Os Livros Ardem Mal

O meu amigo Q.

Posted in Notas by Pamplinas on Terça-feira, 10-03-2009

O meu amigo Q. vive num prédio implantado num descampado pós-urbano. Não um subúrbio, longe disso; antes uma zona à qual a cidade na aparência chegou há muito mas de que, de facto, desistiu, povoando-a de tufos de erva, pilares de viadutos e ecos de automóveis acelerando entre vias duplas. Os prédios baixos abrem um horizonte improvável, rasteiro e bloqueado, que parece um convite às deambulações da alma. A paisagem, porém, se assim a podemos nomear, ganha a sua ressonância plena quando contemplada de entre a cápsula envidraçada de um automóvel estacionado no local – ou então, de uma varanda de um dos prédios baixos do local, como quem desiste antecipadamente de nela passear, confinando-a ao passeio interior do olhar.

Vêem-se muito poucas pessoas no descampado entre os prédios, não por ele ser particularmente ameaçador, mas, em primeira instância, porque ninguém ali vive em permanência: dorme-se e sai-se para o trabalho, e é tudo. Podia-se jogar ali à bola ou passear uma criança pela mão, saboreando a continuidade a todo o instante reatada entre o asfalto e a erva, numa liminaridade que é toda uma promessa – mas não, pois o descampado asfaltado e timidamente invadido pela natureza impõe a lei da sua reserva silenciosa. Está simplesmente ali como o símbolo opaco de uma civilização desistente e já ameaçada pela vizinhança pacífica da erva e dos viadutos, esse Parténon para os vindouros.

O meu amigo Q. diz que se sente ali bem, apesar da renda exorbitante e do número excessivo de vizinhos divorciados e solitários. Porque a coisa é «ballardiana», diz ele, agitando braços e mãos num crescendo que, como sempre, se destina a sagrar o génio indubitável do «oráculo de Shepperton».  Tem razão, claro. É nestes pontos de fuga do mundo urbano que sentimos o triunfo do totemismo indecifrável dos viadutos e o enigma da sua convivência com a erva irrompendo no asfalto de parques de estacionamento vitimados também por garrafas de água vazias e um ou outro saco de plástico esvoaçante. São intimações de mortalidade civilizacional, fantasmagorias de uma utopia da betonagem e do asfalto que coincide com a utopia política, tão hobbesiana, da produção de um exo-esqueleto protector, contudo sempre arruinado e comido pela erva desta figura moderna do ermo. Ou melhor, desta «charneca» urbana, um outro nome ballardiano para o trabalho insuturável do neutro.

O meu amigo Q. é um ballardiano furioso, o que não pode deixar de significar que é, isso sim, um hegeliano: não se quer mudar da sua charneca privada pois, no fundo, vê nela o impávido sentir (?) e o sentido do nosso tempo. Olha para ela – garante-me! – como se contemplasse o cenotáfio azul-vítreo do narcotizante tubarão de Damien Hirst e como se todos estivéssemos prometidos àquela piscina de formol. Como se o ermo, enfim, refulgisse. O meu amigo, não é difícil de perceber, é um poeta da coisa mental. Eu entusiasmo-me antes com as denominações da família das Myrtaceae: Accara elegans, Acmena (divaricata, graveolens, hemilampra…), Actinodium… Agrada-me, e pacifica-me, a perversidade de uma Natureza traduzida para uma língua mais muda que morta, o doce latim. E prefiro, a quase tudo, o cursus irregular das tabuletas afixadas nos espécimes do Jardim Botânico.

«Tabuletas, Q., tabuletas»…

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