Que teve uma influência mais decisiva na literatura portuguesa do século XX? A ser assim, parece-me que seria forçoso excluir os livros publicados nas últimas décadas do século, uma vez que, necessariamente – e excluindo agora as teorias borgianas de influências retrospectivas –, não tiveram o menor impacto numa parte considerável do século em causa. Ou devemos tentar projectar os livros que o século XXI considerará os mais importantes do século XX? Na prosa, não sei, em qualquer dos casos, que obra eleger. O Livro do Desassossego seria uma hipótese, mas praticamente ninguém o leu antes de o século estar bem avançado. Na poesia (e também para a prosa), não me parece que possa haver dúvidas: as Poesias de Álvaro de Campos.

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