Os Livros Ardem Mal

Moby Dick

Posted in Notas by Pamplinas on Sexta-feira, 20-02-2009

Lembro-me bem do prédio da Padre António Vieira. Não por causa da vizinha do 2º Esq. (não quero porém ser injusto na hora de saldar memórias…) mas porque foi aí que li o Moby Dick. Durante os dois anos que lá vivi, em regime ininterrupto. Não sei quantas vezes o li, mas sei que não li nada mais e que o li sempre, sem parar. Em loop. Deitava-me cedo, como sempre, e acordava pelas 5. Com a higiene matinal, um copo de água, meio pão e meio copo de leite, ficavam-me quase duas horas para ler, aproveitando a frescura e intensidade da percepção de quem acorda nesse momento em que todas as coisas libertam o seu espírito amordaçado pela noite numa torrente de pequeninos sons cristalinos. A essa hora, era-me como que natural a empatia com Ismael e acreditava que também eu escaparia para contar. Lia à beira da janela, num cadeirão posto num certo ângulo que me defendia da invasão do sol, espreitando de vez em quando a paragem do autocarro. Lia mesmo até ao último segundo. Guiava-me pelos meus companheiros de viagem que, também eles, chegavam apenas no último momento. Sabia que era assim pois habituara-me a reconhecê-los: sempre os mesmos, chegando à paragem todos os dias em cima da hora. Visivelmente, gostavam tão pouco dos seus empregos como eu do meu.

Desde que me mudei, não voltei a pegar no livro.

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