Ida Alves doutorou-se em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, em 2000, com tese sobre “Carlos de Oliveira e Nuno Júdice – poetas: personagens da linguagem”. É professora da Universidade Federal Fluminense-UFF. Além de exercer atualmente a chefia do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas desse Instituto, coordena o Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana – NEPA-UFF. É membro do Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras (PPRLB), sediado no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, onde também coordena o Núcleo de Literatura Portuguesa. Integra a equipe de pesquisa Poéticas da Contemporaneidade sobre poesia brasileira e portuguesa, na UFF. Tem vários artigos publicados em revistas da especialidade, brasileiras e estrangeiras, e co-organizou oito livros / cds com estudos sobre literaturas portuguesa e africana. Atualmente desenvolve o projeto de pesquisa intitulado «Figurações e desfigurações da paisagem na poesia portuguesa contemporânea». É pesquisadora-bolsista do Conselho Nacional de Pesquisa – CNPq – Brasil. Acaba de publicar, em co-organização com Celia Pedrosa, Subjetividades em Devir – Estudos de Poesia Moderna e Contemporânea, Rio de Janeiro, 7Letras, 2008.
1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
No prazer de leitura, no prazer do texto, não escapo de dizer, com o à vontade dos apaixonados, que o melhor livro de ficção de língua portuguesa do século XX é Grande sertão: veredas (1.ed. 1956), de João Guimarães Rosa, por sua densidade humana e pela caminhada espantosa no sertão da linguagem. Falar de sertão é falar de solidão, de sobrevivência, de luta, de desertos, de sol a pino, de morte e de vida, de Deus e do Diabo, sabendo que “Viver é muito perigoso…”. E a língua portuguesa está lá como paisagem riquíssima de criação.
Como professora brasileira de literatura portuguesa, não vacilo, porém, em dizer que o melhor livro de ficção portuguesa do século passado é Finisterra, paisagem e povoamento (1.ed 1978), desse feiticeiro que é Carlos de Oliveira. O melhor, do meu ponto de vista, porque é uma obra infinita como a memória, um palimpsesto de muitas outras leituras, um livro que violou padrões ficcionais e que representa, no conjunto de obra de seu autor e da narrativa portuguesa, um gesto profundamente corajoso de colocar em radical transformação a própria ficção, a própria escrita, praticando a dissolução da forma narrativa e a disseminação de sentidos, “numa invulgar consecussão de ordenamento estético”, como afirmou Maria Alzira Seixo (A palavra do romance, 1986). Nesta resposta em círculo, Finisterra é um pequeno sertão: veredas, memórias, vozes e versões de mundo, o encontro da ficção com a lírica, sem margens e fronteiras. Não esquecer que, em O aprendiz de feiticeiro, o escritor montou a equação fundamental: “A poesia portuguesa, sobretudo a moderna, está cheia de desertos. Deserto é uma palavra chave, uma obsessão, como podia provar facilmente. Mas descansem. Limito-me a propor a seguinte identidade mais ou menos algébrica:
floresta = labirinto
labirinto = deserto
deserto = floresta
Quod erat demonstrandum.”
2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?
O meu melhor livro de poesia vem das mãos de Ruy Belo, Homem de palavra(s), porque é despudoramente humano, escrita que se vale das imagens mais simples, do tom coloquial, para atingir a alta complexidade metafórica, realizando aquilo que o poeta mais desejava: a “sabedoria da linguagem”. Lembram o poema “Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração”? É este aliar de simplicidade com densidade imagética e reflexiva que admiro a cada nova leitura. É, para mim, um livro inesgotável, o melhor, por enfrentar o silêncio que o cercava, por lutar com as palavras (salve, Drummond! “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã.”), por tocar a “carne do mundo” (Merleau-Ponty). É uma po-ética, um estar no mundo em desassossego e intensamente, uma escrita-mar ao qual se lança, sem medo, o poeta: “Há uma certa maré nas coisas humanas” (poema “Da poesia que posso”). Também porque Ruy Belo foi um poeta insubmisso, um leitor apaixonado e desmedido e sua poética é uma “sala de convívio” onde se encontram com frequência Camões, Camilo Pessanha, António Nobre, Cesário Verde, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Fernando Pessoa, Herberto Helder e tantos outros. O que poderíamos pedir mais? Talvez, as Metamorfoses, de Jorge de Sena, este livro maior da poesia portuguesa do século XX. Mas Sena também está lá, no poema “A minha tarde”: “passam as aves em seu voo rasante / desde sá de miranda até jorge de sena”
3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. De melhor livro para o mais importante, há uma mudança sutil: de melhor para mim a mais importante para os outros, para uma cultura, para uma literatura, para uma memória linguística partilhada, por ser um livro que desloque valores e certezas, que altere rumos ao ecoar indefinidamente, ao provocar a releitura de outras obras.
Pensando assim, continuaria a dizer que Grande sertão: veredas é o mais importante livro de ficção de língua portuguesa do século XX. Mas, ao considerar somente a produção literária de Portugal, mudaria tanto a primeira resposta quanto a segunda, porque são de Fernando Pessoa esta ficção do próprio objeto livro que é o Livro do Desassossego e estes poemas sempre tão “contemporâneos” de Álvaro de Campos, que meus alunos lêem na edição da pessoana apaixonada e apaixonante que é Cleonice Berardinelli, mas que li inicialmente numa edição da Ática, quando, muito jovem, buscava livros desconhecidos nas prateleiras de uma biblioteca pública, no Rio de Janeiro. Não esqueço o espanto e a admiração que senti ao ler pela primeira vez, sem guias literários, sem ensaios e criticas, sem professores, sem especialistas, os versos daquele poeta Álvaro de Campos. Logo aprendi quem era (ou não-era) Pessoa. Depois, em 1986, li os fragmentos do desassossego de Bernardo Soares, na seleção organizada e apresentada pela Professora Leyla Perrone-Moisés, editora Brasiliense, a partir da primeira edição portuguesa com recolha e transcrição dos textos por Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha, além de prefácio e organização de Jacinto do Prado Coelho, pela editora Ática, 1982.
Sim, creio que, no século XX português, esses são os dois livros, na ficção e na poesia, que mais importam, porque ultrapassam os limites de suas diversas e discutidas edições, porque se espalham em muitas outras páginas da literatura portuguesa e não só, porque ultrapassam a contingência “portuguesa” e se tornam ficção e poesia universais. Porque, enfim, são obras irremediavelmente abertas. “Grandes são os desertos, minha alma! / Grandes são os desertos.”
Ruy Belo escreveu os versos “Pouco me importa o quê? Não sei / (o resto vem no pessoa / Pessoa é o poeta vivo que me interessa mais)” (poema “Da poesia que posso”). No meu entender, livros que atravessam o tempo, que continuam vivos, mutáveis nos outros escritores e nos leitores de tantos espaços, idades e visões diferentes, esses sim são os mais importantes.