Os Livros Ardem Mal

Notas sobre o meu mestre Desidério Murcho

Posted in Notas by Pamplinas on Quarta-feira, 18-02-2009

Sou fiel às minhas venerações e uma delas, enfim sufragada pela opinião pública – com que melancolia o digo!… pois todo o apaixonado é egoísta e deseja não partilhar com ninguém os objectos da sua paixão -, é Desidério Murcho, autor-filósofo que a toda a hora mostra como o modo analítico de filosofar não tem de ser árido e chato, podendo antes enfrentar todos os dragões, e dissipar todas as névoas, da doxa lamacenta do «pós-moderno». Como duvidar, ante tal exemplo, da relevância social do pensamento, e, mais especificamente, do ramo da tradição filosófica em que pousa, qual coruja que nunca dorme, o meu mestre?

A minha já longa admiração por Desidério Murcho acaba de encontrar razões para se reforçar ainda mais. Num intempestivo post (eu sei que Desidério não aprecia a associação, mas nota-se nele, nos seus melhores momentos, um altivo desdém nietzschiano pelas rotinas pequeno-burguesas do pensar), o meu autor acaba de revolucionar a disciplina da História da Língua Portuguesa. De uma penada. Vale a pena transcrever o núcleo duro (melhor: o hardcoreda tese:

O segundo aspecto é que muitas línguas são puras mentiras políticas, inventadas por políticos espertos que queriam dividir para conquistar. É o caso da língua portuguesa. Não é mais do que latim à toa, que depois foi trabalhosamente aperfeiçoado numa nova língua, e que mais tarde foi artificialmente afastada do castelhano (eu sublinho).

Confesso que muito estranho que nas minhas já idas, e de frequência um tanto vadia, aulas de linguística, tratasse-se da histórica ou de «descrição estrutural», nunca nenhum professor me tenha apresentado o fulgurante conceito de «latim à toa» (ao pé deste, o recorte epistémico das noções de «aperfeiçoamento trabalhoso numa nova língua» e de «afastamento artificial do castelhano» é uma espécie de bónus para o nosso embevecimento). Mais do que estranhar, sinto-me revoltado com o atraso dos meus professores em matéria bibliográfica, responsável pelo estupor com que contemplo esta tese tão revolucionária, e que me esmaga com a beleza e singeleza de uma demonstração more geometrico. Nem a linguística histórica, nem eu, seremos nunca mais os mesmos. Mas, como se isto não fosse bastante, Desidério prossegue, derivando para o campo da crítica civilizacional:

Nada disto tem a ver com o que interessa aos escritores, poetas, filósofos, estudantes, cientistas. O que interessa a todas estas pessoas é terem liberdade e condições para fazerem o seu trabalho e poderem usar uma língua culta qualquer, que tenha sido cuidadosamente burilada ao longo de séculos de erudição. Coisa que não acontece na língua portuguesa, que quase não tem vocabulário científico nem filosófico, pela simples razão de que ao longo da maior parte da história a ciência e a filosofia não se fizeram em Portugal. E continuam a não se fazer.

Agora sim, declaro-me derrotado (e, de novo, embevecido). «Escritores, poetas, filósofos, estudantes, cientistas» o que querem é «usar uma língua culta qualquer, que tenha sido cuidadosamente burilada ao longo de séculos de erudição». E, como isso não existe em tuga (diminutivo carinhoso muito do agrado do meu mestre), porque não o inglês? Note-se aliás o perfeito sequitur entre escritores, poetas, etc. e «erudição», ou seja, «vocabulário científico e filosófico». Faz todo o sentido, é deveras fulgurante: Pessoa é um escritor, poeta e estudante que, por o português não dispor de «vocabulário científico e filosófico», não pôde passar ao estádio final: o do cientista. Ainda namorou o inglês, mas inconvictamente, o que é muita pena, pois todos – portugueses e ingleses – teríamos a ganhar com isso. E teve de se conformar com ser poeta, coisa para que o português afinal basta. Hesito, porém: o sequitur não exigiria que «escritores e poetas» dispusessem também de uma língua «cuidadosamente burilada ao longo de séculos de erudição»? E, leitor fiel que sou de Desidério, pergunto: pode haver erudição onde há poesia? Ou, ao invés: para que necessita a poesia de erudição e de «vocabulário científico e filosófico» se ela nada tem a ver com as altas cavalgadas da verdade? E, se ciência e filosofia continuam a não se fazer em Portugal, e em português, o que faz o meu mestre quando maneja o tuga? Divulgação científica ad usum delphini? Como tudo soa melhor em latim que não seja à toa… Perco-me, tenho de admitir, mas a responsabilidade é seguramente minha, que não acompanho tão exigentes especulações lógicas, dignas de um Russell. Tanto mais que, em matéria de história da literatura, como de filosofia da história, Desidério Murcho dispõe também de teses revolucionárias:

Imagine-se que a língua portuguesa já tinha morrido no séc. XVIII. Não teríamos Eça nem Saramago? Tolices. Claro que teríamos. Só que eles escreveriam e sentiriam as coisas noutra língua qualquer — o castelhano, por exemplo, o que seria bem melhor para eles.

A beleza, o poder argumentativo dos contrafactuais!! Teríamos sempre Eça e Saramago (e Lobo Antunes, necessariamente), mas em castelhano! Idem para José Luís Peixoto e Miguel Real. Mas não Desidério Murcho, que escreveria, sim, em inglês, «o que seria bem melhor para ele» do que andar a gastar-se em posts em português… Poupe-se, mestre! Guarde-se para o seu desembarque em Harvard; preserve-se para o espírito anglófono de Quine! Finalmente, como não admirar a panaceia proposta? Ei-la:

A única coisa má nisto é que hoje, porque não há a coragem política de fazer da língua inglesa a língua escolar oficial em Portugal e no Brasil, os alunos andam perdidos a ler tolices mal traduzidas, porque não dominam uma língua culta.

Engana-se quem supuser que Desidério está aqui a incitar a um «Plano Nacional de Fomento das Boas Traduções». Lendo-o com atenção – a atenção que merece -, e com a dedicação que na sua leitura sempre coloco, percebemos que, na sua lógica, toda a tradução é tolice (porque é fatalmente erro e afastamento da língua culta, essa que, quando traduz por exemplo Frege, o faz sem perdas, como é típico de um idioma superior), posição em que se sente o eco longínquo das posições de alguns românticos alemães. O mundo só será realmente culto quando deixarmos o «latim à toa» e adoptarmos a língua da gente culta e do pensamento civilizado: a língua de Shakespeare. Um poeta que, acaso o inglês não tivesse vingado, escreveria e sentiria tudo aquilo noutra língua qualquer – o castelhano, por exemplo. Ou o português. O que não seria nada bom para ele, convenhamos. Nem para a civilização.

P.S. Um comentário não admirativo ao autor em causa pode-se ler aqui. Manifestamente, não está à altura de Desidério Murcho. A minha confiança na clarividência crítica do leitor leva-me porém a deixá-lo aqui, na certeza de que o fulgor de Desidério triunfará sobre a pequenez ressabiada dos que – debalde! – o empequenecem.

Comentários Desativados em Notas sobre o meu mestre Desidério Murcho

%d bloggers like this: