Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Carlos Mendes de Sousa

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Sábado, 31-01-2009

carlos

Carlos Mendes de Sousa é professor de literatura brasileira na Universidade do Minho. É autor de um livro de referência sobre Eugénio de Andrade (1992), organizou, com Eunice Ribeiro, uma Antologia da Poesia Experimental Portuguesa (2005)  e publicou ensaios fundamentais sobre Cesário Verde, Jorge de Sousa Braga, Fiama Hasse Pais Brandão, Luís Miguel Nava ou Eduardo Lourenço, muitos deles publicados na revista Relâmpago, de que é um dos directores. Na literatura brasileira dedicou-se por longo tempo a Clarice Lispector, daí tendo resultado uma obra maior na bibliografia sobre a autora, Clarice Lispector. Figuras da Escrita (2000), obra com a qual conquistou o Grande Prémio de Ensaio da APE. Para o Curso Breve de Literatura Brasileira, colecção dirigida por Abel Barros Baptista nos Livros Cotovia, posfaciou os volumes Laços de Família, de Clarice Lispector, e A Educação pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto. Agradecemos a Carlos Mendes de Sousa a disponibilidade para colaborar no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Conversações com Dmitri e outras Fantasias, Agustina Bessa-Luís

O que superlativa as escolhas (“o melhor”, “o mais importante”), remeto-o para um qualquer impacto revisitado (exercício da memória para livros que, em mais do que um momento, me moveram). O que amanhã pode não ser.

Um dos grandes fascínios que Agustina suscita prende-se com a possibilidade que a todo o momento nos é oferecida de operarmos cortes na teia ficcional da sua vasta obra e, com esses cortes, recompormos quadros (microficções). Imagino diversos exercícios antológicos.

Conversações com Dmitri, no seu prodigioso recorte parabólico, poderia ser perfeitamente um exemplo maior dessa possibilidade, exemplo oferecido pela própria escritora, como quem se ri. Este breve livro de ficções é enganadoramente apresentado nas listas das obras da autora sob a categoria “crónicas”. E se em Agustina não encontro um livro absolutamente fechado, como esse extraordinário A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino, é porque, em certo sentido, a sua admirável obra ficcional vive numa insubordinação face às constrições delimitativas dos géneros (leia-se como romance o belíssimo Longos Dias Têm Cem Anos).

Outras razões para escolher Conversações com Dmitri: como no resto da obra, a expressão fabular contém no seu interior a sua questionação; como no resto da obra, a genial narradora (autora, personagem) espreita (insinua-se, intromete-se) sábia, inquietante e irrequieta. A capacidade de deslocar e de surpreender ocorre continuamente nos retratos e situações convocados para o seu texto – uma convivência fantástica e transfiguradora. Porque nela tudo é reinvenção, imaginação, fulguração, pensamento vivo, brincadeira desconcertantemente séria. “Desordem e travessura”, como lemos nessa espécie de legenda, num dos títulos deste livro.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Obra Breve, Fiama Hasse Pais Brandão

Em nota, quando da publicação da Obra Breve, em 1991, Fiama chama a atenção para o “correr do tempo todo” em que a sua poesia foi “sendo escrita, transformada, recordada”. Daí que, nesta obra, os livros não sejam entrevistos como mera junção de volumes já editados. Como refere a poeta, as cortinas intencionalmente delimitam e confundem “livros e partes de livros”. Fiama assinala ainda a presença dos poemas inéditos e a sua disposição no volume onde “preenchem alguns intervalos”. Na edição de 2006, acrescentaram-se os livros (e os poucos inéditos) que ainda não tinham sido escritos em 1991, respeitando-se a “forma contígua” do escrever e viver os poemas.

Os fragmentos totalizáveis ligam-se e dialogam estreitamente na Obra Breve, que constitui para mim o mais estimulante desafio de decifração que encontro na poesia portuguesa do séc. XX. Este livro oferece-nos uma das mais belas obras poéticas de sempre, ainda pouco desvendada. O leitor é permanentemente convocado a fazer parte da “corrente de vozes” em que a autora, contempladora das pequenas coisas do mundo, viveu na literatura.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Dois livros que contribuíram para mudar a nossa paisagem literária.

Livro do Desassossego, Bernardo Soares

Por tudo o que incessantemente já foi dito sobre a possibilidade de o livro ser livro; pela afirmação do instável e do heterogéneo e pelos movimentos de recuo e hesitação que os trânsitos enunciativos põem em cena, acompanhando o estilhaçamento do texto; pelo modo de nos revelar a beleza da linguagem num tecido impuro que escapa aos constrangimentos genológicos.

As Mãos e os Frutos, Eugénio de Andrade

A mais alta celebração pagã do corpo, a mais lírica exaltação do desejo, como até aí não encontrávamos no nosso panorama literário. Esta é uma das razões maiores para que As Mãos e os Frutos se tenha imposto na paisagem da poesia portuguesa pós pessoana (numa intencional busca de caminhos opostos aos da obra do autor da Mensagem). O livro constitui o início de uma exigente e renovada poética de extremo requinte arquitectónico e de apurada execução musical.

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