Os Livros Ardem Mal

Pressa e preconceito: uma resposta a Luís Januário

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 08-02-2009

Uma pessoa que admiro, Luís Januário, escreveu esta semana uma coisa muito pouco admirável, a propósito da última sessão de Os Livros Ardem Mal, com Nuno Júdice. Ao lê-lo, ocorreu-me aquele memorável título de CD de George Michael: Listen without Prejudice. Januário não conseguiu ouvir realmente Júdice e creio que não conseguiu sequer vê-lo. Manifestamente, não chegou a fazer qualquer esforço, razão pela qual saiu a meio, perdendo assim o melhor momento da noite, quando o poeta, de moto próprio, leu alguns poemas inéditos. E, como me diziam Luís Quintais e António Apolinário Lourenço no fim, leu magnificamente, a ponto de não se perceber a razão pela qual não existe ainda um CD com poemas de Júdice lidos pelo próprio.

Do mesmo modo, e por ter saído demasiado cedo, Januário não assistiu ao pedido que uma espectadora fez a Júdice, na parte dedicada às intervenções do público: que lesse o poema «Rol» do recente A Matéria do Poema, uma revisitação metapoética de Cesário Verde, pedido a que o poeta acedeu, numa leitura exacta, prenunciando a dos inéditos. Como também não ouviu Júdice falar das razões da «substituição», na progressão da sua obra, da referência a Pessoa pela referência a Camões, tendo a minha pergunta final sido justamente sobre Camões: é se calhar «academismo» (a palavra tem costas largas) mas interessa-me muito saber como se relaciona um poeta, hoje, com a obra maior da nossa tradição lírica, sobretudo naqueles casos em que tal relação é como que «declarada» (o que é também o que ocorre num certo Franco Alexandre, em Gastão Cruz ou neste último Herberto, por exemplo – para não referir o caso, muito à parte neste item, de Fiama). A resposta de Júdice, diga-se, foi bem interessante e pertinente. A pressa (de «marcar uma posição») e o preconceito são de facto um casamento imbatível, como se percebe lendo o justiceiro post em causa.

Sobre o que Januário diz da obra de Júdice, hoje, devo dizer que também eu entendo que «o primeiro Júdice» escreveu uma série de livros realmente assombrosa, na poesia portuguesa de 70 e início de 80 (mas não apenas, pois também na prosa nos deu nessa altura livros memoráveis). Seria longo justificar as razões deste meu juízo, e seria imperioso transcrever muitos poemas ou excertos, que integram a minha «biografia literária», o que não é curial neste momento. O Júdice posterior, talvez devido ao impacto em mim do primeiro, suscita-me a relutância do «clássico» – uma relutância equivalente à sentida pelos fãs de Stravinsky na sua «segunda fase». O problema é que esse Stravinsky neo-clássico de facto produziu algumas obras maiores – para lá de nos obrigar a pensar a dialéctica histórica das formas segundo um regime não-necessário ou não-teleológico. Deste segundo Júdice ficam-me mais poemas que livros, é certo (embora O Estado dos Campos seja um momento alto na sua obra). Mas, e isso sentiu-se também na sessão, este Júdice tardio vem muito deliberadamente recuperando uma dicção humorística que tinha desaparecido da poesia portuguesa pós-O’Neill, em poemas como este ou este (ou alguns dos inéditos que leu, em especial um sobre Babel). E, a não ser que cometamos a arrogância de supor que a dicção trágica e/ou rangente é, eo ipso, estética e ontologicamente superior à cómica (mas como aceitar e valorar, nesse caso, a grande lírica moderna brasileira, em que o cómico desempenha um papel fundamental?), por mim entendo que devemos estar gratos a quem reintroduz a deflação do humor nos propósitos por vezes demasiado graves, elevados e, sobretudo nos seus segmentos «críticos», politicamente megalómanos, de grande parte da nossa poesia de hoje, que no máximo tende à sátira, com toda a inerente boa consciência da tradição satírica. Bem vistas as coisas, aliás, até na sua dicção hiperliterária e gótica da primeira fase a obra de Júdice sempre teve uma forte dimensão autoparodística, e não raro cómica.

Quanto ao que Januário diz do meu comportamento na sessão, ocorre-me aquela anedota behaviorista que David Lodge refere no seu A Consciência e o Romance, agora editado pela Asa, e que Luís Quintais apresentou nesse dia: «Dois psicólogos comportamentalistas, depois de fazerem sexo, dizem um para o outro: ‘Foi bom para ti, como é que foi para mim?’» Eu percebo, pelo post de Januário, como foi para ele (e já tinha suspeitado alguma coisa, pela sua extemporânea saída de sala); mas como raio percebeu ele que eu estava «entediado» e mesmo (caramba!) «enjoado»? Será que o meu rictus facial me traiu miseravelmente? (Ter-me-ei eu momentaneamente alheado, pensando no grave embate de hoje no Estádio do Dragão?) Estaria eu intimamente convencido de que Júdice estava a responder com a duração ideal – nem com respostas demasiado breves, nem demasiado alongadas – e que até estava a fazer um esforço sério para responder a tudo, sem truques ou cartas na manga – quando de facto, por fora, o meu corpo denunciava que eu queria era chamar Dantas a Júdice, apontar-lhe o facto de ele ser um poeta com demasiadas qualidades e, pecado entre os pecados, ser um poeta «9 to 5», sem que isso lhe acarrete visíveis estados de alma?

Sobre este último ponto, aliás, duas achegas. A primeira, por Philip Larkin, em entrevista de 1982 à The Paris Review. Interrogado sobre o seu ritmo e programa de escrita, o poeta respondeu que o fazia «in the evenings, after work, after washing-up (I’m sorry: you would call this ‘doing the dishes’)» (Required Writing, 1983, p. 58). A outra, uma historinha lendária de Wallace Stevens, o poeta-empresário do ramo dos seguros, que transportava uma pasta dividida em muitas «gavetinhas». Uma para as apólices disto, outra para as daquilo, etc. «E aquilo ali?», pergunta alguém mais inquiridor. «Aquilo ali – uma gavetinha pequena – são os poemas…» A ideia de que um poeta assim é necessariamente menor do que o poeta marginal, é um legado pouco sério de certas narrativas heróicas da modernidade (e isto não é desprezar ou menosprezar a questão, estética e política, da marginalidade, seja ela a de Herberto Helder ou, mais radicalmente, a do genial Leopoldo María Panero, encafuado no seu manicómio). Vasco Graça Moura não é mau poeta só porque é deputado europeu, como Eliot não era um poeta académico por ser funcionário de um banco. E, já agora, meu caro Januário: que tal ouvir Eliot em entrevistas e conferências, ou a dizer poemas? Que ganda chato, hã?! E, contudo, que tipo inteligente e que grande poeta, não é? Será que vale a pena continuar por aqui? Se calhar, o problema está naqueles que a todo o transe se distanciam do Moderno, a que atribuem toda uma vasta teoria de culpas no devir posterior da poesia (há muitos filhos e netos não-assumidos de Gaspar Simões…), ao mesmo tempo que desejam preservar todos os tiques do heroísmo do autor modernista, sem lar, nem comunidade, nem pátria… Mas, sobretudo, sem o contexto que tal impôs a gente como Pessoa ou Cavafis. Nisto, como noutras coisas, prefiro a atitude do primeiro Manuel António Pina, aliás tão poundiano-pessoano: Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde.

De resto, quanto aos nomes de poetas contemporâneos, lamento mas Júdice não disse que «não vislumbrava ninguém». Fez, sim, a sua narrativa da coisa poética recente em Portugal, que nem foi particularmente original: até 60-70 os grandes nomes sucedem-se (os exemplos foram Belo, Helder, Poesia 61), sendo que a partir de 80 o ritmo e a dimensão das revelações baixa. E, nesta primeira década de século, não lhe parecia que houvesse mais de 2 ou 3 poetas novos significativos (e referiu mesmo a revista Criatura). Por mim, subscrevo, embora esteja cada vez menos interessado nesta história poética por «fatias de década», hoje generalizada como heurística portátil, e que me parece, em rigor, uma forma de não pensar a historicidade peculiar da poesia (mas serve para suplementos literários e para blogues em que se confunde o name dropping supostamente alternativo com a actividade de pensar). Não referiu nomes? Honra lhe seja, por isso. Porque onde Januário vê arrogância, eu vejo polidez e reserva, valores que prefiro àquele apelo ao sangue, hoje muito popular entre os entediados da cultura e da poesia, que só parecem excitar-se ao odor da carniça. Além de que Júdice abordou com grande inteligência os problemas de quem começa a escrever hoje, após toda a extensão das revoluções modernas no verso: foi, nisso, muito mais pedagógico do que se tivesse desatado a desfiar os nomes cuja falta Januário ressentiu. E não, não disse, como Januário o põe caricaturalmente a dizer, «Depois de mim só a prosa». O verso, se não erro, é «Depois de mim virá uma época de prosa», é parte de um dos grandes textos da sua obra inicial, e Júdice citou-o para situar historicamente as dificuldades dos poetas que hoje começam face a essa espécie de omen produzido pelo «Poeta Moderno».

Por fim, quanto às referências de Januário a Manuel de Freitas, «maravilha fatal da nossa idade», seja-me permitido terminar assim: a cada um o seu hegelianismo; a cada um o seu Espírito do Mundo, a cavalo ou não. No que me toca, porém, dispenso Napoleões. Prefiro poetas.

P.S. Agradecemos, os meus colegas e eu, a Luís Januário a crítica aos aspectos menos conseguidos da última sessão, no que respeita ao modelo adoptado. Parece-nos que tem razão e tentaremos corrigir os aspectos que aponta.

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