Os Livros Ardem Mal

Ser (ou não ser) interrompido

Posted in Diálogos by Pamplinas on Terça-feira, 03-03-2009

– A última vez que me aconteceu, ainda há bocado, estava eu a ler o Diário Económico! Um artigo entusiasmante, sobre a Euribor. O telemóvel. Atendo: era engano…
– Ironia de anarquista…
– Não interessa o que seja, Pamplinas. O ponto é que não conseguimos deixar de ser constantemente interrompidos: o telemóvel que toca, o sms que chega, o telefone fixo com alguém a querer vender-nos não sei que serviço indispensável, o mail que pisca no ecrã do computador…
– Vejo-o perturbado…
– E não é caso para tal? Já me convenci que isto só vai lá com um atendedor!
– Uma Firewall a toda a volta, quer você dizer.
– Ou isso!
– Se quer saber, acho imoral, como diria o meu mestre Cage. «Uma típica imoralidade do século XX», dizia ele.
– Ora essa?! E porquê?
– Porque me parece evidente que a nossa condição mudou. O ser deixou de ser uma dedicação exclusiva, meu caro. Agora, somos seres interrompidos. Há que assumi-lo, como se ouve hoje a propósito de tudo e um par de botas…
– E o livre arbítrio, hã, Pamplinas? Não está a esquecer esse pequeno pormenor?
– Funciona sempre, não é? No caso de optarmos por nos desligarmos – ou melhor: por nos desligarmos da sociedade – funciona em regime imoral; no caso de optarmos por estarmos ligados e, logo, interrompidos, funciona em regime moral.
– Notável, como você faz do conformismo uma moral!
– Não se indigne, meu caro, pois creio que não tem razão. O seu discurso, esse sim, parece-me bem conformista. Note que quando o meu amigo se desliga e recusa a interrupção coloca-se exactamente na posição do capitalista ou do executivo que delega (porque tem poder para tal) na sua secretária esse serviço «higiénico», que quase sempre se destina a vitimar a ralé. Mal comparando, Q., você aspira àquela condição que Gombrowicz algures recenseia nos príncipes: aqueles que nunca tocam na maçaneta das portas, pois há sempre quem lhas abra… E aliás, admita-se: é na maçaneta que as bactérias se depositam…
– E a Recusa? A política ou a mística? Você, com esse sofisma, acaba por impossibilitá-la.
– Pobre de mim, Q.! Que cada um recorra ao atendedor de chamadas ou se isole fora do mundo, à sua vontade… Falo por mim, meu caro. A Recusa? Os místicos? Wittgenstein na sua cabana no fiorde da Noruega dando à luz o Tractatus? Formas de coragem negativa, creio. Como, em geral, a recusa da interrupção.
– Para si, não há pois heróis nem santos?
– Muito pelo contrário. Conheço vários, em cada categoria. Mas encontro-os quando vou ao pão ou ao jornal. Muito mergulhados no século e na interrupção…
– Você nunca leu o Vigiar e Punir, é o que é. Ou os místicos do deserto…
– …
– É que se os tivesse lido, meu caro…
– [Toca o telemóvel] Desculpe, Q., tenho de atender. Mas vá falando, que eu escuto na mesma.
– …percebia a que ponto aquilo que diz o instala na continuidade deste arquipélago carcerário sem reverso…
– …Sim, é o próprio. Ah, como está? Não, não ia a conduzir. Pode falar.
– …a capilaridade das relações de poder…
– Às 17 h? Acho que sim. Pode ser.
– …e de todo este pesadelo.
– Até amanhã, então. Um abraço. [Desliga o telemóvel] Você dizia, Q.?
– Ora, resumindo: que é gente como você, armada de sofismas e conformismo, que funciona como a ultima ratio do sistema. E fique sabendo… [Toca o telemóvel]
– Atenda, Q., atenda.
– Nem pense! [Dá uma espreitadela ao visor do telemóvel, que se encontra em cima da mesa do café] Ora bolas, a Gabriela! Tínhamos combinado ir ao cinema e esqueci-me…
– Atenda e assuma o lapso.
– Nem pense! Continuando: como quer você valorizar o silêncio se não aceita desligar-se? [O telefone continua a tocar] Bolas, que é insistente!
– É a voz da sua má consciência de namorado relapso…
– Não me lixe, seu budista interruptus! [Olha para o telemóvel. Resignado e com má cara, abre-o] Sim, amor? Não estava a ouvir, desculpa. Ora essa, Gabi, telefona sempre que quiseres, sabes que nunca me incomodas. E, além do mais, adoro ser interrompido por ti…

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