Os Livros Ardem Mal

200 artigos

Posted in Diálogos by Pamplinas on Sexta-feira, 06-03-2009

– Vivi ontem uma experiência de que ainda me não recompus, meu caro!
– As Finanças caíram-lhe em cima?!
– Qual, Q.! Muito mais traumático! E num evento puramente académico, note, uma sessão a que assisti, como sempre que penetro nesse mundo, sentado na última fila.
– Desembuche, Pamplinas! Que suspense…
– Pois é isto: vi uma notável cientista deste país ser apresentada, antes de uma sua intervenção pública, como sendo «Autora de cerca de 200 artigos»!
– Catano!
– E olhe que desconfio que não terá 40 anos…
– Caso para repetir ainda mais enfaticamente: catano!
– Mas olhe que o fenómeno, ao que parece, é relativamente comum nas ciências, como pude constatar por uma troca de opiniões sussurrante durante a sessão.
– Pois, agora que o diz, lembro-me que já o tinha ouvido também. Artigos de autoria desmultiplicada, descrições das múltiplas fases de uma experiência ou pesquisa…
-… some-lhe uma crescente destreza nas artes da remastigação, como me dizia a tal pessoa na sessão, aliás catedrática de matemática.
– Tou vendo. Há que publicar, há que publicar…
– Nem mais. Agora, sabe, há duas coisas que me tiram o sono desde aquele momento.
– Reparei que o meu amigo está olheirento, de facto.
– Pois é: estou em stress pós-traumático… Mas enfim, a primeira ansiedade é esta: quem consumirá tanto artigo? Já não digo «quem lerá tanto artigo» pois os artigos em ciência não são propriamente para ler. Mas já viu o stress dos cientistas se todos eles produzem artigos às centenas?
– Dá ideia, de facto, que a unidade de conta na produção científica é a centena…
– Uma coisa lhe digo: desde aquela revelação – melhor dizendo: epifania – estou tomado de um sentimento de compaixão verdadeiramente cristã pelos cientistas das ciências «a sério». Já viu o double bind em que estão metidos? Produzir furiosamente para depois, por razões de pura ecologia intelectual, não conseguir digerir todos os produtos dessa fúria stakhanovista…
– Mas olhe que, ao que sei, no que respeita ao tamanho, esses artigos são, na sua maioria, uma espécie de microficções… A ciência não se mede aos palmos – mas sim às centenas…
– Ainda assim! Pergunto-me aliás se isto não quererá antes dizer que estas centenas de artigos estão, para a universidade de hoje, como as taxas de audiência estão para a TV: significam, digamos, que as coisas que contam vêm depois. Muito depois, quase sempre…
– As coisas «que contam», Pamplinas?
– Tem razão! Que lapso freudiano! As que contam para lá da contabilidade, queria eu dizer…
– Receio que o meu amigo esteja a ser um tanto ingénuo, ao supor que na universidade dos nossos dias – e em tudo o resto, diga-se – haja vida para lá da contabilidade…
– Pois, se calhar… A minha segunda ansiedade tem a ver com os meus interesses «intelectuais», digamos, que me levaram, como sabe, a frequentar algumas cadeiras de filosofia, linguística e literatura. Isto é: da área tão «mole» das Humanidades. Já viu o que daria este critério das centenas aplicado a um tipo como o Wittgenstein? Um livro apenas editado em vida, o Tractatuzito, aquela coisa magra – e, aqui entre nós que ninguém nos ouve, dura que nem corno! – que o homem levou anos a desbastar e afinar, das trincheiras até à doce Cambridge!
– Estava tramado, hoje.
– Direi mesmo mais: completamente tramado! Se bem que, por outro lado… Já pensou, Q., o que o Tractatus podia render em artigos? Cada proposição – um artigo… Dava umas largas centenas, caramba!
– Ora aí tem você o problema dos improdutivos cultores das humanidades resolvido!
– Exacto: é só o pessoal das Humanidades converter-se ao modo analítico e passar a argumentar e escrever por proposições, traduzíveis depois em artigos editáveis autonomamente. E aliás, o modo analítico é puro laboratório, como se vê muito bem na prosa tersa e enxuta do meu mestre Desidério.
– Tenho a impressão de que o meu amigo acaba de descobrir um ovo de Colombo. Epistemológico e institucional. Trate de o divulgar, depressa e em força!
– Ora, e como vou eu agora divulgar estes devaneios de um espectador pouco participante?
– Ó homem, mas é evidente: escreva um artigo! De preferência, um partido em dez! E em inglês, claro, que isto do português não tem mais alcance civilizacional do que… sei lá?….
– O código morse?
– Os sinais de fumo, Pamplinas, os sinais de fumo!

Comentários Desativados em 200 artigos

%d bloggers like this: