Os Livros Ardem Mal

Uma apresentação

Posted in Notas by Pamplinas on Terça-feira, 17-02-2009

Desisti de concluir todos os livros que comecei, antes mesmo de atingir a p. 10. Não por tédio ante a hipótese de ver o meu nome na capa de um livro; não pelo fastio da obra acabada; não por horror ao plebeísmo da publicidade – mas sim pela distracção que em mim quase tudo induz. As árvores, a orografia infinita da sua pele rugosa, o vento, a chuva, acima de tudo a chuva, o passar das nuvens e as suas formas obsessivas na minha mente. As rachas e fungos na parede da minha casa. O peixe vermelho que cumprimento todas as manhãs. O chilrear das crianças no pátio da escola que ladeio à ida para o trabalho. O ruído dos carros ao longe, ou aproximando-se pelas costas: um nicho ecológico para a minha alma. Tudo no mundo me afasta do que na escrita me condena a deter-me em mim, ainda que por interposta pessoa ou obra. Tudo é pasto para a minha perda. Sei bem que esta renúncia moral (tão ascética quanto hedonística) à obra parece contradizer-se, a partir de agora, pela própria existência destes posts. Não divaguemos, porém: posts não são obra, mas antes, e permitam-me dizê-lo em modo gálico, désoeuvrement. Passagem das horas, migalhas do tempo que os vai deixando para trás enquanto corremos, sem ressentimento ou mágoa, por entre a floresta.

Os meus tão ilustres comparsas neste blogue cometem uma imprudência ao acolherem-me, sob a capa da milenar tradição da hospitalidade, nesta casa digna e sóbria. Não poderei contribuir senão com algumas fixações, seguramente espúrias, e um cortejo de venerações: a veneração pelo saber (ou, o que é o mesmo: por Desidério Murcho e Maria Filomena Mónica); a veneração pela inamovível placidez dos livros; a veneração pelo modo de eloquência da música, aquém e além de todo o discurso; a veneração, enfim, pelas tentativas para preencher com palavras aquilo que na música nos diz a mudez do mundo.

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