Os Livros Ardem Mal

Estes tempos vagarosos (IV)

Posted in Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 11-02-2009

Não me parece possível, ou produtivo, abordar separadamente no poema de Cláudia Santos Silva as «políticas da identidade» nele encenadas e a questão da Voz lírica. Mas desejo chamar a atenção para a forma como a reivindicação da diferença no poema se faz em nome de uma hierarquia de diferenças que parece concluir pela não-diferença de certas diferenças. Ou seja, por um lado o poema alerta para o carácter ainda restritivo da celebração da diferença sinalizada pela vitória de Obama: faltaria que fôssemos todos Mulheres para que a lógica proliferante e emancipatória da diferença contaminasse de facto o corpo político. Logo a seguir, porém, o poema nota que «nessa matéria [sermos todos Mulheres] a cor da pele não revela  diferença». Esta concessão demasiado generosa à não-diferença da cor da pele, estando em causa uma diferença maior – a do sexo -, não pode deixar de ser vista como contraditória com o desejo de um reconhecimento da diferença, melhor, das diferenças. O problema reside talvez na entrada em cena de uma ontologização da diferença, denunciada pela maiúscula em «Americanos» e «Mulheres», mas já não (para mim estranhamente) em mestiços, que parece vitimar as diferenças que instabilizam uma leitura do corpo político como polarizado em dois ou três tipos maiores de diferença. A questão começa por ser política, pois assim como não se nasce mulher, também não haverá genericamente «Mulheres» mas mulheres menstruadas ou na menopausa, férteis ou inférteis, europeias secularizadas ou afegãs de burka, etc.

Mas os problemas desta expressão – «só nos falta sermos todos Mulheres» – são também, e em rigor não deixam nunca de o ser, gramaticais. Pois não é possível pôr em marcha este modelo gramatical – «Somos todos Americanos, só nos falta sermos todos Mulheres» – e cancelá-lo à sua terceira ocorrência, quando entram em cena as mulheres. O modelo é de um gerativismo dificilmente domesticável e poder-se-ia expandir, por exemplo, nas seguintes ocorrências, todas elas legítimas: (i) «só nos falta sermos todos homossexuais»; (ii) só nos falta sermos todos transgender»; (iii); «só nos falta sermos todos deficientes». E ocorre-me esta terceira hipótese quando observo cinco jovens deficientes auditivos, na mesa ao lado da minha neste café, comunicando efusivamente entre si por linguagem gestual: falta-nos ainda, de facto, sermos deficientes auditivos; e orgânicos; e motores; e mentais. E, como é óbvio, o gerativismo do modelo não teria de parar aqui. Ora, a forma como a retórica do poema de CSS apresenta a diferença «sermos todos Mulheres» – como uma versão do Fim da História: só nos falta isto… – de facto bloqueia a expansão do modelo gramatical subjacente à primeira ocorrência. É aqui que a questão da não-diferença de certas diferenças gera, ainda em modo retórico, uma estabilização relacional das Grandes Diferenças que não parece ter lugar para a diferença enquanto princípio incontrolável e instabilizador de toda a gramática. É estranho como, neste caso, a retórica bloqueia a gramática e a impede de pôr em marcha toda a sua lógica gerativa – de diferenças, justamente. Porque aprendemos, ao ler este poema, ou lendo-o contra si mesmo, como todos os poemas devem também ser lidos, que todas as diferenças são diferentes: «sermos americanos» é uma diferença que pode ocorrer em situação de cosmopolitismo reforçado pela «aldeia global» mediática que integremos num certo momento (como Kennedy em Berlim dizendo-se alemão a um microfone e a uma TV para um público planetário), e que menoriza diferenças sexuais, por exemplo; mas sermos mulheres ou transgender são diferenças que, porque implicam sexo, e um sexo diferente do meu, me são necessariamente diferentes da diferença implicada em sermos (ou não) americanos, coisa que implica em rigor TV, internet e uma filiação política; quanto a sermos homossexuais, a diferença passa aí pela percepção da «relação sexual» que no meu caso, e parafraseando (ou parodiando) Lacan, não há, e que  por não haver se reforça na sua diferença; finalmente, quanto a sermos deficientes auditivos, a diferença passa pela estranheza de perceber que aquilo que no meu corpo é auto-transparente – a possibilidade de ouvir -, noutros corpos é de uma radical opacidade a si mesmos e ao mundo; e, para que esta diferença opere, a questão da diferença política ou sexual parece ser secundária. Como é perceptível, o «nós» subjacente a todo este modelo gramatical é sempre diferente na sua constituição de sujeito, já que inclui de modo diverso, em função da diferença em causa, sujeitos à partida diferentes, mas que se constituem de modo diverso em função do jogo do sistema diferencial que passam a integrar (é a grande questão da performatividade do género).

A questão do bloqueio retórico da gramática das diferenças no poema de CSS está aliás explicitada no tratamento da própria diferença feminina, ou da Mulher como Grande Diferença, quando no poema se afirma que nem todas as mulheres o são, pois há as «que se portam como homens». Caímos assim num dos alçapões mais frequentes da crítica feminista, que deve admitir que afinal sabe o que é Mulher e, por necessidade lógica e ontológica, o que é Homem: como se sabe, Thatcher e Ferreira Leite seriam, neste quadro, exemplos clássicos de não-mulheres… Permito-me resumir os problemas em cena nesta zona do poema de CSS, e que são problemas típicos daquilo para o que não podemos deixar de usar o qualificativo «pós-moderno»: como acolher a diferença numa política das identidades e manter, ainda assim, um vínculo a uma ideia de universal – essa ideia que toma o poema de assalto a partir da premissa «agora que somos todos Americanos…»? Ou, se se preferir: que diferença é esta que pede um assentimento universal, senão mesmo uma «gramática do assentimento»? De facto, estamos aqui perante formas mal disfarçadas de comunitarismo, na sua versão hermenêutica, às quais se atribui porém o dom de passarem ao patamar daquilo a que Kant chamou o «singular universal», aquele singular que salta a mediação do particular para participar directamente do Universal. No fundo, está-se a fazer a economia daquilo que na identificação comunitária proposta dificulta, se é que não interdita mesmo, qualquer tipo de universalismo, em função de um imperativo de natureza ético-política que não pode deixar de aspirar a esse universalismo, a bem da sua performatividade implícita – e é nítido que CSS nos sugere que «há um mundo a ganhar» quando todos formos mulheres. Neste ponto, gostaria de invocar palavras recentes de Slavoj Zizek, de teor declaradamente kantiano (e anti-rortyano): «cada um de nós só é verdadeiramente universal quando radicalmente singular, nos interstícios das identidades comunitárias» (A Monstruosidade de Cristo, Relógio d’Água, 2008, p. 125). É porque não somos nunca apenas homens, mulheres, homossexuais, brancos, deficientes, sociais-democratas, comunistas, e é na decisiva zona intersticial e nos momentos em que o não somos, que podemos aspirar a ser mais do que isso: a sermos sujeitos singulares, i.e., não necessariamente determinados pelas nossas identidades comunitárias, mas sem que essa singularidade nos bloqueie o universal (o «ser americano», neste caso, como teremos sido em vários momentos da campanha de Obama e no seu discurso de posse; ou o «ser mulher» desejado pelo texto).

É aqui que o lamento que atravessa e «corta» todo o poema – «estou é tão cansada destes tempos vagarosos» – vem resumir, de facto, as aporias que o constituem. Por um lado, o poema, como a  lírica, sonha com a coincidência de eternidade e tempo numa Voz que seja apenas Canto. Por outro lado, «lírica» é sempre, como lembra de De Man, um termo «de resistência e nostalgia, o mais afastado possível da materialidade da história fáctica» (The Rhetoric of Romanticism, p. 262, eu traduzo). A resistência da lírica, à história fáctica, a insistente naturalização, neste espécime, do «singular universal» no tropo da «árvore assimétrica na torrente», faz do poema um gráfico das dificuldades de uma gramática da diferença que parece oscilar entre uma reivindicação forte da Voz – uma voz que não vê no género um obstáculo ao universal e que pratica aliás a ostensiva sobreposição dos dois – e uma desistência da linguagem («não usaria de palavras não as escutaria») que coincide com um triunfo da voz muda e indiferenciada da Natureza: «estranhos líquenes tomariam o meu torso». O inumano, o corpo-árvore tomado de líquenes e heras e oferecido ao ciclo natural como «pasto» – «os pássaros alimentar-se-iam de pequenos vermes e insectos» – é o facies hipocrático, e se calhar não intencionado, do vagar como verdade do cepticismo com que o «natural» critica o «político» (ou com que o lírico critica o histórico). Mas convirá lembrar que este vagar desistente e crítico do final do poema não tem esse sentido no seu início, em que a naturalização nos é apresentada como plenitude de corpo e mundo no sopro de novo originário da linguagem. É porque este sopro rapidamente revela não estar à altura das suas promessas, ou seja, é porque ele se deixa ver como naturalização ao serviço de uma gramática e de uma retórica das identidades, que, quando regressa, no fim, percebemos que o triunfo da indiferenciação parece seguir aquela máxima de Heraclito segundo a qual «a natureza das coisas gosta de ocultar-se», aqui reformulada talvez estrategicamente: o que não triunfa em sede do histórico-político, ganha em ocultar-se na natureza e/ou na sua natureza. Que nunca sabemos exactamente qual seja, como nunca sabemos exactamente a diferença entre usar de palavras e calar. (Retórica e política da in-diferença).

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